sábado, fevereiro 25, 2017

Dependência

Ando a tentar largar os jornais diários. É um processo lento e doloroso, virtualmente impossível de concretizar com êxito. A verdade é que estou agarrado à leitura diária de jornais, como se fosse um toxicodependente agarrado a uma qualquer substância psicoactiva que lhe entretenha o cérebro. Eu estou agarrado à leitura de pequenos textos que sintetizam flashes do mundo real. Tento compreendê-lo ou, pelo menos, tento manter uma imagem do mundo que faça um mínimo de sentido.

Tenho tido recaídas. Passo dois ou três dias sem ler um jornal e fico com a sensação de que perdi partes importantes de mim próprio ou que, se não ler, o mundo pode ficar diferente e uma qualquer desgraça poderá precipitar-se. Tenho os miolos fritos?

Agora mesmo, estou a escrever estas linhas e sinto um impulso difícil de controlar; quero sair e dirigir-me ao local mais próximo onde se vendam jornais e comprar um exemplar. Ter um jornal enrolado, enfiado no bolso das calças produz em mim uma sensação de conforto difícil de explicar.

Acho que vou até lá fora.

sábado, fevereiro 18, 2017

A Lei

Há dias assim, acordamos com uma cena enfiada na cabeça que não sai de lá nem à marretada.

Quando essa cena é uma musiqueta cantarolamo-la incessantemente ao ponto de, por vezes, nos irritarmos com nós próprios. Chiça, já não há pachorra para a coisa a dançar-nos na carola e a fazer-nos dançaricar com ela.

Hoje acordei com a Lei de Lavoisier, não sei porquê. Terá sido algum sonho, daqueles que esqueço sempre ter sonhado? Impossível perceber o porquê de tal visita matinal.

E pronto, tenho passado o dia a repetir para os meus botões que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Apercebo-me que sou um crente fervoroso desta Lei, que constitui a minha Fé; que vejo Deus desta forma, que vejo a Arte desta forma, que vejo a Vida desta forma. Que a Natureza é, para mim, o princípio e o fim da existência das coisas todas. Que nada existe para lá dela, que ela é a verdadeira Mãe (desculpa lá, ó Maria).

Obrigado, Antoine, pelo teu momento de máxima lucidez que tanto bem tem proporcionado a este mundo merdoso.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Notas sobre "O Laço Branco"

Os culpados são aqueles que estão ausentes.
Os que não fazem parte do grupo são cruelmente castigados.
O conhecimento procura a verdade que a fé teima em esconder ou, pelo menos, que teima em ignorar.
O padre recusa-se a ver (ver é pecar) e permite que o monstro diabólico cresça livremente.
Tudo acontece por detrás das portas e das paredes. Nós, enquanto espectadores, não temos acesso visual ao horror mas, no entanto, ele está presente e acontece.
A nova geração incuba o nazismo.
Moral da história: se fecharmos os olhos estamos feitos ao bife!

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Da persistência da memória

Quando foi que a arte deixou de se preocupar com os pêlos nas pernas e pôs a gillette de lado? Quando teve ela a ideia de que um chapéu de côco pode usar-se com um kilt escocês e uma camisa de alças branca com um urinol estampado?
Não há um registo rigoroso mas quando terá a arte deixado as peneiras para vir comer uma bifana com o pessoal do arrôto?
A memória é uma buraqueira do caraças mas as coisas aconteceram e não dependem dela para terem existido. Já não estou tão certo da necessidade dessa dependência quando se trata de existirem no presente. As coisas que esquecemos nunca aconteceram? Há quem pense assim.

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Confessionário

Por vezes sinto-me como se tivesse sido talhado em madeira. Uma coisa entre o Pinóquio e algum santo de pau carunchoso pintado à mão mas com a tinta já meio comida e a cair. Sinto-me pasto de caruncho gordo.

São tantas as dúvidas que não deixam espaço nenhum às certezas. Fico meio abananado, a tremelicar no alto da minha soberba, tenho medo de cair... e caio. Como num sonho, sou sugado por aquela queda infinita sem saber o que está no fundo ou, sequer, se existe fundo.

Talvez isto seja um reflexo da minha educação católica: o receio de ser mau, a ânsia de praticar a bondade. Seja lá o que for é algo que me faz fugir para a frente de quem sou, algo que me faz desejar o futuro; talvez no futuro haja redenção!

Limpo os óculos, volto a encavalitá-los na cana do nariz. As letras no écran ganham de novo nitidez suficiente para que possa compreender o que estou a escrever. Compreender!? Mentira, posso ler as frases anteriores, mas compreendê-las.... isso fica para uma outra vida.

domingo, janeiro 29, 2017

Ponto, linha e plano

A narrativa reduz-se a uma linha, um segmento de recta. O fundo anónimo aconchega toda a imaginação que uma mancha é capaz de conter. O olhar, desolado, vê-se substituído por uma avalanche de palavras, uma enxurrada de ideias muito mais inteligentes do que a representação de um corpo humano deitado sobre uma cama de pregos. A arte, por vezes, tortura-me o espírito.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Dúvida espiritual

Substituir o Espírito Santo pelo Espírito Revolucionário não tem mostrado resultados particularmente entusiasmantes. Não sei bem porquê, talvez pela natureza imaterial de cada um deles? Residirá o problema no respectivo patrão? Talvez a merda sejam as divindades, elas próprias,... sinceramente não sei porque razão estes espíritos se revelam de tal modo incompetentes na sua função de inspirar os crentes e ajudá-los a trilhar o Caminho dos Justos.