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terça-feira, maio 28, 2013

Contrafacção

Dantes eram as camisas Lacoste e as malas Louis Vuitton que apareciam à venda em quantidades quase industriais e a preços impossíveis. As pessoas compravam material contrafeito mas sabiam que estavam a fazê-lo. O preço era bem em conta...

Agora são pinturas de Paula Rego e António Palolo a serem vendidas, mas a preços elevados (ver aqui) a pessoas "inocentes" que as adquiriram convencidas que estavam a pagar pela "real thing". A contrafacção segue caminhos inesperados.

A Polícia Judiciária anunciou ter apreendido centenas de pinturas falsas daqueles artistas portugueses. Ao que parece, muitas delas haviam já sido comercializadas.

Ok, coisa banal, normalíssima, nos tempos que correm. O que me surpreende não é o facto de se falsificarem obras de artistas consagrados, a minha surpresa é haver quem compre pinturas de Paula Rego quando é evidentemente impossível que sejam originais.

Quem investe uns milhares de euros a comprar uma obra que está reproduzida um pouco por todo o lado e que é do domínio público que não poderia estar à venda? Quem são estes "inocentes", valha-me Deus, Nosso Senhor? É preciso ter muito dinheiro e muito pouca informação.

Esta notícia mostra que ter muito dinheiro não é sinónimo de nada e pode ser sinónimo de muita coisa.

sábado, junho 11, 2011

O peso da leveza



Rezam as crónicas que ontem, nas celebrações do Dia de Portugal em Castelo Branco, os nossos dois primeiro-ministros deixavam transparecer disitntos estados de espírito. Grave e um tanto abstracto, Passos Coelho, o primeiro-ministro que se segue, leve e quase descontraído, Sócrates, o que vai embora.

Sempre me intrigou o apetite de certos gabirus por cargos dirigentes. O que leva homens e mulheres aparentemente normais a procurar, com todas as suas forças, chegar aos mais altos cargos da nação?

Até aqui há uns anos atrás acreditava que seria por motivos ideológicos. Os candidatos a chefe teriam razões políticas, sonhos utópicos haveriam de os mover em direcção à fogueira do poder. Mas, nos últimos tempos, as ideologias foram desaparecendo, a economia engoliu-as. As utopias foram substituídas por folhas de cálculo, o pensamento político esmagado pela inevitabilidade contabilística... o que poderá então mover os sapatinhos desta gente?

Olhando Sócrates e Passos Coelho compreendo que as suas principais qualidades, eles nisto equivalem-se, é ficarem bem nas fotografias. São dois gajos que proporcionam bons bonecos para as páginas dos jornais e animam as novelas dos noticiários. As velhotas suspiram por uma beijoca durante as campanhas eleitorais e nas cerimónias oficiais. Note-se que o próximo primeiro-ministro é muito mais beijoqueiro que Sócrates, um tanto distante, por vezes próximo do esfíngico. Em termos de qualidades de estadista já é outra conversa.

Pelo que acima fica exposto e por muito mais que aqui não cabe, convenço-me que a motivação principal destes dois impagáveis parlapatões será uma vaidade sem limites que faria a Rainha Má da Branca de Neve parecer uma rapariga simples quando comparada com eles.

Ontem percebeu-se que quem sai vai aliviado e quem entra começa a sentir a canga da função a pesar-lhe no cachaço. Sõcrates, o Odioso, dentro de dias parecerá um simpático intelectual ignorante e Passos Coelho, o Bonitinho, definhará em rugas impensáveis e discursos cada vez mais crispados. É o preço do poder.

quarta-feira, março 31, 2010

Caçar bruxas (Paradoxo 2)


Atente-se nas declarações que abaixo transcrevo retiradas desta notícia:

Anteontem à noite, o bispo auxiliar de Lisboa, D. Carlos Azevedo, falou dos casos de pedofilia entre membros do clero. Citado pela agência Lusa, afirmou: "É algo que nos faz ter vergonha que tenha acontecido. O povo de Deus sabe distinguir aquilo que são os falhanços de alguns membros do clero daquilo que é a vivência do mistério de Cristo e da vida em igreja e em Deus." Mas, acusou, há uma "campanha, que se transforma quase numa obsessão, numa caça às bruxas".

É interessante que D. Carlos Azevedo tenha utilizado a expressão "caça às bruxas" para vitimizar os padres acusados ou suspeitos de práticas pedófilas.

Por um lado está a colocar esses padres num plano pouco católico, comparando-os com bruxas, por outro lado está a reprovar a própria instituição que representa, uma vez que a igreja católica foi responsável pela caça e execução em praça pública de muitas bruxas por esse mundo fora, assunto que, na maior parte das vezes, prefere ignorar ou, mais simplesmente, esquecer. Pode ainda estar a referir-se aos processos levantados nos Estados Unidos nos anos 40 e 50 do século passado, contra os supeitos do "crime" de pertencerem a organizações de inspiração comunista.

Ultimamente a hierarquia católica tem-se desdobrado em pedidos de desculpas aos judeus, às crianças abusadas... não me lembro de ter ouvido um pedido de desculpas às mulheres-bruxas (ou aos homens-bruxos que também os há!).

São as célebres voltas que o mundo dá. Num dia estamos aqui, no outro podemos muito bem estar ali, no lugar onde anteriormente estava o outro, o inimigo odiado, transformando-nos nele próprio sem sabermos muito bem como nem porquê. O mundo está repleto de estranhos espelhos.

O cristianismo prega o perdão e, sempre que podem, as igrejas que se dizem suas guardiãs lá vão perdoando. A questão que queria deixar é esta: será que, não sendo católicos, podemos perdoar tudo, mesmo as monstruosidades mais abjectas como são estes crimes desumanos contra os fracos e os desamparados?

segunda-feira, março 29, 2010

Paradoxo (1)


O interior do automóvel era, no mínimo, luxuoso. A qualidade do som disparado pelas colunas (em sistema surround) não deixava nada a desejar que não fosse, talvez, outro artista. Ali dentro, tinhamos a sensação de pairar acima da rua, como se as rodas do carro não tocassem o solo.

Segurança, elegância, comodidade, não havia anúncio publicitário capaz de fazer justiça ao veículo maravilhoso em que as nossas cabeças vogavam, esquecidam das partes pesadas do corpo. O som vomitado pela aparelhagem troava nos ouvidos dos passageiros como uma tempestade de Verão acabadinha de fabricar lá nas alturas.

"God save the queen"... berrava o gajinho na parelhagem, "... and her fascist regim!" concluia, com guturais espasmos da sua garganta ensandecida.

O carro continuou a navegar o céu, impassível. "No future, no future, no futuuuuuuurrrreeee....", no meio de um tal luxo asiático haveria alguém capaz de dar crédito ao furioso vocalista no CD? Ok, ok, não há futuro, pronto. Deixa lá essa merda.