Olhar nos olhos a pessoa que está à tua frente (na carruagem de metro, na esplanada do café, no meio da rua) pode ser algo estranhamente intimidatório.
Para ti, para a outra pessoa, pode erguer-se entre vós uma inesperada cortina que, não sendo de ferro, decerto será coisa suficiente para vos deitar os olhares ao chão.
Mesmo que, no súbito contacto com o chão, os vossos olhos não venham a partir-se, quando se levantarem de novo para a horizontal que dispara das vossas cabeças, vão evitar cruzar-se no embaraçoso contacto.
Os vossos olhares vão procurar outros poisos, saltitando, nervosos como pardalitos num dia de nuvens baixas. Nervosos e envergonhados.
Mas se, no regresso, os vossos olhares se fixarem e mantiverem firmes na contemplação do outro, um mundo inteiro poderá abrir-se.
Quarta-feira, Março 14, 2012
Sábado, Março 10, 2012
Au revoir
Acabo de saber que morreu Jean Giraud, também conhecido por Moebius (ou vice-versa). Giraud foi um dos mais extraordinários desenhadores que o mundo já conheceu. Desde miúdo que acompanhei com admiração e reverência a sua obra extraordinariamente variada.
Giraud desenhava como se falasse. As suas personagens raramente repetiam um gesto, os seus cenários eram sempre de uma minúcia e de uma inventividade de cortar o fôlego. Tenho muitas das suas obras nas minhas prateleiras que vou lendo, relendo ou, simplesmente, admirando. Quantas vezes tentei copiar os seus desenhos!
Fiquei triste com a notícia. Foi como se tivesse falecido um amigo chegado. É uma sensação estranha.
Au revoir, mon vieux ami.
Giraud desenhava como se falasse. As suas personagens raramente repetiam um gesto, os seus cenários eram sempre de uma minúcia e de uma inventividade de cortar o fôlego. Tenho muitas das suas obras nas minhas prateleiras que vou lendo, relendo ou, simplesmente, admirando. Quantas vezes tentei copiar os seus desenhos!
Fiquei triste com a notícia. Foi como se tivesse falecido um amigo chegado. É uma sensação estranha.
Au revoir, mon vieux ami.
Quinta-feira, Março 08, 2012
Escalas de valor
Apercebi-me da facilidade com que os jovens de hoje (leia-se os meus alunos) amam ou odeiam todas as coisas do mundo circundante. Mais do que amar, eles adoram isto ou adoram aquilo tão espontâneamente como odeiam outra coisa qualquer.
Quando tinha a idade deles (que conversa tão paternalista!) eu gostava ou não gostava das coisas com que sentia necessidade de me relacionar. Também amava ou adorava ou odiava, mas resguardava um pouco estes sentimentos para situações muito específicas. Não os declarava com a leveza de espírito que julgo observar nos meus jovens parceiros de quotidiano.
Parece-me evidente que a escala de valor que os miúdos aplicam às coisas é mais vasta e extremada do que aquela que era usual utilizar quando vivi os intervalos de tempo em que eles agora se encontram. Fiquei a pensar por que razão isto poderá acontecer (se é que, na realidade, acontece).
Cheguei a uma leve conclusão. Talvez a minha educação católica esteja relacionada com a dificuldade em declarar amor, adoração ou ódio. Ensinaram-me que se adora a Deus acima de todas as coisas. Adorar outra coisa seria pecado próximo do mortal, logo era enfiar um pézinho no inferno.
Assim sendo, o ódio era coisa para sentir quando o diabo andasse por perto. Era preciso ter muito cuidado com esse tipo de sentimento.
O tempo passou e a minha adoração pela divindade esfumou-se por completo, mas aquilo que me entrou pelos miolos abaixo cá ficou. Os putos agora não passam pelo crivo da cataquese e não sentem qualquer prurido em declarar adoração por um cantor da moda ou ódio por uma marca de jeans.
Não só a escala deles é muito mais vasta e extremada, como as coisas parecem ter todas um valor aproximado. Deus é colocado na balança dos amores e dos ódios juntamente com um penteado ou um jogo de consola e, à partida, todas as coisas podem ser pesadas em conjunto, chegando-se a um resultado perfeitamente aceitável.
Será que esta facilidade de adorar e odiar está relacionada com a banalização do sagrado? Mmmmmh, pode ser isso... pode ser isso.
Quando tinha a idade deles (que conversa tão paternalista!) eu gostava ou não gostava das coisas com que sentia necessidade de me relacionar. Também amava ou adorava ou odiava, mas resguardava um pouco estes sentimentos para situações muito específicas. Não os declarava com a leveza de espírito que julgo observar nos meus jovens parceiros de quotidiano.
Parece-me evidente que a escala de valor que os miúdos aplicam às coisas é mais vasta e extremada do que aquela que era usual utilizar quando vivi os intervalos de tempo em que eles agora se encontram. Fiquei a pensar por que razão isto poderá acontecer (se é que, na realidade, acontece).
Cheguei a uma leve conclusão. Talvez a minha educação católica esteja relacionada com a dificuldade em declarar amor, adoração ou ódio. Ensinaram-me que se adora a Deus acima de todas as coisas. Adorar outra coisa seria pecado próximo do mortal, logo era enfiar um pézinho no inferno.
Assim sendo, o ódio era coisa para sentir quando o diabo andasse por perto. Era preciso ter muito cuidado com esse tipo de sentimento.
O tempo passou e a minha adoração pela divindade esfumou-se por completo, mas aquilo que me entrou pelos miolos abaixo cá ficou. Os putos agora não passam pelo crivo da cataquese e não sentem qualquer prurido em declarar adoração por um cantor da moda ou ódio por uma marca de jeans.
Não só a escala deles é muito mais vasta e extremada, como as coisas parecem ter todas um valor aproximado. Deus é colocado na balança dos amores e dos ódios juntamente com um penteado ou um jogo de consola e, à partida, todas as coisas podem ser pesadas em conjunto, chegando-se a um resultado perfeitamente aceitável.
Será que esta facilidade de adorar e odiar está relacionada com a banalização do sagrado? Mmmmmh, pode ser isso... pode ser isso.
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quotidiano delirante,
reflexão
Domingo, Março 04, 2012
Arte improvável
As formas de manifestação artística são tão variadas quanto a nossa capacidade de as aceitar e, quem sabe, de as compreender. Muitos de nós continuam a ver arte apenas quando ela está pendurada nas paredes ou assente nos soalhos de locais certificados pela Academia ou pela crítica. Mesmo aí, muitas obras causam polémica e provocam sorrisos trocistas e expressões, no mínimo, jocosas. A Arte Contemporânea não é fácil de "engolir".
Vem esta introdução a propósito de uma notícia publicada no P3 sobre um tal Ben Wilson que, entre outras coisas, anda há sete anos a pintar... chicletes esmagadas no chão de várias cidades por esse mundo fora.
Segundo o The Telegraph, Ben terá produzido mais de 10.000 (sim, dez mil!!!) exemplares desta sua bizarra forma de expressão plástica.
Ao contrário do que acontece com outras estranhas formas de arte, perante esta pintura sobre chicletes poucos dirão a frase do costume: "Isso também eu fazia."
Ao contrário do que acontece com outras estranhas formas de arte, perante esta pintura sobre chicletes poucos dirão a frase do costume: "Isso também eu fazia."
as hiperligações conduzem-te a lugares onde podes admirar alguns exemplares da espantosa pintura de Ben Wilson
Quinta-feira, Março 01, 2012
Da arte da espionagem
Esconder dos outros pedaços da realidade é uma tarefa que me dá vontade de rir. É como espantar migalhas para debaixo de um tapete estranhamente colocado sobre o tampo da mesa, deixando o chão abandonado à indiferença das solas de sapatos e botas.
Tentamos agir com uma naturalidade exagerada, como se a colocação do tapete sobre a mesa fizesse algum sentido e a existência de tão sossegadas migalhas não nos interessasse nem um bocadinho. O gesto de as pôr a andar para debaixo do tapete deve ser executado com a elegância de uma distracção indiferente.
Em momento algum podemos comportar-nos como um adolescente que tenha rapado o cabelo e tatuado um 3º olho bem no meio da testa e, ainda assim, pretenda agir com naturalidade na presença de outras pessoas. Seríamos imediatamente notados e a nossa inocente tarefa de esconder pedaços da realidade havia de diluir-se no espaço em volta, tornando-se parte dele e, logo, respirável por olhares alheios.
Manter os nossos gestos ao mesmo nível das nossas intenções, fazer do movimento do corpo uma coisa mental e automática, não está ao alcance de qualquer um. A coisa exige uma cabeça descomunal, uma cabeça que possa armazenar suficiente espaço vazio.
Misturar o gesto com a reflexão abstracta, a impureza do gesto com a pureza da sua ausência, é a alquimia dos grandes espiões, o combustível que lhes alimenta a máquina da sobrevivência.
Tentamos agir com uma naturalidade exagerada, como se a colocação do tapete sobre a mesa fizesse algum sentido e a existência de tão sossegadas migalhas não nos interessasse nem um bocadinho. O gesto de as pôr a andar para debaixo do tapete deve ser executado com a elegância de uma distracção indiferente.
Em momento algum podemos comportar-nos como um adolescente que tenha rapado o cabelo e tatuado um 3º olho bem no meio da testa e, ainda assim, pretenda agir com naturalidade na presença de outras pessoas. Seríamos imediatamente notados e a nossa inocente tarefa de esconder pedaços da realidade havia de diluir-se no espaço em volta, tornando-se parte dele e, logo, respirável por olhares alheios.
Manter os nossos gestos ao mesmo nível das nossas intenções, fazer do movimento do corpo uma coisa mental e automática, não está ao alcance de qualquer um. A coisa exige uma cabeça descomunal, uma cabeça que possa armazenar suficiente espaço vazio.
Misturar o gesto com a reflexão abstracta, a impureza do gesto com a pureza da sua ausência, é a alquimia dos grandes espiões, o combustível que lhes alimenta a máquina da sobrevivência.
Segunda-feira, Fevereiro 27, 2012
Transparente
clicando nesta imagem poderás ler este excelentíssimo texto
Um gajo passa uns quantos dias sem publicar um post no blogue e, quando volta, sente-se como que transparente, a perder consistência, o corpo a diluir-se nas contravoltas do mundo virtual. É assim que me sinto, metade ausente, outra metade presente.
Gaguejo, hesito, não sei por onde começar a acabar o texto, dou pancadinhas no teclado, algo receoso.
Após esta conversa circular decido ir a direito, focando o discurso num assunto específico: o blogue Repórter à Solta, de Paulo Moura.
Quem lê o jornal Público deve conhecer bem este extraordinário cronista da magnificência absoluta deste nosso quotidiano banal e delirante que é o dia-a-dia.
O dia-a-dia de Paulo Moura tem muitas situações notáveis uma vez que ele percorre este mundo como se fosse o outro. Os seus textos não são "apenas" muito bem escritos. São mais coisas; coisas que se explicam muito melhor se o lermos.
Com a devida vénia e um agradecimento à mistura.
Quarta-feira, Fevereiro 22, 2012
O dia seguinte
Entrudo e Carnaval são coisas de gente pobre e, como são dias de virar o mundo às avessas, a gente ri, mas lá no fundo estamos a gritar tristeza. O Rei Momo é um palhaço (quererá isto dizer que somos governados por palhaços?) e os seus súbditos saltam como macacos, fazem esgares de macaco e guincham como macacos. São festejos onde os pobres têm direito a deitar para fora tudo o que lhes vai na alma e com isso enchem ruas e avenidas das mais destrambelhadas atitudes, em desfiles alucinados.
Quando a festarola chega ao fim, o mundo é devolvido à sua ordem natural. Os macacos do desfile voltam a vestir os seus fatos de gente verdadeira, os Reis de Facto regressam às cadeiras do poder e metem outra vez tudo nos eixos. O mundo não é aquela coisa distorcida e grotesca. É distorcido e grotesco mas de outra forma. A regra não é o samba nem a batucada. A alegria, obrigatória do Carnaval, volta a ser acidental, acontecendo de vez em quando.
Os homens e as mulheres que andam a limpar o chão da rua não estão mascarados de varredores.
Quando a festarola chega ao fim, o mundo é devolvido à sua ordem natural. Os macacos do desfile voltam a vestir os seus fatos de gente verdadeira, os Reis de Facto regressam às cadeiras do poder e metem outra vez tudo nos eixos. O mundo não é aquela coisa distorcida e grotesca. É distorcido e grotesco mas de outra forma. A regra não é o samba nem a batucada. A alegria, obrigatória do Carnaval, volta a ser acidental, acontecendo de vez em quando.
Os homens e as mulheres que andam a limpar o chão da rua não estão mascarados de varredores.
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