terça-feira, dezembro 29, 2015

Fim de ano

2015 vai dando os últimos suspiros. Estes dias finais são estranhos. É como se  o calendário tivesse poderes mágicos, como se os dias obedecessem a números alinhados num papelito. Nada mais errado. São dias como os outros.

Morreram-me dois amigos nestes dias. Inesperadamente, foram-se como o vento. Desapareceram. 2015 acaba negro e frio. Para o António e para o Marcelino foi o fim da vida. O ano acaba negro e frio.

quarta-feira, dezembro 23, 2015

Carta de agradecimento

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica”; finalmente Cavaco conseguiu produzir uma ideia com alguma substância. Como é costume, vou tentar perceber o que quer ele dizer com isto.

Parece-me evidente que Cavaco Silva pretende dizer-nos que a realidade é constituída em partes iguais por economia e finança, sistema bancário e sistema monetário. Esta fórmula da realidade esmaga qualquer tentativa de fazer com que a ideologia, seja ela qual for, possa sair da sua Caixa de Pandora e venha desorientar as opções de vida das pessoas. Cavaco explica-nos algo que ele já interiorizou há muito, muito tempo: a realidade materializa-se em números e tabelas, fórmulas de cálculo e gráficos com setinhas. Tudo o mais são contos infantis, como disse um dia Pedro Passos Coelho.

Cavaco e Passos conhecem bem a realidade. Graças a eles a economia e a finança, o sistema bancário e o orçamento de estado têm sido, no nosso país, protegidos dos ataques descabelados da ideologia, mantendo-se ancorados na firmeza do mundo verdadeiro. Graças a eles a realidade é o que todos, agora, sabemos.

“A realidade acaba sempre por derrotar a governação ideológica” pode muito bem constituir um precioso legado que Cavaco nos deixa antes de se retirar da vida política; ele que sempre desprezou os políticos e amou, apenas, os economistas, os empresários corajosos e os gestores bancários; acima destes apenas Deus, Nosso Senhor. Não esqueçamos este ensinamento luminoso vindo de um homem presciente que nunca tinha dúvidas e raramente se enganava, um homem que não se importa de ser o Sr. Silva, este estadista visionário, modesto e imbuído de um abnegado espírito de missão que o levou a oferecer os melhores anos da sua vida à causa pública.

Termino esta carta agradecendo a Cavaco tudo que ele fez por nós: a boa governação, a honestidade acima de tudo, a sua extraordinária capacidade para entender a realidade, que tantos dissabores poupou ao bom povo português, que, com um fervor quase religioso, repetidamente lhe pôs nas mãos a bússola e o leme da Nação.


Obrigado Cavaco. Bom Natal. Depois podes ir-te embora de vez. Não precisas de voltar.

domingo, dezembro 20, 2015

Salvação

Anda toda a gente em busca do caminho da salvação de alguma coisa.
Uns procuram a salvação da alma, outros a salvação das suas economias, outros ainda desejam ardentemente salvar o que resta do dia que estão a viver, e assim por diante.

A ânsia de salvar qualquer coisinha faz-nos desejar que Deus esteja connosco, que Deus nos ame e nos apoie, gostamos de pensar que somos justos e que os nossos anseios sejam puros dentro dos limites que o nosso imaginário impõe à realidade.

Quando digo Deus, estou a referir-me a algo em que acreditamos sinceramente (ou nem por isso), os tais limites éticos, estéticos ou de outra natureza, com que embrulhamos a vida que oferecemos ao nosso corpo e à nossa alma.

A Fé não necessita obrigatoriamente de uma figura barbuda montada numa nuvem branquíssima, apoiada por uma legião de anjos especializados em diferentes tarefas. Deus assume as formas mais variadas.

quinta-feira, dezembro 17, 2015

Uma estranha figura

Era um gajo com a pele muito em cima dos ossos, magro, com uma cor amarelada, parecia talhado em cêra. Tinha o cabelo encrespado, puxado para trás, como se um vento maligno lhe soprasse incessantemente na testa. Os olhos muito abertos, como os de um pássaro acabado de sair do ovo, saltavam de jornal em jornal, no escaparate da tabacaria, junto ao cais de embarque.
Que estranha figura, pendurada num esqueleto alto e recurvado. Balançava o corpo perigosamente, podia desabar a qualquer momento. Que estranha figura!

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Dia sem princípio (nem fim)

Há dias assim, dias em que estar acordado parece resultar no prolongamento do sono, na materialização do pesadelo (que até começara por ser um sonho com muitos tons de rosa), pesadelo que agora se interrompe. Olá, bom dia.

O café parece não ser mais que um vago sabor no confins do céu da boca, o jornal um dejà vu, os passos na escadaria em direcção à rua ecoam na memória, as frases que crescem na ponta dos dedos são pomposas e não aguentam uma questão que as ponha em causa. Mesmo que seja uma questão de merda, tipo: que merda é esta?

Há dias assim, dias que parecem nunca mais começar, dias em que as coisas são chatas porque não há volta a dar-lhes, dias que, caso cheguem ao fim, será lá mais para o fim-do-mundo.

terça-feira, dezembro 08, 2015

Sonho de uma manhã de Inverno

Por vezes penso: "sonham as coisas mortas?"; se algumas das vivas sonham com a morte, será que as mortas sonham com a vida? Uma pedra que gostasse de ser corvo ou um um grão de areia que desejasse tanto vir a ser presidente da república que havia de se transformar em montanha.

Lembro-me bem de ficar a olhar muito, muito tempo, a fitar calhaus que pareciam outras coisas, coisas escondidas dentro da rigidez da pedra, mas que nunca se revelavam completamente. Se eram coisas mais verdadeiras que a minha imaginação, então eram mais espertas que os meus olhos e guardavam-se, quietas, lá no fundo daquilo que realmente eram. Nunca as cheguei a ver, só as imaginei.

Nos dias que correm encontro, de vez em quando, seres fantásticos, saídos nem sei bem de onde. Aparecem assim, vindos do nada; são visitas que não gostam de chá nem têm tempo para se sentarem à conversa. Serão estes seres desconcertantes aqueles que se escondiam no dorso e no fundo dos calhaus da minha infância? Seres que voavam nas alturas dos pinheiros com o sol a doirar-lhes as formas indistintas?

O que interessa isso? Que interesse pode ter quem eles são? Gosto de pensar que são os sonhos das coisa mortas que ganharam vida. E gosto de pensar que sou eu quem lhes dá essa vida que ganharam, eu, pequeno deus, feito homem na minha imaginação.

quarta-feira, dezembro 02, 2015

O meu problema com a direita

O meu problema com a direita tem diversas fontes de alimentação. Por exemplo, causa-me problemas a postura dos defensores da troika Passos-Portas-Cavaco quando confrontados com o governo de Costa. Passada a lamentação patética da suposta ilegitimidade do novo governo, o discurso dos simpatizantes da PàF alerta-nos para uma putativa incapacidade da esquerda para governar o país. Num tom que oscila entre o alarmista e o jocoso, sugerem que, com Costa ao leme, a Nau Catrineta que é a nação portuguesa irá encalhar e naufragar, levada nas vagas alterosas do mar da TINA (ou o NHA- Não Há Alternativa, como designou João Miguel Tavares o mundo impiedoso em que vivemos). 

Para que este alerta pudesse ter alguma validade seria necessário que o governo da troika Passos-Portas-Cavaco fosse minimamente sério ou minimamente competente. 

À medida que os dias vão passando e a troika Passos-Portas-Cavaco vai perdendo o pulso sobre as notícias que chegam até nós, percebemos que o seu governo não era uma coisa nem outra. Percebemos como esse governo se assemelhava mais a coisa nenhuma, que foi uma treta; que não há IVA para devolver, que o desemprego afinal não definha, que a economia abranda… despida de propaganda a troika Passos-Portas-Cavaco revela-se escanzelada, feia e repulsiva, até para alguns dos direitistas mais encartados.

O meu problema com a direita é também alimentado pela constatação de que a troika Passos-Portas-Cavaco mais não foi (mais não é) que um instrumento para eternizar as desigualdades sociais, contribuindo mesmo para a sua agudização. Veja-se a forma como as desigualdades entre os mais ricos e os mais pobres se vêm acentuando nestes tempos de crise, como se nacionalizaram os prejuízos e se privatizaram os lucros das empresas públicas. Eu sei que este processo vampírico tem tido a colaboração do Partido Socialista. É precisamente por isso que a solução governativa agora encontrada traz consigo a esperança de que as coisas sofram uma inversão acentuada. Com o Bloco e o PC à perna, o PS terá de se comportar como o partido de esquerda que afirma ser e não como o partido de direita que tem sido, limitando o apetite dos seus clientes quando se aproximam da gamela do poder e açaimando as feras mais gulosas.


O meu problema com a direita tem também a ver com a mania de que acreditar na Utopia é o mesmo que acreditar num conto de crianças. Erro. A Utopia é um conto para adultos, da autoria de Thomas More que, tal como o Capuchinho Vermelho alerta as meninas para os perigos da pedofilia, nos alerta, a nós “cidadões”, para os perigos da desigualdade na divisão da riqueza. 

Finalmente, o meu problema com a direita da troika Passos-Portas-Cavaco é ela ser tão sobranceira, rasteira e ignorante, que só é capaz de pensar em economia e, ainda por cima, erradamente.

sexta-feira, novembro 27, 2015

Dúvida

Há pessoas que nunca conseguem deixar de ser tristes. Outras são más, todos os dias das suas vidas. Outras são tão boazinhas que acabam com um rótulo de "santo" colado na testa. A maioria é mistura destas três com outras tantas que atrás não mencionei.

Somos o que somos, o que fazemos de nós, o que outros de nós fazem. Andamos uma vida inteira embrulhados nos dias que vivemos, a tentar encontrar um motivo para que o tempo a rodar não nos deixe tontos nem imbecis nem demasiado qualquer coisa que não nos está a passar pela cabeça.

Há espaço para todos... quero dizer, para quase todos, porque, para assassinos não encontro razão suficiente que possa justificar o ar que respiram.

Que fazer com um assassino? Esta dúvida haverá de roer a minha humanidade durante todos os dias que levar a arrastar as botas pelas costas deste mundo.




domingo, novembro 22, 2015

Relevância individual

Parece-me que a aspiração máxima da maioria das pessoas é sentirem-se relevantes. Não precisam de sentir-se muito relevantes, um bocadinho relevantes já é bom. Algo próximo dos célebres "5 minutos de fama" que Warhol sonhava ser o futuro de cada um de nós, numa sociedade hipermediatizada.

A senhora que fala da vida da vizinha do rés-do-chão apenas quer sentir-se relevante no dia da vizinha do 2º andar, que a escuta muito interessada na história. Tão interessada se mostra a senhora do 2º andar que a outra se sente impelida a juntar uns pozinhos de imaginação delirante e a pobre vizinha do rés-do-chão ganha contornos de monstro estranho. Mais tarde haverá espaço para algum remorso mas isso... só mais tarde.

O líder que ganha o respeito do seus seguidores por ter mostrado músculo e vontade de agir sente que, de súbito, a sua relevância cresceu de modo extraordinário. Agora não há como voltar atrás sem perder relevância. Assim, enebriado pelo amor que sente desprender-se dos que o admiram, o líder avança cada vez mais depressa em direcção ao que poderá vir a ser um desastre. E depois? O seu desejo de ganhar mais e mais relevância aos olhos dos que esperam dele o mundo, a lua e mais qualquer coisa... essa coisa que deitará tudo a perder, faz com que ele lidere com maior empenho ainda.

Os exemplos iriam por aí abaixo mas bastam a coscuvilheira e o líder carismático para justificarem este meu pensamento matinal: a maioria das pessoas só pretende sentir-se um pouco relevante. Não precisa de sentir-se muito relevante, um pouco basta.

quarta-feira, novembro 18, 2015

Coisas que batem

Hoje apetecia-me ter opinião sobre qualquer coisa assim, qualquer coisa que normalmente não me ocupe muito o espírito. Queria saber dizer coisas inteligentes sobre o pão alentejano ou reflectir com critério sobre as poças de água depois da chuva cair.

Gostava de poder limpar a porcaria que me vem à cabeça como uma enxurrada a empurrar, de forma imparável, incontrolável, a empurrar o meu cérebro para o mar; um mar terrível, mar morto e repleto de cadáveres de seres que devia albergar mas não consegue evitar matar.

Hoje não rejeitaria a possibilidade de discutir futebol com alguém que não seja capaz de pensar para lá da biqueira das botas. Se a oportunidade se me oferecer vou agradecer essa graça a Deus, Nosso Senhor. Beber uma cerveja fresca e falar de futebol com pessoas menos inteligentes do que eu, é uma aspiração, um projecto de vida como outro qualquer.

Gostava de poder evitar ser assaltado por imagens e ideias que me querem roubar o sossego e deixar-me mais pobre de felicidade. Hoje sinto-me avaro de felicidade. Não quero oferecê-la, não quero perdê-la, hoje quero guardá-la para mim. Quero sentir-me feliz mas... lá está a tal imagem, a tal ideia, o tal facto, a bater, a bater, a bater na porta do meu coração, a bater na porta do meu cérebro, a bater na minha vontade, a bater, a bater, a bater.

sábado, outubro 31, 2015

Rastejantes

Há uma paz podre que alimenta larvas e insectos rastejantes. Esta bicharada, acostumada a encher a boca com os detritos do costume, agita-se, patinhas nervosas, antenas a espadanar, barrigas a raspar o soalho em rápidos movimentos curvilíneos, sempre que tem a sensação de que virá alguém limpar a porcaria de que se alimentam.

O problema, argumentam estes seres rastejantes, é que ninguém poderá garantir que o corpo decrépito e apodrecido que lhes garante sustento, venha a ser substituído por outra coisa que os mantenha vivos e em ascenção permanente. O mundo húmido e penumbroso no qual progridem está posto em causa. Não admitem luz que os venha a repelir.

Assim se passam os dias.

sexta-feira, outubro 30, 2015

Esperança

Há quem deposite todas as suas esperanças em coisas que não valem nada. Os desesperados, os miseráveis, os ingénuos, os frágeis e os mais frágeis entre os mais frágeis, aqueles a quem a sorte e os poderosos não reconhecem capacidades para serem considerados seres humanos, precisam de algo ou de alguém que lhes possa dar um pouco de esperança.


domingo, setembro 06, 2015

Peito feito

É na próxima 6ª feira, 11 de Setembro, data de má memória para este mundo que tento meter dentro das coisas que faço. É na próxima 6ª feira que tenho marcada a inauguração de uma exposição com trabalhos da minha autoria. Pinturas, fotomontagens em photoshop, desenhos, colagens, objectos que criei ao longo de anos. As datas não interessam para nada.

O local é o foyer do Teatro Estúdio António Assunção, em Almada. Não é um espaço particularmente nobre. Mas eu também não sou nenhum princípe das artes. Quero que se foda. Só quero apresentar algo que seja digno de ser apresentado, que me faça justiça, que mostre como sou um gajo empenhado nesta merda.

Mas porquê? Porque faço a exposição? Porque sou um gajo empenhado nesta merda? As perguntas são fáceis, as respostas nem por isso. Será tudo isto fruto de uma mera e intensa vaidade?  Se me ponho a matutar demasiado nestas questões traiçoeiras acabo agarrado à cabeça, cotovelos apoiados na mesa e olhos fechados para não ver nada que esteja fora da minha cabeça.  O equivalente ao mito da avestruz com a cabeça enterrada na areia.

Vou espalhando objectos pelo atelier. Ora sinto uma forte convicção, ora sou amolecido por uma sensação merdosa de que tudo isto não serve para nada. Mas as coisas são o que são e os compromissos, para mim, são tudo. Comprometi-me a montar esta exposição. Portanto está tudo dito.

Não há tempo para dúvidas nem para questões retóricas nem para filosofias covardes. Agora trata-se de seleccionar e montar os objectos. É isto que eu vou fazer. O resto... o resto logo se vê.

terça-feira, setembro 01, 2015

O Arco da Governação

Em Portugal existe uma coisa terrível chamada “arco da governação” que é um artefacto transformador de políticos. O “arco da governação” funciona como uma espécie de portal entre o mundo das boas intenções e o universo da política pura e dura. Ao atravessar este arco, pessoas honestas são, quase sempre, transformadas em aleijões morais. Outros (Miguel Relvas ou José Sócrates, por exemplo) não sofrem a mínima alteração.

Quando um político atravessa o “arco da governação” e dá por si naquele instável universo, onde Não Há Alternativas (NHA), faz coisas extraordinárias tal como Kal- El debaixo de um sol amarelo se transforma no Super-Homem. Lembremos quando “Telmo Correia assinou cerca de três centenas de despachos como ministro do Turismo na madrugada do dia em que o novo executivo, liderado por José Sócrates, foi empossado (…) (Público,3/2/2008). Já refeito deste assomo de actividade frenética, Telmo é hoje um homem ponderado e recuperado para a boa governação. Podemos vê-lo com frequência a perorar sobre os mais variados assuntos num canal de TV noticioso. 

Tal como Bagão Félix que teve um momento de vertigem que levou “(…) Souto Moura [a encarregar o procurador-geral adjunto Azevedo Maia] de esclarecer os contornos do negócio (a adjudicação do Siresp) que os ex-ministros da Administração Interna e das Finanças, Daniel Sanches e Bagão Félix, respectivamente, assinaram três dias após as eleições legislativas de 2005. (Público, 14 /11/2006). 

Quem vê, nos dias que passam, Bagão Félix a emitir as suas pias opiniões no tal canal de TV ou aqui no Público, tem dificuldade em compreender que raio de coisa lhe terá passado pela cabeça naquela época conturbada para ter adjudicado o negócio, em Fevereiro de 2005, por 538 milhões de euros. É certo que por lá andavam metidos Dias Loureiro e Oliveira e Costa, à época “pessoas de bem”, conforme nos assegurava Cavaco e Silva, mas… valeu-nos o então novel ministro da Administração Interna, António Costa, que, recorrendo aos poderes adquiridos ao transpor o “arco da governação”, acabou por adjudicar o “Siresp ao único consórcio candidato, retirando algumas funcionalidades ao sistema, que desta vez custou 485,5 milhões de euros (Público, 14 /11/2006); ah, valente! Ainda assim, o Estado português acabou com um ruinoso negócio em mãos Investindo “(…) cinco vezes mais do que poderia ter gasto se tivesse optado por outro modelo técnico e financeiro.” (Público,2/6/2008) negócio que ainda hoje andamos a pagar com língua de palmo.

Há tantos outros casos que poderíamos recordar (oh, o clássico das 61 mil fotocópias, o aeroporto no deserto “jamais”, a Lusoponte…) mas penso que fica provado que o “arco da governação” é uma armadilha mortal para a honestidade dos animais políticos. 

sexta-feira, agosto 28, 2015

Zelo

Raras vezes a expressão “greve de zelo” foi aplicada com tão grande propriedade como na greve que os sindicatos da PSP puseram recentemente em prática, protestando contra a lentidão do governo em lidar com as suas reivindicações de classe. 

Os sindicalistas explicaram que as forças policiais iriam, durante a greve, adoptar uma atitude pedagógica em contraste com a habitual atitude repressiva, esperando, desta forma, pressionar o governo no sentido de satisfazer as suas pretensões. Ou seja, por um curto período de tempo, as forças policiais irão zelar, de facto, pelo cumprimento das leis, suspendendo a sua implacável prática da caça à multa e cassetete no toutiço, com que normalmente reprimem os cidadãos no quotidiano.

Mário Andrade, presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia afirmou (conforme a capa de “O Polícia”, boletim informativo do sindicato, de Dezembro de 2014) “Os direitos dos polícias estão acima de tudo!”. Isto é muito grave e contraria nitidamente a afirmação de que a “PSP tem por missão assegurar a legalidade democrática, garantir a segurança interna e os direitos dos cidadãos, nos termos da Constituição e da lei” conforme podemos ler no site da instituição. Qual é, afinal, o papel da PSP?

Bem sei que estamos longe dos polícias analfabetos, fardados de cinzento, com os botões de latão a saltar-lhes na pança e os bonés encarrapitados no alto de cabecinhas malévolas, como era de lei nos tempos da “outra senhora”. Hoje, a formação da maioria dos agentes, fardados de azul e com elegantes bonés tipo baseball, é mais do que suficiente para que tenham uma atitude cívica condizente com o que se espera de uma força de segurança numa sociedade democrática. No entanto, este episódio aparentemente inócuo, mostra bem que, entre o que se diz e o que se pratica, há um enorme gato escondido com muito mais do que o rabo de fora.

É por estas e por outras que, apesar de me considerar um cidadão respeitador da lei e de não ter razões para recear contactos com as forças policiais, ainda hoje, quando vejo um polícia fardado, não consigo evitar que a primeira coisa que me vem à cabeça seja a palavra “bófia”.


A polícia deveria marcar uma eterna greve de zelo.

quinta-feira, agosto 20, 2015

Ruídos

Há uma actividade para entreter criancinhas pequenas no bar da FNAC. Estou  sentado, de costas para a sala, bebendo um café, lendo o jornal, tento abstrair-me um pouco, concentrar-me na leitura, mas...

Há qualquer coisa que incomoda, um ruído constante, é música! Música infantil a ser debitada incessantemente pelas (potentes) colunas de som suspensas do tecto. De vez em quando soa um alarme estridente que fica a ganir por um minuto ou dois. Depois cala-se. Mais adiante volta a gritar.

Olho por sobre o ombro. Os petizes lá estão, a pintar, a desenhar, concentrados nas suas actividades. Os pais vigiam. Alguns adultos conversam, outros, como eu, tentam abstrair-se mas, na verdade, o que esperamos nós de um lugar assim?

Levanto-me e abandono aquele infernozinho. Nos corredores do centro comercial há música ambiente misturada no burburinho provocado pelas centenas (serão milhares?) de pessoas que por ali andam. Vou ao WC e a música é outra e soa mais alto. Nas lojas há mais música, no parque de estacionamento subterrâneo: música. Música, música, música! Não sobra um momento que seja em que não haja som amplificado a perfurar os tímpanos dos que por ali se aventuram.

De que me queixo? Alguém me obrigou a ir ali? Claro que não. Fui porque quis ir. Mas que raio se passa para haver tanta música, tanto ruído ininterrupto? Fico com a sensação de que alguém pretende que me distraia de mim próprio. Talvez seja isso. Não sei.

sábado, agosto 15, 2015

Genuinidade democrática


Qualquer cidadão de qualquer nacionalidade é elegível para obter o “golden visa”, basta-lhe ter dinheiro suficiente para pôr a salivar certos agentes económicos e as portas da Europa ser-lhe-ão abertas de par em par. Entretanto, no Mar Mediterrâneo, continuam a naufragar outros aspirantes a habitar este espaço genuinamente democrático que é a comunidade europeia. É tudo uma questão de capacidade de investimento. 

Os que morrem no Nosso Mar investiram tudo o que tinham para comprar o seu lugar miserável num bote mortífero, às mãos de traficantes sem escrúpulos. Os que compram moradias de luxo negoceiam com outro género de traficantes, nem por isso mais escrupulosos do que os outros mas os riscos que correm são praticamente nulos. 

É tudo uma questão de quantidade. Se forem podres de ricos, os aspirantes a um lugar deste lado do mar não encontram obstáculos. Se forem pobres têm assegurada uma aventura inesquecível: ondas, enjoo, muros, arames farpados, centros de detenção, anilhas e pulseiras, fome medo e, caso sobrevivam, talvez consigam um buraquito qualquer onde aconchegar o que restar das suas pessoas e dos seus entes queridos.

Esta diferença na atribuição de autorizações para habitar o espaço europeu é o retrato perfeito daquilo que somos, enquanto projecto social e político comum. O dinheiro impera, o dinheiro é deus, o dinheiro justifica tudo, limpa tudo, limpa-se a si próprio e limpa os crimes cometidos por aqueles que o acumulam. 

Nem quero pensar que algum do capital aplicado a comprar casas de luxo em Portugal seja proveniente do tráfico de emigrantes no Mediterrâneo ou do comércio de armamento nas guerras que os obrigam a navegar para a morte.

Se é isto que temos para oferecer aos países não democráticos ou a democracias pouco genuínas, não admira que nos odeiem e nos combatam com quanta força têm.


quinta-feira, agosto 13, 2015

Saudade

Não sinto grande saudade do passado. Pressinto uma saudade bem maior por coisas que ainda vão acontecer.

quinta-feira, agosto 06, 2015

Trampa

Imaginemos que Donald Trump chega a Presidente dos Estados Unidos da América. Estamos a imaginar...? Vá lá, só mais um bocadinho, um pequeno esforço de imaginação... pois é, a coisa não gera imagens particularmente agradáveis, pois não?

Que sociedade é capaz de gerar um candidato ao mais alto lugar da sua organização política com as características do descabelado Trump? Que doença, que droga, que alucinação colectiva pode fazer com que este homem seja levado a sério por uma parte significativa dos seus concidadãos?

Muito falamos dos líderes perigosos que governam partes deste mundo. Kim Jong-un, Maduro, Obiang, Eduardo dos Santos, ditadores mais ou menos populares nos seus países, a loucura e a ausência de direitos civis, caricaturas de democracias, tudo isto nos faz tremer um pouco. E se Trump vier a chefiar os EUA? Uma trampa!


domingo, agosto 02, 2015

Férias


É o calor, é a praia, são as férias. Tudo abranda sob a luz do sol mas a vida rola à mesmíssima velocidade que rodava quando do céu caía água, como se fosse o Dilúvio a chegar outra vez, a chegar fora de época.

Tendemos a relaxar, tendemos a relativizar, a reconhecer a excelência do que a Natureza nos ofereceu e nós oferecemos em segunda mão aos milhares de turistas que nos visitam. Em Agosto Portugal abre parêntesis na realidade e fica semelhante a um sonho de folheto turístico.

Ao longo deste mês Portugal faz de conta que não existe, faz de conta que não é isto e é aquilo.

Quando o sol fechar as contas, as esplanadas forem recolhidas e trocarmos os calções e as sandálias pelas roupas do costume... como estará este país?


quinta-feira, julho 30, 2015

Filosofia de tasca



Se João Miguel Tavares pudesse vir um bocadinho para dentro da minha cabeça, depressa compreenderia, com total nitidez de contorno, que a sua conversa sobre a realidade ser de direita (ler aqui) é uma refinada tolice. Claro que se fosse eu a viajar para dentro do cérebro de João Miguel Tavares decerto veria o mundo ao contrário daquilo que vejo, cá deste lugar que sou eu.

Poderia argumentar, por exemplo, que optar por estabelecer os opostos numa nova dicotomia, ricos vs. classe média, afirmando que “os verdadeiramente pobres são os que morrem silenciosamente no Mediterrâneo”, é um insulto a milhões de portugueses que não sonham o que seja isso de “classe média” porque são tão pobres como muitos dos que se afogam no Nosso Mar. Sei que o João Miguel Tavares não quer insultar ninguém mas, visto de dentro da minha cabeça, aquela sua dicotomia modernaça é uma coisa sem sentido. Para mim, que vivi a infância em pleno salazarismo, há pobres, ricos e remediados; uma espécie de tradução para a vida quotidiana da distinção entre paraíso, inferno e purgatório que me ensinaram nas sessões de catequese. Depois da revolução entraram novas classificações sociais: os camponeses e os operários ganharam forma, comecei a ouvir falar de luta de classes e a coisa fazia todo o sentido. Fazia sentido naquele tempo e continua a fazer sentido nos dias que agora correm, apesar das toneladas de maquilhagem que lhe atiram para cima da tromba, na tentativa de fazer com que ela (a luta de classes) deixe de ser verdadeira e se assemelhe a uma prostituta barata em fim de carreira.

E depois temos a TINA que, vista daqui, é uma espécie de canga como a que se arriava no cachaço das bestas que haviam de puxar o arado. Agora há tractores e jovens agricultores, já não há carros de bois e alcoólicos analfabetos, mas a vontade de lutar por uma vida melhor não deixa de ser parte da realidade. Agora há pulseiras electrónicas e prisões domiciliárias mas a sede de justiça nem por isso é saciada. Quando me lembro da miséria absoluta que era o meu país há 40 anos percebo como agora vivemos incomparavelmente melhor. Também percebo que, para se ter operado tamanha transformação, foi necessário gritar muito, fazer muita greve, atirar muitas calhoadas à TINA e levar umas quantas bastonadas no toutiço. Nada do que temos hoje nos foi oferecido de mão beijada nem vai durar para sempre. É por essas e por outras que recuso a ideia de que a realidade seja de direita; a direita precisa de ser ajudada a exercer a justiça. É um favor que a esquerda lhe costuma fazer e vice-versa.

Na minha juventude aprendi muitas coisas encostado a balcões de tasca, ouvindo bêbados e todo o género de filósofos analfabetos. Foi na tasca que aprendi que a realidade é o que nós fizermos dela. Nas aulas de Filosofia a coisa ficava muito confusa.


sábado, julho 25, 2015

Percepção

Por vezes penso como terão sido os últimos anos do Império Romano. Qual terá sido a percepção dos seus habitantes relativamente ao desmoronar do mundo em que viviam? Quando se terá instalado a angústia do fim do seu tempo?

A União Europeia, herdeira directa do sonho de uma Europa magnífica sonhada por uns quantos idealistas em meados do século passado, está a transformar-se em merda perante os nossos olhos e, no entanto, a vida decorre pacífica como até aqui. Enquanto a coisa não se desfizer completamente, enquanto o edifício não ruir com estrondo, iremos viver a nossa vida quotidiana como se nada se passasse.

Amanhã comprarei o jornal, o pão, farei o café, viverei o novo dia como se fosse ontem, imaginando que a coisa se manterá, mais ou menos semelhante, ao longo da próxima semana. E depois? Depois... logo se verá. Nada é eterno.

domingo, julho 19, 2015

Arte sem artistas

A sequência de acontecimentos rocambolescos desencadeada pela inauguração das novas instalações no Museu do Chiado dá que pensar. Fica a sensação de que falta bom senso e sobra rigidez de espírito. Tantos doutores, curadores, suas excelências, pessoas tão cultas, tão informadas, a fina flor dos que pensam e organizam o pensamento alheio nos assuntos das artes plásticas, ofereceram, a quem lhes quis prestar atenção, um espectáculo de ópera bufa com argumento muito pobrezinho.

Parece impossível que gente tão embrenhada no trabalho, conhecedora dos mecanismos mais complexos em termos de museologia e exposição de beleza, seja incapaz de encontrar o ponto de equilíbrio necessário à ultrapassagem de conflitos que, assim à primeira vista, parecem ser fruto de coisitas menores, mesquinhas sementes de conflito. Encabeçados por um secretário de estado aparentemente despojado de poder de decisão, hesitante e subserviente, personagem menor num elenco executivo de baixa qualidade, os senhores das artes portuguesas andaram à cotovelada e à canelada à vista de toda a gente.

Da mesma forma que passámos de uma sociedade rural, com 30% de analfabetos em 1970, para uma sociedade ao estilo europeu, com os actuais 5% de analfabetos, saltando da miséria total para um consumismo acéfalo, deslocando os basbaques dos bancos das igrejas para os corredores dos centros comerciais, também no nosso pequeno universo artístico saltámos de um estado de indigência fascistóide para um admirável mundo de novos intelectuais que aprenderam tudo sobre arte mas parecem não saber nada sobre relações humanas ou interesse público. Terão faltado à aula onde foi explicada a relação entre Ética e Estética?

Presidentes disto, directores daquilo, extensas filas de variados doutores, agarrados ao croquete e ao copinho de vinho doce, olham a populaça lá do alto das janelas do palácio onde a beleza é encerrada e curtem a glamourosa vernissage. Muita finesse, muita beautiful people que, no fim do dia, olhou as obras expostas com a mesma elegância com que o boi olha o palácio enquanto rumina a erva do almoço. Muita arte sem artistas.


quarta-feira, julho 08, 2015

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Elementos Essenciais da Tragédia Grega

Hybris - Desmesura. Sentimento que conduz os heróis da tragédia à violação da ordem estabelecida através de uma ação ou comportamento que se assume como um desafio aos poderes instituídos (leis dos deuses, leis da cidade, leis da família, leis da natureza). A hybris ameaça a ordem do cosmos e potencia o caos. O herói trágico não tem consciência dos seus erros.

Pathos - Sofrimento progressivo, do(s) protagonista(s), imposto pelo Destino (Anankêcomo consequência da sua ação.

Ágon - Conflito (a alma da tragédia) que decorre da hybris desencadeada pelo(s) protagonista(s) e que se manifesta na luta contra os que zelam pela ordem estabelecida (a diké, a justiça). É, no fundo, a luta entre o bem e o mal.

Anankê - É o Destino, a inevitabilidade. Encontra-se acima dos próprios deuses que não podem desobedecer-lhe.

Peripécia Acontecimento imprevisível que altera o normal rumo dos acontecimentos que compõem a ação dramática; rumo contrário ao que o desenrolar da ação até então poderia fazer esperar.

Anagnórise (Reconhecimento) -  O reconhecimento pode ser a constatação (compreensão) de acontecimentos acidentais, trágicos, mas, quase sempre, se traduz na identificação de uma nova personagem.

Catástrofe - Desenlace trágico, que deve ser indiciado desde o início, uma vez que resulta do conflito entre a hybris (desmesura, ameaça de desordem) e a anankê (inevitabilidade), conflito que se desenvolve num crescendo de sofrimento (pathos) até ao clímax (ponto culminante).


Katharsis (Catarse) - Purificação das emoções e paixões (idênticas às das personagens), efeito que se pretende da tragédiaatravés do terror (phobose da piedade (eleosque deve provocar nos espectadores

terça-feira, julho 07, 2015

Uns pós de Democracia

Jean-Claude Juncker veio lembrar que a Zona Euro é composta pela democracia grega e outras 18 democracias. Uma espécie de 18+1=19 que permitiu ao presidente da Comissão Europeia fazer pedagogia sobre os problemas económicos que afligem tanta gente por essa Europa fora. Afirmou ainda que acredita na possibilidade de se encontrar uma solução na casa da democracia europeia, em Estrasburgo.

Decerto que, quando estabeleceu acordos secretos com 40 multinacionais, oferecendo-lhes acordos fiscais extraordinários, lixando bem lixados os restantes parceiros europeus, este nosso guardião não reuniu na casa da democracia. Quanto dinheiro das dívidas soberanas andará por aí espalhado em negociatas deste calibre ou arrecadado em off-shores manhosos? O que lucraram os povos de Portugal, da Grécia ou da Irlanda com o endividamento brutal das suas economias?

Olho para aquelas reuniões de ministros na casa da democracia, acompanhados dos seus assessores, conduzidos pelos seus motoristas, alojados em belos hotéis, a manjar em restaurantes de luxo … como podem ser estes gajos a reflectir sobre a melhor forma de acudir aos que têm fome? Temo que estejam mais preocupados em alimentar aquela corte faustosa do que em pensar como se resolvem os problemas dos pobrezinhos.

Dizem-nos que andámos a viver acima das nossas possibilidades e, por isso, contraímos uma dívida que levaremos décadas a pagar. As operações financeiras são tão complexas, tão difíceis de compreender, que a maioria das pessoas não percebe nada. Pagamos mais impostos, trabalhamos mais e temos piores hospitais, piores escolas, piores serviços e os desequilíbrios sociais acentuam-se a olhos vistos. Uma parte considerável do produto do nosso trabalho esvai-se no pagamento da dívida e reverte a favor de quê? A favor de quem? Em que é aplicado o dinheirinho que andamos a pagar tão religiosamente?

Aqui há uns anos atrás falou-se de pós-democracia, um sistema político em que a democracia representativa fica cativa de elites não sujeitas a sufrágio que se representam exclusivamente a si próprias. Depois, a discussão sobre esse admirável mundo novo que andaria a ser construído à nossa volta, esmoreceu e caiu no esquecimento. Olha-se para a paisagem actual da União Europeia e… se não é exactamente isto que se está a passar, não sei o que seja, caraças!


Jean-Claude Juncker deveria ter a hombridade de admitir que Estrasburgo é a casa da pós-democracia europeia. Podemos ser pelintras mas não somos burros!

segunda-feira, julho 06, 2015

Quem é esta coisa?

Estou confuso e desorientado. Os últimos dias têm sido uma vertigem europeia. O continente não consegue entender-se nem consigo nem com os os que tentam chegar-se, vindos do resto do mundo.

A designada "questão grega" vai tornando cada vez mais nítidos os limites do "projecto europeu". Quem vive estes dias na Europa e tenta prestar atenção aos acontecimentos fica com os miolos virados do avesso.

Terão os gregos protagonizado o primeiro e decisivo passo no sentido de colocar todo um continente a mirar-se ao espelho, ao ponto de o fazer repensar a estranha construção sócio-política que vem tentando de há umas décadas a esta parte? Irá a "Europa" fazer-se de cega e ignorar o que se passa à sua volta, permitindo que o periclitante edifício que habita desabe como um castelito de cartas?

Por outro lado, continuam a chegar às costas mediterrânicas milhares de pessoas que fogem à guerra, à fome e à miséria, iludidas por histórias que não sabemos bem quais são mas que as atraem em direcção a esta coisa informe.

A Europa parece não ter respostas à altura das circunstâncias. Nem para uns nem para outros.

domingo, junho 21, 2015

As vozes

Sinto-me azedo. Devo estar estragado. As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos. As vozes dentro da minha cabeça querem fazer-me cego. Mas eu quero continuar a ver e faço de contas que não as ouço.

As vozes dentro da minha cabeça não podem ter a certeza de que se fazem ouvir. Vou conseguindo manter o poder da visão. As vozes na minha cabeça estão agitadas. Falam umas por cima das outras. Já não sussurram. Agora todas falam alto, algumas gritam. Mas eu aguento a confusão e continuo a olhar para o mundo.

As vozes dentro da minha cabeça querem comer-me os olhos mas, estou em crer, as vozes não têm dentes. Na verdade querem assustar-me, fazer-me acreditar que não vejo. Mas ainda agora vi um bebé a sorrir e reparei que as nuvens eram tão brancas que o céu ganhou uma maravilhosa tonalidade de azul . 

sexta-feira, junho 19, 2015

Esquecimento absoluto

Não, eu também estou de acordo.
Sim, já não existe uma luta de classes. O que é isso!?

Quando se fala em "luta de classes" há sempre algum doutor pronto a explicar que isso é uma coisa do passado, que nas actuais democracias ocidentais essa designação não faz sentido.

Pois, não poderia estar mais de acordo, a luta é coisa do passado; actualmente vivemos é uma guerra! Uma guerra de classes.

É uma guerra fria, uma guerra não declarada entre inimigos impossíveis de conciliar. De um lado o exército do Capital. Do outro lado o exército dos Contestatários. O Capital tem armamento muito superior ao dos Contestatários que, no entanto, são um exército muitíssimo mais numeroso. É a guerra da força contra o número.

Não se vislumbra a mínima possibilidade de alguém ou alguma coisa conseguir debelar a intensidade deste confronto, embora muitos estejam convencidos de que um entendimento proveitoso para ambas as partes pudesse ser alcançado. O que falta em bom senso sobra em ambição.

Há quem afirme que esta guerra vai durar enquanto houver um mínimo de organização social. Os mais extremistas destas teorias pensam que, mesmo que a nossa espécie regresse a um estado civilizacional vegetativo, a um sistema de organização de nível pré-histórico, existirá um fosso a separar uma minoria que explora a maioria e que tende a acumular os bens produzidos ou recolectados.

Mesmo que voltemos a subir às árvores para dormir uma noite mais ou menos descansada a guerra de classes não deixará de minar as nossas relações sociais, não deixará de corroer o futuro. Assim, o futuro nunca se distinguirá significativamente do passado até que ambos colidam num estrondoso novo Big Bang, um fabuloso Big Bang filosófico e conceptual que irá atirar a memória do nosso tempo para um limbo que nenhuma outra espécie jamais será capaz de aperceber.

Será o esquecimento absoluto. 

terça-feira, junho 16, 2015

Pé atrás

As coisas não são como são. As coisas são como as vamos fazendo ou como permitimos que outros as façam defronte aos nossos orgulhosos narizes. Mas há muito quem argumente que "não poderia ser de outra forma", que "o que tem de ser tem muita força" e os mais fatalistas arrumam a questão com o clássico: "é a vida, o que é que se há-de fazer !?".

"Perante factos não há argumentos"... peço desculpa mas sou obrigado a colocar uma ou duas questões antes de acenar afirmativamente que sim, que sim senhora. A verdade é que os factos nem sempre são, de facto, factos. Quantas e quantas vezes não se veio a perceber que um dado adquirido era, afinal, um dado perdido? Que uma certeza não passava de um logro, que o futuro havia sido mal desenhado e que o adivinho da moda não passava de um charlatão apoiado numa mão cheia de suposições travestidas de factos?

Ok, ok, há factos indiscutíveis. terá sido a pensar nesses que alguém criou a frase que abre o 2º parágrafo. Mas anda por aí muito gabiru que, à boleia do dito, nos quer enfiar todo o tipo de patranhas goela abaixo e olhos dentro. Eles vêm armados de gráficos, frases floridas, fatiotas bonitas, perfume e falinhas mansas. É preciso estar alerta.

Resumindo: perante factos, à cautela, o melhor é argumentar. Quanto mais não seja chegamos à conclusão de que, perante aquele facto, não há argumentos.

segunda-feira, junho 15, 2015

Ira

Por vezes é complicado engolir certos desaforos sem responder com a violência desejada. Uma educação cristã ajuda a cagar no assunto e a deixar andar o barco. Não é uma questão de oferecer a outra face, não vale a pena exagerar, é apenas ser capaz de perceber que a covardia e a pequenez de espírito também se explicam.

Mas a coisa fica a roer cá dentro, caraças. A vontade de rebentar... deve ser isto o tal pecado da Ira.

Apesar de não acreditar no Inferno nem em sítios desse género, o melhor é ignorar certas coisas que são ditas por quem ainda tem muito que viver e, certamente, muito também para aprender. Tal como eu.


sábado, junho 13, 2015

Último dia

Último dia de aulas. Sentado no recreio observo os alunos da minha escola a brincar. O sol confere um aspecto festivo a tudo aquilo, juntando-se à excitação do final do ano lectivo, a criançada faz um escarcéu magnífico.

Os mais pequenos correm, saltam, atiram água uns aos outros, gritam, berram, abrem os braços aos céus enquanto passam à minha frente em nítido excesso de velocidade.

Os mais ou menos grandes ensaiam pueris jogos de sedução. As raparigas parecem mais conscientes das regras do jogo do que os rapazes, que as seguem como que pairando um palmo acima do chão.

Os mais crescidos parecem apenas um pouco impacientes para que tudo termine e possam ir às suas vidas, finalmente fora do recinto escolar.

Ali sentado, observando em silêncio, sinto-me como se estivesse em casa a assistir na televisão a um programa da National Geographic sobre a vida selvagem.Sorrio, apercebo-me que estou feliz.

quarta-feira, junho 03, 2015

Porcaria nas ruas

As ruas estão a ficar com um ambiente mais poluído. A porcaria sai dos tubos de escape de carros, motos e autocarros. Os detritos característicos de uma sociedade de consumo atapetam os passeios e enfeitam as bermas das ruas alcatroadas. Papéis das mais variadas proveniências, restos de coisas mais ou menos identificáveis; lixo, porcaria, ruído e mau cheiro. Ok, nada de extraordinário - tudo normal!

Mas as ruas estão a ficar mais poluídas. Há um novo tipo de lixo a incomodar os transeuntes e a emporcalhar os passeios. São os missionários evangélicos, ansiosos por espalhar a palavra do Senhor.

Homens e mulheres de aspecto mais ou menos limpo, mais ou menos arranjado, mas sempre com aquele olhar de falcão disfarçado de pinto, que vão proliferando pelas ruas e avenidas deste subúrbio a que chamo casa.

Olhando bem, vendo a forma como se aprumam ao lado dos expositores que colocam à vista dos transeuntes, brochura na mão, a forma como conversam uns com os outros, como tentam passar uma imagem de bonomia e felicidade, olhando bem, noto que tudo aquilo não é mais que fachada.

Tal como todos os outros (os pecadores) estes seres iluminados pela centelha divina pretendem apenas alguém que os ouça, alguém que lhes dê atenção; tal como todos os outros pretendem ser amados e, se possível, suprema felicidade, ser admirados! Isso sim, caraças... aleluia para isso!!!

A admiração é um bálsamo infalível para as feridas da alma.

O meu problema com estas personagens é que elas não acreditam na liberdade, não são boas pessoas, estão sempre dispostas a apontar o dedo e acender as chamas do inferno para grelhar quem não acredita nas patranhas que elas fingem ser reais.

Esta malta actua como actuariam os vampiros: uma vez mordida, a vítima transforma-se num deles, sem apelo nem agravo, para toda a Eternidade. Que porcaria.

terça-feira, junho 02, 2015

Portas

Paulo Portas a pretender passar uma imagem de estadista: homem grave, ponderado e circunspecto, que coloca os superiores interesses da nação à frente das suas ambições, é uma das anedotas mais grosseiras a que assisti.

Portas está para o espectáculo da política como Paulocas, o palhaço, que tenta assumir a profundidade dramática de Hamlet segurando na mão direita o crânio de um bacalhau a escorrer azeite,

Portas alertando o povo para os perigos que os seus adversários políticos representam quando está em causa o futuro da nação, é um número de tal modo grotesco que, um atirador de facas que falhe o balão e perfure o peito da partenaire presa na roda, arrancará não mais que um ténue sorriso amarelo ao espectador aterrado.

Paulo Portas não é mais que um embaraço, o troca-tintas que escrevinha SMS e já ninguém leva a sério. Portas é um cadáver político, irrevogável suicida, um Lázaro regressado à vida da coisa pública pela mão de Passos Coelho que escolheu ser o que é: um autêntico Cristo oferecido em sacrifício para redimir os pecados de um povo inteiro que vive acima das suas possibilidades.

Passos ressuscitou Portas quando lhe ofereceu o lugar de vice-primeiro ministro. Mas, tal como Lázaro, quem regressa dos mortos exala um fedor insuportável e os vivos tapam o nariz à sua passagem.

sexta-feira, maio 29, 2015

Ir ao sonho

"Ex Machina" e "Birdman", os dois últimos filmes que vi que merecem referência especial, muitas estrelas, elogios variados, fotos a cores, aplausos, tudo o que possamos imaginar oferecer a um objecto que, por ser um objecto, habita aquele estranho limbo da quase existência.

"Birdman" foi largamente reconhecido e arrecadou prémios e Oscars e tudo o que um realizador pode desejar como resultado do seu trabalho. É, realmente, um filme extraordinário. A realidade e a possibilidade da magia coexistem no espaço e no tempo da narrativa deixando o espectador sempre em suspenso, agarrado, mergulhado, profundamente interessado, diria.

"Ex Machina" tem um ritmo diferente. Levados para o interior de uma propriedade isolada, habitada por um génio da Inteligência Artificial e algumas estranhas criaturas, acompanhamos uma inquietante narrativa que, no final, deixará a pensar o mais incapaz de se interessar pelas coisas do pensamento.

Dois filmes que têm em comum excelentes (extraordinárias!) interpretações: que actores, que actrizes, que directores!!! E também o facto de nos conduzirem em direcção a mundos de sonho e realidade, de nos fazerem esquecer a sala, o lugar onde fica o nosso corpo, ao ponto de acreditarmos no que estamos a ver.

Grande cinema!

quarta-feira, maio 27, 2015

Greves a Metro

Os trabalhadores do Metro de Lisboa fazem tantas grevezinhas (de horas, de turnos, greves pequeninas, greves repartidas, greves constantes) que acabam por transformar um direito constitucional e indiscutível numa espécie de sarna social.

Não sou a pessoa mais indicada para discorrer sobre tão complexo tema. Tantas greves, greves a toda a hora, decerto exigem um conhecimento minucioso da vida da empresa a alguém que pretenda tentar imaginar as causas de tão persistente luta laboral. Convocar estas greves é trabalho de relojoeiro, aderir a estas greves será um dever dos trabalhadores, imagino eu.

A verdade é que a frequência com que damos com o nariz na porta do túnel do Metro é tão grande que já ninguém liga à coisa. Já ninguém se impressiona com a luta dos trabalhadores, antes pelo contrário. Eles fazem greve com tanta insistência que toda a gente desconfia do ardor com que aderem à luta tanto como desconfia da eficácia do movimento grevista.

A banalização da greve é como o abuso de antibióticos; perde força e efeito.

terça-feira, maio 26, 2015

Ser ou não ser (burro)

Não tenho nada contra quem muda de opinião. Só os burros não mudam, como disse, um dia, Mário Soares ao esquivar-se a mais uma das suas lendárias incongruências políticas.

Uma pessoa percebe que aquilo que imaginava não corresponde a nada que se possa assemelhar a realidade e tenta encaixar as coisas de novo, para que façam sentido. Perfeitamente normal.

Já custa mais a engolir quando um profeta de determinada ideia (ou ideologia) se desconverte de súbito, alegando que viu a luz. Ok, tudo bem, mas porque levou tanto tempo a mudar de perspectiva? As montanhas de provas que lhe foram sendo apresentadas e que ele sempre refutou e reduziu a pensamentos sem sentido, quando não os classificou como maldosos ou subversivos, fizeram, de repente, sentido?

Desconfio dos profetas fervorosos. Uma pessoa que tem certezas tão absolutas ao ponto de professar uma Fé incontestável não merece a minha confiança. Sou de opinião que devemos deixar sempre um espaço à possibilidade de não sermos burros.

terça-feira, maio 19, 2015

O Diabo é virtual

Nos últimos dias tenho-me abstido de visitar o Facebook. Não o faço por nenhuma razão em especial. Sinceramente, não sei porque me tenho mantido afastado da coisa. Penso que estou um pouco farto daquilo, mas não tenho a certeza que seja essa a verdadeira razão da minha ausência virtual.

Os "gosto" deixados ao acaso, como cócó de pássaro a cair do alto, os comentários com "stickers", os "smileys" por tudo e por nada, os amigos (penso que conheço todos os meus amigos do Facebook ou, pelo menos, sei quem são) a fazerem exactamente o mesmo que eu, como se fôssemos todos parte do mesmo corpo, tentáculos de um imenso polvo.

Estou a olhar o teclado e a pensar "também não há razão para seres tão radical... vai lá espreitar". Isto sou eu a tentar-me a mim próprio: Cristo e Demónio em simultâneo, a olhar o abismo sabendo que, vença quem vencer, mais tarde ou mais cedo vou acabar por ceder e atiro-me do penhasco abaixo, indo bater com os ossos no Facebook.

O Facebook é ciumento e não deixa grande margem para outras relações. Ou te dedicas a ele ou não te dedicas, não parece haver meio termo. Ou estás o tempo todo com a testa enfiada no écrã ou sentes tremuras e privação; os dedos saltam nas tuas mãos à procura das teclas, dos "stickers", dos "smileys", dos "gosto"... oh, os "gosto"... os teus dedos procuram o conforto das teclas.

Rai's parta esta coisa! O Diabo é virtual! (Entretanto já lá fui outra vez...)

sexta-feira, maio 15, 2015

Zumbido matinal

Pessoas sussurram, espalhadas pela sala, sussurram. Sussurram por serem poucas e a sala pequena pois quando há muita gente as pessoas falam alto. Quando está muita gente nesta sala as pessoas todas parecem berrar, embora apenas falem mais alto do que seria de esperar.

As pessoas fazem-se ouvir.

Mas, por agora, sussurram. Serão segredos aquilo que levam as palavrinhas que lhes saem da boca? Serão mexericos, pequenos insultos, pequenas verdades, grandes mentirinhas? Se fossem coisas de ouvir as pessoas haveriam de falar mais alto. Sussurram como se falassem com Deus, como se estivessem escuras numa igreja sombria e fria.

As pessoas sussurram. As pessoas zumbem. Como laboriosas abelhas, recolhem pólen das ideias para produzir sabe-se lá que merda de mel!

quarta-feira, maio 13, 2015

Goo goo muck

Enfiar os Cramps pelos ouvidos dentro ajuda bastante a fazer o percurso através dos túneis do Metro de Lisboa.

Sinto-me glóbulo vermelho, leucócito. Levado num fluxo, sou sanguíneo ou então serei água a fugir num esgoto. Sinto-me uma merda qualquer. Uma coisa que puxa e que é puxada, coisa que leva tudo à frente, a correr, a correr dentro de um tubo, a correr desvairada. Sinto-me goo goo muck.

Agora tenho um interior luxuoso: aveludadas tripas, alma acetinada e um olhar carmim a deitar sobre o mundo esta estranha luz que banha o túnel onde vou dançando os meus passos. Por momentos viajo no tempo, regresso à adolescência.

Entro no comboio e vou à boleia no ventre de um fantasma, avanço ao ritmo dos seus movimentos peristálticos. Chegado à última estação sou cagado na plataforma. Regresso ao mundo do costume.

Tiro os auscultadores. Já não me sinto tão goo goo muck mas há sempre qualquer coisinha que fica.



segunda-feira, maio 11, 2015

Os vampiros

De que estávamos nós à espera? Que Bruxelas permitisse a um governo grego de extrema-esquerda governar de acordo com a sua ideologia? Alguém imaginou que o sistema económico e financeiro, que alicerça os seus lucros na exploração da fraqueza alheia, fosse benevolente com um governo hostil ao capitalismo, um grupo de extremistas a fazer valer a sua utopia desvairada de uma sociedade capaz de integrar os que comem dos caixotes do lixo? 

A vitória eleitoral do Syriza estava, desde o princípio, condenada a ser a materialização da derrota de todos os que sustentam um discurso anti-austeridade, por muito possível ou muito justo que ele possa ser. Os “mercados” esfregaram de contentamento as mãozinhas nervosas quando Tsypras formou governo. Alguém estava à espera que os vampiros prescindissem do seu ancestral direito a comerem tudo e não deixar nada?

Permitir ao governo grego experimentar as suas visões para a resolução dos problemas que apoquentam os famélicos da União Europeia seria extremamente perigoso para um monstro burocrático que se sustenta e alimenta da miséria alheia. Seria como acarinhar um vírus enquanto se observa a infecção por ele provocada a ganhar saúde e a contaminar a União.

Não! A Grécia terá de ser impiedosamente castigada e o seu governo humilhado até não ser mais que um bando de pedintes de mão estendida a implorar perdão e misericórdia no falso Areópago que é a Comissão Europeia.


Estamos a assistir ao fim da “Europa a 28”. A morte da utopia grega do Syriza será a morte desta coisa informe em que se transformou o sonho europeu. Trocar Valores por economia não une nações. Antes pelo contrário. 

Oremos, irmãos, para que o que o que se vai seguir não seja catastrófico.

sábado, maio 09, 2015

Boa educação

A senhora fala de um modo peculiar, com os olhos apontados a algum lugar acima da minha cabeça. O tom de voz elevado (quase esganiçado), pequenas acumulações de saliva a brilharem aos cantos da boca que se contorce como se as palavras a incomodassem, a senhora esforça-se por parecer simpática mas, infelizmente, não é nada simpática.

Suporto a troca de palavras com bravura, faço de contas que sou criança pequena, que não reparo no desconforto da senhora por se obrigar a falar comigo. Tento fixar os olhos dela nos meus como se tentasse agarrar duas bolinhas de mercúrio com as pontas dos dedos, por momentos quase consigo, mas logo o olhar baço da senhora desliza para o topo da minha cabeça (estarei despenteado?) e tudo volta à estaca zero.

Quando o assunto se esgota e ela sorri um sorriso muito mais triste que o de uma mãe no funeral do seu filho, é com mútuo alívio que desabafamos "bom dia" em uníssono e, após polidamente pedir licença, fecho a porta e regresso ao sótão onde continuo a pintar.

sexta-feira, maio 08, 2015

Estranha sensação

É uma sensação estranha. Ter plena consciência da mediocridade dos que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado. Saber, sem esforço, que ou são desonestos ou simplesmente inaptos para o desempenho dos cargos de chefia e decisão que lhes atrapalham o cinzento das ideias.

Uns são mais para o mesquinho, outros simples imbecis. Alguns são maldosos e maquiavélicos competindo com seres intelectualmente indigentes, a quem o fato e a gravata dão aquele aspecto grave e digno com que enganam as câmaras fotográficas e vão convencendo o Zé Pacóvio de possuir condições mínimas para fingirem ser o que são. Uma coisa têm em comum: são todos doutores ou, se o não são, vão sê-lo rapidamente.

É estranha esta sensação de que todos os malabaristas, palhaços, ursos, trapezistas, atiradores de facas e demais personagens circenses que ocupam os lugares cimeiros da hierarquia do Estado não passam de arrivistas incultos. Devo estar a ficar velho. E jarreta.

Decerto estou a delirar, a ficar gágá, já não percebo nada do que realmente se passa à minha volta. Ando confuso. Como poderia ser verdade aquilo que imagino? Se é o povo que elege estes gajos como poderia o povo elegê-los uma e outra vez apesar de tudo? Teria de admitir a possibilidade de o povo ser simplesmente burro ou, pior hipótese, ser um povo de aspirantes a aldrabão que idolatra os que provam ser os mais aldrabões de todos vendo neles a figura do chefe ideal.

É estranha, esta sensação.

quinta-feira, maio 07, 2015

Pensamento nocturno

Hoje estou quase triste. Não tenho vontade de fazer nada. Por isso acabo aqui mesmo o que estou a fazer.

terça-feira, maio 05, 2015

Frágil oportunidade (como a vida)

Esta nossa vida virtual deixa um rasto longo e mais pegajoso que o de uma lesma gigante. Nós morremos e continuamos a receber felicitações automáticas pelo nosso aniversário, ofertas de negócios irrecusáveis, oportunidades únicas para umas férias inesquecíveis no próximo verão. Mensagens brutalmente pujantes, a transbordar de felicidade e com promessas de um futuro muito, mas mesmo muito, melhor!

Melhor do que a morte? Promessa um tanto arriscada uma vez que a vida é coisa vagamente conhecida, já a morte...

Enfim, quando morrer gostaria de ser apagado da NET. Gostaria de ficar apenas na memória daqueles que realmente me conheceram, daqueles com quem me cruzei e dexei algum tipo de impressão ao longo da minha vida verdadeira.

Que me desculpem os amigos que conheço apenas por esta via mas: blogues fora, página no Facebook apagada, e-mail eliminado, etc. até ao mais completo olvido virtual. Haverá alguma empresa que se dedique a receber estas últimas vontades e se comprometa a levá-las a cabo?

Parece-me uma frágil oportunidade de negócio para jovens informáticos com espírito empreendedor. Frágil como a vida.

sábado, maio 02, 2015

TINA que os pariu!

João Miguel Tavares veio lembrar-nos o triste TINA (There Is No Alternative), no linguajar dos súbditos de Sua Majestade britânica que ele próprio traduz com NHA (Não Há Alternativa) na bela língua de Camões. Servem os acrónimos para justificar a triste sina dos povos endividados e “ totalmente dependentes do financiamento exterior para fazer face às obrigações mais elementares” como refere o cronista no seu texto de 30 de Abril nas páginas do Público.

Até compreendo a ideia, a coisa é terrível, estamos entregues aos mercados, esses bichos temperamentais que nos emprestam dinheiro a juros. Bicharada gorda e insaciável que não abdica do direito que tem a explorar o Zé Pacóvio seja ele português, grego, espanhol ou irlandês, tal e qual como nos filmes em que os mafiosos aproveitam a fraqueza alheia (principalmente a dos tasqueiros) para ganhar dinheiro fácil. É a lei da selva, as bestas mais agressivas e poderosas regulam, a incauta carneirada tem de aguentar ou ser comida. NHA para as políticas de austeridade, o povo é que paga.

Tudo isto faz muito sentido para quem tem a barriga acomodada e um tecto jeitoso sobre a cabecinha pensadora. Conclui sabiamente João Miguel Tavares que “convém começar por aceitar o que não podemos mudar, para depois mudar aquilo que podemos.” Eu, tal como o cronista, sou daqueles a quem a barriga não encolhe de fome nem o tecto deixa passar o frio nem chuva sobre a cabeça pensadora. Mas nós, os que vivemos com problemas suportáveis, não somos a totalidade da população, duvido até que sejamos a maioria. Há toda aquela horda de “famélicos da terra” para quem o TINA (ou NHA) significa miséria e não apenas incómodo.

A guerra é um negócio? TINA. Os países mais ricos do mundo são os principais produtores (e traficantes) de armas? TINA. A esmagadora maioria das pessoas tem de suportar condições de vida degradantes para que 1% de seres aparentemente humanos vivam de forma que nem sequer somos capazes de imaginar? TINA. O planeta tem de se parecer com uma lixeira nojenta para que este modo de vida se perpetue (até rebentar com esta coisa toda)? TINA. 

TINA mas é o caraças! Pensar que tudo se resume a TINA é ser preguiçoso, é deixar cair a ideia básica da Democracia e aceitar ser saco de sangue para vampiro. Eu digo: TINA que os pariu!


Já agora, para terminar, quero lembrar ao João Miguel Tavares que “NHA, NHA, NHA” soa a refrão de um hit de Kylie Minogue, pop bonita de ver e ouvir mas só para quem gosta ou está distraído.


terça-feira, abril 28, 2015

That's economics, stupid!

A imagem de uma horda de maltrapilhos armados até aos dentes com equipamento bélico topo de gama é coisa comum nos meios de comunicação social. Como lhes vão parar às mãos todas aquelas metralhadoras, pentes de balas, rockets e lança-rockets?

Onde conseguem estes gajos abastecer-se de munições e ter sempre disponível a opção de atirar e matar, atirar e matar, atirar e matar?

A comida esgota-se nos campos de refugiados, a água escasseia, o dinheiro nunca chega para satisfazer as necessidades básicas das populações deslocadas. Os países amigos envidam os mais esforçados esforços no sentido de reunir recursos capazes de garantir a sobrevivência de milhares, de milhões de inocentes que fogem da guerra em busca de refúgio.

Quem financia as armas? Quem financia a comida e a água? Haverá dinheiro ganho a vender armas aplicado na compra de mantimentos para os refugiados que sobreviveram aos tiros por elas disparados? E o contrário, será possível o dinheiro da água servir para comprar gás pimenta?

É bem possível, afinal de contas vivemos num mundo global e isto é o capitalismo. Não sejamos estúpidos!

sexta-feira, abril 24, 2015

Nuvens de tempestade

Andamos para aqui a derramar lágrimas de crocodilo nas águas do Nosso Mar, o Mediterrâneo. Choramos a morte de emigrantes que vêm fugidos da morte e, só quando morrem, se apercebem que a morte é certa e que, nas águas do Nosso Mar, é uma fatalidade.

De que fogem estas pessoas? Que sonhos trazem incrustados no imaginário? Para onde pensam que vêm? 3 perguntas com uma resposta e duas incógnitas.

Do que fogem estes migrantes (como agora são designados) toda a gente sabe mais ou menos, basta conhecer o seu ponto de origem. Uns fogem da guerra, outros da fome, outros da miséria, fogem da repressão ou de inimigos ancestrais. Fogem em direcção ao Mediterrâneo, África ou Próximo Oriente para trás das costas, Europa na ponta do nariz.

O que me intriga é o que imaginam eles que irão encontrar caso consigam alcançar as costas europeias?

O que me intriga é que lugar imaginam os migrantes que é a Europa? Qual o seu aspecto? Como imaginam eles os europeus?

Seja como for aí estão! Fogem das guerras e vêm cair nas mãos dos que lhes vendem as armas para se matarem uns aos outros... a poesia deste mundo continua a escapar-me.




domingo, abril 19, 2015

Abril em Portugal

Aproxima-se a data da Revolução. Falta à volta de uma semana para que passem 41 anos sobre o "tal" dia.

Os saudosistas de esquerda vão falar da alegria imensa, do céu azul, da gaivota mais aborrecida de que há memória (aquela que voava, voava), da luta contra a opressão, dos direitos dos trabalhadores, da coragem das mulheres e dos homens que resistiram à (puta da) ditadura, dos campos do Alentejo e da reforma agrária, dos operários em luta, dos sindicatos, das bandeiras vermelhas, dos cravos (vão encher a boca de cravos vermelhos) e vão cantar a Grândola, Vila Morena (choro sempre nessa parte e lembro o Zeca com muito carinho, não sei porquê, sinceramente não compreendo esta parte de mim). No fim vamos todos beber uns copázios valentes (que eu sou destes, não sou dos outros) e, por uma vez, não iremos zurzir na gentalha que agora nos governa, nem engendrar planos mais ou menos malévolos para distibuir pelo povo o que é do povo. Estamos felizes e o coração aveludado não está para venenos.

Os saudosistas de direita vão escarrar sobre os cravos, vão lembrar: "Angola é nossa!", esticar os braços direitos como se estivessem a mostrar as unhas ao mestre-escola (escondendo a do polegar... o que fazem eles com o polegar para o esconder desta forma?), talvez berrem o hino nacional, vão ao barbeiro rapar o cabelo e vão tatuar cruzes suásticas sobre o peito que o nacionalismo é muito lindo mas o internacionalismo é muito mais lindo. Há outra estirpe de gente de direita, gente educada e bem cheirosa, que vai lamentar a perda de valores, a falta de reconhecimento que os pobrezinhos mostram a quem lhes quer tão bem, as praias do Algarve cheias de gentinha mixuruca, o facto de os ricos serem cada vez mais ricos mas agora toda a gente saber e muitos não gostarem deles principalmente quando são os tais pobres, agora cada vez mais pobres, vão lembrar: "Angola é nossa!", enfim, a gente educada de direita tem tanta coisa para lembrar!

Eu era uma criança naquele tempo. Agora sou um cinquentão. Lembro-me que o 25 de Abril me comovia ao ponto de sentir o coração explodir de alegria. Com o passar do tempo a explosão foi perdendo potência e, agora, parece mais um estalinho do que bombinha de carnaval. Se nã o fosse a Grândola nem uma lágrima vertia.

Viva o 25 de Abril! 25 de Abril, sempre! Fascismo, nunca mais!!!


sexta-feira, abril 17, 2015

Hélder e Helder

Quem não cria arte facilmente mete o pezinho na poça manhosa do mito romântico do artista. O ser arrebatado, vestido de negro, vivendo no alto de uma torre de marfim rodeada por um fosso repleto de crocodilos metafísicos; um ser soturno, constantemente atormentado por grandiosas visões nas quais o mundo lhe é revelado tal qual ele é (insuportável visão para o mortal comum que o génio se vê obrigado a carregar qual besta albardada calcorreando os caminhos da eternidade); artista tristonho, cara fechada, cara pálida, lilases e brilhantes olheiras, a carne prestes a ser rasgada por ossos pontiagudos: assim é um artista que merece ser admirado! 

É este ser misterioso e pouco dado ao calor do contacto humano, este ser habitante das longas sombras que a solidão projecta sobre a aridez do mundo, este ser de nevoeiro feito, este monstro da sensibilidade inteligente, este génio inalcançável, que olhamos com uma expressão de contido espanto, é uma coisa mais ou menos com esta forma de assim que nos habituamos a imaginar ser “o” artista.

Um artista será tudo e isso e, precisamente, o oposto absoluto ou, mais concretamente, uma incerta mistura de ambos e mais um ou outro que não consigo agora imaginar como seja. Resumindo: um artista é uma pessoa tão vulgar como as outras e tão invulgar como as demais. É abusivo pretender que o artista se confunda com a sua obra e vice-versa. Pode acontecer mas não é uma constante obrigatória. Já os conheci chatos como o caraças com obras espantosas e excitantes; extremamente interessantes, de verbo fácil e conhecimento vasto com obras mais enfadonhas que a biqueira de um sapato; convencidos, arrebatados, modestos, altos, baixos, magros, de todos os sexos, alguns nem uma coisa nem outra, nem um pouco mais ou menos. As suas obras, por vezes a carinha chapada do autor, outras vezes surpresas absolutas (Nunca imaginaria que eras capaz de fazer uma cena como essa!).


Tal e qual os meus amigos que trabalham nas mais variadas profissões, que vivem as mais diferentes vidas. Uns sofrem, outros são felizes e estas condições são flutuantes. Nem todas as pessoas extraordinárias são artistas, nem todos os artistas são pessoas extraordinárias. Lá no fundo todos somos pessoas. É só isso.