domingo, maio 31, 2020

O regresso dos fantasmas

Fazer regressar fantasmas do passado, ainda que fantasmas simpáticos tipo Gasparzinho, pode não ser a melhor das terapias em tempo de desorientação e ansiedade. Ainda assim, que se lixe, venham eles! E eles lá vêem, regressam informes ou com aspectos diferentes daqueles que recordávamos.

Um paira dois palmos acima do chão, é um amontoado de carne, pêlos, músculos expostos, tudo amalgamado sem tino nem propósito; outro arrasta uma perna de frango ensanguentada no lugar que deveria ostentar um belo pé esculpido à maneira de Fídias e tem uma cabeçorra de meter medo ao susto. Um terceiro é apenas sombra, apenas ausência, este é, de todos, o mais angustiante.

Vão passando como num desfile de moda tenebroso. Alguns vão ficando por ali, encostados aos cantos, colados ao tecto, olhares vazios, bocas fechadas, outros não mostram vontade de ficar e dirigem-se para lá dos limites da realidade. Este mundo não é para eles.

quinta-feira, maio 28, 2020

Um momento

Havia ali uns gajos, uns músicos sentados na penumbra do palco, a imitarem a morte na forma como retorciam os seus instrumentos sonolentos.

Não consta que alguém tivesse falecido ao observar a função. Diz-se que alguns estiveram lá perto mas, naquela noite, só morreram doentes no hospital que ficava num outro quarteirão.

Cromo

Pode parecer snobismo meu. Decerto que é. No fundo sou um snob de merda. Não suporto a indiferença alheia e armo-me em campeão. Imagino-me vencedor eterno do campeonato da inteligência. Não tenho rival à altura. Venço sempre.

Leio o que outros escrevem: (bocejo) é que é só banalidade! Que frouxidão argumentativa, que tédio lexical, que incongruência absoluta naquela vírgula, naquele ponto que não poderia ser final. De forma alguma. Escrevo muito melhor.

Vejo o que outros desenham. San-to-de-us! Gatafunhos, tremideiras, hesitações, cromatismo primário (não no conjunto das cores aplicadas mas na forma como são conjugadas). Enfim, cambada de amadores ineptos. Imbecis que se imaginam algo que nunca virão a ser. Nem sonham.

Poderia continuar. A lista das maravilhas de que sou capaz é imensa (não sou tão vaidoso que a considere infinita) e não há quem se me compare. Mas fico-me por aqui. Já dei um cheirinho do perfume requintado que é o meu ser, o resto imaginá-lo-ias se fosses capaz de compreender a sombra com que cubro a tua existência miserável.

Um dia erguer-me-ão uma estátua.

domingo, maio 24, 2020

Desenho e pintura

Muita reflexão também não faz bem a ninguém. Ainda menos bem fará se for espicaçada por uma situação de confinamento. Uma gajo metido entre paredes contra vontade deveria evitar muita meditação sobre as questões habituais: "quem sou eu" (ou "o que sou eu"), "o que faço aqui" (pois, lá está, esta pergunta refere-se ao mundo, eventualmente ao universo, não à sala de estar ou ao quarto de banho) e, last but not least, "para onde vou" (vou para o quarto, vou para a cozinha)? Como facilmente se percebe estas questões, nos dias que ainda correm, estão todas armadilhadas, trazem coletes explosivos a envolvê-las e podem rebentar inadvertidamente.

Vivemos tempos propícios ao reforço da saúde dos macaquinhos que normalmente nos habitam o sótão. Da parte que me toca tenho evitado o espelho. Não é que seja pessoa assídua na contemplação da minha própria fachada, não é meu costume mirar a paisagem do corpo que habito, mas tenho tido um receio acrescido de olhar para os meus olhos. Dias há que os sinto mortiços, caídos para dentro e, verdade seja dita, prefiro poupar-me a semelhante espectáculo.

Estranhamente a leitura também não me tem puxado muita atenção. No início desta coisa pensei que iria ler e ler e ler, mas não. Tenho lido pouco.

Resumindo, a vida vai-se arrastando. A única coisa que me vai valendo, para lá da proximidade da família mais chegada (ah, como amo a minha família!) é o desenho e a pintura.  "Desenho e pintura?" dizes tu, "Isso são duas coisas!" Não são. Desenho e pintura, quando vêm juntos,são uma e a mesma coisa. E é essa coisa que me tem valido e ajudado a manter distraídos os macaquinhos e o sótão razoavelmente limpo.

sexta-feira, maio 22, 2020

Lição leonina

E é assim. Anuncia-se uma nova normalidade para os tempos futuros. Que faremos desta (futura) velha anormalidade? Iremos nós apagar o isolamento voluntário, transformá-lo em isolamento forçado ou iremos simplesmente aguardar que tudo se dissolva nas voltas do tempo? O tempo tem peso? O tempo ocupa espaço?

Já se nota o desafogo. As pessoas andam com fome de rua, estão capazes de comer pedras da calçada. Já começamos a cagar para o confinamento, o confinamento que se foda! Ansiosos por fazer do presente um qualquer passado longínquo fingimos nunca termos acreditado na nossa própria morte às mãos do novo coronavírus (até porque mãos são coisa que ele não tem).

E é assim, começamos a sentir aquela coragem que nos nasce no peito quando o medo passa e ganhamos uma certa sobranceria, quando o perigo passou somos todos uns valentes. Torço o nariz a tudo isto. Sinto-me como os porquinhos da história quando o lobo aparece vindo do nada depois de termos imaginado que regressara em definitivo à profundeza perdida da floresta (estou a inventar à pressão a história dos 3 porquinhos).

Bem vistas as coisas havemos todos de esticar o pernil, a nossa civilização baterá a bota, tal como outras bateram a sandália ou lá o que calçavam os que as ergueram das cinzas da civilização anterior. É o ciclo da vida. Aprende-se no Rei Leão.

domingo, maio 17, 2020

Normalidade suicida

Veio o calor, veio o sol, regressou uma certa descontracção. As notícias sobre os números da pandemia começam a enfraquecer o temor da populaça. O primeiro ministro dá o exemplo e passeia com a sua mais-que-tudo pelas lojas de Lisboa fazendo compras, que é preciso espevitar a economia. Tudo isto com máscara e distância social conveniente.

Os que sempre rejeitaram o confinamento olham para tudo isto com um esgar de desdém, os que viveram convictamente o isolamento vão espreitando, receosos, a ver no que isto dá. Acontece em Portugal e um pouco por toda a Europa. O mundo inteiro vai aquecendo os motores. A Natureza, se tiver consciência, há-de estar a lamentar o fim anunciado deste tempo de descanso que ainda vive e vai-se preparando para o regresso em força de todas as formas de agressão habituais.

É o lento regresso à normalidade suicida.

quinta-feira, maio 14, 2020

Paradisíaca pasmaceira

Reflectindo um pouco sobre a imagem canónica do Paraíso, o Jardim de Éden ou das Delícias Terrenas, verificamos que é um lugar pouco apetecível para os potenciais novos crentes, habitantes do século XXI.

A Árvore da Vida, a nascente dos 4 rios, o sossego total (uma inesperada muralha de fogo em toda a volta) não são grandes cartões de visita. Já a espectacular polícia angelical, constituída por querubins armados com espadas flamejantes e uma divindade que topa tudo e não deixa escapar um pintelho (como foi possível o Pecado Original com este Big Brother divino?) não incomodará por aí além quem está habituado a publicar notícia constante de cada peidinho que dá nas redes sociais.

O paraíso do futuro terá, obrigatoriamente, acesso livre e ilimitado a uma qualquer rede que ligue os bem-aventurados. Caso contrário, a promessa de eterna pasmaceira que tanto fascinou gerações antepassadas, não será o suficiente para encaminhar renovados rebanhos em direcção à porta da igreja, redil das almas.

Pasmaceira? Sim. Mas pasmaceira em rede. Para isolamento bem basta o confinamento pandémico.

Noite sem estrelas

Enxertar rebentos da realidade numa planta inexistente: é essa a actividade do artista, jardineiro dos sonhos no magnífico jardim do Marajá.
Nuvens que parecem impossíveis são recortadas no céu cinzento escuro. Um gajo não sente medo até começar a pensar.
Uma trela é terrível símbolo de domesticação. Também o são o chicote, a jaula e a gaiolinha dourada onde morrem pássaros cantores.
O verme nocturno rasteja até junto dos meus pés mas não chega a tocar-me.
Agora durmo.
Mais logo sonharei.

terça-feira, maio 12, 2020

Coração assassino

Uma família enfiada numa salinha esconsa reúne-se para celebrar o aniversário de um dos seus mas, desafortunadamente, esse dia coincide com a morte de um dos familiares (aquele que nunca mais chegava). A data passa a marcar um dia em que sempre surgem sentimentos contraditórios. Princípio e fim, nascimento e morte, traçados a ponto de cruz pela megera do destino.

A euforia do encontro entre pessoas que já se não viam vai para quase um ano é incomodada por uma bruta tristeza que, por mais que tentem, não conseguem disfarçar. Os gestos destas pessoas são como  gestos de árvores de uma floresta plantada por um deus louco que se tenha esquecido de ensinar ao vento o modo correcto como devia soprar.

A euforia plasma-se na mais profunda prostração, sorrisos transmutados em lentos esgares de tristeza e desconforto. Chorar - chorar a rir e chorar de dor. O coração dispara em todos os sentidos. Coração assassino.