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terça-feira, julho 21, 2026

Clareza de espírito

     Vale a pena ser boa pessoa? Mas... o que é ser boa pessoa? Ai, ai, não quero parecer presunçoso (embora seja presunçoso) mas acho que sei mais ou menos o que é isso, ser boa pessoa. Sei porque me ensinaram quando era pequeno e coisas dessas dificilmente se esquecem, mesmo quando as pernas ficam mais compridas ou quando a barriga cresce ou o cabelo vai caindo. São lições que carregamos a vida toda na bagageira da mona.

    Se algum caramelo discorda daquilo que considero necessário para constituir a maneira de ser e de estar de uma boa pessoa, é porque esse caramelo não é boa pessoa. A coisa é de uma limpidez tal que nem água de um ribeiro a cantarolar sobre as pedras num dia de sol ao meio-dia. Não concordas comigo? És um merdas!

    Assim sendo, sinto a obrigação de me bater por aquilo em que acredito, até porque, para mim, andamos neste mundo para fazer dele um lugar melhor para os que vierem depois de nós. E o mundo melhora quanto mais boas pessoas nele habitarem. É tão simples! Para que as boas pessoas como eu prevaleçam temos de ser capazes de espalhar a boa nova de forma convincente; converter os ímpios, pôr na ordem os mais fatelas. 

    Vejo tudo com tanta clareza! 

sexta-feira, julho 10, 2026

O puto e o envelope.

     Tudo começou quando, ao pretender aparar a barba, me enganei no pente que apliquei na máquina e dei por mim a rapar o queixo. Primeiro olhei os pêlos brancos que caíram sobre a toalha com que revesti o lavatório (para evitar entupimentos desnecessários). Eram compridos "e muito brancos", pensei. Depois olhei o espelho e vi aquela desmatagem criminosa que abria um sulco enorme, do meu pescoço ao lábio inferior. Foi com tristeza que constatei a inevitabilidade de rapar a tromba toda, a menos que pretendesse ser alvo de olhares mais ou menos furtivos e chacota e reprovação social absoluta, caso decidisse deixar ficar a coisa tal qual estava naquele preciso momento. 

    Lá foi a barba.

    Quando terminei a penosa função olhei e vi-me como já me não via fazia muito tempo: sem barba. Reconheci perfeitamente a minha cara mas não gostei do que vi. Vi a pele do meu pescoço e não gostei; vi os cantos da minha boca e não gostei; vi a curva do meu queixo e também não gostei. Eu sabia que havia de estar envelhecido mas não tinha a noção de como estava envelhecido. Um gajo não tem de gostar ou deixar de gostar, as coisas são como são. Mas, enfim, aquele velhote chateou-me.

    Já lá vão uns dias, a barba vai regressando. Voltarei a poder fingir que aqueles tipos que aparecem na TV e têm a mesma idade que eu estão muito mais acabados, "eu tenho aquele aspecto?" Claro que tenho aquele aspecto. Estou velho, já não sou aquele gajo jovem, convencido que era muito bonito, armado em bom. Esse puto já lá vai, transformou-se naquilo que hoje me transporta. Ambos mudaram radicalmente, o puto e o envelope. 

quinta-feira, julho 09, 2026

Moral da história

     O destino do cidadão contemporâneo é o de ser manipulado. Para que essa manipulação possa acontecer de um modo eficaz, cada um de nós é espiado com desvelo e minúcia, ajudando os espiões que enfiam a penca onde não são, aparentemente, chamados. É sucesso garantido quando o espiado abre a porta e serve chá com bolinhos ao espião. É o que nós fazemos. Todos os dias, a toda a hora.

    Somos vítimas de nós próprios, é um absurdo, é kafkiano; fornecemos a lenha para as fogueiras onde nos grelham e ainda manipulamos o abanador de modo a que as brasas não esmoreçam. Alimentamos os algoritmos que, por sua vez, se alimentam de nós. No fim ganham os de sempre, sempre os mesmos. E nós? Tudo bem, não me posso queixar.

sábado, maio 02, 2026

Odiar ou amar?

     Um gajo começa a estar farto desta merda. O tempo passa e as condições de vida não ficam melhores, antes pelo contrário. As promessas feitas são tão evidentemente extravagantes que um gajo nem lhes liga. Deixar um mundo melhor para os que vierem depois de nós? Esqueçamos tal objectivo. A vida perde sentido.

    É tão fácil odiar. Quando odiamos alguém ou alguma coisa encontramos razões e motivos para alimentarmos o nosso ódio a cada passo que damos. É tão fácil. Já amar revela-se  algo bem mais difícil. Do mesmo modo, é tão fácil dizer mal do mundo, encontrar e apontar-lhe os evidentes defeitos, fazer o discurso azedo dos derrotados da vida. Difícil, difícil, é construir uma visão construtiva do que nos rodeia mesmo quando tudo para desfazer-se em merda. Muito sinceramente, não estou a ser capaz de o fazer.

    Não consigo odiar; o máximo que alcanço é o desprezo. Tenho dificuldades em amar quem não seja do meu círculo familiar mais estreito; o máximo que alcanço é um certo perfume de afeição. 

domingo, março 22, 2026

Tédio

     Há dias assim, em que as coisas parecem não ter brilho. Há dias em puxamos o lustro às coisas mas elas teimam em permanecer baças. Dias assim podem ser uma chatice. Deus nos livre! Mas contra o tédio nem mesmo Deus pode grande coisa. Apesar da sua tão gabada omnipotência, o Criador também sucumbe ao tédio com bastante frequência. Ser pastor e olhar constantemente pelo rebanho... vai lá, vai! Estamos juntos, meu irmão.

    Um gajo tenta combater o tédio mas encontra algumas dificuldades difíceis de ultrapassar. A mais complicada talvez seja aquela que se prende com o facto de não sabermos exactamente com o que lidamos, quero dizer: o que é o tédio, como é ele, onde posso agarrá-lo para lhe torcer uma parte daquilo que o constitui (o nariz por exemplo, ou puxar-lhe os cabelos)? O tédio tem nariz? O tédio tem cabelos? Não sei se me estás a compreender, entediado leitor (ou leitora, não quero parecer algo que não sou).

    Talvez por não sabermos que formas pode o tédio tomar, a gente tenta várias remédios, mezinhas e tratamentos de choque que podem ir da leitura à música, da corrida à contemplação. Vale tudo no combate contra o tédio, alguma coisa haverá de se revelar eficaz.

    Esta plasticidade absoluta, esta identidade secreta, os rumores desencontrados sobre o aspecto, a forma ou as vontades que podem animar o tédio, aparentam-no ao Diabo, esse velho conhecido que também provoca a cada um de nós visões distintas do que é, de quem é, o que quer ou para onde vai. Ninguém sabe e, na verdade, ninguém quer realmente saber. Não existisse o Diabo e a vida correria o risco de vir a transformar-se num imenso e infindável tédio.

quarta-feira, março 18, 2026

Antes do Apocalipse

     Não há volta a dar-lhe, dançamos alegremente em direcção ao abismo. Dançamos como as ratazanas, dançamos como as crianças, o flautista é um fantasma tremendamente real. Vamos hipnotizados, conscientes do mal que nos arrasta de forma irresistível. Como drogados viciados, sabemos o que nos espera mas, mesmo assim, avançamos sem hesitação. Talvez tenhamos esperança que algo aconteça durante a queda que possa ainda resgatar-nos a um futuro de apagamento total.

    Entretanto temos uma vida para viver. Pequenas coisas para tratar, outras para resolver: um dente cariado, uma intimação da repartição de finanças, um cretino a quem temos de afiambrar um valente par de tabefes pelas trombas abaixo, coisinhas assim, o tal quotidiano delirante que não se compraz com o incerto futuro da Humanidade. Antes do Apocalipse tenho de aparar o bigode, lavar os dentes e deixar o despertador para as oito da manhã. Não pretendo chegar atrasado, muito menos pretendo chegar adiantado.

terça-feira, março 10, 2026

Tempos modernos

     Alarvidade e javardice: eis duas palavras mágicas desconhecidas dos adoradores de tiquetoques que, no entanto, definem o universo em que movem as suas mentes. Nota-se um ambiente cada vez mais agreste e menos limpo nos pátios da escola, uma coisa entre a barba por fazer e a mão suja por ter com ela limpado o rabo.

    Os putos crescem no meio da javardice e transformam-se em autênticos alarves. Não me lembro bem se, quando fui puto, as coisas aconteceram do mesmo modo. Não me lembro dos pormenores mas penso poder afirmar que a coisa também não era particularmente limpa. Talvez que crescer na porcaria faça parte da condição humana, o estrume alimenta as raízes das flores mais coloridas e faz as delícias dos escaravelhos mais reluzentes.

    O que nos choca talvez seja o facto de esta alarvidade não ser a nossa e de esta javardice nos parecer exagerada (por estarmos já um bocado velhotes), talvez a coisa não seja assim tão radical. Se pensarmos bem, o mundo que agora construímos e nos parece adequado, fruto do nosso labor, haveria de parecer extraordinariamente agressivo e peludo aos olhos nossos avós, um mundo repleto de alarvidades e muita javardice.

quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Pessimismo

    Andamos tão perdidos! A questão é: alguma vez tivemos um objectivo concreto que compreendêssemos e perseguissemos conscientemente? Continuo a acordar de manhã obrigando-me a pensar de vez em quando no sentido da vida. Continuo a pensar (quando penso, obrigado por mim próprio a pensar) que o sentido da vida é deixar um mundo melhor aos que virão depois de mim.

    Por estas e por outras, por vezes compreendo que o melhor é não pensar. Quero dizer, melhor, melhor, talvez não seja, talvez devesse dizer "o mais cómodo"; o mais cómodo é não pensar. Deixar que alguém pense por nós, deixar que alguém actue em nosso nome, alguém que faça merda. Assim, depois, poderemos culpar esse alguém pelo fracasso, poderemos barafustar, gritar, cuspir na porcaria que nos é oferecida. E tudo fica na mesma ou um pouco pior do que estava.

    Talvez não andemos perdidos. Talvez não andemos, de todo. Talvez estejamos parados; com sorte estamos apenas parados, à espera que aconteça alguma coisa que não seja uma desgraça. Com azar estamos a cair desamparados. Até batermos no fundo.

sexta-feira, fevereiro 13, 2026

Mais velho

     Actualmente cumprimentamos: bom dia! Ou então dizemos: boa tarde, ou boa noite. Depende. Vamos pela positiva, aproximamo-nos de quem não conhecemos com palavras cautelosas mas de bom tom. Somos assim educados, os mais velhos ensinam-nos a ser assim, parece-nos correcto. Quando alguém nos fala devemos manter silêncio, ouvir o que é dito, esperar a nossa vez e retrucar, se for caso disso, ou concordar, seja lá o que for, aconteça o que acontecer, somos incentivados a comunicar, a olhar nos olhos.

    Espero que estes princípios simples se mantenham, pelo menos durante mais algum tempo. Por vezes penso se não estamos às portas de um tempo de "pontapé-na-cona". Os mais velhos são demasiadas vezes considerados empecilhos e a sua forma de ver o mundo, a mensagem que têm para nós, é desvalorizada por não saberem mexer em meia-dúzia de coisitas electrónicas ou artificiais ou lá como se designam esses "gadgets" que enformam o nosso quotidiano delirante. Substitui-se a capacidade de pensar pela capacidade de mexer.

    Apercebo-me de que sou já um dos "mais velhos". Ainda não tinha pensado nisso. 

segunda-feira, fevereiro 09, 2026

Saudade da surdez

     Os miúdos no corredor gritam, grunhem, produzem sons guturais capazes de inquietar um porco. Empurram-se, lutam, correm, caem e voltam a levantar-se, tudo num torvelinho angustiante, uma inquietação sem razão nem paralelo. Que estranha força os move, que deus imbecil os anima e faz com que ajam como tolos de hospício?

    É chegada a hora de entrarem para a sala de aula e eles lá vão. Não os vejo, estou numa outra sala, sentado à secretária escrevo estas palavras no teclado de um computador. Deixo de os ouvir. Nestas ocasiões o silêncio é muitíssimo valorizado. Que sossego. Agora passo a ouvir o som da água que cai dos beirais misturada com a da chuva o que também pode ser muito irritante.

    Lamento não ter trazido comigo os auscultadores, a falta que neste momento me fazem.

    Não consigo recordar se esta sensibilidade à barulheira é recente ou é antiga. Talvez não me aperceba sempre dos sons circundantes, talvez a concentração da atenção em algum objecto (uma pintura que se pinta, um livro que se lê) me ajude a abstrair da chinfrineira. Talvez, nem sei! O que eu percebo é que tudo isto pode contribuir para destrambelhar uma pessoa.

 Nota - Ontem, ao final da tarde, noite entrada, fiquei razoavelmente feliz. O Tó Zé lá foi eleito.

quarta-feira, fevereiro 04, 2026

Dia de chuva

     A chuva cai, incessante, monótona, ameaçadora. A paisagem entristecida parece encolher-se sobre o ventre de modo a proteger-se da chuva que continua a cair. Os últimos dias têm sido angustiantes para muitos de nós, por causa da chuva, que cai e cai e cai e parece que nunca mais irá parar.

    Continua a chover.

    Há uma hora atrás, mais coisa menos coisa, a chuva abriu uma trégua, até o céu clareou ligeiramente! (Tenho a impressão de ter visto uma mulher a sorrir). Mas durou pouco, foi como se a chuva se tivesse esquecido momentaneamente de cair e, mal se apercebeu de que não cumpria a função para a qual Deus a criou, voltou a tombar sobre a terra, com peso de gotas bem constituídas. Sem vento a bater-lhe cai sobre nós em rectos tracejados.

    Chove, chove e continua.

    Há em tudo isto qualquer coisa de marcial. Talvez o ritmo, talvez as gotas perfiladas que caem ininterruptamente, talvez o aspecto inevitável que a realidade vai ganhando, como se não houvesse nada a fazer a não ser cumprir ordens superiores, como na tropa. E quem é o general da chuva!? Ah, pois é.

    Chove, chove, chove que Deus a dá.

quinta-feira, janeiro 29, 2026

"Realidade"

     Um tipo esgueira-se para aqui, a contemplar o Tempo pelo lado de fora da vidraça. As cenas desenrolam-se com as personagens enquadradas na totalidade, nunca falta um braço, nem falta uma perna, nunca uma personagem surge em plano americano, esse plano que nos corta as pernas.

    Há muitas imagens, recordações aparentemente distintas mas um tipo repara que certos gestos se repetem. Não há som ambiente, tudo é amalgamado pelo som que te entra directinho nos ouvidos, uma torrente de música sincopada em altos berros. É assim que recordas o passado, É assim que perspectivas o futuro.

    Um tipo não consegue manter-se deste lado durante muito tempo. Chega sempre o momento em que tem de ir-se embora, regressar ao espaço que se convencionou designar por "realidade". 

quinta-feira, janeiro 08, 2026

O assalto

     Tive recentemente uma experiência muito desagradável. Abri a minha página no Facebook e estava calmamente a ler e a responder a "coisas", banalidades que todos fazemos quando navegamos naquela rede social, quando algo de muito estranho aconteceu. De súbito começaram a surgir imagens e vídeos de pornografia infantil e/ou de tortura e violência extrema. Tentei apagar, bloquear, eu sei lá o que tentei fazer. Nada resultava. Quando parecia que tinha controlado a coisa, acontecia tudo outra vez. Até que recebi uma mensagem da Meta (acho eu) a informar-me que estava a publicar coisas estranhas que desrespeitavam as regras da plataforma e que a minha página iria ser suspensa para averiguações. Entretanto ofereciam-me simpaticamente ajuda psicológica pois uma pessoa que publica aquelas coisas decerto padece de alguma doença. Grave.

    Por um lado fiquei aliviado por aquilo parar mas, por outro lado, senti-me um pouco angustiado. Primeiro, vi coisas naqueles vídeos que nunca antes tinha visto e que me deixaram profundamente nauseado; segundo, alguém, algures estaria a pensar que eu era capaz de consumir aquele tipo de material abjecto? Mesmo que esse alguém não fizesse a mínima ideia sobre quem eu sou a situação deixava-me desconfortável. Muito desconfortável, mesmo.

    Recebi uma mensagem da Meta dizendo que a minha página decerto havia sido assaltada e iriam permitir que eu recuperasse a dita cuja. Achei bem e achei simpático. Ainda não tinha começado a tentar seguir os passos que me eram indicados e já recebia segunda mensagem de email informando que a minha conta havia sido encerrada definitivamente. Pensei que haveria ali algum erro e tentei cumprir as indicações da 1ª mensagem mas... nada a fazer. A minha conta foi à vida, definitivamente.

    Quando me aconteceu, imagino que isto deva ter acontecido a mais umas centenas ou mesmo milhares de páginas por esse mundo fora. Não sei, não faço ideia. Seja como for, o acontecimento indispôs-me um pouco e fiquei com uma estranha sensação de ter visto a minha intimidade ser violada com uma desfaçatez que não imaginava ser possível.

    Entretanto abri uma nova página. Após 15 ou 16 anos com a outra acumulara centenas de "amigos" que desapareceram  de um momento para o outro e estou a recuperar contactos. A verdade é que, ao fim de dois dias, ainda só tenho 37 amigos confirmados. Conheço-os a todos pessoalmente. Reparei noutro pormenor: todos os amigos que faleceram ao longo destes anos e que continuavam na minha lista desapareceram finalmente. Receber os avisos dos seus aniversários era algo que costumava deixar-me um tanto tristee angustiado.

sexta-feira, janeiro 02, 2026

O Deus do mar

     Começo 2026 a recordar algo que aconteceu muito recentemente, no ano passado. Eu e a Ana íamos iniciar uma viagem com Atenas por destino. Comprei um livro, "O Louco de Deus no Fim do Mundo" de Javier Cercas, para ler no avião e lá pela Grécia. Mas pus-me a olhar para o volume de quatrocentas e tal páginas e pensei "isto é pesado, ocupa muito espaço, vou procurar um livrinho para levar". Assim fiz.

    Subi ao sótão, subi à escadinha que encosta às prateleiras e fiquei com o nariz ao nível de uma fileira de livros de Jorge Luís Borges. Esbeltos, pequeninos, livros perfeitos para ler em viagem tal como já havia feito anteriormente. Peguei em Atlas, um volumezinho que não me lembrava de ter lido. O livro tinha uma marca. Abri-o. No topo da página o título do texto: O templo de Poseidon. 

    Caraças! Mais uma daquelas coincidências que podem deixar um gajo confuso e a acreditar que alguma força, poderosa e extraterrestre, está a estabelecer contacto, a enviar sinais evidentes de que um gajo não está só no Universo. Fechei o livro e, como é evidente, foi o que levei comigo. Li-o (ou tê-lo-ei relido?) na viagem de regresso.

    Entre uma coisa e outra visitámos o referido templo. Estava um frio de rachar! 

    Bom Ano Novo. 

domingo, dezembro 21, 2025

Perguntas

     Tenho a impressão que já anteriormente escrevi o que vou agora escrever: os textos deste blogue são como mensagens deitadas ao mar em garrafas à espera que as encontres e tenhas curiosidade de ler o que vai lá dentro. Ok, mas qual o interesse que poderás ter em semelhante leitura e qual o meu objectivo em pretender esperançadamente que o faças? Há perguntas que mais vale não colocar.  

    Com os meus desenhos e pinturas passa-se mais ou menos a mesma coisa ou, pelo menos, algo muito semelhante. Vou produzindo obras a um ritmo elevado se bem que não a um ritmo constante. Serão dezenas por anos (chegarei à centena, ultrapasso esse número?). Em 99% dos casos trabalho sobre papel pois não tenho atelier ou armazém que suporte tanta produção noutro tipo de superfície. Pinto, desenho e... vai para o monte, para a pasta, é tudo devidamente organizado e arrumado ficando ali, em suspensão, à espera, como animal selvagem escondido na selva. Para quê? Porquê? Há perguntas que são escusadas.

    Uma página no Facebook e outro blogue acabam por servir de repositórios para grande parte das coisas que vou produzindo. Escrevo, desenho, pinto, vou deixando os resultados por aí como o Polegarzinho deixou um rasto de migalhas no chão da floresta para não perder a noção do caminho para casa. Haverá pássaros que devorem os meus sinais e me façam, um dia, perder por completo? Há perguntas simplesmente estúpidas.

    Enfim... acho que vou começar uma nova pintura e não vou colocar qualquer questão sobre este impulso. 

domingo, dezembro 14, 2025

Os merceeiros do Apocalipse

     Empolgados no segredo dos seus sonhos pelo mito do Paraíso descrito nos livros sagrados, alguns dos nossos antepassados recentes, sobreviventes dos horrores da Segunda Guerra, quiseram construir o Jardim aqui na Terra. Foi assim que começou a construção daquilo a que hoje chamamos União Europeia.

    A sensação de justiça e segurança social atrai para este sonho gentes de todas as latitudes. Eles vêm de países ricos, de países pobres, de países assim-assim, seduzidos pelo sonho cristão quase tornado realidade. Milhões de não-cristãos, convertidos ao ideal das Escrituras sem disso se darem conta. Apesar de continuarem a frequentar as suas mesquitas e sinagogas, os cativados imigrantes vão-se transformando numa outra coisa. De tal modo que os filhos dos seus netos não terão memória de quem foram.

    Eis que o terrível mito do anti-Cristo vai ganhando corpo mas, inesperadamente, não é um ser terrível, não são 4 cavaleiros, são merceeiros do Apocalipse, comandados por um tonto imbecil. Um velho gordo e narcisista, com um penteado impossível para disfarçar a careca, como se a estupidez e a ganância pudessem esconder-se numa caverna sustentada a laca.

    Compreendemos agora como as narrativas épicas do passado e a grandeza dos heróis que erigiram este mundo pode ter sido exagerada e orientada pelos próprios. Na verdade, sempre tivemos o destino traçado apesar de isso ser uma impossibilidade cósmica.

     

quinta-feira, novembro 20, 2025

Rotina matinal

     

    Estou a fazer uma pintura. Começou por ser uma imagem única à qual resolvi acrescentar outras duas, laterais, com as mesmas dimensões da primeira: 100X70cm. O título, "My Sweet Lord". No "painel" central há uma luz que irradia do  alto, sugerindo uma forma cónica ou triangular, luz essa que anuncia actividade divina que se desenrola fora do campo de visão do observador. O que se passa ali, no alto? Não sei, não estou a ver.

    Todas as manhãs olho e observo a pintura durante, pelo menos, meia hora. Tenho uma passadeira com um ângulo de visão aproximado ao desta foto e caminho uns quantos quilómetros a olhar o, agora, tríptico. Surpreendo-me sempre que exerço esta actividade, surpreende-me a forma como o tempo se expande enquanto caminho, olho e sonho. Passo tempo de qualidade comigo próprio.

    Estas caminhadas contemplativas têm qualidades transformadoras que não consigo explicar (nem carecem de explicação), basta-me usufruir da coisa. Todas as manhãs. O dia que segue corre bem.

terça-feira, outubro 28, 2025

Solubilidade

     O céu fechou-se de súbito. O sol não foi para ali chamado e o dia ficou semelhante a uma noite qualquer. O vento a marulhar nas folhas das árvores confundiu-se com o ruído da chuva a cair. O ar não estava frio, sentia-se um leve calor. Que fazer? Devia esperar que a chuva amainasse ou meter pés ao caminho? Não lhe apetecia tomar uma decisão por isso ignorou o problema, fez com que não existisse. Não existindo problema ficava tudo bem; a escuridão, a chuva, a temperatura ambiente.

sábado, julho 26, 2025

3 impossibilidades entre mil

     Impossível. É-me impossível manter um ritmo diário de escrita. Não é que não queira, não é que não possa, não. É porque me esqueço. Essa é a mais implacável de todas as razões e contra ela pouco há a fazer. Talvez tomando Memofante. Forte.

    Impossível escolher a quem confiar o meu voto quando nenhuma das candidaturas apresentadas me inspira confiança. Uma ou outra faz-me despertar uma confiançazinha pequenina, um broto, uma ténue sensação de "je ne sais quoi" mas nenhuma cresce o suficiente para que, no dia da verdade, cruze dois traços no quadradinho que lhe corresponda. Impossível. Resta o voto em branco. Abstenção não é opção.

    Impossível ficar indiferente ao genocídio do povo palestino. Indignação e, por vezes, raiva irrompem em mim de forma mais ou menos descontrolada perante as notícias que vão chegando. Mas todo o meu sentimentário resulta estéril. Qualquer atitude, qualquer discurso, qualquer coisa que pretenda fazer a propósito disto não representa absolutamente nada em termos práticos. Não aquece nem arrefece. E fico a pensar se a minha indignação teria o mesmo tom e semelhante intensidade caso estivesse deveras envolvido no processo, caso tivesse outra proximidade espacial e emocional à Palestina e ao seu povo. Impossível saber.

     

quarta-feira, julho 16, 2025

Animais de criação

     Há quem se veja a si próprio como eterna e constante vítima do "sistema". Esses encaram tal condição como sendo algo heróico, são mártires da pureza dos ideais que os animam. Se, porventura, os seus ideais vierem um dia a triunfar, os nossos candidatos ao paraíso dos deserdados ficarão órfãos da sua razão de existir. Isso é trágico.

    Há também aqueles que são, de facto, vítimas eternas e constantes do sistema mas esses, não sei bem, talvez não coloquem a questão nestes termos além de todos estarmos conscientes de que nunca, mas mesmo nunca, virão a ter direito à mais insignificante migalha de justiça. 

    Entre uns e outros está muita boa gente. Gente farta de aturar as lamentações dos justos eternamente injustiçados e que sente repulsa pelas verdadeiras vítimas. Gente na qual me incluo. Uns têm mais que fazer do que dar atenção a este tipo de questões, estão demasiado ocupados a trabalhar para poderem consumir. Outros vivem em mundos mais ou menos abstractos, não têm espaço mental para oferecer a este mundo. Outros ainda têm ódio aos primeiros e desprezam os segundos. Etc. É muita boa gente, são muitas condições diferenciadas.

    O que resta disto tudo? Um pouco de amor requentado, bastante ódio, muita estupidez e oceanos de ignorância. É a nossa espécie em todo o seu esplendor, criação divina.