segunda-feira, abril 24, 2017

Podia ser pior...

A cena é essa: um gajo está tão ocupado a tentar sobreviver que não tem espaço mental para reflectir sobre a vida e a morte, sobre o que é a felicidade, essas coisas.

Um gajo está tão ocupado a imaginar que raio de imagem exporta em direcção aos olhos dos outros que não tem tempo para pensar no que significa um olhar.

Um gajo está tão enfronhado na vida quotidiana que acaba por se elevar ao nível básico do bicho. Já não é mau, já não é mau... podia ser pior.

E como podia ser pior acabamos a dar-nos por satisfeitos: é uma merda, eu sei, mas podia ser pior, podia ser pior...

domingo, abril 23, 2017

Domingo

Hoje só saíram à rua as pessoas feias, acompanhadas por um ou outro bebé. Tenho a sensação de estar no interior de um tríptico de Bosch iluminado por lâmpadas de néon. As pessoas surgem grotescas aos meus olhos, como se estivessem todas trocadas e as peles que lhes envolvem os ossos fossem peles de outros seres, alguns deles nem sequer humanos.

sexta-feira, abril 21, 2017

Academia

Já não consigo aguentar sem ripostar a opinião douta e definitiva dos grandes académicos que sabem muito bem o que é e o que não é arte. Aliás, Arte, pois que aquilo que tão extraordinárias personagens sabem, conhecem e preservam, o Conhecimento, a Beleza, estas coisas escrevem-se sempre com uma letra Maiúscula a abrir a palavra, não vá algum ignorante desrespeitar a coisa.

É frequente perder-me nos discursos labirínticos destes doutores e destas doutoras que pretendem balizar o fenómeno da criação artística, que lhe definem as fronteiras e montam postos alfandegários onde alguém nos perguntará, lá do alto do seu posto: tem algo a declarar?

E, caso declaremos algo, de imediato nos sujeitamos ao julgamento do douto alfandegário e às sanções que ele considerar convenientes. A maior parte das vezes somos obrigados a permanecer do lado de cá, não nos é reconhecido valor suficiente para atravessar a fronteira; a nossa ignorância, a nossa rudeza e falta de sensibilidade impedem-nos de apreciar o que os Grandes Académicos guardam do lado de lá.

Ok. Fiquem lá com essa merda para vocês. Espero que, pelo menos, sejam felizes.

quarta-feira, abril 19, 2017

F......

A sensação não me tranquiliza, antes pelo contrário.

Tenho a sensação de que estamos a construir uma sociedade onde um gajo entra por uma porta e é cidadão e sai por outra transformado em consumidor. Os direitos e deveres são alterados ao longo deste estranho processo de transmutação.

É todo um novo Contrato Social que nos orienta a partir daqui. Consumir implica uma atitude que não se coaduna lá muito bem com a ideia de solidariedade que importava observar quando éramos cidadãos de uma sociedade democrática. O Consumidor é um predador.

Tenho a sensação de que, nesta sociedade, há mais espaço para a intolerância e o que o fascismo apresenta muitos rostos. A maior parte deles sorridentes. Os fascistas aprenderam a sorrir sem parecer que estão apenas a rilhar os dentes.

Em que parte do caminho é que nos enganámos? Quando foi que desobedecemos a nossa mãe e saímos do caminho no meio da floresta? Quando foi que metemos conversa com a merda do Lobo Mau?

Tenho a sensação de que esta sociedade de consumidores acabará por rebentar e com ela rebentará uma parte considerável do planeta (se não todo o planeta).

Tenho a sensação que estamos f......

terça-feira, abril 18, 2017

Ir ao Porto e regressar

Num país como este as grandes distâncias são sempre pequenas.

quinta-feira, abril 13, 2017

A velha questão volta a atacar

Quando o discurso do artista se enrola em volta daquilo que lhe interessa (a ele, enquanto indivíduo) qual a possibilidade de o resultado da sua reflexão e do seu trabalho vir a interessar, também, o espectador?

Há uma questão que me dança constantemente dentro da cabeça: qual o futuro de um objecto artístico que não convoque uma narrativa? Sim, eu sei, esta pergunta interessa-me a mim, enquanto indivíduo, qual a possibilidade ela vir a interessar-te também a ti, paciente leitor?

Seja como for, estou para aqui a escrevinhar estas palavras como se estivesse a berrar para um desfiladeiro e nada mais me preocupa do que reflectir simplesmente.

terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro abandonado à beira do passeio. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.

segunda-feira, março 20, 2017

Crocodile Bambi (4)

Ele sentou-se primeiro... ela sentou-se. Ao balcão. O lugar estava imundo. Cheirava a mijo que tresandava, aquele cheiro acre que nos rasteja pelas narinas como se tivesse patas peludas, o cheiro a subir-nos em direcção ao cérebro como um insecto rastejante. Já me tinha esquecido que existem pivetes assim. Ele... ela, atirou-me aquele olhar tipo facada mortal, tipo a Casca a endrominar o Mogli, o hipnotizador e o basbaque. Lá fui, depositar o cu no banco alto e seboso ao lado do Zeca Punk, "Chama-me Camomila", pedira ele há coisa de um quarto de hora. Ordenara ela. Sentei-me ao lado da Camomila, portanto. Não me atrevi a perguntar-lhe de forma directa qual o seu género, optei por uma pergunta tão parva que ainda estava a desfazê-la e já me apercebia da imbecilidade da coisa "Ainda mijas em pé?". Ela pousou a sua mão ossuda sobre a minha. Senti um frio medonho a enrolar-se-me na espinha; não que a mão dela estivesse demasiado fria, aquela incómoda sensação atacou-me na forma de um flash, uma recordação súbita que se me espetou na memória com toda a força "Ó filho, gostas do que estás a ver, dou-te tusa?". E sorriu daquela forma assustadora. Fui salvo pelo empregado que arrotou lá detrás do balcão "O que é que vai ser?".
Começámos com um simples submarino, uma caneca de cerveja com um cálice de bagaço mergulhado, passámos às 1920, mais uns submarinos, mais umas cervejas e novas aguardentes velhas ou nem por isso. Aterrámos numa sucessão de cálices de Licor Beirão e lambretas para ajudarem a coisa a deslizar mais depressa.
A conversa foi errática, nada de muito pessoal, nada de referências ao passado, muito menos sobre perspectivas de futuro. Falámos de coisas que estavam à nossa volta: o espelho por trás das filas de garrafas, das garrafas, do poster de uma rapariga com mamas descomunais reclinada sobre o capot de um carro vermelho e provocante no entender de Camomila (Camomila... que nome mais ridículo!). Falámos com o Sr. Tó, o empregado-patrão que nos ia servindo os copos com as suas mãos como presuntos de onde saíam salsichas em forma de dedos com unhas compridas debruadas a negro; fomos falando, falando, falando, até que comecei a sentir dificuldade em produzir palavras com todas as sílabas, até que comecei a enrolar a língua, a sentir-me descontraído, a gozar da libertação alcoólica. Se tivesse caído do alto do meu banco decerto teria voado.
Numa viagem ao urinol tive um pequeno lampejo de lucidez "Como vou safar-me desta merda?", mas foi sol de pouca dura. Já nem o fedor me incomodava. Mijei abundantemente e regressei ao meu lugar. Zé Camomila não estava onde a deixara. "45 euros." informou o Sr. Tó. Olhei em volta e nem sombra do meu anfitrião. "Não tenho assim tanto dinheiro comigo, aceita multibanco?" O homem olhou-me como se me tivesse transformado de súbito numa barata gigante, "Esta a armar-se em engraçado comigo?" Não, não estava a armar-me em engraçado, antes pelo contrário, cambaleei, estava até a ser muito honesto e sincero, apoiei-me numa mesa e senti os dedos a colarem-se ao tampo, assegurei a minha honestidade, a pureza das minhas intenções mas, nada feito, o Sr. Tó queria dinheiro vivo e queria-o já. "Imediatamente!" disse ele. Comecei a entrar em pânico. O homem saiu de trás do balcão segurando uma tranca ameaçadora. Não percebi se ele queria de facto o dinheiro, se queria apenas um pretexto para me rachar a cabeça de alto a baixo. As pernas tremeram-me e colei a mão à mesa com mais força. Foi então que tudo se precipitou, como acontece nos filmes.

domingo, março 19, 2017

Crocodile Bambi (3)

A memória não é de fiar. A minha memória é um buraco. Faltam-me os momentos, sobram as sensações. Tenho guardada uma vertigem, um incómodo, uma torrente de medo a abrir caminho, imparável, a atingir-me, a rebentar-me no peito como uma bomba de excrementos.O Zeca Punk era um gajo mau que tinha prazer em criar situações embaraçosas, armadilhas emocionais que montava com minúcia de relojoeiro onde apanhava patinhos como eu. Fazia aquilo por puro divertimento. Não ganhava nem perdia nada quando me deixava imerso em merda e vergonha e embaraço. Recordo vagamente a sua cara de fuínha a fazer caretas horripilantes de divertimento. Alguns gajos saíram magoados; houve ossos partidos, feridas abertas e sangue em abundância. Nunca foi o meu caso. Apenas recordo vergonha e embaraço. Talvez ele gostasse de mim. Sempre que aparecia com uma ganza ou uma garrafa de cerveja no início da noite, eu já sabia que aquilo iria acabar mal mas não havia como recusar embarcar na aventura. Seria indelicado da minha parte tentar esquivar-me e não convinha nada ser indelicado com aquele filho da puta. Acho que não convinha, não tenho bem a certeza, porque nunca me recusei a ir por ali fora, noite dentro, à procura do medo, a sentir o perigo a formar-se à nossa volta como uma onda de calor, como um nevoeiro, como uma cidade inteira sem portas nem janelas.

segunda-feira, março 13, 2017

Crocodile Bambi (2)

Era um espectáculo digno de ser visto. O homem cambaleava com o corpo tão inclinado para trás que poderia acreditar-se possuir poderes excepcionais capazes de o manter em pé, por assim dizer. Já a mulher, magra, desconchavada, estranha sob qualquer ângulo que experimentássemos para a olhar, a mulher seguia impante, a matraquear o cimento do pontão com os saltos agudos dos sapatos altos, a rir-se, a rir-se, a rir-se com malícia. Pelo menos era o que me parecia, visto daqui de onde estou, de onde estava, visto deste lugar exacto que é um lugar que, como bem sabes, não existe de facto. Eu próprio não sou bem aquilo que possa considerar-se um ser vivo. Seja como for estou aqui, a falar contigo, a expor o meu ponto de vista. O meu testemunho não terá valor jurídico mas é cem por cento honesto. Mil por cento honesto! Sabes bem que podes confiar em mim.

sábado, março 11, 2017

Crocodile Bambi (1)



                 Crocodile Bambi

Pessoas passavam carregando as almas como se levassem sacos de batatas. O túnel de metropolitano até nem estava infernal mas havia qualquer coisa de estupidamente monótono naquele entardecer, lá debaixo da terra. Levantei a testa e reparei num vulto que se movia com rapidez e impaciência na escada inclinada, despachando os degraus furiosamente. Para ser sincero, o que me chamou a atenção, assim à distância de uma escadaria (com aquela inclinação absurda), foi a farta cabeleira que esvoaçava agarrada à silhueta que ali vinha. Parei. O vulto cabeludo era escuro e leve, rápido na descida. A cada passo ganhava mais luz e mais definição, até que se transformou numa mulher magra: o queixo afiado ligado ao pescoço como um fio de esparguete. Um arrepio incómodo percorreu-me a nuca. Havia algo de familiar naquela mulher cada vez mais feia, aquela mulher já suficientemente próxima para meter medo, os gestos bruscos, o esqueleto maldoso a ameaçar desabamento lá do alto dos sapatos. Quando aquela fealdade se revelou em todo o seu esplendor, fingi não reparar. Baixei os olhos sem ver o chão. Fui seguindo o movimento dela, tac-tac-tac-tac-tac, por ali fora, já não me lembro se com os olhos se com os ouvidos.
                De súbito o sapateado estacou. Sentia a mulher ali especada. Atrevi-me a levantar a cabeça com lentidão; lá estava ela, dois olhos verdes e baços cravados nos meus, ao ponto de doer. “Porra”, decerto pensei qualquer coisa assim, “ora porra, o que me quer esta gaja?” ou talvez tenha pensado: “o que me quer esta puta de merda?”; sim, inclino-me mais para “esta puta de merda”. Definitivamente: “esta puta de merda”! – foi o que pensei naquele terrível momento de revelação.
Ela tinha um sorriso malvado, logo abaixo do nariz, a rasgar-lhe o focinho como uma navalhada. Um bâton vermelho esbodegava-lhe ainda mais a figura: desastre complexo. Notei uma sombra de barba por fazer, aquela gaja era um gajo. Feio. Um gajo patético. Olheiras profundas como fossas e… “espera lá, eu conheço-te!” Eu sei quem tu és, meu grande cara de cu! “Olha o betinho!” O gajo falava como se cuspisse as palavras. “Há quanto tempo não te via, betinho do caralho.” Cuspia as palavras que lhe iam ficando presas nos lábios. Continuava a ter aquela boca nojenta, sempre brilhante e babosa. Dentro da boca dele tudo parecia em carne viva, uma boca que parecia um bicho esfolado ou uma ave recém-nascida. Era como se dentro dele habitasse a Dor e ele não se importasse com isso, antes pelo contrário. “O que tens feito? Tás muito bonitinho!” Nem um gesto na minha direcção. Um abraço? Um aperto de mão? Não querias mais nada; com o Zeca Punk nunca houvera lugar para o mínimo gesto de conforto, a mínima afabilidade, nunca houve cá toques, o contacto físico com este gajo sempre fora algo perigoso. Tá quieto!
Eu não conseguia dizer nada. O Zeca era agora uma mulher. Fora um gajo horripilante, agressivo, intimidante. À minha frente estava uma mulher assustadora, fria e repulsiva. Coçou o lugar dos tomates. Parecia estar a medir-me qualquer coisa (a alma, talvez?), parecia avaliar possibilidades, situações impossíveis que apenas ele era capaz de vislumbrar. Sempre fora um tipo estranho, difícil de compreender. “Anda, vamos beber um copo.” - disse-me ele… ela. Disse-o num tom que reconheci de imediato. Eu havia esquecido aquela sensação, perdera-a algures no meu caminho para a idade adulta, aquela sensação de impotência quando o Zeca Punk propunha alguma actividade lúdica; ele falava e o pessoal obedecia sem pensar muito naquilo que estava a aceitar fazer. “Onde vamos?” perguntei, a sentir regressar a adolescência. Foi assim que começou.

quarta-feira, março 08, 2017

A pele e os sapatos

Realmente, a questão da perspectiva individual é uma coisa bastante estúpida. O facto de termos o cérebro agarrado aos olhos e os olhos como espelho da alma não nos ajuda muito a percebermos o mundo circundante com a distância que gostaríamos de manter em relação ao Bem e ao Mal.

É demasiado fácil considerarmos aqueles que têm uma visão diferente da nossa como sendo uns autênticos camelos. E nem nos damos muito ao trabalho de pensar como seria estarmos enfiados na pele do outro (ou nos seus sapatos, como dizem os ingleses).

Estou a esforçar-me por pensar positivamente, tento manter os valores humanistas em alta, enfim, quero olhar para o espelho e ver um tipo fixe... mas tenho uma vontade indomável de desprezar certos dromedários, de invectivar uns quantos borregos e ridicularizar uma mão-cheia de ratazanas de esgoto. O gajo no espelho não me parece assim tão bonzinho nem justo nem nada disso.

O gajo no espelho sou eu.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Lapidações

As redes sociais são uma espécie de locais perigosos, frequentadas por todo o género de fundamentalistas. Basta uma palavra imbecil, uma opinião mais extremada, uma confissão sincera de algo que escorregue para lá dos escorregadios terrenos do politicamente correcto e... catrapunfas, estás a levar com um exército de trolls que te agridem e enxovalham muito depois de já estares no chão, coberto de porrada e incapaz de ripostar.

Muito antes do Facebook e do Twitter já havia aquelas correntes de e-mails com boatos que circulavam para pôr toda a gente em pé de guerra mesmo que o conteúdo da mensagem fosse falsa ou evidentemente impossível. As pessoas adoram indignar-se.

A lapidação não é praticada na nossa sociedade mas a chuva de comentários ofensivos e atentatórios da liberdade de expressão são como calhoadas atiradas bem no meio da testa dos incautos que se atrevem a abrir a boca para dizerem coisas que não caiam nas boas graças do povoléu.

Cada sociedade tem a sua forma de lapidar aqueles que blasfemam.

sábado, fevereiro 25, 2017

Dependência

Ando a tentar largar os jornais diários. É um processo lento e doloroso, virtualmente impossível de concretizar com êxito. A verdade é que estou agarrado à leitura diária de jornais, como se fosse um toxicodependente agarrado a uma qualquer substância psicoactiva que lhe entretenha o cérebro. Eu estou agarrado à leitura de pequenos textos que sintetizam flashes do mundo real. Tento compreendê-lo ou, pelo menos, tento manter uma imagem do mundo que faça um mínimo de sentido.

Tenho tido recaídas. Passo dois ou três dias sem ler um jornal e fico com a sensação de que perdi partes importantes de mim próprio ou que, se não ler, o mundo pode ficar diferente e uma qualquer desgraça poderá precipitar-se. Tenho os miolos fritos?

Agora mesmo, estou a escrever estas linhas e sinto um impulso difícil de controlar; quero sair e dirigir-me ao local mais próximo onde se vendam jornais e comprar um exemplar. Ter um jornal enrolado, enfiado no bolso das calças produz em mim uma sensação de conforto difícil de explicar.

Acho que vou até lá fora.

sábado, fevereiro 18, 2017

A Lei

Há dias assim, acordamos com uma cena enfiada na cabeça que não sai de lá nem à marretada.

Quando essa cena é uma musiqueta cantarolamo-la incessantemente ao ponto de, por vezes, nos irritarmos com nós próprios. Chiça, já não há pachorra para a coisa a dançar-nos na carola e a fazer-nos dançaricar com ela.

Hoje acordei com a Lei de Lavoisier, não sei porquê. Terá sido algum sonho, daqueles que esqueço sempre ter sonhado? Impossível perceber o porquê de tal visita matinal.

E pronto, tenho passado o dia a repetir para os meus botões que "na Natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma".

Apercebo-me que sou um crente fervoroso desta Lei, que constitui a minha Fé; que vejo Deus desta forma, que vejo a Arte desta forma, que vejo a Vida desta forma. Que a Natureza é, para mim, o princípio e o fim da existência das coisas todas. Que nada existe para lá dela, que ela é a verdadeira Mãe (desculpa lá, ó Maria).

Obrigado, Antoine, pelo teu momento de máxima lucidez que tanto bem tem proporcionado a este mundo merdoso.

sexta-feira, fevereiro 10, 2017

Notas sobre "O Laço Branco"

Os culpados são aqueles que estão ausentes.
Os que não fazem parte do grupo são cruelmente castigados.
O conhecimento procura a verdade que a fé teima em esconder ou, pelo menos, que teima em ignorar.
O padre recusa-se a ver (ver é pecar) e permite que o monstro diabólico cresça livremente.
Tudo acontece por detrás das portas e das paredes. Nós, enquanto espectadores, não temos acesso visual ao horror mas, no entanto, ele está presente e acontece.
A nova geração incuba o nazismo.
Moral da história: se fecharmos os olhos estamos feitos ao bife!

quarta-feira, fevereiro 08, 2017

Da persistência da memória

Quando foi que a arte deixou de se preocupar com os pêlos nas pernas e pôs a gillette de lado? Quando teve ela a ideia de que um chapéu de côco pode usar-se com um kilt escocês e uma camisa de alças branca com um urinol estampado?
Não há um registo rigoroso mas quando terá a arte deixado as peneiras para vir comer uma bifana com o pessoal do arrôto?
A memória é uma buraqueira do caraças mas as coisas aconteceram e não dependem dela para terem existido. Já não estou tão certo da necessidade dessa dependência quando se trata de existirem no presente. As coisas que esquecemos nunca aconteceram? Há quem pense assim.

sexta-feira, fevereiro 03, 2017

Confessionário

Por vezes sinto-me como se tivesse sido talhado em madeira. Uma coisa entre o Pinóquio e algum santo de pau carunchoso pintado à mão mas com a tinta já meio comida e a cair. Sinto-me pasto de caruncho gordo.

São tantas as dúvidas que não deixam espaço nenhum às certezas. Fico meio abananado, a tremelicar no alto da minha soberba, tenho medo de cair... e caio. Como num sonho, sou sugado por aquela queda infinita sem saber o que está no fundo ou, sequer, se existe fundo.

Talvez isto seja um reflexo da minha educação católica: o receio de ser mau, a ânsia de praticar a bondade. Seja lá o que for é algo que me faz fugir para a frente de quem sou, algo que me faz desejar o futuro; talvez no futuro haja redenção!

Limpo os óculos, volto a encavalitá-los na cana do nariz. As letras no écran ganham de novo nitidez suficiente para que possa compreender o que estou a escrever. Compreender!? Mentira, posso ler as frases anteriores, mas compreendê-las.... isso fica para uma outra vida.

domingo, janeiro 29, 2017

Ponto, linha e plano

A narrativa reduz-se a uma linha, um segmento de recta. O fundo anónimo aconchega toda a imaginação que uma mancha é capaz de conter. O olhar, desolado, vê-se substituído por uma avalanche de palavras, uma enxurrada de ideias muito mais inteligentes do que a representação de um corpo humano deitado sobre uma cama de pregos. A arte, por vezes, tortura-me o espírito.

segunda-feira, janeiro 23, 2017

Dúvida espiritual

Substituir o Espírito Santo pelo Espírito Revolucionário não tem mostrado resultados particularmente entusiasmantes. Não sei bem porquê, talvez pela natureza imaterial de cada um deles? Residirá o problema no respectivo patrão? Talvez a merda sejam as divindades, elas próprias,... sinceramente não sei porque razão estes espíritos se revelam de tal modo incompetentes na sua função de inspirar os crentes e ajudá-los a trilhar o Caminho dos Justos.

sábado, janeiro 14, 2017

Este mundo

 Os Pilares da Sociedade (George Grosz, 1926)

A cada dia que passa maior é a minha convicção de que estamos a entrar num ano de merda.

A Ética, irmã gémea da Estética, essa puta maluca, cada vez é mais ignorada por lhe serem reconhecidos cada vez menos atributos e menos atractivos de vária ordem. A degradação é gradual e em ritmo acelerado.

O mundo pula mas já não avança, como sugeria aquela canção melíflua intitulada "Pedra filosofal" (lembras-te?); agora, a cada pulo, o mundo enfia as patas fundo na lama, salpica o focinho com  pingos de diarreia mental e outras coisas fedorentas que vão atascando a nossa sociedade.

A cada dia que passa este mundo é, cada vez mais, um cagalhão que flutua no espaço.

domingo, janeiro 08, 2017

Adeus Marocas

Morreu Mário Soares. Esteve tanto tempo internado em estado terminal que os jornalistas tiveram oportunidade de escrever toneladas de artigos, quase todos elogiosos. Hoje, no dia imediato ao passamento do velho democrata, a coisa explode: são centenas, milhares de artigos nos jornais, documentários nas TV's, repetições de entrevistas e debates, depoimentos, testemunhos, recordações... por uns dias Soares será perfeito. Ele que foi o mais imperfeito de nós e, por isso mesmo, o mais admirável de todos.

Disse um dia que "só os burros não mudam de opinião". Entre muitas outras coisas que julgo ter aprendido com ele esta foi a que mais vezes recordo.

sábado, janeiro 07, 2017

2017 tem 7 dias

Os dias vão passando e até já houve um ou outro com uns tonzinhos cor-de-rosa lá no céu, a ajudar a imaginação, a dizer-lhe que se componha e endireite que o ano não há-de ser a merda que parece adivinhar-se.

No entanto o passarito azul não tem descanso e caga e vomita todo o santo dia a fazer com que um gajo veja o rosa a ficar vermelho de raiva. Há um clima geral de crispação a formar-se, um sistema de altas pressões a carregar sobre as mentes que se julgavam limpas.

É o mundo a rodar sobre si próprio, tonto como só ele sabe ser, governado por bandos de abutres cada vez mais gordos, abutres rastejantes que as asas já não lhes permitem descolar as patorras do chão.

Vou continuar a olhar para o ar esperando que o céu ganhe outra vez as tais tonalidades mais rosadas, como as bochchinhas de um bebé saudável.

Sinto saudades do futuro.

domingo, janeiro 01, 2017

2017

Tenho todas as razões para desconfiar do presente. As bestas-feras que miam loas ao passado e são encarados como arautos de amanhãs que, se não cantam, choram só um bocadinho estão aí para governar o Mundo.

Parece impossível que esses cabrões-filhos-da-puta se apresentem tão vigorosos, clamando por justiça sem pingo de vergonha nas ventas. Batem no peito como o King Kong, das fendas que lhes servem de boca escorrem princípios cristãos como se fossem baba, nhanha, uma coisa repulsiva.

Peido-me para eles com toda a convicção.

Bom Ano Novo.