quinta-feira, novembro 14, 2019

Fábula da Sabedoria

Sentados em redor da mesa rectangular, uns de frente para os outros, continuamos a debater o aspecto que tem o espaço vazio. A nossa percepção da coisa é recolhida através do olhar. Olhamos o espaço vazio com tanta força, tanta concentração (alguns chegam mesmo a semicerrar os olhos) que dificilmente nos conseguimos aperceber daquilo que estamos a ver realmente.

Estamos a ver o plano de fundo; vemo-lo desfocado, impreciso, no entanto procuramos explicação para aquilo que somos incapazes de compreender. Vale o esforço, falham os resultados, sobra-nos o mundo que temos.

Pobres daqueles que ignoram o vazio, são tomados por tolos.

As pessoas inteligentes não têm dúvidas e nunca (ou raramente) se enganam. Toda a hesitação é por elas resolvida recorrendo à sua inexcedível inteligência. A cada problema resolvido corresponde tempo ganho, dinheiro em caixa, riqueza adquirida e sabedoria... sabedoria... sabedoria!?

Entre o tolo e o inteligente ergue-se uma torre enorme e sem nome, paredes lisas como marfim, apenas uma abertura, uma frincha estreita que é a porta. Dentro da torre não há nada, apenas o tal vazio e, além do vazio, existe a ausência de luz, a mais completa escuridão. Na verdade esse vazio é percepcionado como sendo a essência do Universo pelas pessoas inteligentes que, por serem inteligentes, são consideradas sábias. A ausência de luz permite uma maior concentração aos sábios e provoca algum desconforto naqueles que são tolos.

As pessoas inteligentes, os sábios, afirmam ser capazes de compreender o espaço vazio (na verdade não vêem nada, muito menos no interior da torre) ao ponto de proporem modelos que traduzam essa ausência  em algo palpável, normalmente recorrendo a complexas conjugações de algarismos, números e símbolos cabalísticos. É coisa só para iniciados.

Na verdade esses sábios, pessoas inteligentes que conhecem a magia dos números, estão a construir modelos do interior de si próprios e não daquilo que julgam estar a ver. Quando muito conseguirão proporcionar um vislumbre da forma como percepcionam o plano de fundo, até mesmo aos tolos que manifestem interesse suficiente em tais assuntos. Poderemos sempre questionar o espelho como fez a Rainha Má.

Esta fábula não tem fim porque sempre que surge um sábio há, pelo menos, um tolo que o persegue ou admira ou tenta compreender. Sempre que um novo modelo é oferecido ao mundo que pretende explicar há uma multidão de basbaques prontos para tudo: acreditar, duvidar e refutar. Assim o processo é reiniciado, o vazio volta a merecer toda a atenção. História sem fim enquanto houver Humanidade.

Ao tolo cabe um estranho papel.

terça-feira, novembro 12, 2019

A vida como ela é

É um bocadinho assim-assim, incomoda-me! Ouvir uma coisa dessas e ficar impassível, sem rir ou sem barafustar... é complicado. Apetece-me logo dizer "pois, pois, conversa da treta, é o que é" ou algo do género que um gajo tem dificuldade em calar a revolta cá dentro, não vá o esforço provocar alguma hérnia. Mas, prontos, um gajo tem de comer e calar. É a sina do povo.

Um tipo come e cala, cala e come, come e cala, cala e come, não é vida que se deseje para ninguém quanto mais para si próprio. De tanto comer e calar um gajo aproxima-se do abismo da revolta e fica a pensar seriamente na possibilidade de saltar e cair lá bem no meio da luta. Mas hesita-se que uma pessoa tem medos, um gajo tem receios. Vai ficando a cirandar por ali, à beirinha do precipício. Mas saltar... já é outra conversa.

Um gajo tem os tomates para usar quando são necessários e aplicá-los naquilo para que servem. E quando se depara com uma injustiça daquelas ou uma incompetência como esta é difícil ficar impassível, sem rir ou sem barafustar... é complicado.


domingo, novembro 10, 2019

Amigos

Os amigos não são melhores nem piores. Como podemos ter um "pior amigo"?

Os amigos são tudo o que temos.

sábado, novembro 09, 2019

Eternidade

Tudo estava devidamente inerte. Era essa a ordem natural daquelas coisas que, imóveis, absorviam a luz, absorviam os sons, coisas que quase chegavam a respirar, como se estivessem vivas. Olhá-las era arriscar a sanidade. Ignorá-las era como perder a razão de viver. O que fazer, então?

Decidiu não fazer nada. Absolutamente nada. De olhos fechados avançou pela inóspita paisagem. Cada passo carregava um universo de possibilidades. Sabia que avançava (ou recuaria?) mas isso era apenas um detalhe sem a mínima importância.

À medida que caminhava, olhos fechados, coração apertado, apercebeu-se de uma estranha rigidez que lhe ia tolhendo os músculos, uma secura desconhecida na boca, quase sentia terror, mas porquê? Cada novo passo era mais pesado que o anterior, cada momento era mais longo, até que parou por completo, incapaz de avançar. Assim ficou.

A tentação foi mais forte que a razão, a voz que lhe impunha o fechamento das pálpebras hesitou por um momento e ele abriu-as revelando o extenso vale de areia azul. Também ele era, agora, uma daquelas coisas. Estático compreendeu que assim permaneceria até que o tempo lhe dissolvesse a vida.

sexta-feira, novembro 08, 2019

Melancolia

Na escuridão o mundo é outra coisa. Sem luz não há cores e, sem cores, as coisas são tão diferentes! Na escuridão, a menos que sejas cego, reina a dúvida; a escuridão é o império da incerteza. Em terra de cegos a escuridão é clareza de espírito?

Ah, as palavras, as coisas estúpidas que elas nos obrigam a dizer.

Uma estranha melancolia percorre-me o peito. É como uma brisa soprada dos lados do deserto, um suave sopro que passeia dentro de mim com uma indolência insultuosa. Tento ignorá-la mas nada, não sou capaz. Afinal ela passeia-se lá muito dentro de mim, no fundo do meu coração, na escuridão inacessível do meu ser. E, na escuridão, o mundo é outra coisa.

Sorrio na direcção do meu interlocutor. Ele continua a falar. Apercebo-me de que não se havia interrompido. As palavras brotando da sua boca como água de uma fonte. Compreendo que lhe basta o meu sorriso, um ou outro gesto de assentimento que lhe garanta haver da minha parte alguma conexão com o seu discurso. Fraca garantia o satisfaz.

E é assim: palavras e mais palavras, sons que ecoam na realidade dos objectos circundantes e me devolvem a verdade distorcida; uma verdade que me enforma e auxilia na construção do mundo tal como julgo vê-lo. Até do meu olhar eu já duvido pois sei bem que quando a luz se vai e se instala a escuridão o mundo é outra coisa.

quinta-feira, novembro 07, 2019

Um búzio

Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava. Um búzio de dimensão generosa parecia aguardá-lo mais adiante; estático, como se se banhasse, ora visível ora escondido na espuma que o mar ia babando sobre a praia. O búzio parecia chamá-lo.

Respondendo ao apelo avançou, baixou-se, a perna esquerda esticada, em equilíbrio sobre a flexão da perna direita, apanhou o búzio. Tomou-lhe o peso, sentiu-lhe a textura e encostou-o ao ouvido para ouvir a voz do mar (coisa estúpida de se fazer ali, com os pés dentro de água e o mar todo a falar-lhe tão perto).

Mas o que ouviu foi estranho, foi como um grito, não foi aquele murmúrio surdo que esperava, a voz habitual dos búzios, nada disso, foi uma coisa aguda, um som que lhe alfinetou a alma, que o inquietou, que lhe causou um arrepio tremendo. Olhou espantado a abertura do búzio que lhe havia largado dentro do ouvido aquele som horripilante.

Atirou o búzio para longe, restituindo ao mar aquele segredo estridente. Ele que ficasse com aquilo, que raio! Voltando as costas às ondas continuou a caminhar. Os dedos dos pés na areia húmida traziam-lhe recordações de infância a cada passo que dava.

quarta-feira, novembro 06, 2019

Discurso directo

Nunca te aconteceu, amável leitor, sentires que aquilo que tens para dizer é urgente e verdadeiro mas que, quando o disseres, nem todos os que te ouvirem vão ficar agradados? É claro que sim, que já te aconteceu, faz parte da vida de todos nós. É a opção entre falar ou ficar calado.

Agora imagina um dado adicional; aqueles que te vão ouvir de nariz torcido têm poder sobre ti. Aqueles que vão sentir as tuas palavras como alfinetes espetados debaixo das unhas podem decidir sobre assuntos que te interessam e podem impedir-te de vires a ser um pouco mais feliz (ou menos infeliz, é como naquela cena do copo meio cheio ou meio vazio).

Vão dizer-te que não se morde a mão que te dá de comer. Pessoalmente respondo: depende.