domingo, junho 25, 2017

Confusão

A exposição mediática é uma coisa monstruosa. Qualquer assunto que caia na malha apertada das redes dos pescadores de desgraças que distribuem o seu produto aos serviços noticiosos, corre o risco de crescer subitamente, uma lombriga transmutada em anaconda num abrir e fechar de olhos.

A catástrofe de Pedrógão Grande é mais um entre mil casos de consumo mediático, tão característicos da era digital e da TV por cabo.

Mesmo as questões mais graves, os momentos mais significativos, incham como um tumor e esvaziam-se de conteúdo quando submergidas por maremotos opinativos que tudo levam na enxurrada. É uma confusão, um fastio, um tédio infinito.

Consumimos a dor e miséria como se fossem iogurtes ou bebidas frescas numa tarde quente. Todos se aproveitam, muitos exploram, mas, no fim e lá no fundo, ninguém sai completamente limpo de uma cena destas: nem os que mostram, os que oferecem, nem os que vêem, os que consomem.

Tudo isto me parece extremamente complexo e me deixa extraordinariamente confuso.


terça-feira, junho 20, 2017

Mentira

Várias coisas me enojam ao ponto de fazer crescer em mim uma incómoda vontade de fazer mal, também ela nojenta a gastar. Não pretendo justificar a baixeza de certos impulsos que de tempos a tempos me animam, sou um bicho, assumo-o com plena consciência da minha animalidade; mas tenho de reconhecer que, se não fosse devidamente estimulada, uma certa besta imunda que trago cá dentro talvez nunca saísse do seu sono mais profundo.

À estupidez suporta-a a custo, à mentira premeditada, tal como à sonsice, não admito qualquer tipo de espaço por ínfimo que seja. Aqueles que mentem de forma deliberada espevitam o tal bicharoco imundo que habita as profundezas das minhas entranhas.

A mentira terá diferentes graus numa escala que lhe determine a gravidade, admito. Há mentiras inofensivas, mentiras piedosas, essas são suportáveis. Há até mentiras que são proferidas com uma profunda convicção de se estar a falar verdade. Essas podemos mesmo respeitar. Mas a ignorância não pode justificar todas as baboseiras que possamos engendrar.

Finalmente há as grandes mentiras. São essas que me tiram do sério e me transformam numa autêntica besta.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sábado, junho 17, 2017

Fantasmita

Diz-se que o cão é o melhor amigo do homem, que um livro é uma óptima companhia, coisas assim. Não me parece nada que estas ideias sejam sinceras, parece-me que são tentativas de espantar o mais melancólico dos fantasmas, aquele que ali está e que tem Solidão por apelido.

Quando passamos muito tempo sozinhos sentimos uma mordida no coração. Não é muito forte, não quer despedaçar-nos o músculo vital, não. É apenas assim mesmo, um fincar de dentes para não largar, uma coisinha teimosa ali pendurada, a tremelicar a cada batida, uma coisa bastante melancólica, até.

Pessoalmente, são mais as ocasiões em que opto por ficar só do que aquelas a que tal sou obrigado. Ainda que muito preze a companhia das letras, que não desdenhe a presença de um canídeo e ame  a Humanidade muito mais do que gosto de admitir, tenho por este bichito que mordisca o meu coração um carinho especial. Gosto deste fantasmita.

quinta-feira, junho 15, 2017

Metáfora

Cada vez menos sou capaz de acreditar que haja, de facto, uma separação de poderes na forma como interpretamos o sistema democrático no nosso país.

Os responsáveis pela elaboração das leis parecem estar profundamente comprometidos com as forças obscuras do vampirismo que tem a dentuça ferrada na jugular do Estado. É como ter raposas a guardar o galinheiro e um bando de furões como encarregados dos serviços de limpeza da gaiola onde pomos os nossos ovos. Anda a galinhada num virote, a levar dentadas, a perder penas, a sofrer de desorientação e com inveja da vizinha a quem apenas foi levada uma pernoca na última investida das bestas que zelam pelo nosso bem-estar.

Quando olho, por exemplo, para o que se passa no Brasil ou em Angola, não sinto qualquer tipo de alívio por estar enfiado neste galinheiro lusitano. Sinto uma espécie de solidariedade melancólica por perceber que eles têm leões no lugar das raposas e jacarés no lugar dos furões.

Vivemos um tempo em que as máscaras das bestas que nos devoram caem com facilidade. Vemos com nitidez a deformação hedionda dos seus focinhos, aspiramos o hálito fedorento que exalam enquanto cirandam ao redor das nossas vidinhas. E, no entanto, parecemos hipnotizados, imobilizados perante o poder encantatório das ilusões que nos oferecem para nos amolecer as carnes antes de lhes ferrarem o dente.

No meio desta merda toda Portugal não passa de metáfora, coisa pequenina. Mas, para mim, para os que vivem neste galinheiro, é coisa enorme por ser o lugar das nossas vidas.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...