terça-feira, dezembro 25, 2007

O fiel amigo




Ainda há muito quem recorde que chamamos ao bacalhau "o fiel amigo". É uma designação algo estranha para um peixe, não acham? Dizemos também que o melhor amigo do ser humano é o cão mas o bacalhau bate-se bem com o quadrúpede, aqui por estas bandas. O bacalhau tem desde logo uma vantagem sobre pastores alemães, chiuhauas e buldogues, a gente come-o! Ainda por cima há mil e uma (ou duas) maneiras de cozinhar o bacalhau o que dá para satisfazer praticamente todos os gostos, mesmo os mais esquisititos.
Nesta época de Natal, em Portugal, pelo menos, come-se bacalhau ás toneladas. Cozido, assado na brasa, com natas e couves e batatas, as maneiras de cozinhar este amigo de longa data esgotam a imaginação do português humano.
Ainda ontem comi bacalhau. Nem gosto muito de ver o bicho deitado no meu prato mas enfim, Natal obriga e, vamos lá, até nem sabe tão mal quanto poderia parecer quando era criança e fugia dele como o diabo foge da cruz. O Natal é daquelas épocas em que um gajo parece não resistir a certas tradições. A árvore de Natal (tenho uma artificial "made in Vietnam!!!), as prendas, a reunião de família... o bacalhau. A quadra natalícia sem estes ingredientes não sabe bem, muito menos fica completa. Acabo de regressar de casa dos meus pais onde fui passar os últimos dias. Três ou quatro dias passados a comer e a beber em frente à lareira. A conversar, a rir. Três ou quatro dias a sentir que sempre houve, há e haverá um lugar onde o tempo não passa da mesma forma que passa noutros lugares, onde as recordações de muitos anos se cruzam com premonições de diferentes futuros. Os filhos, os sobrinhos, a criançada toda. Os familiares, os vizinhos, a casa.
E ele lá estava, como sempre, deitado e à espera que lhe espetasse o garfo. O fiel amigo, sempre presente, dê lá por onde der, cozido, assado, com natas, couves, batatas...

sexta-feira, dezembro 21, 2007

O que é o Natal?

O Natal é realmente uma coisa estranha.
No supermercado cá do bairro há uma pouco usual fila de velhinhos e velhinhas com caixas de Ferrero Rocher debaixo do braço, alinhadinhos, defronte a um balcão improvisado onde uma moçoila com bochechas rosadas e um aspecto levemente tresloucado vai fazendo embrulhos. Como se fosse uma "empacotadeira".
Mais para o fim da tarde, talvez noite (estava escuro), há uma pouco usual fila de carros de aspecto infinito, a atirar para o apocalíptico, nos caminhos que vão dar ao centro comercial. Tem a sua beleza. Luzinhas vermelhas dos que vão, branquelas, dos que vêm. Uns movem-se, outros nem por isso.
Na FNAC surpreendentes filas de pessoas de meia idade, com aspecto de serem da classe média e dispostas a gastar para aí metade dos ordenados em livros, DVD's, CD's e essas coisas que ali se vendem às pazadas nesta época festiva.
O Natal é a época das filas estranhas!

quinta-feira, dezembro 20, 2007

Interlúdio



Francisco Goya, o Surdo. A noite passada andei com um livro sobre a obra de Goya e um catálogo de uma exposição de gravuras da sua autoria para trás e para diante. Folheei, li. Voltei a folhear e a reler. O surpreendente Goya. Uma visita ao Museu do Prado, em Madrid, para ver alguns dos trabalhos do Mestre. Incomparável Goya. Quase Deus, revelado na genialidade de Goya. Deus quase é revelado. Ah, enormérrimo Goya!

terça-feira, dezembro 18, 2007

Olha quem fala!


Belmiro de Azevedo, o capitalista mais popular de Portugal, vem juntar a sua voz às daqueles que consideram o referendo ao Tratado de Lisboa uma coisa ruim. Só se admirará quem andar mais distraído que um orangotango enjaulado, mas convém atentar um pouco nas afirmações deste benemérito.
Diz Belmiro: "Só pode haver referendo em questões nacionais e regionais quando a pergunta é suficientemente simples para que a resposta não seja um voto tolo." O tom da afirmação deixa um gajo logo a olhar de lado; "só pode"!? Quem diz? Diz Belmiro. Com que autoridade? O homem deve ter-se em alta consideração a si próprio. O que até nem lhe fica mal, mas, da parte que me toca, as opiniões dele em matérias de ordem social e humana não me interessam, antes pelo contrário. Quanto ao voto tolo é uma ideia interessante e reveladora.
Mas o mais curioso é que, mais à frente, Belmiro conclui que o povo português não está preparado para responder em referendo a não ser "a questões de liberdade pública ou sobre grandes ameaças como o terrorismo." Ou seja, o povão só está habilitado a dar respostas que se enquadrem nas expectativas de quem lhas coloca. Como, normalmente, os referendos são da iniciativa dos poderes instituídos, quando a questão lhes desagrada nem sequer se coloca, como é o caso presente. Belmiro, habituado a mandar e ordenar e ter, ainda por cima, os sapatos lambidos, acha que Sócrates, um dia destes, vão dizer "en passant" que o referendo foi uma promessa irreflectida, daquelas que se fazem na cama após uma quente noite de amor ou quando se quer convencer alguém a entrar nela. A paixão de Sócrates pelos eleitores esmoreceu de forma significativa desde que se apanhou no poleiro com maioria absoluta. Resumindo, Belmiro imagina Sócrates como o patrão de Portugal que pode pôr e dispor de tudo e de todos como qualquer bom capitalista o faz com aqueles que lhe obedecem. E com os seus cães.
Belmiro bem podia ter ficado calado, mas enfim... o homem parece que é bom a fazer contas. Será que ele já leu a notícia que fica no outro lado deste link http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1314141&idCanal=13?

domingo, dezembro 16, 2007

Saudade

Há ocasiões em que fico triste por não ter 12 ou 13 anos. 14, vá lá, por aí assim. Fui ver A Bússula Dourada http://www.goldencompassmovie.com/ e senti essa saudade, quase inveja, perante a grandeza fantástica que o filme me propunha. Eu sei o que uma narrativa como aquela pode proporcionar a um adolescente, lembro-me vagamente de uma intensa capacidade de sonhar, de conseguir cruzar a imaginação com a realidade tornando tudo muito mais intenso, muito mais brilhante. A possibilidade de ser feliz a crescer de tal modo que o peito se enche de vontade de ser, de fazer, de ver acontecer, acreditando que tudo é possível, apesar de conhecermos os limites impostos ao mundo por aquilo que designamos como realidade. A Bússula Dourada é um filme deslumbrante, empolgante, épico, maravilhoso. Infelizmente tenho quarenta e picos e já não sou capaz de entrar por ali dentro ao ponto de me perder, de acreditar. Já não consigo vestir a pele das personagens de um filme assim. E tenho pena, sinto saudade de brincar e fazer de conta com tal competência que o mundo se transformava noutro mundo comigo dentro. É perante objectos tão surpreendentes como este filme que sinto nostalgia da infância.

sábado, dezembro 15, 2007

Feliz Natal, pessoal!


Anda tudo doido! As pessoas parecem ventoínhas, parecem abelhas, beija-flores, esvoaçando em redor das montras, entrando nas lojas e tocando a mercadoria com dedinhos gulosos, sonhadores. As pessoas andam numa lufa-lufa de deixar os ajudantes do Pai Natal em estado de medo pânico. As pessoas querem, elas desejam, elas almejam tudo o que vêem e o que não sabem ainda que desejam mas, decerto, irão desejar ainda. O mais tardar amanhã vão desejá-lo. E comprarm e embrulham a compra para mais tarde a oferecerem a alguém que a desembrulhe. Anda tudo doido. Consumindo, consumindo, consumindo. Consome-se a vida como se fosse fumada. Como se fosse um charuto cubano na boca do Pai Natal, a sorvê-la de uma vezada com aqueles pulmões poderosos de tanto fazer Oh-oh-oh. O mundo roda mais rápido nestes dias. Deve ser isso que põe tudo doido. E como estamos doidos andamos mais depressa e o mundo mais rápido. E ficamos tontos e andamos mais depressa... quando tudo terminar vamos perceber que nada disto adiantou grande coisa. Que a nossa vida não mudou com aquilo que saiu do embrulho. Que aquilo que saiu do embrulho é, afinal, muito diferente daquilo que imaginámos que lá tínhamos enfiado.
Espero que, como de costume, as pessoas estejam um pouco mais felizes no dia dos embrulhos do que o costume nos outros dias. É para isso que serve esta merdice toda. Esta tontice, esta sofreguidão, este consumismo desalmado, tudo isto é apenas vontade de amar e ser amado. Só mais um bocadinho, por uma vez que seja.
Feliz Natal pessoal!

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Já fomos...

Pois sim, referendo. Essa é forte! Já fomos levados e não adianta barafustar. Os gajos que assinaram a coisa levaram uma canetinha de prata em jeito de recordação e ainda devem estar a preparar-se para um lauto banquete oferecido pelo Presidente da República no Museu dos Coches. A escolha do local para irem encher o bandulho após o esforço de uma assinaturazita não poderia ser mais simbólica. Afinal de contas o coche é uma espécie de ícone das soberanias absolutas, uma recordação do tempo em que o povinho nem pensar podia quanto mais abrir a boca. Tal qual nos vão fazendo nos tempos que escorrem.
Apesar de tudo e tendo em conta a participação popular nos anteriores referendos realizados no nosso santo país, talvez seja melhor assim. Sempre podemos encher o peito de ar e berrar uns impropérios sobre estes neo-fascistas de pacotilha que nos impõem a vontade das multinacionais sem sequer nos pedirem licença. Se o povinho fosse chamado a manifestar-se nas urnas e participasse com uns 30% de votantes era uma vergonha do caraças e ainda teríamos de ver aqueles estadistas incomparáveis a rirem-se do pessoal.
Assim sendo podemos invectivá-los à vontade porque o povo é soberano (esta expressão é de ir às lágrimas!).

segunda-feira, dezembro 10, 2007

O amigo Kadhafi (e outros seres vivos)

"A Cimeira UE-África provou que os conceitos de ditador e de corrupto são relativos, de geometria variável: isto é, há ditadores bons, como haverá corruptos sérios."
João Paulo Guerra, "Diário Económico", 10-12-2007

Afinal o que é mais importante nas relações entre a Europa e a África? Ou então: quantas europas há? E quantas áfricas? Ou ainda: um ditador pode ser eleito democráticamente? E por aí adiante.
A célebre cimeira que ontem terminou, afinal, pariu um rato. Quando muito pariu uma ratazana. Sócrates e Barroso esforçam-se por considerar a dita cuja como tendo sido uma página dos livros de História acabadinha de ser escrita. Uma página brilhante, a ser lida com admiração e devoção pelas gerações futuras, os seus nomes recordados como sinónimos de grandes estadistas, homens capazes de ombrear com os gigantes políticos do passado, capazes de fazerem sombra aos gigantes políticos do futuro.
Na verdade não parece ter saído dali nada de substantivo. Uma nova postura entre os dirigentes dos dois continentes vizinhos, possibilidades de entendimento no futuro, negócios meio encobertos por divergências difíceis de ultrapassar, um leve agitar de fantasmas do passado.
Mas nada garante que esta cimeira seja recordada tal como poderá não ser esquecida tão depressa. O que ficou foi um conjunto de imagens que juntam alguns déspotas mais ou menos sanguinários com políticos ambiciosos e ávidos de protagonismo que, para posarem juntos na fotografia, evitaram falar de assuntos melindrosos e substituiram dentes cerrados por sorrisos luminosos.
Kadhafi é, afinal, um amigo. Um gajo porreiro. Um líder africano amado e admirado deste lado do Mar Mediterrâneo. Ou não é? Ficou a imagem de uma espécie de zombie a flanar por aí, com ar de estar a drunfar duas caixas de Valium 10 em cada hemisfério cerebral. Sócrates apertou-lhe a mão, fez-lhe alguns elogios mais ou menos velados, indicou-lhe o caminho, sorriu-lhe, fez tudo o que podia para não melindrar o amigo Kadhafi. Em nome de quê? Negócios. Dinheirinho. É a Economia a ditar a amizade entre os povos. Essa deusa universal, capaz de fazer esquecer as diferenças e aproximar os opostos. Essa deusa da amizade.
Foi bonito de ver os amiguinhos a apertarem as mãos em vez de apertarem as respectivas gargantas.

domingo, dezembro 09, 2007

Sem título (e sem imagem)

Às vezes até parece que o artista se esforça por limpar a sua obra ao ponto de a deixar toda polidinha, sem sombra de humanidade, sem pingo de moralismo, apenas uma (muito) vaga sombra de narrativa. Narrativa preferencialmente hermética e profundamente pessoal. Individual. Tão pessoal e tão individual que pode apenas ser única. Sendo única será tremendamente original. O artista, esse, paira sobre o mundo aborrecido, ligeiramente entusiasmado quando alguém ou alguma coisa parece ter compreendido algo daquilo que fez ou pensou que queria dizer mas... o mundo é tão "boring"! Não há nada que possa preencher este vazio imenso que esburaca o peito do nosso artista. Um génio incompreendido que nunca percebeu que o Romantismo não é sinónimo de oferecer flores a alguém ou declarar amor a uma lua mais cheia que vazia. Esqueceu-se de estudar a História da Arte por ser tão, tão tremendamente "boring". O que interessa aquilo que aconteceu antes se o futuro está todinho por inventar? O que interessa o que fizeram uns chatos há mais de 100 anos atrás se o génio está todo ali, embalado naquele corpinho, empacotado dentro daquele cérebro de foca tropical? Na hora de dar um nome ou escolher designação para o resultado do seu trabalho, o artista genial saca do seu mais estonteante trunfo, a sua cartada genial e declara: SEM TÍTULO!!!! Nem outra coisa poderia ser. Sem título nem nada que se aproveite. A não ser o génio do autor, claro está. O artista genial... o tal... estás a compreender-me leitor, não é verdade? É que eu sou um artista, e este post não tem título. Ou melhor é sem título. Quer dizer, afinal de contas, "sem título" é um título. O mais vulgar de todos.

Uma historinha de amor (Eu Africa...)

Sempre imaginei Portugal como o mais africano de todos os países do mundo que não ficam naquele continente. Não só pela proximidade geográfica ou pela recordação das tentativas de dominação com que sonharam alguns dos reis que por aqui reinaram. Portugal é quase africano na maneira de encarar o mundo, na dificuldade em combater as desigualdades sociais e erradicar a pobreza, na forma como permite que se vá instalando uma quase cleptocracia nas cadeiras do poder e da governação.
Portugal é quase África pelo calor e pela bonomia de uma parte significativa da população. É quase África por se ter misturado nela e tê-la trazido consigo, espalhando-a pelo resto do mundo todo. Portugal é parte de África por vocação e por paixão.
A cimeira UE-África que tanto tem agitado os últimos dias da nossa capital é apenas mais uma prova desta paixão, uma carta de amor transviada, um novo pedido de casamento, desta vez envergonhado. Queremos lá saber que Mugabe é isto ou Kadhafi aquilo. Que é isso dos direitos humanos quando a paixão é tão grande que só conseguimos ver aquilo que nem sabemos querer ver?
Esta cimeira é uma coisa bonita de se ver, é quase poesia, é quase só amor... ao que parece amor não correspondido.

sexta-feira, novembro 30, 2007

Acordo


Anda por aí uma ventania meio maluca a despentear as ideias de muito boa gente (e de gente má também) por causa do célebre acordo ortográfico para a língua portuguesa (ver texto do acordo em http://www.lusografia.org/ao/acordo-1990.htm). À boa maneira cá da gente, os que falamos esta língua, o dito acordo nem ata nem desata. Ele é uma coisa pouco amada por estas bandas do rebordo da Europa. Talvez por isso os representantes de Portugal vão dando uma cravo e três ou quatro em cheio na ferradura, fazendo sofrer o Acordo e quem nele acredita.
Muito sinceramente ainda não percebi tanta hesitação, muito menos o impulso conservador que vai tolhendo a decisão dos portugueses no sentido da activação do tratado. A língua que se fala é o resultado dos que os nossos olhos não conseguem dizer e a nossa mente é incapaz de mostrar para o lado de fora que não seja a palrar ou a escrever.
Quiseram as curvas do destino que o Português viajasse ainda mais que os portugueses. Daí que haja tantos falantes capazes de perceber de fio a pavio o conteúdo deste texto, assim mesmo, só de olhar cá para dentro.
O Acordo Ortográfico não me parece que vá alterar grande coisa. Apenas vai simplificar a ortografia e evitar alguns erros que cometemos com toda a singeleza. Quer dizer, no meu caso vai fazer com que dê muitos mais erros, uma vez que não me estou a ver a atinar de imediato com a coisa toda.
Mas, como ensino aos putos na escola, não vale a pena termos medo do ridículo. Errar é humano. Há até quem diga que o ser humano é, ele próprio, um erro de Deus. Assim como assim o Acordo pode ser aplicado já amanhã. Tenho quase a certeza que o Sol vai continuar igualzinho. A menos que venha chuva.

quinta-feira, novembro 29, 2007

2 anos e uma prova de que a beleza pode ser mais enfadonha que um discurso do saudoso Jorge Sampaio

O 100 Cabeças fez ontem 2 anos de existência. Não foi por isso que se deslocou em força ao Pavilhão Atlântico para assistir ao espectáculo do Cirque du Soleil, intitulado Delirium, mas pode-se dizer que foi isso mesmo. As expectativas eram bastante elevadas. Afinal de contas este "cirque" é do mais badalado que há e já se sabe como a coisa é sempre a dar para o grandioso. E foi! As soluções cénicas e o aparato tecnológico resultaram em imagens deslumbrantes. Sem dúvida nenhuma estivemos perante uma manifestação exuberante de beleza. Mas... o espectáculo em si, o (frágil) fio condutor da estrutura narrativa, o motivo de toda a função, é tão fraquinho como um vitelo acabado de parir. Não chega a ser bem um musical nem um espectáculo de acrobacia, fica-se por qualquer coisa entre ambos. O que não seria de desprezar caso a banda sonora fosse algo de razoável. Mas, na minha opinião, está longe de ser razoável, é uma refinada porcaria. As extraordinárias imagens e funções físicas dos acrobatas de serviço afrouxam a cada novo tema, enrolam-se a cada canção, transformando um festival visual num imenso bocejo.
Dois anos de vida e um quase soninho descansado entre 7 mil almas que enchiam as bancadas do Pavilhão Atlântico.

terça-feira, novembro 27, 2007

MUMIA


Todos os visitantes do 100 Cabeças são convidados a experimentar a MUMIA http://mumiafanzine.blogspot.com/, um Fanzine online com a colaboração de 3 gloriosos fazedores de fanzines desenterados dos anos 80, quando estas coisas se faziam com tesoura, papel e cola UHU,na fase de montagem. Depois era tudo fotocopiado e distribuido como fosse possível. "A Facada Mortal", o "Joe Índio" ou o "Mar Morto", foram alguns dos Fanzines produzidos com a colaboração dos actuais elementos da MUMIA.
É um Fanzine essencialmente visual que ainda anda por aí à procura da identidade perdida.

segunda-feira, novembro 26, 2007

A coisa está a ficar mesmo bera!

Nos últimos dias crescem as vozes que dão conta de um recrudescimento doentio do controlo legal sobre aspectos da nossa vida quotidiana que julgávamos inofensivos. Emanadas pela "União Europeia" a cada dia que passa, surgem normas e imposições legais que parecem ridículas (que são ridículas), absolutamente desnecessárias e incompreensíveis. Os estados da Uniãosão encorajados a meter, cada vez mais, o nariz onde não são chamados. Há leis para tudo e mais alguma coisa, cria-se uma floresta de regras de tal modo densa que o comum dos cidadãos, um dia destes, não sabe se há-de limpar o cú com a mão direita sem ser multado, caso haja algum fiscal a observá-lo e a regra seja limpar a merda com a mão direita. O 1984 de Orwell parece estar apenas um pouco atrasado, mas está a chegar.
Há uma ditadura do senso comum a impor-se, sem sufrágio nem programa, uma ditadura que é fruto da mais rasteira propaganda mediática e que tem, por objectivo ao que parece, zelar pelo nosso bem-estar, saúde e segurança, nem que para isso tenhamos de ser catigados, enxovalhados e mandados para um centro de recuperação de qualquer coisa esquisita. Moda e publicidade, aliados a um súbito desvelo pela forma física, querem fazer de nós todos uma coisa só, hordas de Super-Barbies a abanar a peidola para hordas de Super-Kens e vice-versa e etc. que os tempos são de tolerância em termos sexuais (dizem, mas não sei se acredite). Só é pena que este amor pelo aspecto físico não tenha paralelo em termos intelectuais. Os senhores que gerem esta merda toda escondidos na sombra, esses Big Brothers de pacotilha, ou não perceberam nada da herança grega e deturpam a Democracia esquecendo que um corpo são só faz sentido se, primeiro, empacotar uma mente sã, ou então são pura e simplesmente uma corja de pulhas enfatuados e amarelados pela indolência, com um gosto infantil por gadgets tecnológicos, carros de marca e mobiliário XPTO.
Inclino-me mais para a segunda hipótese. Penso que está a chegar a hora de fazermos frente a esta onda de merda que ameaça submergir as nossas liberdades individuais em nome da saúde e dos interesses da "nação" ou do "estado" ou lá quem é que se alimenta do nosso trabalho e do nosso sangue. Os monstros devem matar-se, sempre que possível, antes de sairem do ovo. Mesmo bébés já são terríveis adversários. É por isso que lhes chamamos monstros.

quinta-feira, novembro 22, 2007

Experiência pedagógica


Uma sala de aulas com vinte e tal crianças com 9 ou 10 anos de idade lá dentro é um espectáculo que deveria ser admirado por toda a gente, pelo menos uma vez na vida.
A ministra da educação, por exemplo, está mesmo a precisar de experimentar a sensação. Era metê-la numa arenazinha desse género, anónima, com umas fichas na mão para a criançada preencher. Deixá-la lá dentro durante 90 minutos e, no fim, recolher os bocados da senhora. Depois colava-se tudo de novo e teríamos uma ministra completamente nova e, quem sabe, renovada.

Esse Jorge



Foi anteontem, no Coliseu de Lisboa. Jorge Palma, ao vivo. Sala cheia. Tudo sentado. O Coliseu dos Sentados! Sabe mal, principalmente quando queremos mostrar ao corpo aquilo que o cérebro está a sentir e temos de nos ficar por umas palmadinhas na perna ou aquele esticar de pescoço meio tôlo, a acompanhar o ritmo. Sentadinhos. Mas esse Jorge aí tem aquela outra coisa qualquer, difícil de explicar ou exprimir, uma coisa que nos faz gostar de estar ali. Que nos faz sorrir. Que nos torna cúmplices uns dos outros.
Escrever ou falar desse Jorge, o Palma, é redundante. É que, ainda por cima, podemos ouvi-lo. Seja em silêncio ou aos gritos. Sentados ou em pé. Mesmo deitados podemos ouvi-lo.
Ouvi-lo. É aí que reside o prazer.
Força Jorge. Estamos contigo.

O vídeo que acompanha este post é de uma versão de "Portugal, Portugal" (dava um bom hino nacional!) ao vivo na estação de metro do Cais do Sodré.

segunda-feira, novembro 19, 2007

Democracias

Foto de Hashim Thaci, ex guerrilheiro e actual líder do Partido Democrático do Kosovo

A Democracia há muito que deixou de ser coisa grega. Quando os Iluministas do século XVIII elegeram a Razão como princípio orientador da espécie humana e a Felicidade se tornou um fim a atingir neste mundo (e não no outro), assistimos ao início de um novo modo de interpretar a Democracia que haveria de nos oferecer as sementes dos actuais sistemas políticos ocidentais. As grandes revoluções (a americana, a francesa e, antes delas, a Gloriosa Revolução nas Ilhas Britânicas) travaram em definitivo o Antigo Regime e o Liberalismo haveria de derrubar, paulatinamente, os regimes Absolutistas. Começava a Era Contemporânea com todo o esplendor e miséria que hoje conhecemos.
Hoje as diferentes Democracias que se espalham pelos 4 cantos do mundo funcionam como espelhos dos povos. A nossa é tristonha e cinzenta. A venezuelana é colorida e folclórica. Na China interpretam-se os princípios capitalistas numa estranha mistura com resquícios do sistema comunista. Cada povo vai encontrando a sua forma de expressão política em função da sua História e das características específicas do seu tempo e do seu espaço.
Na História da Arte aprendemos que os diferentes estilos, alinhados na cronologia da evolução das formas artísticas, se adaptam e geram imagens semelhantes mas com características diferenciadas. Num mesmo tempo, em espaços geográficos diferentes, as formas de expressão artística raramente são iguais. Quando muito são equivalentes.
A Política é uma espécie de forma de expressão de um povo, a arte suprema: a arte da organização social. Enquanto cidadãos temos o direito e o dever de contribuir, com a nossa acção quotidiana, para a caracterização dessa forma de expressão colectiva. Enquanto seres civilizados não temos o direito, nem o dever, de impor a nossa forma de expressão a quem a não quiser partilhar.
A Liberdade é a expressão máxima da Beleza. Sejamos livres. Permitamos a Liberdade alheia.

domingo, novembro 18, 2007

Uma coisa que incomoda

O rapto de Europa, Ticiano


A história do tratado constitucional é a história de uma fraude política. Alguns povos recusa­ram a Europa mais ou menos federal, assim como a Constituição. Fez-se um tratado pra­ticamente igual, mais complexo, mais técni­co, mais incompreensível. Com os objectivos explícitos de enganar a opinião; de aprovar furtivamente o que tinha sido recusado; e de evitar que houvesse novos referendos. Os argumentos dos defensores do tratado e opositores dos referendos são intelectualmente pobres, politicamente autoritários, tecnicamente medíocres e moralmente condenáveis. Dizem que "não vale a pena"; que "o parlamento é tão legítimo quanto o povo"; que "é muito complexo e técnico" e, por isso, "incompre­ensível para o eleitorado"; que "é igual ao anterior"; e também que "é diferente do anterior".
Não é só no método e no processo que este tratado é uma fraude. Também no seu conteúdo. Sob a aparência de um melhoramento, concretizado em competências marginais conferidas ao Parlamento Europeu, este tratado é um dos mais potentes recuos da democracia na Europa. O Parlamento Europeu, pela sua natureza, estrutura e função, não é uma instituição favorável à democracia. Por outro lado, este tratado relega defini­tivamente os parlamentos nacionais para a arqueologia política e confere-lhes um estatuto tão relevante para a liberdade como o de uma qualquer direcção-geral dos recursos hídricos.






Este texto é um excerto do Retrato da Semana de António Barreto, no Público de hoje. O titulo é Pobre Europa e, ao lê-lo, surge a sensação de que algo está a mudar na União Europeia. Fica a sensação de que os europeus estão a assitir à criação de uma nova forma de regime político em que a participação dos eleitores deixa de ser particularmente importante. Uma espécie de falsa democracia, baseada numa visão paternalista da política, em que os "chefes" são iluminados por uma bondade quase divina e aceitam arcar com todas as responsabilidades, aliviando os cidadãos do fardo que significa ter de pensar e escolher algo. Os votos populares só serão importantes para eleger os "chefes", pelo menos por enquanto.
Bem vistas as coisas e tendo em conta o exemplo português, os actos eleitorais são cada vez menos participados. Os eleitores abstêm-se na hora de votar. As percentagens da abstenção sobem a cada nova eleição. No que diz respeito aos referendos os números chegam mesmo a envergonhar. Esta apatia cívica encoraja os "chefes" a chegarem-se à frente na hora de decisões demasiado importantes para serem tomadas apenas por eles. Mas não é apenas em Portugal que este fenómeno se verifica. Um pouco por toda a União os cidadãos vão esquecendo os seus direitos e deveres para com o sistema democrático deixando que o futuro lhes seja encomendado por meia-dúzia de burocratas engravatados que não são, necessariamente, os mais brilhantes ou mais honestos de entre todos.
Anda aqui qualquer coisa que incomoda...

sábado, novembro 17, 2007

Ora toma lá!


Lembram-se disto? Foi no passado mês de Julho que esta capa da revista El Jueves pôs a Espanha em polvorosa. Ainda andávamos a discutir a questão dos cartoons blasfemos que supostamente haviam incendiado o mundo islâmico por lidarem com a imagem de Maomé de forma, digamos, pouco católica e já nos víamos confrontados com esta situação, no mínimo, embaraçosa, do lado de cá da fronteira do choque de civilizações.
O caso foi para tribunal e os autores da brincadeira foram condenados a pagar uma indeminização por desrespeito aos "retratados" o que é considerado crime na terra de nuestros hermanos.
Afinal de contas a liberdade de expressão só se defende quando os gozados são os outros? Ora tomemos lá esta que é para aprendermos! Se os autores deste cartoon merecem castigo então os que representaram o Profeta do Islão a fazer isto e aquilo podem muito bem ser lapidados em praça pública. Ou há justiça ou comem todos!
Os cartoonistas espanhólicos recorreram da sentença mas, mesmo que venham a ser ilibados, já temos a escrita toda borrada.

sexta-feira, novembro 16, 2007

Vai chatear o Camões


A imagem mostra um dos momentos mais mediatizados nos últimos tempos, aquele preciso em que o Rei Juan Carlos, de Espanha, mandou calar o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela. Pessoalmente quer-me cá parecer que a atitude do Rei se deveu mais à evidente falta de sentido de oportunidade do venezuelano, que estava a ser chato e a falar fora do seu tempo de intervenção, do que pelos insultos que iam caindo sobre José Maria Aznar, que não estava ali.
Penso que Chávez tem razão, Aznar é um fascista de "mierda", mas também acho que Zapatero marcou pontos ao lembrar a Chávez onde estavam e que, naquele contexto, há coisas que não se dizem, nem que sejam verdade (sabendo que a verdade é uma questão de perspectiva, alguém poderia afirmar que Chávez é um comuinista-tirano-de-merda e depois...?).
Chávez imagina-se uma espécie de anjo vingador enviado à terra por uma divindade mestiça para pôr ordem nas desordens deste mundo e do outro. Será verdade lá na cabeça dele e nas de alguns milhões de venezuelanos que o apoiam, mas o mundo existe independentemente de Chávez e da sua fértil imaginação. Mais, as regras de funcionamento de certas reuniões internacionais não se alteram para se adaptarem ao estilo "saiam-da-frente-que-aqui-vou-eu" do Hugo da Venezuela. O homem fala quando deve e quando não deve, em estilo matraca, e pensa que os outros o devem aturar e permitir-lhe tudo porque ele "não tem medo da verdade" ou coisa que o valha. Porque ele fala pelos oprimidos e deserdados do sistema capitalista e etc. e tal. O gajo está convencido que detém a verdade e, por isso, estamos todos obrigados a ouvi-lo sempre que lhe apetecer falar e durante o tempo que ele conseguir aguentar, mesmo sem assunto que não sejam umas cançõezitas ou umas anedotas de gosto duvidoso.
Há quem não esteja para o aturar e lho diga na cara, como fez Juan Carlos. "Porque não te calas?", "que já estás a chatear" ou "não é a tua vez de falar" seriam conclusões possíveis para a frase do Rei de Espanha. Não me parece que haja outra intenção na sua inesperada intervenção mas a paciência tem limites. Em português alguém lhe diria,"Chavecito, vai chatear o Camões!" e a coisa ficaria por ali e resolvida.

terça-feira, novembro 13, 2007

A guerra


http://www.rtp.pt/index.php?article=302442&visual=16 porque há coisas assim vale a pena espreitar de vez em quando a televisão. A série documental A Guerra de Joaquim Furtado é um documento imprescindível, um trabalho jornalístico de grande valor. A guerra colonial continua muito mal ilustrada no nosso imaginário colectivo. Esta série vem colmatar uma enorme lacuna. A não perder. Vou terminar rapidamente este post pois o episódio de hoje está quase a começar e não quero perder nem um minuto.
Até mais logo.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Todos seremos perfeitos

Deus não foi tão cuidadoso como as suas capacidades criativas poderiam fazer prever. Fez-nos pouco perfeitos, na maior parte dos casos. E não foi só no aspecto psicológico, digamos assim, as imperfeições físicas, ui! Por vezes até metemos medo.
Mas não é nada que não tenha remédio. O desenvolvimento tecnológico aliado a um refinado apuramento do sentido estético e do melhor bom gosto têm vindo a permitir um constante aperfeiçoamento do aspectozinho exterior de uma parte significativa da humanidade.
Os cirurgiões plásticos corrigem os mais variados defeitos, os dentistas oferecem-nos sorrisos luminosos e certinhos, os estilistas embrulham tudo com uma imaginação tremenda e surpreendente. Em última análise caminhamos para a uniformização do aspecto exterior dos seres humanos com capacidade económica para fazerem o jeito ao Criador de corrigir os Seus descuidos. Virá o dia em que milhões de Barbies e Kens, perfeitos como se tivessem sido fabricados a partir dos mesmos moldes, povoarão o planeta. Os feios e defeituosos serão enviados para guetos apropriados às suas malformações específicas, desaparecendo das ruas e dos meios de comunicação de massas. O mundo rejubilará na beleza e na perfeição da espécie.
À uniformização física corresponderá a uniformização do intelecto. Um mundo perfeito, habitado por perfeitos cidadãos. O sonho que Deus não sabe que teve mas que nós, filhos dilectos, nos encarregámos de Lhe recordar. Um mundo sem dor nem vício (pelo menos que se vejam), um mundo onde o amor prevalecerá sobre o ódio (pelo menos entre semelhantes), enfim: ainda lá não estamos mas para lá nos dirigimos.
Amen.

domingo, novembro 11, 2007

O corpo, gaiola da alma

Com o Natal à porta (vem longe mas dirige-se á porta) os panfletos publicitários multiplicam-se nas caixas de correio. Prometem-se preços incríveis, produtos extraordinários, promoções imbatíveis. Enfim, é o paraíso na Terra, consumismo límpido como a face de um anjo.
No meio da pepaelada colorida encontrei esta "Família Portuguesa" número 2 de 2007. Não me tinha apercebido do número 1, nem sei se houve outras edições em anos anteriores, mas esta lá me captou a atenção. Pelo título da revista e eplas características do papel pensei que fosse mais uma daquelas publicações de seita religiosa, mas não. Havia uma pequena surpresa à minha espera.
A responsável pela edição é uma tal House of Trends Company com sede na Dinamarca. Eh lá, uma revista originária da Dinamarca intitulada "Família Portuguesa"! Olhando melhor pode ver-se que o corpo editorial trabalha algures a partir da Holanda e, por fim, a impressão é realizada na Alemanha. Caramba! As voltas que dá esta "Família Portuguesa" até chegar ás nossas caixinhas de correio.
Olhando para a capa ficamos com a sensação de que, afinal, há qualquer coisa de seita por trás da revistinha. Fala-se no salvamento de uma tal Maria Sofia, em dores que desapareceram, zumbidos nos ouvidos que foram curados e alguém que recupera energia para enfrentar a vida. Firmeza (de carnes), magreza, enfim, imagens e relatos de felicidade recuperada através de algo ou de alguma coisa. Lá dentro anúncios completam as reportagens e entrevistas que nos dão notícia de curas e recuperações quase milagrosas de uma série de personagens. Umas conhecidas dos écrãs de TV, outras anónimas mas igualmente felizes. Os anúncios são, invariavelmente, a produtos de uma tal Pharma Nord http://www.pharmanord.com/.
Enfim, a revista promete mundos e fundos para os utilizadores dos vários produtos desta empresa, tendo como matriz a recuperação da perfeição física seja qual for a idade desde que se recorra à utilização dos referidos fármacos milagrosos.
É um ataque vindo de terras do Norte da Europa tendo como objectivo tornar-nos a todos mais belos, mais perfeitos e mais felizes. A vida saudável a fazer das suas, o ideal do corpo são a tornar-se, cada vez mais, uma espécie de nova religião para a felicidade dos consumidores.
Passa-se a mensagem de que vale tudo para melhorar o nosso aspecto físico nem que, para isso, tenhamos de abdicar de pequenos (ou grandes) prazeres. É a proposta de dar a alma pelo corpo transformando-o numa gaiola dourada.
É para quem quiser.

sábado, novembro 10, 2007

Um Van Gogh, dois picassos, três mirós...

O mercado de obras de arte vive tempos agitados. As grandes leiloeiras, nomeadamente as incontornáveis Christie's http://www.christies.com/home_page/home_page.asp e Sotheby's http://www.sothebys.com/, vão oferecendo a eventuais compradores alguns trabalhos de grandes mestres. Note-se que estou a falar de trabalhos de grandes mestres e não, obrigatoriamente, grandes trabalhos. Ouvimos falar em "mirós" ou "picassos" e logo surgem, associados a estas designações generalistas, números incompreensíveis em euros ou libras ou dólares, números astronómicos seja qual for a moeda. As leiloeiras esperam sempre que haja alguém ou alguma instituição com poder económico suficiente para adquirir os produtos que comercializam.
Nos meses (anos?) mais recentes têm sido transaccionadas muitas obras deste calibre com base e ponto de partida nos preços propostos. Frequentemente atingem-se novos recordes que deixam o comum dos mortais de queixo caído perante a dimensão do fenómeno e os donos das leiloeiras a esfregarem as mãos de contentamento. A cada novo leilão é mais um record que se ultrapassa. Isto tem sido assim.
Até que, um dia destes, não sei se anteontem ou no dia anterior, a Sotheby's não conseguiu vender "um" Van Gogh. O quê? Um Van Gogh sem comprador!!?? Soaram os alarmes e de imediato surgiu a palavra "crise". O mercado terá entrado em crise?
O que eu gostaria de frisar é que existe a possibilidade de o tal Van Gogh ser uma obra pouco apelativa. Talvez o objecto em si não seja particularmente brilhante e, mesmo numa situação tão abstrusa como é esta de comercializar objectos artísticos, haverá a necessidade um mínimo de paixão entre comprador e objecto. Digo eu. Ou seja, as tabelas de preços são estabelecidas segundo parâmetros específicos, vende-se mais o nome do autor do que o objecto propriamente dito.
Pessoalmente, para dar um exemplo, considero o Miró da colecção Berardo um pequeno horror, uma obra desinteressante. O Ernst dessa mesma colecção é pouco deslumbrante e os picassos também não são nada de extraordinário. Mas sempre são "um" Miró, "um" Ernst e "dois" picassos!
Para finalizar acrescento apenas que entre a paixão e o interesse monetário há uma distância imensa, difícil de quantificar ou explicar quando falamos de objectos de arte. Não creio que haja uma crise só porque "um" Van Gogh patinou num leilão. Talvez a tal paisagem não fosse assim tão apetecível ou então o preço base de licitação poderia ser apenas assim a dar para o exageradíssimo, uma vez que exagerado já ele era de certezinha absoluta.

sexta-feira, novembro 09, 2007

Timidez artística


No pretérito dia 8, abriu ao público a ArteLisboa, na FIL. Nunca lá pus os pés. Parece mentira ou que estou a gozar. Mas não, é a mais pura das verdades que tenho escondidas no meu íntimo. Tenho a impressão que, mesmo as pessoas que vivem comigo nunca se terão apercebido de semelhante enormidade. Nem eu.
Ano após ano penso exactamente aquilo que estou a pensar neste momento. Que vou lá amanhã. Mas depois de amanhã ainda não fui e, quando dou por ela, estou um ano mais velho e continuo sem visitar a maior feira de arte que se faz cá no país. O pior é que nem sequer sinto uma pontinha de remorso. Não vou e acabo por me sentir melhor do que se fosse (como posso afirmar uma coisa destas?), pelo menos é isso que o meu egozito interior vai dizendo cá para fora para me sossegar. Mas talvez seja este o ano em que dou lá um saltinho a ver o que se anda a vender (ou pelo menos a tentar vender) pelas galerias portuguesas.
Uma ida aqui http://sic.sapo.pt/online/noticias/cartaz/20071108Project+rooms+sao+novidade+na+ArteLisboa.htm fornece alguma informação e tem um vídeozinho da peça noticiosa do Telejornal da SIC sobre o acontecimento. Até aparece o Pacheco Pereira falando no seu estilo particularmente abrupto e adocicado.
Reflectindo um pouco sobre a forma como me tenho esquivado a esta feira sou levado a suspeitar que sinto um pouco de vergonha. Ir a um sítio onde todas as obras expostas, ou pelo menos a esmagadora maioria delas, foram criadas com o intuito de seduzir um coleccionador qualquer (e sabemos que os coleccionadores não são assim tantos) ou impressionar o espectador ao ponto de o levar a comprar, envergonha-me. Embaraça-me. Talvez seja isso.
Entretanto aqui fica o link directo para uma página http://www.artelisboa.fil.pt/EN/feira_PressPresente.asp que me parece ser mais ou menos uma página oficial do evento.
Resumindo e concluindo, sou tremendamente preguiçoso quando se trata de ir a feiras se souber de antemão que não vou lá comprar nada. Uma feira de bugigangas em Londres, em Lisboa ou em Berlim pode seduzir-me a passar por lá. Já uma feira de gado no Ribatejo dificilmente receberá a minha visita. Uma feira de revistas de BD exerce sobre mim uma atracção quase incontrolável. uma feira de objectos artísticos não. Prefiro museus. Eu sei que isto é mais do que discutível, que a contemporaneidade anda à frente do tempo, que é vanguarda, etc. Mas eu, no que diz respeito à arte sou bestialmente conservador e não papo qualquer merda que me ponham à frente só porque está quente, acabadinha de fazer.
É a tal timidez artística.

quarta-feira, novembro 07, 2007

Caldo entornado

Já não há mais paciência para a completa incapacidade, diria mesmo, para a total incompetência da Ministra da Educação e a sua equipa de anõezinhos. São incapazes, são mal preparados e, sobretudo, mal formados. Não prestam e dão provas da sua azelhice a cada dia que passa. Não bastava a indignidade do Estatuto do Aluno, uma medida inacreditável que apenas passa na Assembleia da República graças a uma maioria parlamentar do Partido Socialista que se caracteriza pela absoluta subserviência à voz do dono.
Nas escolas somos diáriamente confrontados com novas portarias, despachos e outras imbecilidades impostas nas mais variadas formas legislativas, num festival de burrice total e desconhecimento absoluto. A Ministra tem de ser imediatamente afastada do cargo levando com ela, pela mão, os seus secretários de estado e bem podem ir para o raio que os parta.
Estou absolutamente indignado com a forma como as escolas estão a ser tratadas por estes assassinos da educação, esta espécie de corja de talibans suicidas que a cada dia enterram mais e mais um sistema educativo moribundo que assim desce à cova quando ainda respira.
Uma lástima!
Este post é um desabafo, uma manifestação de raiva profunda, provocado pela impotência que sinto perante a imposição de regras que sei (todos os professores sabem!) serem catastróficas para a nossa vida profissional e, pior, para o bom funcionamento da vida nas escolas por esse país fora.
Ministra para a rua, já!

segunda-feira, novembro 05, 2007

Mariza na terra do Tio Sam



Mariza andou em digressão por terras do Tio Sam (com uns saltinhos até ao Canadá). Rezam as crónicas que o sucesso desta tournée foi enorme. Não admira, Mariza é uma figura excepcional e canta como poucos. Cá pela santa terrinha as opiniões dividem-se. Há quem goste mais e quem goste menos desta fadista assombrosa (como se percebe pela conversa eu sou dos que gostam muito mais que menos). O costume, temos uma certa dificuldade em aceitar a grandeza dos nossos e acabamos a endeusar certos papalvos só porque que nos cantam em inglês musiquetas da moda. Nada de mais.
Neste vídeo, retirado do You Tube, Mariza canta "Ó Gente da Minha Terra" num daqueles shows de TV americanos em que se consomem banalidades e se dizem enormidades como se isso fosse a coisa mais natural da condição humana. Mariza oferece uma performance poderosa, como é seu hábito, ao ponto de David Letterman, o apresentador que começa por se referir a ela com palavras algo jocosas, acabar meio aparvalhado perante o que viu e ouviu.
A Velha Europa de visita à Jovem América (do Norte).

É Natal?

Começam a surgir os frutos da época. Um pouco por todo o lado (leia-se nas superficíes comerciais) os habituais enfeites de Natal vão ganhando espaço, sugerindo a chegada da época mais consumista no nosso calendário. As televisões animam-se com anúncios de brinquedos que vão aguçando os apetites dos mais novos mas também os instintos consumistas dos mais adultos. As revistas de fim-de-semana que acompanham os jornais dedicam páginas inteiras, com design cuidado, a ideias para prendas e ofertas variadas dirigidas a todos os tipos de bolsas e sensibilidades. A mais de um mês de distância, o Natal está aí!
Este ano, de Outono anormalmente quente, a artificialidade desta antecipação precoce soa ainda mais vazia de sentido. Não há frio nem chuva, a queda de neve parece coisa de outro planeta. O Pai Natal vermelho da Coca-cola ainda não fez a sua aparição massiva mas adivinham-se tempos difíceis para os empregados temporários que irão vestir as fatiotas e sentar criancinhas no colo. Muito suor e mau cheiro no sovaco.
Diz a canção que "Natal é em Setembro, é quando um homem quiser...", talvez fosse mais apropriado afirmar que "Natal é quando o homem de negócios chega com um sorriso do tamanho do mundo".

domingo, novembro 04, 2007

Déjà vu

Ora aqui está um daqueles filmes que se não virmos nem damos conta que o não vimos e o contrário vale exactamente o mesmo http://theinvasionmovie.warnerbros.com/. A trama é bastante simplista e linear, a realização e montagem estão benzinho e não envergonham os autores. De modo nenhum.
Nicole Kidman está mais bonita dando a impressão que o passar dos anos, para ela, funciona a contento. Cada vez mais ganha aquela expressão vagamente ameaçadora, de sobrancelha carregada, que lhe dá uma certa graça. É acompanhada por Daniel Craig, esfíngico e imperturbável, dando o corpo ao manifesto, como de costume. Como diz o povo: "Quem dá o que tem a mais não é obrigado" e Daniel Craig oferece tudo o que tem. Não parece haver muito mais, ali por aqueles lados.
Penso que já deu para perceber que considero o filme dispensável mas também não virá grande mal ao mundo se o eventual leitor destas linhas se der ao trabalho de sentar os ossos numa sala de cinema onde passe o dito cujo. O tema do filme e o seu desenlace situam-se a um nível bastante primário, perfumados por um certo moralismo que, para narizes mais sensíveis, poderá mesmo ser interpretado como um fedor incomodativo.
Resumindo e falando sinceramente, "A Invasão" é como um "Comic Book" animado (a narrativa global conjugada e completada pelos noticiários televisivos é um recurso narrativo característico dos "Comics") com cenas de grande intensidade e uma prestação global bastante razoável mas falta-lhe fôlego no argumento e imaginação que provoque surpresa no espectador quando a coisa está mesmo a pedi-la.
Numa escala de 5 estrelas poderia dar-lhe 2 se bem que, num dia de maior empatia com o mundo que nos rodeia pudesse arriscar 3 sem me sentir muito envergonhado.

sábado, novembro 03, 2007

Não me lixem!

Estas imagens ilustram uma notícia publicada hoje no Público (ver edição impressa, pág. 18, em http://www.publico.clix.pt/). Supostamente são desenhos de uma criança de 9 anos (o de cima) e de outra, com apenas 8 anos (o de baixo), que terão assistido a ataques terríveis e sanguinários dos tristemente célebres janjawid, no Darfur.
Uma análise superficial e imediata dos dois desenhos permitem afirmar, sem sombra para dúvidas, que estamos perante uma mistificação grosseira. Ou bem que, por um extraordinário acaso, se trata de dois pequenos Picassos, geniais na forma como dominam a composição visual, com um sentido de organização formal absolutamente extraordinário para crianças tão pequenas (ainda por cima vivendo algures no interior do Darfur, com uma educação visual limitada aquilo que a Natureza oferece ao olhar humano) ou então estes desenhos saíram da mão de algum adulto nascido e criado num universo mediático e não no deserto.
Se alguma dúvida pudesse existir, o pormenor da perspectiva axonométrica das cabanas, representadas no desenho de cima, eliminaria de imediato a possibilidade de esse desenho ter sido executado por uma criança de 9 anos, a menos que tivesse frequentado uma escola bem exigente em termos de desenho, o que dificilmente será o caso do seu alegado autor.
No desenho de baixo, a perspectiva escalonada das cubatas, à maneira de um Giotto nos seus melhores dias, não permite, também, ignorar o evidente logro que nos pretendem impingir com estas imagens. Note-se a curva extraordináriamente equilibrada do caminho e a forma como os soldados se organizam para fuzilarem as pobres vítimas, a fazer lembrar os fuzilamentos representados por Goya ou Cézanne em duas famosas obras primas.
Enfim, todos sabemos que a tragédia do Darfur é tremenda e não será fácil encontrar documentos visuais que sustentem com eficácia a sua denúncia no universo mediático em que vivemos e onde a imagem é caução de realidade. Daí a querer fazer de nós parvos ou, na melhor das hipóteses, "inocentes visuais" vai a distância entre a verdade e uma mentira descarada.
Estes desenhos são mentiras descaradas. Pelo menos no que toca à atribuição da sua autoria.

quinta-feira, novembro 01, 2007

BIC


Grande publicidade aos marcadores BIC

Mania da supremacia

O episódio degradante protagonizado pelos elementos da Arca de Zoe que tentavam "importar" crianças directamente do Chade para França sob o pretexto de lhes oferecerem um nível de vida muito superior ao que poderiam sequer imaginar caso continuassem em África ilustra bem o significado da palavra "chauvinista" que, normalmente, surge associada aos compatriotas de Astérix. Claro que não são apenas os franceses a estarem convencidos de que vivem numa parte do planeta que merece o lugar mais alto do pódio na competição das civilizações humanas.
Quando seremos capazes de aceitar a possibilidade de haver quem seja completamente feliz vivendo de um modo absolutamente diferente do nosso? Quando seremos capazes de deixar cada um escolher livremente o seu destino sem olharmos para os que são diferentes de nós com aquele arzinho trocista de quem se imagina o maior do mundo?
Nesta triste história há um pormenor que me deixa um tanto arrepiado. Li no jornal que os simpáticos benfeitores aliciavam as crianças com doces e promessas de as levarem à escola, argumentos de peso que garantiam a simpatia dos catraios. Talvez os mensageiros de Zoe pudessem investir algum dinheirito na criação de escolas no Chade. Assim estariam a contribuir para melhorar as condições de vida no local ao invés de pretenderem transformar os pequenos chadianos em franceses, cidadãos da União Europeia.
Se na verdade somos uns sortudos por termos um certo modo de vida, talvez fosse mais solidário criar condições para que os outros descubram o seu próprio, sem lhes pretendermos impingir o nosso, raptando-os. É que eles podem não gostar de vir para cá e depois será demasiado tarde para desfazermos a asneira.

segunda-feira, outubro 29, 2007

A China desperta


Zhang pintando um dos retratos que lhe vão garantindo fama e proveito

Xiaogang Zhang (http://www.saatchi-gallery.co.uk/artists/zhang_xiaogang.htm) é tido como o próximo Número 1 em termos de vendas no complexo universo da arte contemporânea. Num mundo fascinado por números com muitos zeros, ser o Número 1 na lista de vendas significa que as suas obras atingem preços quase incompreensíveis, difíceis de perceber com exactidão.
Mas Zhang, ao que consta, não vem sozinho. Há muitos outros artistas chineses que se perfilam para ombrear com os tradicionais norte-americanos, ingleses e alemães no Top dos mais valiosos e fazerem as manchetes dos jornais que deixam o público espantado com os preços astronómicos que os objectos de arte podem atingir.
Além da legião chinesa fala-se também de uma colecção de artistas indianos que andam a fazer das suas. É a confirmação do despertar do Oriente para o mundo contemporâneo e uma prova evidente de que o velho Império Ocidental, com os EUA à cabeça, começa a dar sinais de velhice e alguma fraqueza.
Hoje o mundo da arte, amanhã todos os mundos possíveis.

domingo, outubro 28, 2007

O festival que caminha


Todos os anos muda de lugar (talvez eu esteja a exagerar mas dá essa impressão). O FIBDA, Festival Internacional de Banda Desenhada da Amadora (http://www.amadorabd.com/) vai saltando de espaço em espaço, à procura daquele que melhor se adapte ao tipo de acontecimentos que o caracterizam. Este ano aterrou no Forum Luís de Camões, na Brandoa, naquele que parece ser um local apropriado para o seu formato. Espero que, atingida a maioridade nesta 18ª edição, o FIBDA tenha finalmente encontrado um poiso mais ou menos definitivo.

Visitei esta tarde o dito cujo, tendo podido observar algumas celebridades deste discreto meio. Lá estava Geraldes Lino, resplandescente de felicidade, como peixinho dourado em água de aquário esférico; José Ruy, debitando sabedoria numa mesa, rodeado de alguns senhores de provecta idade, tal como ele; Rui Zink, folheando comics num ritmo meio alucinado, como se procurasse algo de concreto e a coisa não fosse assim muito evidente de encontrar; e eu prórpio, estrela no meu filme particular, acompanhado de outras duas personagens míticas da minha existência: a minha esposa, incomparável no brilho, e a minha filha, uma vedeta inultrapassavel, desenhadora de créditos mais que firmados, autora de Banda Desenhada super-promissora (pai babado).

Enfim, entre vedetas conhecidas e desconhecidas, encontrei um espaço bem agradável, com exposições interessantes (a sala dedicada ao Salazar, agora e na hora da sua morte, da Cotrim e Rocha é um pequeno espectáculo). Como de costume tive uma extrema dificuldade em comprar o que quer que fosse. Por um lado a minha extensa colecção elimina de imediato uma boa quantidade edições de BD, nacionais e internacionais, por outro, aquilo que não tenho e me é oferecido é de tal modo vasto e apetecível que acabo num estado letárgico, impeditivo de abrir os cordões à bolsa.
Resumindo e para concluir: quem gosta de BD não perde, decerto, quem não gosta também não irá lá fazer nada. A não ser que decida tomar uma atitude semelhante aquela que o leva a entrar numa igreja mesmo quando não acredita em Deus... nem no Diabo.

sábado, outubro 27, 2007

Cromos

Num daqueles passeios indolentes que de vez em quando se fazem pela blogosfera fui dar de caras com este O BAÚ DOS CROMOS http://cromosvelhinhos.blogs.sapo.pt/.
Explorando um pouco o baú encontrei imagens que tinha guardadas lá para o fundo da memória. Jogadores de futebol como já não os há (notem bem o aspecto de lavrador alentejano do guarda-redes da foto que ilustra este post), fotos retocadas com céus de um azul plano ou corpos recortados e nítidamente colados sobre um estádio em fundo. Outra era mediática, de um mundo quase pré-histórico em termos tecnológicos.
Relembrei as cadernetas, a cola feita com farinha e água num tacho de alumínio com a ajuda do meu avô, caramba, um gajo vive tão pouco tempo e as coisas perdem-se completamente nos confins da memória. Depois vieram os cromos em papel todo janota, os tubos de cola Pica-pau (mesmo assim os bastões de cola já são coisa da minha idade adulta) e toda uma nova forma de encarar a colecção de cromos. Hoje os cromos são autocolantes, claro está!
Um gajo vive tão pouco tempo e as transformações do nosso quotidiano dão a impressão de que, afinal, vivemos uma eternidade. Vivemos?

quarta-feira, outubro 24, 2007

A Festa



Andamos a precisar de uma boa festarola. Copos... que digo eu? Garrafões de vinho! Garrafões? Pipos! Pipos de vinho a rolar estrada abaixo e bebedolas a rolar estrada acima, uns atrás dos outros em cantoria desenfreada. Uma banda de gajos corados como tomates a soprarem nos trompetes como se estivesem a precisar de cuspir os pulmões e risos desdentados e mãos grossas de calos de trabalho a segurarem os copos em gestos de graciosidade inesperada. Gestos de amor declarado ao vinho. Cânticos brejeiros, a roçarem a péssima educação e as mulheres a rirem-se de tanta pouca vergonha, com a cabeça deitada para trás na força da gargalhada. Ah, as saudades que já tenho de uma boa festa sem música gravada nem batidas automáticas. Festas sem bom gosto nem poses afectadas nem perfumes caros nem copinhos a arder. E a banda a tocar e os pares rodopiando na poeira do chão, abraçados no furor da dança. Andamos a precisar de nos sentirmos menos europeus de primeira e mais europeus verdadeiros, europeus do Portugal profundo. Felizes de tanta boçalidade e amigos do desvario. Onde andamos nós?

(por acaso a foto que ilustra este post foi tirada em Espanha pelo fotógrafo checo, se não estou em erro, Joseph Koudelka, no ano de 1971. Por acaso somos tão semelhantes... será apenas acaso? Ou será a tal Europa?)

domingo, outubro 21, 2007

Euroburocracia mata!


O designado Tratado de Lisboa é um péssimo exemplo da forma como a Democracia é encarada pelas cúpulas da União Europeia (ler mais em, por exemplo, http://noticias.uol.com.br/ultnot/lusa/2007/10/18/ult611u75399.jhtm)
Contornar a vontade popular numa questão desta envergadura mostra até que ponto a União Europeia é uma coisa e a Europa é outra, completamente diferente. Cada vez mais as decisões referentes à nossa vida são tomadas por um conjunto de burocratas mais ou menos desconhecidos e que se guiam por uma filosofia (chamemos-lhe assim) obscura e ditada ao sabor dos interesses dos grandes países europeus, nomeadamente a França e a Alemanha.
Não estou a ver bem como tudo isto irá acabar mas, com o tempo, esta União dos eurocratas irá definhar e morrer de morte mais ou menos natural.

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sábado, outubro 20, 2007

Gostar

Bacalhau à Portuguesa


"Os gostos não se discutem" é um dos ditados populares portugueses mais disparatados e serve de escudo protector a algumas das maiores imbecilidades que por aí se passeiam, vestidas de fato-e-gravata, como se não fosse nada com elas.
Como se não discutem os gostos, gosta-se de algo "porque sim" ou porque "é giro" e deixa-se de gostar "porque não" ou então porque "é feio" ou ainda, num modelo de maior refinamento, porque "não tem estética". E pronto, fica-se assim mesmo, podendo-se passar de imediato aos temas mais comuns como discutir se está calor ou faz frio ou se o Benfica é mais beneficiado pelos árbitros de futebol que o Sporting e o Porto juntos. Não se vislumbra que venha daqui grande mal ao mundo e, por isso mesmo, deixa-se passar impunemente esta falta de capacidade de gostar ou odiar verdadeiramente o que quer que seja por se considerar a indigência cultural algo de inofensivo.
Mas não é. A pobreza de espírito beneficia principalmente os que dela não padecem e a aproveitam para arrebanhar o pessoalzinho com conversas da treta faladas naquela linguagem simplória dos "porque sim, porque não, porque é giro e não tem estética". Chamam-lhe "linguagem popular" mas talvez devêssemos chamar-lhe "linguagem populista". É urgente complexificar o discurso, quanto mais não seja para aumentar a confusão que por aí vai.

sexta-feira, outubro 19, 2007

Oh, Dali?

Ontem foi dia de viagem. Viagem de estudo, na companhia de colegas e alunos das turmas de artes da Escola Anselmo de Andrade, em direcção à cidade do Porto. Visita guiada à casa da Música e, mais tarde, à exposição de trabalhos de Salvador Dali, patente no restaurado Palácio do Freixo. (ler mais em http://jpn.icicom.up.pt/2007/08/01/arte_esculturas_e_ilustracoes_de_dali_no_palacio_do_freixo.html)
Quanto à visita à Casa da Música não há grande coisa a dizer. Tratou-se de travar conhecimento com um espaço arquitectónico curioso à qual faltou poder assistir a uma demonstração das capacidades acústicas da sala principal. Ficará para outra ocasião.
Relativamente à mostra de trabalhos do mestre dos bigodes loucos, deu para tomar o gosto ao seu universo destrambelhado, numa colecção de esculturas de dimensões variadas e uma vasta colecção de gravuras em diferentes técnicas. Ao contrário do que esperávamos não havia um único desenho mas sim litogravuras, pontas secas e xilogravuras, por vezes com apontamentos de cor aplicados após a realização da prova final (as chamadas monotipias).
É uma mostra bastante extensa, com trabalhos algo inesperados para quem está habituado a pensar nas "fotografias de sonhos" características de Dali. Imagens gestuais, com aplicações de cor arrojadas e marcadas por alguma gestualidade que não constituem imagem de marca do mestre.
Enfim, pessoalmente nunca fui um grande entusiasta do surrealismo de Dali, admiro muito mais o trabalho de Max Ernst, por exemplo, mas os jovens alunos que acompanhei nutrem uma admiração sem fim pelo homem dos bigodes esquisitos. Como a visita era a eles dedicada (aos alunos, não aos bigodes de Dali) penso que acabou por constituir um pequeno êxito.
Uma palavra final para o Palácio cujo restauro oferece ao visitante alguns espaços interiores barrocos com uma certa espectacularidade nos estuques dos tectos, nas pinturas murais e outros pormenores decorativos.
Uma visita a fazer, caso se ofereça a oportunidade.
Bibó Puarto, carago!

quarta-feira, outubro 17, 2007

Saudade

Há ocasiões em que tudo é posto em causa. Talvez as questões se tornem mais prememntes quando as coisas correm coxas das duas pernas. Talvez seja porque o calor nunca mais desaperta e começa a parecer demasiado, tanto Verão Outono dentro. Mas o que é um facto é que a eterna crise parece cada vez mais eterna e há sinais de que vai ainda ser afiada nos tempos próximos e ameaça doer a cada nova alfinetada.
Putin foi ao Irão fazer das dele. Com palavras venenosas conseguiu baralhar ainda mais as cabeças cá deste lado e, acredito, não menos baralhadas terão ficado as dos ayatolas, do lado de lá desta coisa a que chamamos mundo. Bush já dá sinais de birra eminente e não faz a coisa por menos: vai falando de uma 3ª guerra mundial caso o Irão avance com o fabrico da terrível bomba. Ameaças.
Querem lá ver que ainda vamos assistir ao regresso de uma Guerra Fria! Para ser sincero já vou tendo saudades dela. Sim, porque de Guerra Quente já estou mais que farto. Venha de lá essa velha guerra do diz-que-faz-mas não-faz~que-o-inimigo-ainda-é-pior-que-nós. Ah, que saudade!

segunda-feira, outubro 15, 2007

A guerra

A grande guerra, a derradeira batalha a travar não é contra outros seres humanos. Não é com outros seres humanos que temos de nos preocupar quando pensamos em termos de supremacia na crosta planetária. O nosso inimigo é de outra natureza e vive dentro de nós. É um inimigo silencioso e com um modo de vida tão diferente do nosso que não temos a mínima hipótese de organizar um plano de batalha credível, quando se aproxima para lutar. A grande guerra, aquela que já está em curso e que vamos perder é contra os vírus. No final eles serão os últimos sobreviventes, os grandes triunfadores. Na Guerra dos Mundos, H.G. Wells faz dos vírus os responsáveis pela derrota dos terríveis marcianos. São eles que dão mais uma oportunidade à sobrevivência da humanidade. Talvez por gulodice ou simples eficácia laboral. Os vírus são trabalhadores incansáveis e não consta que reclamem períodos de férias.
Eu sei que esta conversa está um bocado parva. Deve ser do vírus que está a lutar comigo. Uma simples gripe pode fazer um gajo ficar deitado e com dores durante todo o dia. Dores de merda, eu sei, e estar deitado sabe muito bem. Pronto. ATCHIM!!! Caraças. Belo dia de folga!

sábado, outubro 13, 2007

Efeito borboleta

A inauguração da nova igreja em Fátima é um acontecimento estrondoso. Se os pastorinhos nela entrassem decerto ficariam convictos de estarem a pisar o chão do Paraíso. E ninguém havia de os convencer do contrário.
Há 90 anos atrás as criancinhas da foto acima viram, algures na serra de Aire, "uma senhora mais brilhante que o sol" que identificaram como sendo a Nossa Senhora. Foi esta a sementinha que agora germina numa igreja devotada à mãe de Cristo, erigida com o dinheiro de esmolas e outras pias doações, pela módica quantia de 70 ou 80 milhões de euros (mais 10 ou menos 10 milhões é uma questão de pormenor) para glória de Deus nas alturas e espanto do Seu rebanho, cá em baixo, neste imenso vale de lágrimas que é o planeta Terra.
Não deixa de ser um desenvolvimento espantoso, um crescendo de fé imenso e espectacular. O altar da dita igreja parece-me, pelas imagens que tenho visto na imprensa e na TV, um cenário grandioso e ofuscante, coberto de ouro e representando figuras que evocam as formas artísticas das antigas basílicas bizantinas. Um misto de opulência estética e soberbo exibicionismo do poder da hierarquia católica, capaz de custear e mandar erigir tamanha monstruosidade e beleza. Com este templo regressa a velha questão: o dinheiro gasto na construção não poderia ser aplicado de um modo mais... católico?
Seja como for é mais uma imensa obra arquitectónica que abre as portas às multidões e lhes oferece visões de obras de arte que elevam este mundo a um patamar mais próximo do outro.

quarta-feira, outubro 10, 2007

Sinais

O comportamento do governo liderado por José Sócrates no que toca ao respeito devido pela liberdade de expressão e manifestação pública é, no mínimo, preocupante. Há sinais descarados da mais abjecta intolerância e começam a notar-se actuações e tiques autoritários que não imaginávamos serem possíveis num governo rotulado como sendo de esquerda.

A "visita" de dois agentes da polícia à sede de um sindicato de professores na Covilhã onde recolheram, abusivamente e à margem da lei, informação sobre uma acção de protesto legal a realizar naquela cidade por ocasião da visita do 1º ministro mostra que a cultura democrática está no balde do lixo deste governo.

Se a isto somarmos os comportamentos verificados no "caso" da investigação à forma como Sócrates obteve o seu grau académico de Engenheiro ou o célebre saneamento de Charrua na DREN ou ainda os processos disciplinares na estação de televisão pública e muitos outros comportamentos indignos de uma sociedade democrática baseada no respeito pelos direitos individuais e de cidadania temos fortes razões para nos indignarmos e protestarmos veementemente.

O monstro que tapa as bocas e pretende aninhar-se nos cérebros para lhes comer a liberdade de pensamento e amedrontar as pessoas anda por aí a rondar. Temos de lhe espetar um valente murro nos cornos e sacar-lhe as tripas para fora. Só quando o virmos agonizar com as tripas ao sol poderemos voltar a ficar descansados.

segunda-feira, outubro 08, 2007

Negócios escuros como a água


Os desmandos dos mercenários das empresas privadas de segurança no Iraque fazem brilhar uma luzinha ténue sobre o "outro lado" da guerra. O tiroteio que envolveu alguns homens da Blackwater (http://www.blackwaterusa.com/) agitou a sombra e fez sair a cauda do bicharoco. Agora há muita gente por esse mundo fora a tentar perceber o aspecto do resto do bicho, a parte que continua em sombra promete muito nojo e repulsa.

Mas não será apenas no campo da "segurança" que as negociatas faraónicas são disputadas com ferocidade. Calcula-se que haja mais mercenários no Iraque que elementos das forças armadas americanas. Tudo o que tenha a ver com a reconstrução das infraestruturas mais básicas está ao alcance dos amigos dos invasores.

O espírito da coisa é básico: primeiro destrói-se tudo à força de bomba e tiroteio depois oferece-se o know how para voltar a pôr tudo de pé. Os países amigos dos americanos têm permissão para enviar os empresários melhor intencionados a fim de estabelecerem contratos com as vítimas. Por essas e por outras é que países sem recursos naturais importantes costumam agonizar às mãos de governos assassinos sem que ninguém mexa uma palha em sua defesa. Se esses ditos governos cleptocratas fizerem negócios com os USA estão a salvo da fúria justiceira (Angola é um bom exemplo). O Darfur não terá decerto nada que possa interessar nem cidades para reconstruir, por isso está condenado ao abandono. Se os bandidos no poder fizerem frente aos USA e tiverem, por exemplo, muito petróleo no interior das fronteiras, estão a meter-se em sarilhos. Normalmente acabam com as ruas feitas em cacos, as cidades passadas a ferro e as estradas e pontes passadas no picador da carne conjuntamente com fatias significativas das populações locais. "Culpados" e "inocentes", tudo misturado.

O exército não pode assegurar condições de trabalho em segurança a todos os abutres ao serviço dos "reconstrutores" que debicam o cadáver do Iraque e é aí que entram em cena esses abortos das democracias ocidentais que são as empresas privadas de segurança das quais a Blackwater nem sequer é a maior mas, apenas, aquela que pôs o rabo de fora.
O slogan na imagem promocional da Blackwater que ilustra este post é um verdadeiro hino à hipocrisia. Ou talvez não. "Para garantir liberdade e democracia por toda a parte", diz.
Cada vez mais faz sentido o princípio de Orwell em "Animal Farm" ("O Triunfo dos Porcos" na versão portuguesa) "Os animais são todos iguais mas uns são mais iguais que outros".

domingo, outubro 07, 2007

1408 - O Filme

1408 é um filme de terror baseado num conto de Stephen King (http://www.stephenking.com/) o verdadeiro King das adaptações cinematográficas. São às dezenas os filmes que vão buscar assunto à cabecinha pensadora deste escritor que cria histórias fantásticas com a mesma naturalidade com que qualquer um de nós descreve o que comeu ao pequeno-almoço. Um poço sem fundo, a imaginação do Stephen. O realizador é Mikael Håfström do qual conhecia apenas Derailed (http://www.weinsteinco.com/derailed/ Pecado Capital na versão portuguesa) um filme envolvente e bem conseguido com um excelente Clive Owen a liderar a função.
Em 1408 temos outro actor em bom plano, John Cusack, capaz de levar o espectador a entrar no assustador mundo que se esconde por trás da porta daquele quarto de hotel novaiorquino. O filme resulta bem, tem momentos arrepiantes e coloca em cena alguns clichés do horror movie com bastante eficácia. Como espectador saí da sala de cinema mais ou menos igual. Não me encheu as medidas, não transformou a minha visão sobre nenhum assunto particularmente importante nem me fez tremer de medo. Divertiu-me, isso sim, até porque as minhas acompanhantes, mulher e filha, completaram na perfeição o que ia passando no écrã. Numa escala de 0 a 5 estrelas, como nos hotéis, dou-lhe 3. Pela limpeza e pela arrumação.

O aviso de Farag, por Paulo Moura

Na edição de hoje do Público saiu este texto de Paulo Moura. Como sempre é um texto interessante e que nos põe em contacto com o Outro Mundo em que Moura viaja e do qual nos dá notícia com as suas prosas. Para ler e meditar.

Farag Foda foi um muçulmano lúcido e cora­joso. Desculpem, mas ele chamava-se mes­mo assim. Alguns autores ainda optaram por uma versão um pouco diferente, em inglês, do apelido - Fawda. Ou Fouda em português.
Mas logo apareceram os puristas a criticar: a forma ortográfica correcta deste nome árabe nas línguas de origem latina e germânica é Foda.
Não obstante, Farag era professor e um intelectual sério. Envolveu-se em causas humanitárias e escreveu vários livros e artigos de opinião na imprensa do Egip­to, onde nasceu, em 1946. O seu tema preferido foi o fundamentalismo islâmico e o seu género literário preferido a sátira. Nos dois, Foda fez História.
A sua tese principal, pelo menos a mais conhecida, era a que de que os integristas, terroristas, teóricos sa­lafistas e outros radicais do islão tinham um problema em comum: a frustração sexual. Seria por não terem acesso aos ternos prazeres da carne que se entregavam à paixão da carnificina, dizia Foda. E acrescentava (neste caso referindo-se a Abd al-Hamid Kishk, um dos mais populares pregadores radicais egípcios): "Ele diz à sua audiência que os muçulmanos que entrarem no para­íso usufruirão de eternas erecções e da companhia de jovens rapazinhos envoltos em laçarotes e enfeites."
É verdade que Farag citou a prédica do velho xeque cego Kishk, para a seguir contar como a mes­ma deu origem a um deba­te entre os teóricos. Nem todos concordaram com Kishk. Um deles, da Uni­versidade estatal al-Azhar, contra-argumentou que, no paraíso, as erecções não seriam eternas, mas sim temporárias, ainda que prolongadas. Outro contestou a possibilidade da pederastia no paraíso. Mas houve quem lembras­se que, embora a homossexualidade fosse desaconselha­da, a pedofilia não era proibida, citando uma passagem do livro do Ayatolla Khomeini, do Irão: "Um homem pode ter prazer sexual com uma criança, até mesmo com um bebé. Pode sodomizá-Ia, mas não penetrá-la. Se dessa forma danificar a menina, ficará responsável pela sua subsistência, por toda a vida. Esta rapariga, no entanto, não contará como uma das suas quatro mulheres permanentes. E o homem não terá direito a desposar uma irmã dela.”
A propósito, outro estudioso fundamentalista re­cordou esta passagem do mesmo livro de Khomeini: "Um homem pode ter sexo com animais como ovelhas, vacas, camelos, etc. No entanto, deve matar o animal depois do orgasmo. Não deve vender a carne ao povo da sua própria aldeia. já vendê-la ao povo da aldeia mais próxima não é proibido."
A respeito desta fecunda polémica, Foda comentou: "É isto que preocupa os muçulmanos no final do século XX? O mundo à nossa volta anda ocupado com a con­quista do Espaço, a engenharia genética e as possibi­lidades dos computadores, enquanto os doutores do islão se preocupam com o sexo no paraíso."
Em Junho de 1992, Farag Foda foi assassinado por dois fundamentalistas islâmicos do grupo AI Gama'a aI Islamiya. O advogado de um deles explicou numa entrevista, quando interrogado sobre a sua ideia de Direitos Humanos: "Farag Foda tinha o direito humano de criticar o Governo ou de o criticar a si. Mas não tinha o direito de criticar Deus. Somo escravos de Deus e Ele tem o direito de nos condenar à morte, se o insultamos."
Contra Deus não há direitos humanos.

sábado, outubro 06, 2007

Aprender a aprender




Parece-me um pouco absurda a forma como a imprensa aguarda impaciente cada novo discurso de cavaco Silva. Como absurdas me soam as notícias fresquinhas que logo correm as nossas praças após a presidencial faladura.

O Actual Presidente da República é olhado como uma espécie de oráculo, um pensador ponderado e com profundidade oceânica, atributos que nunca antes teve nem é agora que lhe vão nascer no cérebro como flores primaveris para alegrarem a nossa sina modorrenta. O discurso de Cavaco no dia de ontem trouxe particular agitação pelos conteúdos relacionados com o eterno calcanhar de Aquiles da velha nação portuguesa, a educação. Note-se que a dita educaçaõ foi muito maltratada pelo Cavaco 1º ministro e parece agora preocupar sobremaneira o Cavaco presidente da república. Mudam os tempos...

Cavaco afirmou que temos falhado na formação dos jovens portugueses e que esse é o principal problema a resolver. Permito-me acrescentar que a educação dos adultos também se tem revelado um desastre completo contribuindo igualmente para este marcar de passo que nos mantém sempre no mesmo ponto, o ponto de partida. O nosso presidente é, ele próprio, a prova viva desse falhanço. A crença boçal na desnecessidade de "aprender até morrer" faz dos portugueses um povo de potenciais retardados culturais. Basta olhar para os níveis de escolaridade das nossas classes trabalhadoras para percebermos que não é apenas nos bancos das escolas que existe carência de trabalho intelectual.

A educação é um desígnio fantasma de Portugal e dos seus tristonhos habitantes. Dos mais pequenos tanto quanto dos maiores. Em termos de ignorância e falta de entusiasmo pelo conhecimento os filhos são a carinha chapada dos seus pais.

sexta-feira, outubro 05, 2007

Querida televisão

A minha televisão é a única companhia com que posso contar. É com ela que tomo o cházinho e com ela converso sobre as questões que incomodam o dia-a-dia que a mim já nada me incomoda a não ser a solidão. A jarrinha com flores serve-lhe de chapéu. Dá-lhe um aspecto bem patusco. Mas ela não se importa, encaixa bem a brincadeira. Sabe o apreço que por ela tenho. É quase amor. Sei que não se ama um objecto da mesma forma como se ama uma pessoa. Mas já não há pessoas reais na minha vida, só as pessoas que me visitam através do écrã da minha televisão. Ofereço-lhes uma xícara de chá, um bolinho, dois dedos de conversa. Por vezes sinto que a televisão me olha e se enternece comigo. É uma boa amiga. Fiel, discreta no trato e conversadora incansável. Conta-me histórias e eu retribuo com atenção e silêncio. É uma relação perfeita. Sem segredos nem mistérios. Dias a fio ali estamos, uma em frente da outra, esperando que o tempo passe. E que um dia me leve.


quarta-feira, outubro 03, 2007

A falha

O sistema democrático é o nosso sonho mas toma cada vez mais a aparência de um tremendo pesadelo. Um dos problemas mais complicados e que parece impossível de resolver prende-se com a escolha dos dirigentes para cuidarem com o desvelo necessário da coisa pública.

Os regimes monárquicos tinham o problema resolvido. Os dirigentes nasciam assim mesmo, com selo de garantia carimbado pelo próprio Deus, eram os seus representantes na Terra e faziam o Seu trabalho por estas bandas. Assim, para o bem e para o mal, os reis e rainhas eram parte do impenetrável Plano Divino e caso algo corresse às avessas era porque Deus assim queria e nada havia a fazer quanto isso. Ele escreve direito por linhas tortas e o Tempo se encarregaria de demonstrar a bondade e a infalibilidade do sistema. Como o Grande Arquitecto estava a orientar a cena os comuns dos mortais tinham apenas de confiar e seguir as suas vidas com confiança e, acima de tudo, animados por inabalável Fé.

Depois deram-se as Revoluções Americana e Francesa, acabou-se com o Antigo Regime e os reis, fossem sóis ou outra estrela qualquer, passaram a personagens secundárias sendo, nos dias de hoje, pouco mais que objectos decorativos dos regimes a que chamamos democráticos. A Deus passou a dar-se o que é de Deus e a César o que é de todos nós.
200 anos a construir sistemas democráticos ainda não chegaram para encontrar a pedra de toque que transforme os governantes escolhidos pelo povo em pessoas de bem e com cabeça para controlar a contento os negócios do Estado. Uma Democracia precisa de ser capaz de gerar elites dirigentes que sejam isso mesmo: elites e não meros sabujos disfarçados de gente séria. Acreditamos que num sistema social justo despontarão pessoas capazes de perpetuar a justiça de forma equilibrada mas não parece que estejamos a ser particularmente felizes na concretização desse objectivo. O que tem faltado? Porque ficamos com a sensação de que, uma vez sentados na cadeira do poder, aqueles que elegemos com renovada esperança se transformam em gajos falsos como nem Judas terá alguma vez sonhado vir a ser? O que está a falhar no nosso sistema político e social?
Bom, esta pergunta é de tal modo desmesurada que o melhor é ficar por aqui e regressar mais tarde ao assunto.

terça-feira, outubro 02, 2007

Sem título


Forçar os limites do dia é o trabalho do homem comum. Empurrar a rotina, lutar com o relógio, endireitar as costas no esticar do queixo. Os carros passam, um pássaro esquce-se de piar ás 8 da manhã. Não há que recear o erro nem temer o sabor amargo do café matinal. A vida é para ser vivida. Cada minuto conta. Todos os minutos de cada dia. Dentro do carro ouvindo as últimas sobre a fila de trânsito ali mesmo à frente. A sujar as mãos na tinta do jornal e a sola do sapato na caca fresca deixada no passeio pelo caniche da vizinha. É assim que um homem comum encara a vulgaridade da vida. O erro, quando surge ao virar da esquina, não é mais nem menos que uma hipótese, uma outra oportunidade de fazer uma coisa com aparência de ser bem feita. Os homens extraordinários habitam os corpos dos homens comuns. Estão ali, à espera. Mais tarde ou mais cedo eles aparecem. E vêm tomar o café matinal contigo.

segunda-feira, outubro 01, 2007

Vulgares como pares de sapatos


A publicação da acta de uma conversa entre Bush e Aznar a propósito da melhor forma de iniciar a guerra no Iraque mostra a vulgaridade com que um assunto desta gravidade pode ser tratado. Preocupados principalmente com o modo como poderiam "dourar a pílula", os dois estadistas (chamesmos-lhes assim) vagueiam num discurso rasteirinho e pouco edificante. Não há uma frase ou uma ideia que ultrapassem a visão do merceeiro preocupado em manter as aparências a despeito da qualidade dos produtos que trafica. A podridão não preocupou estes dois, apenas os seus interesses directos. A mentira foi tratada como se fosse verdade.
Salta à vista a forma grosseira como Bush imaginava o desenrolar da guerra e as benéficas consequências da invasão para o povo iraquiano. Como erro de cálculo não deixa de ser um verdadeiro monumento à estupidez!

O pormenor da escolha dos Açores como sede da célebre "cimeira da paz" (esta até dá vómitos) em detrimento das Bermudas é, talvez, o traço mais relevante da grandeza de espírito destes homens. Aznar preferiu os Açores às Bermudas porque "(...) o nome destas ilhas que se associa a uma peça de roupa não é exactamente o mais adequado para a gravidade do momento." Fica bem patente o sentido do espectáculo que animava o antigo 1º ministro espanhol, preocupado com as aparências visto que em termos de conteúdo nada havia a fazer senão tentar iludir o pessoalzinho.


Assim foi, assim se fez. Os anfitriões dessa cimeira de má memória foram Durão Barroso e Paulo Portas, 1º ministro e ministro da defesa do nosso país nessa data, os idiotas úteis de serviço.

Depois deste frete aos poderosos senhores da guerra, Barroso tornou-se Presidente da Comissão europeia e Paulo Portas fez um branqueamento à dentuça não sem antes ser condecorado em Washington pelo bandido Rumsfeldt, por bons serviços prestados à causa da guerra no Iraque. Conclui-se que ser idiota neste mundo cão acaba por compensar, desde que se seja idiota no lado certo do planeta.