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domingo, fevereiro 24, 2019

Em que pensava eu ainda agora?

Há um ruído contínuo. Umas vezes lá ao fundo, outras vezes cabeça dentro; é como uma matraca mas uma matraca por vezes a bater em superfície acolchoada. O silêncio, nas cidades, tornou-se um bem, é produto de luxo ao alcance apenas de uma minoria. Ainda assim é preciso desejá-lo.

O ruído de fundo ininterrupto molda as pessoas. Se, porventura, esse ruído sofre interrupção, logo sobrevém a incómoda sensação de desconforto provocada pela impressão de alguma ameaça eminente. Silêncio implica catástrofe. É como quando as aves desaparecem do céu e se adivinha a proximidade da borrasca.

Viver na cidade exige a aceitação do ruído constante. O ruído faz parte do pacote, nem sequer se coloca a possibilidade de ser recusado. Viver na cidade é aceitar o ruído.

A pessoas como eu, que viveram a infância em ambiente rural e que têm, esporadicamente, a possibilidade de regressar a esse espaço mítico de paisagens verdejantes e montanhas azuladas pela distância; a imposição grandiloquente de um ruído benfazejo não constitui sedução suficiente ao ponto de evitar uma certa náusea, uma certa vertigem, uma quase rejeição muscular.

Por vezes dou por mim a reparar na barulheira, lá por detrás do cérebro e penso: em que pensava eu ainda agora? Lembro-me de uma frase que escrevi num "diário gráfico" dos meus primeiros tempos de estudante, quando troquei a pasmaceira dos espaços que habitei durante a minha infância e adolescência pela Babilónia incansável que é a Grande Cidade; escrevi então "traz-me todo o silêncio que encontrares e pendura-o nessa parede".

Só agora, quase 40 anos volvidos, compreendo o que quis dizer então, só agora alcanço o valor do silêncio.

domingo, março 18, 2018

Olvido

O tempo passado enfiado num frasquinho de vidro, mergulhado em vinagre (penso que fosse vinagre) ali estava, suspenso, perante o meu olhar mais ou menos espantado.

Eram duas revistas, uma publicada em 1984 e outra em 1991. Papel amarelecido, um leve odorzinho a môfo, coisas esquecidas, daquelas coisas que não existem e, no entanto, estão ali para nos mostrarem como a realidade é muito mais que o presente o que a torna algo cuja existência é absolutamente impossível.

Tentei recordar-me de alguma situação, algum acontecimento, qualquer coisinha que me transportasse de volta a esse passado esquecido (presente impossível). Népias, nadinha de nada. Néribi.

Fico assim mesmo, embasbacado a olhar o frasquinho, a massa informe do que fui misturada na solução translúcida em suspensão que mantém a existência do tempo que lhe corresponde. Confuso, não é?

Quando um gajo fica nostálgico e se põe a tentar recuperar acontecimentos enterrados na lixeira do olvido acaba a imaginar coisas que só fazem sentido dentro da sua cabeça. É isto que aqui escrevo. Exactamente.

sábado, novembro 19, 2011

Negra recordação

Lembro-me bem de ver putos meio nus, sujos e desgrenhados, com ranho eterno a brilhar abaixo do nariz e um pouco sobre o lábio. Putos assim, a correr pela rua, pequeninos, com as vergonhitas aos saltos. As avós eternamente vestidas de negro, as cabeças amarradas debaixo dos lenços com gestos de esconder os cabelos, sentadas, apáticas, num luto infinito que iria durar até mesmo depois da morte.

As mães dos putos andavam nas terras, a cavar, mãos como solas de sapatos que só calçavam ao Domingo, quando os tivessem. Domingo, dia de ir ver a Deus pedir ajuda e protecção que nunca vinha. Os homens tinham ido para o Luxemburgo ou para África fazer a guerra que lhes diziam ser deles mas, penso agora, havia dúvidas quanto a isso.

Na aldeia havia dois ou três automóveis, duas ou três televisões e muita fome Havia uma miséria que doía e não se podia esconder. Os animais viviam mais próximos das pessoas, tão próximos que eram a benção dos dias mais frios naqueles Invernos gelados. A escola não era para todos e mesmo os que lá andavam acabavam cedo que eram precisos para a terra e para a guerra.

Um doce era uma festa, uma laranjada um luxo quase impensável (havia muita água a jorrar, incessante, da fonte). As roupas passavam dos mais velhos para os mais novos. Não imaginava o que fosse uma loja de pronto-a-vestir. As mulheres sabiam coser e usavam-se cotoveleiras nas camisolas e joelheiras nas calças.

Lembro-me bem deste país pré-consumista, onde uma sardinha era alimento para três: cabeça, lombo e rabo e as crianças bebiam bagaço pela manhã, para aquecer o corpo e abrutalhar o espírito. O granito era a nossa natureza e as matas um mundo encantado onde nos perdíamos dias inteiros à procura do mundo.

Lembro-me bem deste país triste, analfabeto e miserável que parecia ter o futuro no fundo de um poço de águas pestilentas. Lembro-me bem e não sou tão velho quanto isso.