domingo, julho 15, 2018

Massacre

Dêem-se as voltas que se queiram dar, olhe-se o nosso tecido social do direito ou do avesso, o resultado da observação é sempre o mesmo: subalternização e esmagamento dos mais fracos perante as instituições, estatais ou privadas, tanto faz. A nossa sociedade é desigual, é injusta e não protege os mais desfavorecidos, como seria de esperar de uma sociedade que se afirma democrática.

A cada dia que passa vai crescendo o fosso em volta do castelo da riqueza e vão-se multiplicando os crocodilos que o povoam e protegem os felizes locatários. A distribuição da riqueza produzida é cada vez mais assimétrica; os ricos muito mais ricos, os pobres muito mais tristes. Não nos venham com tretas, a luta de classes só não existe porque não é de uma luta que se trata, é puro e simples massacre.

Vão distraindo o povo com papas e bolos, fingem ser prejudicados por políticas que lhes cerceiam a liberdade de enriquecer mas que mais querem os ricos e poderosos? Quando saciarão a sua gula por riquezas e poder? Será necessário que tudo morra, que tudo desabe e impluda para que algo mude sem que fique tudo na mesma?

quinta-feira, julho 12, 2018

Felicidade




Ontem fui assistir ao espectáculo de David Byrne em Cascais. Há muito tempo que não me sentia tão feliz, tão preenchido e completo. Que performance! Quanta criatividade, quanta excelência!!! Ontem vivi momentos de extrema felicidade.
Eternamente grato.

terça-feira, julho 10, 2018

Uma guerra secreta

Nos últimos tempos tenho-me confrontado com duas perspectivas diferentes sobre o papel da Arte (assim, com "A", para não desfazer o equívoco): de um lado posicionam-se aqueles que pensam na Arte enquanto forma de expressão superior, veículo de afirmação daqueles que a produzem e difundem, irmanados numa manifestação algo pedante de uma certa intelectualidade capaz de produzir os discursos mais crípticos e complexos; do outro barricam-se os que têm da coisa uma visão mais terra-a-terra, menos elitista, são pessoas que acreditam que é tão válida a visita do tasqueiro quanto a do crítico de arte. Há mesmo quem sonhe debater ética e estética com o tasqueiro e nem se atreva a abordar o assunto com o crítico de arte, por receio de ter que lhe enfiar um tabefe trombas abaixo lá pró meio da conversa.

Eu gostava de manter alguma equidistância nesta luta surda e pouco mediática, até porque a minha formação académica permite-me compreender a elite mas a minha educação de base põe-me ao nível da populaça. É tramado. Talvez pudesse não tomar partido... mas tomo. Eu sou da populaça.

 

sábado, julho 07, 2018

Explosão anunciada

Como chegámos nós a este ponto? Somos reféns do Capitalismo, hoje tal como sempre fomos. Vivemos uns quantos anos na ilusão de que tínhamos afugentado o bicho mas ele está de regresso e com tal pujança que vai destruindo o mundo todo de passagem.

Os episódios de especulação imobiliária que se vêm acumulando nos últimos tempos são uma foto-tipo-passe do rosto do capital selvagem. As pessoas são escorraçadas das suas habitações para que as casas se venham a transformar em locais de passagem.

É a lógica capitalista da livre circulação do dinheiro associada à lógica pós-moderna da movimentação das populações, em trânsito no gozo dos seus tempos de férias.

Nos tempos que correm há muito capital que circula nos bolsos dos turistas (veja-se o peso do turismo na economia portuguesa ou nos países que têm um défice de produção industrial, o turismo é mesmo considerado uma indústria!), logo interessa desenvolver os processos de trânsito das pessoas (as viagens aéreas banalizam-se ao ponto de surgirem as empresas low cost) ao mesmo tempo que se facilita o acesso destas ao capital onde quer que estejam por esse mundo fora (as máquinas de dinheiro nas paredes e em caixotes pululam por esse mundo fora e podemos aceder à nossa conta bancária em segundos estejamos na Ásia ou na América).

Nesta construção vertiginosa os indígenas transformam-se em peças de baixo valor. Ou são empecilhos, e por isso se dão os despejos, ou são mão-de-obra barata para manter esta lógica de resort em que se vem apostando como mais uma forma de fazer fluir o capital.

Este é um exemplo. Muitos outros poderemos convocar quando reflectimos sobre o desvario total que se apoderou da Humanidade e a conduz, inexoravelmente, na direcção do precipício. Um dia tudo isto vai rebentar.

terça-feira, julho 03, 2018

Pessimismo crónico

Há maleitas incuráveis. Para se livrar delas um gajo vê-se à rasquinha. Parece contraditório mas não é. Um gajo, na verdade, nunca se livra de tais maleitas, elas deixam sempre uma cicatriz ou outra, passam de mortais a crónicas mas conseguimos sobreviver-lhes e com elas conviver mais ou menos.

Uma dessas maleitas que me ensombram o sossego é o pessimismo. Vi-me e desejei-me para conseguir transformar esse receio constante em algo de positivo. Depois de muitos anos aprendi a imaginar que o aparente obstáculo pode ser ultrapassado a qualquer momento; não há que desanimar! O desastre iminente terá menos hipóteses de acontecer caso consigamos olhá-lo com espírito positivo.

Ok, ok, meu pessimista leitor, eu sei que muitas vezes acabamos por levar no toutiço seja lá como for que encaremos o problema mas terás de concordar comigo: se partimos derrotados, derrotados chegamos à meta. Urge transformar pessimismo em optimismo por estranha que tal atitude te possa parecer. Leva tempo e soa a patetice mas olha que vale a pena!

domingo, julho 01, 2018

Desenhos Negros

 Vou bater à tua porta (desenho negro nº 240)
 6 capas com 40 desenhos dentro cada uma

Hoje acabei o sexto bloco de 40 folhas negras. Iniciei este trabalho em Janeiro de 2015, quando a minha filha me ofereceu o primeiro desses blocos de tamanho A3 por ocasião do meu aniversário. São 240 desenhos realizados com recurso a técnicas variadas, sempre com colagem e acrílico, pastéis de óleo, marcadores, tintas em spray, etc.

Fazer estes desenhos tornou-se um ritual; de cada vez que acabo um retiro-o da prancha e agrafo nova folha. Depois colo algo (tenho uma espécie de lixeira de pedaços de papel: jornais, revistas, papéis variados que vou acumulando) e olho, volto a olhar, risco, pinto, o tema surge com a execução do trabalho.

Estes desenhos servem-me como base para outros trabalhos. Fotografo-os e depois projecto-os sobre papéis de diferentes dimensões e desenho com esferográfica, canetas de gel ou pastéis de óleo. É como praticar uma religião. Estou convertido.

sábado, junho 30, 2018

Arte e artistas

Muitos pretendem oferecer ao espectador comum a possibilidade de compreender o processo criativo de um artista. Tenta-se lá chegar de diferentes maneiras, seja o artista vivo ou morto. Com os vivos é sempre possível fazer uma entrevista, tentar pô-lo a explicar como lhe saem os objectos artísticos lá de dentro. Com os mortos, caso não haja registos escritos de declarações suas, a coisa fica mais complicada.

Não me parece que, perante um artista e a sua obra, seja objectivo fundamental tentar a compreensão do processo criativo que o anima. Na minha qualidade de espectador e fruidor do fenómeno artístico, parece-me mais interessante a relação que consigo estabelecer com o objecto e, por via dessa relação, talvez também com o artista.

Não se tenta compreender a magia. Ela acontece.