terça-feira, janeiro 15, 2019

Reciclagem

Os miúdos são barulhentos, confusos, desorganizados; quando se encontram numa sala de aula, quando estão no recreio. Imagino que sejam assim na maioria das situações que vivem. Reproduzem constantemente a javardeira que os rodeia na cidade que habitam. 

O silêncio incomoda-os, fá-los sofrer, quando o ambiente fica silencioso os miúdos sentem-se inquietos como se fosse um mau presságio. Na ausência de ruído fica a sensação de que algo perigoso se aproxima. Talvez um monstro tenha chegado às portas da cidade, não tarda o silêncio agoirento será rasgado por gritos desesperados, o horizonte recortado pela silhueta de um Godzilla patudo a destruir tudo a cada passo. Imagino que seja algo assim, talvez pior.

Há uma cada vez mais complexa fusão entre o Inferno e o imaginário infanto-juvenil, o que gera personagens estranhíssimas: coisas fofinhas com dentes afiados como facas ou coisas horrendas com cauda de coelhinho lãzudo. 

Se pretendemos manter abertas as vias de diálogo com a putalhada precisamos de reciclar profundamente as nossas galerias de heróis e respectivas correspondentes de vilões. 

domingo, janeiro 13, 2019

Humanidade

Os olhos, por si sós, não vislumbram a alma das coisas; como fariam os cegos para poderem saber? Falta o coração, junta-se-lhe a mente, de tudo junto se constrói a máquina que vê, com mais ou menos peças, um ou outro método de funcionamento. Eis a poderosa possibilidade de haver deslumbramento.

As coisas mais banais, as aparentemente simples, as artificialmente complexas ou afectadas, o mundo abarca tudo com as nossas almas lá dentro. O mundo é constituído pelas coisas que podemos perceber e por aquelas que, sem o sabermos, nos escapam. Nessas coisas também estamos nós.

Compete-nos viver.

terça-feira, janeiro 08, 2019

Tecnologia de estimação

O meu telemóvel não é dos mais faladores, por vezes passa dias inteiros que está calado. Como um rato. Mas isso não impede que me sinta ligeiramente angustiado caso me esqueça dele poisado algures, entregue à suavíssima queda do pó que encobre o mundo.

Estranha relação esta, que estabelecemos com certos objectos tecnológicos. É quase como se fossem bichos, animais de estimação. Como se tivessem caprichos, sonhos, necessidades. Como se respirassem o mesmo ar que respiramos.

No outro dia resolvi deixar o telemóvel em casa de forma premeditada. Só para ver como seria. Foi bom. A verdade é que me senti muito mais leve. Não me roeu aquela sensação de culpa pois desta feita não me esquecera dele. Também me sossegou saber que não estava a abandoná-lo, que iria voltar a casa e ele lá estaria, fiel, à minha espera. Enfim, umas horas de liberdade sabem bem.

Certos objectos tecnológicos têm uma irritante capacidade de nos tiranizarem o dia, como se fossem animais de estimação que estragámos com demasiado mimo. Nada que uma martelada não resolva.

segunda-feira, janeiro 07, 2019

Naufrágio

A Europa afoga-se todos os dias um pouco mais nas águas do Mar Mediterrâneo. O projecto europeu confunde-se com um negócio feito na sombra de gabinetes luxuosos por tipos engravatados sem pingo de sensibilidade social. Vendem-se vistos "gold" que garantem a cidadania europeia a centenas de ricaços que nem precisam de justificar a origem da sua riqueza; paga-se a bandos de facínoras no norte de África para que impeçam os que tentam alcançar a Europa de meterem, sequer, os pés num barco onde arrisquem a vida mais uma vez; é assim que se alimenta a alma da União Europeia?

Velhos aliados mudam de face e tornam-se vagas ameaças. A Europa democrática vê-se inesperadamente deixada a sós pelos EUA e começa a voltar a cabeça na direcção da China(?). Os Direitos Humanos também são bens transaccionáveis.

Não há nada que una os países da União a não ser o amor e a reverência que lhes merece o deus-dinheiro. Vivemos zombificados, arrastando as nossas convicções pela lama, penosamente.

A Europa afunda-se todos os dias um pouco mais no mar das suas contradições.

sábado, janeiro 05, 2019

Magia de Ano Novo

O dia 1 de Janeiro é, afinal, um dia como outro qualquer. O calendário não tem propriedades mágicas. Se, porventura, alguma coisa muda com a passagem de ano, isso fica a dever-se a uma eventual vontade de mudança que trazemos dentro de nós.
A haver alguma magia nesta coisa, a magia somos nós.

quarta-feira, dezembro 26, 2018

Festas

Ano após ano Cristo nasce para mais daqui por uns meses morrer e depois ressuscitar em glória, patati, patatá, a coisa nem se discute entre os crentes. Há expectativas que se criam, sonhos que se insinuam, vidas que se organizam, tudo baseado na fé de que Cristo nasceu-morreu-ressuscitou e que tudo isto sejam factos irrefutáveis, que sejam verdade e realidade ao mesmo tempo. Haja quem acredite.

Ano após ano os comerciantes preparam os livros de contas para inscreverem neles os lucros concretizados por ocasião das várias épocas festivas. Ora se vendem todo o tipo de produtos (no Natal) ora se investe na parafernália mística mais específica dos milagres da ressurreição e etc. (durante a Páscoa), uma coisa é comum a estas festas e a tantas outras: a comida.

Cada festa tem o seu menu especial que pode variar de uma zona para outra, mesmo num país tão pequeno como Portugal. Seja perú, borrego, leitão, polvo, bacalhau, há sempre um animal adequado à comezaina que se impõe. Fica a sensação de que se festeja a capacidade de comer alarvemente, a capacidade de pôr mesas fartas e variadas. A mortandade é apocalíptica, a gula um pecado esquecido.

A festa não fica completa sem quantidades generosas de álcool.

Haja riso e alegria.

terça-feira, novembro 06, 2018

Questões

Sempre me confundiu a ideia de que a Economia estivesse em constante crescimento, como se fosse um Universo em expansão. Para mim as coisas são como balões, enchem, enchem, enchem, enchem até à quase loucura, enchem até à eminência do desastre, até à eminência do susto e... pum!

O crescimento constante, o Infinito, decididamente são conceitos que ficam muito para lá da minha capacidade de compreensão.

Nos últimos tempos tenho juntado outra perplexidade a esta lista. Pode uma sociedade evoluir seguramente em direcção a... bom, em direcção a algo melhor... algo diferente? Algo diferente não implica algo melhor e o conceito de evolução social tem muito que se lhe diga. É aqui que enfio os pés na lama e começo a ter dificuldades em movimentar as ideias.

Para mim uma sociedade melhor implica uma maior distribuição dos bens e da riqueza, implica uma maior liberdade individual e de expressão. Implica que um indivíduo possa ser quem quiser, optar pelo estilo de vida que lhe pareça mais cómodo. Uma sociedade melhor implica que os direitos das minorias sejam reconhecidos e respeitados, que os fortes sejam solidários com os fracos.

Poderia estar para aqui a estender a lista mas estes aspectos já me chegam para questionar: há outro tipo de evolução social? Algum destes aspectos é condenável à luz de uma ideologia social justa e equilibrada?

Para já fica a questão, lançada no abismo silencioso da zumbisfera.