sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro estacionado. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.

segunda-feira, março 20, 2017

Crocodile Bambi (4)

Ele sentou-se primeiro... ela sentou-se. Ao balcão. O lugar estava imundo. Cheirava a mijo que tresandava, aquele cheiro acre que nos rasteja pelas narinas como se tivesse patas peludas, o cheiro a subir-nos em direcção ao cérebro como um insecto rastejante. Já me tinha esquecido que existem pivetes assim. Ele... ela, atirou-me aquele olhar tipo facada mortal, tipo a Casca a endrominar o Mogli, o hipnotizador e o basbaque. Lá fui, depositar o cu no banco alto e seboso ao lado do Zeca Punk, "Chama-me Camomila", pedira ele há coisa de um quarto de hora. Ordenara ela. Sentei-me ao lado da Camomila, portanto. Não me atrevi a perguntar-lhe de forma directa qual o seu género, optei por uma pergunta tão parva que ainda estava a desfazê-la e já me apercebia da imbecilidade da coisa "Ainda mijas em pé?". Ela pousou a sua mão ossuda sobre a minha. Senti um frio medonho a enrolar-se-me na espinha; não que a mão dela estivesse demasiado fria, aquela incómoda sensação atacou-me na forma de um flash, uma recordação súbita que se me espetou na memória com toda a força "Ó filho, gostas do que estás a ver, dou-te tusa?". E sorriu daquela forma assustadora. Fui salvo pelo empregado que arrotou lá detrás do balcão "O que é que vai ser?".
Começámos com um simples submarino, uma caneca de cerveja com um cálice de bagaço mergulhado, passámos às 1920, mais uns submarinos, mais umas cervejas e novas aguardentes velhas ou nem por isso. Aterrámos numa sucessão de cálices de Licor Beirão e lambretas para ajudarem a coisa a deslizar mais depressa.
A conversa foi errática, nada de muito pessoal, nada de referências ao passado, muito menos sobre perspectivas de futuro. Falámos de coisas que estavam à nossa volta: o espelho por trás das filas de garrafas, das garrafas, do poster de uma rapariga com mamas descomunais reclinada sobre o capot de um carro vermelho e provocante no entender de Camomila (Camomila... que nome mais ridículo!). Falámos com o Sr. Tó, o empregado-patrão que nos ia servindo os copos com as suas mãos como presuntos de onde saíam salsichas em forma de dedos com unhas compridas debruadas a negro; fomos falando, falando, falando, até que comecei a sentir dificuldade em produzir palavras com todas as sílabas, até que comecei a enrolar a língua, a sentir-me descontraído, a gozar da libertação alcoólica. Se tivesse caído do alto do meu banco decerto teria voado.
Numa viagem ao urinol tive um pequeno lampejo de lucidez "Como vou safar-me desta merda?", mas foi sol de pouca dura. Já nem o fedor me incomodava. Mijei abundantemente e regressei ao meu lugar. Zé Camomila não estava onde a deixara. "45 euros." informou o Sr. Tó. Olhei em volta e nem sombra do meu anfitrião. "Não tenho assim tanto dinheiro comigo, aceita multibanco?" O homem olhou-me como se me tivesse transformado de súbito numa barata gigante, "Esta a armar-se em engraçado comigo?" Não, não estava a armar-me em engraçado, antes pelo contrário, cambaleei, estava até a ser muito honesto e sincero, apoiei-me numa mesa e senti os dedos a colarem-se ao tampo, assegurei a minha honestidade, a pureza das minhas intenções mas, nada feito, o Sr. Tó queria dinheiro vivo e queria-o já. "Imediatamente!" disse ele. Comecei a entrar em pânico. O homem saiu de trás do balcão segurando uma tranca ameaçadora. Não percebi se ele queria de facto o dinheiro, se queria apenas um pretexto para me rachar a cabeça de alto a baixo. As pernas tremeram-me e colei a mão à mesa com mais força. Foi então que tudo se precipitou, como acontece nos filmes.

domingo, março 19, 2017

Crocodile Bambi (3)

A memória não é de fiar. A minha memória é um buraco. Faltam-me os momentos, sobram as sensações. Tenho guardada uma vertigem, um incómodo, uma torrente de medo a abrir caminho, imparável, a atingir-me, a rebentar-me no peito como uma bomba de excrementos.O Zeca Punk era um gajo mau que tinha prazer em criar situações embaraçosas, armadilhas emocionais que montava com minúcia de relojoeiro onde apanhava patinhos como eu. Fazia aquilo por puro divertimento. Não ganhava nem perdia nada quando me deixava imerso em merda e vergonha e embaraço. Recordo vagamente a sua cara de fuínha a fazer caretas horripilantes de divertimento. Alguns gajos saíram magoados; houve ossos partidos, feridas abertas e sangue em abundância. Nunca foi o meu caso. Apenas recordo vergonha e embaraço. Talvez ele gostasse de mim. Sempre que aparecia com uma ganza ou uma garrafa de cerveja no início da noite, eu já sabia que aquilo iria acabar mal mas não havia como recusar embarcar na aventura. Seria indelicado da minha parte tentar esquivar-me e não convinha nada ser indelicado com aquele filho da puta. Acho que não convinha, não tenho bem a certeza, porque nunca me recusei a ir por ali fora, noite dentro, à procura do medo, a sentir o perigo a formar-se à nossa volta como uma onda de calor, como um nevoeiro, como uma cidade inteira sem portas nem janelas.

segunda-feira, março 13, 2017

Crocodile Bambi (2)

Era um espectáculo digno de ser visto. O homem cambaleava com o corpo tão inclinado para trás que poderia acreditar-se possuir poderes excepcionais capazes de o manter em pé, por assim dizer. Já a mulher, magra, desconchavada, estranha sob qualquer ângulo que experimentássemos para a olhar, a mulher seguia impante, a matraquear o cimento do pontão com os saltos agudos dos sapatos altos, a rir-se, a rir-se, a rir-se com malícia. Pelo menos era o que me parecia, visto daqui de onde estou, de onde estava, visto deste lugar exacto que é um lugar que, como bem sabes, não existe de facto. Eu próprio não sou bem aquilo que possa considerar-se um ser vivo. Seja como for estou aqui, a falar contigo, a expor o meu ponto de vista. O meu testemunho não terá valor jurídico mas é cem por cento honesto. Mil por cento honesto! Sabes bem que podes confiar em mim.

sábado, março 11, 2017

Crocodile Bambi (1)



                 Crocodile Bambi

Pessoas passavam carregando as almas como se levassem sacos de batatas. O túnel de metropolitano até nem estava infernal mas havia qualquer coisa de estupidamente monótono naquele entardecer, lá debaixo da terra. Levantei a testa e reparei num vulto que se movia com rapidez e impaciência na escada inclinada, despachando os degraus furiosamente. Para ser sincero, o que me chamou a atenção, assim à distância de uma escadaria (com aquela inclinação absurda), foi a farta cabeleira que esvoaçava agarrada à silhueta que ali vinha. Parei. O vulto cabeludo era escuro e leve, rápido na descida. A cada passo ganhava mais luz e mais definição, até que se transformou numa mulher magra: o queixo afiado ligado ao pescoço como um fio de esparguete. Um arrepio incómodo percorreu-me a nuca. Havia algo de familiar naquela mulher cada vez mais feia, aquela mulher já suficientemente próxima para meter medo, os gestos bruscos, o esqueleto maldoso a ameaçar desabamento lá do alto dos sapatos. Quando aquela fealdade se revelou em todo o seu esplendor, fingi não reparar. Baixei os olhos sem ver o chão. Fui seguindo o movimento dela, tac-tac-tac-tac-tac, por ali fora, já não me lembro se com os olhos se com os ouvidos.
                De súbito o sapateado estacou. Sentia a mulher ali especada. Atrevi-me a levantar a cabeça com lentidão; lá estava ela, dois olhos verdes e baços cravados nos meus, ao ponto de doer. “Porra”, decerto pensei qualquer coisa assim, “ora porra, o que me quer esta gaja?” ou talvez tenha pensado: “o que me quer esta puta de merda?”; sim, inclino-me mais para “esta puta de merda”. Definitivamente: “esta puta de merda”! – foi o que pensei naquele terrível momento de revelação.
Ela tinha um sorriso malvado, logo abaixo do nariz, a rasgar-lhe o focinho como uma navalhada. Um bâton vermelho esbodegava-lhe ainda mais a figura: desastre complexo. Notei uma sombra de barba por fazer, aquela gaja era um gajo. Feio. Um gajo patético. Olheiras profundas como fossas e… “espera lá, eu conheço-te!” Eu sei quem tu és, meu grande cara de cu! “Olha o betinho!” O gajo falava como se cuspisse as palavras. “Há quanto tempo não te via, betinho do caralho.” Cuspia as palavras que lhe iam ficando presas nos lábios. Continuava a ter aquela boca nojenta, sempre brilhante e babosa. Dentro da boca dele tudo parecia em carne viva, uma boca que parecia um bicho esfolado ou uma ave recém-nascida. Era como se dentro dele habitasse a Dor e ele não se importasse com isso, antes pelo contrário. “O que tens feito? Tás muito bonitinho!” Nem um gesto na minha direcção. Um abraço? Um aperto de mão? Não querias mais nada; com o Zeca Punk nunca houvera lugar para o mínimo gesto de conforto, a mínima afabilidade, nunca houve cá toques, o contacto físico com este gajo sempre fora algo perigoso. Tá quieto!
Eu não conseguia dizer nada. O Zeca era agora uma mulher. Fora um gajo horripilante, agressivo, intimidante. À minha frente estava uma mulher assustadora, fria e repulsiva. Coçou o lugar dos tomates. Parecia estar a medir-me qualquer coisa (a alma, talvez?), parecia avaliar possibilidades, situações impossíveis que apenas ele era capaz de vislumbrar. Sempre fora um tipo estranho, difícil de compreender. “Anda, vamos beber um copo.” - disse-me ele… ela. Disse-o num tom que reconheci de imediato. Eu havia esquecido aquela sensação, perdera-a algures no meu caminho para a idade adulta, aquela sensação de impotência quando o Zeca Punk propunha alguma actividade lúdica; ele falava e o pessoal obedecia sem pensar muito naquilo que estava a aceitar fazer. “Onde vamos?” perguntei, a sentir regressar a adolescência. Foi assim que começou.

quarta-feira, março 08, 2017

A pele e os sapatos

Realmente, a questão da perspectiva individual é uma coisa bastante estúpida. O facto de termos o cérebro agarrado aos olhos e os olhos como espelho da alma não nos ajuda muito a percebermos o mundo circundante com a distância que gostaríamos de manter em relação ao Bem e ao Mal.

É demasiado fácil considerarmos aqueles que têm uma visão diferente da nossa como sendo uns autênticos camelos. E nem nos damos muito ao trabalho de pensar como seria estarmos enfiados na pele do outro (ou nos seus sapatos, como dizem os ingleses).

Estou a esforçar-me por pensar positivamente, tento manter os valores humanistas em alta, enfim, quero olhar para o espelho e ver um tipo fixe... mas tenho uma vontade indomável de desprezar certos dromedários, de invectivar uns quantos borregos e ridicularizar uma mão-cheia de ratazanas de esgoto. O gajo no espelho não me parece assim tão bonzinho nem justo nem nada disso.

O gajo no espelho sou eu.