terça-feira, novembro 06, 2018

Questões

Sempre me confundiu a ideia de que a Economia estivesse em constante crescimento, como se fosse um Universo em expansão. Para mim as coisas são como balões, enchem, enchem, enchem, enchem até à quase loucura, enchem até à eminência do desastre, até à eminência do susto e... pum!

O crescimento constante, o Infinito, decididamente são conceitos que ficam muito para lá da minha capacidade de compreensão.

Nos últimos tempos tenho juntado outra perplexidade a esta lista. Pode uma sociedade evoluir seguramente em direcção a... bom, em direcção a algo melhor... algo diferente? Algo diferente não implica algo melhor e o conceito de evolução social tem muito que se lhe diga. É aqui que enfio os pés na lama e começo a ter dificuldades em movimentar as ideias.

Para mim uma sociedade melhor implica uma maior distribuição dos bens e da riqueza, implica uma maior liberdade individual e de expressão. Implica que um indivíduo possa ser quem quiser, optar pelo estilo de vida que lhe pareça mais cómodo. Uma sociedade melhor implica que os direitos das minorias sejam reconhecidos e respeitados, que os fortes sejam solidários com os fracos.

Poderia estar para aqui a estender a lista mas estes aspectos já me chegam para questionar: há outro tipo de evolução social? Algum destes aspectos é condenável à luz de uma ideologia social justa e equilibrada?

Para já fica a questão, lançada no abismo silencioso da zumbisfera.

quinta-feira, novembro 01, 2018

Deuses aos pontapés

Os irlandeses decidiram acabar com a penalização legal para a blasfémia. Benza-os Deus. O crime de blasfémia foi apagado da lei com 65% de votos a favor e 35 contra. É nesses 35% que se foca a minha atenção.

35% de defensores da manutenção da blasfémia (mas que merda é essa, blasfémia!?) na letra da lei é muito. São demasiados os que consideram necessário proteger das palavras dos comuns mortais um ser que é, supostamente, omnipresente e, sobretudo, omnipotente. Se Deus existe não precisa de protecção deste género. Parece-me excesso de zelo.

Fico a imaginar que esses 35% são um bando de velhos a fazer contas à hora da morte e que pretendem apresentar-se perante Deus o mais limpinhos que forem capazes. Não garanto que, daqui por uns anos, eu não faça parte dessa brigada do reumático que só quer fazer-se notar pelo Criador.

No Paquistão causou furor e espanto a decisão de um tribunal em absolver uma cristã acusada de blasfémia (terá insultado Maomé com 3 afirmações difamatórias e sarcásticas, segundo a acusação). Houve ameaças de morte contra os juízes, a mulher, entretanto libertada, vê-se obrigada a emigrar com a família por temer a fúria dos defensores do bom nome de Deus.

Irlanda e Paquistão, duas nações tão diferentes, dois deuses que não são, ao que parece, o mesmo; cada qual com os seus profetas e respectivos exércitos dementes. Apesar de todas as diferenças e distâncias geográficas, os radicais defensores de Deus mostram a mesma adoração pela repressão do outro, são sádicos morais, assassinos aos olhos de qualquer animal minimamente racional.

sexta-feira, outubro 26, 2018

Questão de coração

Andamos todos confusos com o desenrolar alucinante dos acontecimentos que nos últimos tempos têm alterado a ordem que vinha definindo o nosso mundo. A coisa passa-se tão perto de nós, tão à frente do nosso nariz, que não temos afastamento suficiente que nos permita percepcionar os contornos do bicho, compreender o fenómeno.

Há quem trema de receio que o Fascismo regresse, quem levante as bandeiras do "politicamente correcto", quem aponte o dedo acusador aos emigrantes, aos pretos, aos pobres, aos comunistas, aos homossexuais, aos velhinhos e aos amantes da Natureza, há grupos de apoio para tudo e de oposição a mais alguma coisa. Andamos numa roda-viva.

No meio da refrega vemo-nos impelidos a escolher um dos lados da barricada e é nesta situação que se revela a massa de que somos feitos pois uma escolha como esta é feita com o coração; absolutamente. Eu sei que procuramos uma justificação mais ou menos racional que corrobore a nossa opção mas isso não passa de reflexo cerebral condicionado, é no tambor do nosso coração que encontramos a explicação para a essência das escolhas que fazemos nesta refrega.

Assim vivemos estes acontecimentos pré-apocalípticos com o coração ao pé da boca. Braços no ar, punhos erguidos contra mãos estendidas, a história a repetir-se, desta vez como Tragédia. Novos fascistas, novos comunistas, novos anarquistas, novos sociais-democratas, socialistas, tudo remisturado pela varinha mágica do tempo, preparando-se para um novo embate, semelhante a todos os anteriores mas em diferentes locais, com novos actores, diferentes figurinos e cenografia renovada.

Nesta Tragédia cada um escolhe a personagem que pretende interpretar. Segue o teu coração.

quarta-feira, outubro 24, 2018

Cães vadios, ratazanas e carraças

É como aquela cena do Yin e Yang, cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. A um post fofinho deve suceder outro que seja azedo. Somos todos alimento uns dos outros (peixes grandes comem peixes pequenos) e foi assim que Deus fez o Paraíso.

Quero dizer, ao que consta Deus não pôs logo a bicharada a ferrar a dentuça no parceiro do lado; parece que, nos primórdios do Paraíso os leões eram amigos dos cordeiros (sim, havia leões e cordeiros deitados no mesmo prado verdejante) e até a carraça era pacífica. Não nos explicam de que se alimentavam estas bestiolas mas era tudo na base do "peace and love".

Sinceramente não sei quando é que a cena descambou. Terá sido por causa do Pecado Original? É bem capaz de ter sido isso: Eva convenceu Adão a dar uma trinca numa maçã (uma maçã!!!???) e pronto, lixou-se tudo. O casal apercebeu-se de uma série de coisas que até ali não lhes diziam nada, foi a expulsão do Paraíso e por aí fora. Não tenho a certeza de o que leão tenha ferrado o dente no cordeiro logo a seguir ou se ainda andou algum tempo a pensar sobre o assunto, o que sabemos é que todo o mundo passou a babar-se quando lhe chega às fuças o odor do sangue fresco e a sentir um prazer mórbido perante o espectáculo da dor alheia.

Voltando ao princípio em volta circular e completa: cada pensamento bonito precisa de uma sombra arrepiante que o equilibre, cada cãozinho tem à espera a carraça que lhe compete alimentar um dia. Que raio de coisa terá passado pela cabeça a Deus para espoletar tamanha loucura generalizada estragando de um momento para o outro a doce pasmaceira que animava o Paraíso? Tédio? Falta de imaginação? Incompetência pura e simples? Terá Ele inventado o sadismo naquele preciso instante (apesar de só ter permitido que o Divino Marquês viesse ao Mundo muito, muito tempo depois)? Nunca saberemos a resposta. Deus não fala connosco, muito menos frequenta Blogues. Quando muito deita o olho ao Facebook!

Passarinhos, gatinhos e crianças

Há tantas coisas bonitas, porra! Tantas coisas capazes de comover um gajo até que verta lágrimas, lágrimas daquelas que se separam dos olhos quando estão maduras de bondade e nos fazem sentir o coração como se fosse feito de pão-de-ló. Nem é preciso procurar muito. Basta estar atento, que coisas dessas há-as por aí, à espera de serem encontradas. É por isso que são coisas bonitas, coisas boas.

segunda-feira, outubro 22, 2018

Quem somos (de onde vimos, para onde vamos)?

Não compreendo bem a presunção daqueles que se pretendem superiores ou mais sagazes ou mais inteligentes. Afinal de contas descendemos todos do mesmo monte de merda primordial a partir do qual Deus moldou o primeiro de nós. Não compro aquela história de sermos feitos de pó.

Depois é a evolução da espécie; se aceitarmos como correcta a ideia de que estamos a evoluir em direcção a alguma coisa mais expressiva que a tal matéria primeva que Deus terá usado para moldar o primeiro ser humano.

Convém sublinhar a ideia de que Deus terá sujado as mãos para nos criar e que, a partir daí, nunca mais foi o mesmo. Ter as mãos sujas de merda e ser Deus não augura nada de bom para Si próprio nem para a Sua criação. Os deuses não têm sempre boas ideias, certo e sabido. Olhem para nós: comprovadíssimo!

Esta conversa enrolada para tentar compreender que raio de coisa é esta em que o Mundo Humano se está a envolver, a transformar, a arriscar... enfim, esta conversa enrolada para tentar compreender porque estamos nós a regredir em termos civilizacionais em direcção à barbárie. Outra vez.

Depois de muito matutar cheguei à brilhante conclusão do monte de merda primordial. Se fôssemos feitos de pó não seríamos assim tão merdosos. Entretanto sempre há uma boa notícia: o planeta ficará bem melhor quando regressarmos a um estado civilizacional vegetativo.

terça-feira, outubro 16, 2018

Sapiens-sapiens

Anda meio mundo a aturar outro meio.
Falamos deste lado, respondem-nos aos gritos do lado de lá, ecoamos com gritaria redobrada, a comunicação está difícil. Uma vez por outra ouvimos com clareza o que nos é dito pelos que compõem o outro lado mas isso apenas serve para aumentar o nosso grau de indignação. E vice-versa. A discussão cresce de tom.

Ouvir é equivalente a olhar, são acções que não implicam, obrigatoriamente, reflexão. "Entra por um ouvido sai pelo outro" é um ditado da família do "boi a olhar para o palácio". Mesmo quando se estabelece diálogo não parece haver vontade de debate. Queremos apenas marcar a nossa posição, manifestar a nossa autoridade moral, sublinhar a inquestionável superioridade da nossa visão, a única realmente inteligente. Somos "sapiens-sapiens", isso diz tudo mas não implica sapiência. Nem por sombras.

A coisa está a esticar-se. Cada vez mais há gente a deslocar-se para os extremos da corda com uma vontade redobrada de a puxar com o máximo de violência que forem capazes. Os que vão ficando no meio olham para um lado e para o outro como galinhas tontas sem saberem o que fazer, sem perceberem a que ponto da corda se deverão agarrar ou, sequer, se haverão de puxá-la. E são cada vez menos, eles que já foram tantos.

Por enquanto anda meio mundo a aturar outro meio. Tenho a impressão que a paciência está a esgotar-se rapidamente.

domingo, outubro 14, 2018

Tretas

Um gajo abre o Facebook e encontra esta conversa com alguma frequência:
"As tuas memórias no Facebook
Rui, as memórias que partilhas são importantes para nós. Pensámos que gostarias de recordar esta publicação de há 7 anos." 

As minhas memórias são importantes para "eles"? Por que raio de carga de água haveriam as minhas memórias de ser importantes para "eles"?

É por estas e por outras que me vou refugiando por aqui, por estas bandas.