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terça-feira, maio 31, 2016

Nojo

Já nem se nota. Morreram mais umas mãos cheias de pessoas afogadas no Mar Mediterrâneo mas os jornais já quase não ligam. As pessoas já quase não ligam. É uma fatalidade, uma nova lei da natureza. Que se há-de fazer?

A comunidade ocidental já se fartou de chorar por estes mortos. A comunidade europeia já mostrou que não está disposta a recebê-los vivos. Até é preferível que morram no caminho. Assim poupam-se à desilusão dos campos de refugiados improvisados, aos insultos xenófobos, à angústia de estarem tão perto do sonho e perceberem que, afinal, é apenas um outro pesadelo... enfim, resta-lhes a consolação de morrerem esperançados num futuro melhor.

Isto mete nojo.

sexta-feira, janeiro 22, 2016

Declaração

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um (para poupar munições), digo-o por mim, digo-o por ti, mas também por Strummer, por Zeca, por Bowie, por Mozart, por Amália, por todos os outros que fizeram música maravilhosa; por Camões, por Shakespeare, por Tolstoi, por Tchekov, por Calvino, por Bolaño, por Cervantes, por todos os que inventaram o mundo das palavras; digo-o por ti, pelos teus, pelos meus e também por Bosch, por Goya, por Giotto, por Bacon, por Basquiat, digo-o por todos os que encontram a liberdade a cada momento.

Digo-o por Cristo, por Maomé, por Buda, por todos os profetas mais ou menos obscuros, por todas as personagens de fábula, de lenda, de mito, pela liberdade de expressão e pelo direito a calar boca.

Quando digo que, aos gajos do estado islâmico, era meter-lhes uma bala no focinho a cada um digo-o por ser incapaz de aceitar que esta cultura de que faço parte possa alguma vez desaparecer subjugada pela força da estupidez e da ignorância.

Isto não se aplica exclusivamente aos assassinos do estado islâmico e a bala pode ser metafórica. O focinho não.

sexta-feira, janeiro 04, 2013

Ano novo

A tentação para a auto-comiseração é grande mas, sendo tentação, é possível que seja pecado. Andar para aí, a chorar pelos cantos, até que pode dar jeito. Sempre esvaziamos a merda dos sacos lacrimais e ficamos com o olhar mais límpido, lavadinho.

Após termos chorado tudo o que havia para chorar e lamentado o que havia para lamentar, das duas uma: ou repetimos a coisa ou cagamos nisso.

Repetir o choradinho em loop não atrasa nem adianta. Estando feito, é meter no saco e atirar ao rio com duas pedras a ajudar que descubra o fundo.

Cagando nisso (assoado o nariz e esfregados os olhos) é tempo de pensar uns segundos no que se segue. O que vem aí? Aí vimos nós, aos saltos, com botas e pés pesados! Acautelem-se os que não são dos nossos!