terça-feira, dezembro 12, 2017

Ditados populares

Olhar a nossa sociedade com uma lente de aumentar não é nada boa ideia. A menos que tenhamos um cargo importante, que implique análise e decisão da coisa pública, melhor será padecer de uma certa miopia.

Quando a imprensa nos empresta uns óculos graduados e nos põe à frente do nariz certas cenas menos recomendáveis lá temos nós de olhar e ver. Ver é, por vezes, uma coisa extremamente desconfortável.

Quando vemos essas tais cenas horrendas ficamos a pensar no que não vemos, ficamos a pensar na bicharada imunda que se desloca nas sombras húmidas do anonimato.

"Longe da vista, longe do coração", diz o povo.
Longe do coração e longe do cérebro, longe de tudo, direi eu (que também sou povo): "quem não sabe é como quem não vê"... e vice-versa.

segunda-feira, dezembro 11, 2017

Rabo de fora

Não há nada mais estúpido do que ordenar a existência humana segundo padrões de comportamento pretensamente estabelecidos por uma divindade. É que, para podermos aceder aos desejos, objectivos e imposições do Ser que nos é superior, temos de aceitar uma qualquer intermediação. Para acedermos à informação necessária temos de confiar em quem no-la transmite. Isto é "bullshit", como dizem os outros.

Acreditar que a Bíblia contém a Palavra é uma patetice, baixar a cabeça em presença da Torah, crer no Corão... mais patetices. E por aí adiante. O mais perigoso nem é a literatura inclusa nestes livros, o perigo reside nas mentes distorcidas daqueles que estão encarregues de interpretar os textos de forma a que nós, comuns mortais, possamos obedecer cegamente a... a qualquer coisa difusa que eles vislumbram lá pelo meio das palavras, pois que misteriosos são os caminhos de todos os Senhores.

A Fé tem razão de ser. Mas obedecer cegamente a um exército de imbecis investidos de um poder fantasmático que lhes confere o poder de nos enviar direitos para uma Eternidade repleta de penas e castigos ou, pelo contrário, oferecer-nos as delícias de um paraíso que está sempre muito para além da nossa capacidade de imaginação, obedecer aos padres sejam eles de que cor ou credo forem, isso é uma violação que executamos sobre nós próprios.

Eu gostava de acreditar em Deus mas não sou capaz. Cada vez mais O vejo como sendo um gato. Um gato grande, gordo e pouco educado, escondido atrás do sofá mas com aquele enorme rabo de fora.

sexta-feira, dezembro 08, 2017

Mundo profundo

Pensamentos disparados por um cupido velho cruzam o horizonte dominado por um batatal que ninguém se deu ao trabalho de colher. Estou sentado na carapaça de uma tartaruga inerte. Crianças brincam displicentemente com objectos que, vistos daqui, me parecem ossos esbranquiçados pelo uso. É um sonho que me esqueci de ter sonhado.

domingo, novembro 26, 2017

Censurado

Leio o jornal, os suplementos dominicais, as revistas em papel acetinado, leio posts no facebook, artigos de opinião, prosas engraçadotas, palavras ditas nos bicos dos pés e há uma palavra que se esgueira até ao topo do meu pensamento: FODA-SE!

Devo estar maldisposto.

sábado, novembro 25, 2017

Um certo terror

Quanto mais por aí ando mais me convenço de que estar vivo é temer ser ignorado. Nada aterroriza mais um ser humano do que a irrelevância, a transparência absoluta do Ser. Sermos olhados e termos a sensação de que  aquele olhar nos trespassa que somos camaleões perfeitos que nos confundimos com as paredes com os placards publicitários com os faróis apagados dos automóveis. Ah, horror dos horrores, não sermos nada é muito pior que não sermos ninguém!

domingo, novembro 19, 2017

Globalização

Esta coisa da globalização é uma teia complexa tecida a fio de merda. Desde o início da coisa (lá para os noventas) que logo se percebeu o logro que nos era enfiado goela abaixo. A globalização era, apenas, a globalização da economia, essa deusa-puta.

Globalizava-se a facilidade de circulação do capital mas nada se fazia em termos sociais ou políticos, por exemplo. Melhor dizendo, as questões sociais e políticas deveriam moldar-se nos altares da deusa-puta e mais nada.

Passadas duas décadas (ou três) o resultado previsto confirma a monstruosidade da coisa: uma percentagem cada vez menor de cabrões detém uma percentagem cada vez maior da riqueza produzida. A desigualdade é cavalgante.

Os ricos não têm nacionalidade ou, melhor dizendo, a riqueza é a sua nacionalidade sejam eles originários de onde forem.

Fomos bem enganados, como patinhos que sabem bem nadar, cabeças para baixo, rabinhos para o ar. Agora assistimos em pânico ao desabar das estruturas sociais e agitamos braços e bandeiras em desespero. Estaremos a tempo de inverter a desgraça?

domingo, novembro 12, 2017

Memória

A memória é uma coisa estranha; inventa-se a si própria, autonomiza-se, deixa-me sem saber o que de facto aconteceu, leva-me a acreditar mais nela do que em mim. A memória é como um animal de estimação a tiranizar o dono: quem possui o quê?

A memória é como água perdida numa estrutura arquitectónica, a furar, a encontrar sempre um buraquinho por onde passar, a inundar os espaços mais largos: a memória é uma inundação inesperada e surpreendente.

Tenho uma memória tão subtil que sou levado por ela a acreditar que é fraquinha, que não tem poder, que falha. A minha memória é tramada. Prega-me partidas constantemente. Sinto-me indefeso perante as suas traquinices. É ela quem me constrói o passado mas não lhe permito que me influencie o futuro. Acho eu...!

sábado, novembro 11, 2017

Este nosso Ubu


Adaptar o Rei Ubu para o Teatro na Gandaia foi a coisinha mais apaixonante que me foi permitida experimentar desde que ando a fazer pelo teatro. A princípio senti-me um pouco (muito) intimidado; era o respeitinho a fazer-me tremer as manitas sobre o teclado, o não querer defraudar o autor, nem a tradição, muito menos a grandeza da coisa, enfim, estava um tanto ou quanto acagaçado. Li versões que fui encontrando, observei longamente milhentas imagens das milhentas encenações que pululam nas páginas da Net, nada me descansava, antes pelo contrário. Quanto mais penetrava o espírito da coisa mais me parecia estar com o rabo à mostra. Sentia uma espécie de frio nas nalgas, o nariz enregelado mas… eu seja corno, havia que meter mãos à obra e deixar pruridos merdosos no fundo da gaveta: ou bem que somos homens ou então somos ratos ou outra merda qualquer, gâmbias de Deus!
Acredito piamente que a arte é uma massa informe (uma coisa plástica) que se encontra eternamente em suspensão à espera que alguém lhe deite a unha e faça dela uma coisa nova. Uma forma artística depende do tempo e do lugar em que vê a luz, não há vacas sagradas. Traduzir um texto é sempre reescrevê-lo. Perante o Ubu não havia que temer. Afinal de contas trata-se de um texto tão desopilante que se pode fazer dele quase tudo o que se queira desde que se mantenha fidelidade absoluta à brutalidade daquele gajo hediondo que tem como objectivo principal viver acima das suas possibilidades à custa do sofrimento alheio. Uma personagem clássica, aquele Ubu.
Como referências tinha o exemplo da banda que dá pelo nome de Pére Ubu e o dos punks de um modo geral, admirava de toda a minha alma os dadaístas nas suas múltiplas e corrosivas formas de expressão artística (ah, o grande Dada Max!), sentia-me capaz de fazer alguma coisa concreta e consequente com aquela massa plástica que o texto de Jarry colocava à minha frente, só me faltava o atrevimento que, confesso, não será o meu ponto mais forte nem mais óbvio. Lá me convenci a meter mãos à obra; primeiro titubeante, às apalpadelas, depois, à medida que ia avançando, cada vez mais convicto e mais feliz por me permitir a liberdade de comungar daquela intemporalidade maravilhosa que ia descobrindo a cada passo. Quando terminei percebi que participara na gestação de uma coisa selvagem.
Entreguei o texto à Ana Nave confiando na sua capacidade de dar vida ao texto mais abstruso, a sua extraordinária capacidade de fazer o teatro acontecer. Agora havia que aguardar.
Passaram meses de ensaios. Domingos e segundas-feiras. O grupo de actores foi-se ajustando, tal como o texto. A tal massa informe a ganhar contornos visíveis. A Rafaela Mapril tornou reais as figuras das personagens com esplendorosos figurinos, o Zé Rui iria ser o responsável por esculpir o espaço cénico a golpes de luz, tudo se conjugava daquela forma próxima da magia que é própria do Teatro.
Quando assisti ao primeiro ensaio geral fiquei embevecido. Apesar de todas as irregularidades e arestas por limar a coisa tinha a força que imaginara: grotesca, excessiva, brutal, potencialmente repelente mas plena de força, carregada de um vigor e de uma boçalidade capazes de incomodar os espíritos sensíveis, tal qual imaginara que poderia ser. Acredito que o resultado deste trabalho apaixonado não envergonharia o próprio Jarry, passe a imodéstia.
No dia da estreia compreendi que das duas uma: o espectador iria amar aquele objecto teatral ou odiá-lo, não me parece que a magnífica representação de todos os actores que estiveram em palco possa ter proporcionado sentimentos próximos da indiferença aos que assistiram, sentados na plateia do António Assunção.
Não há agradecimentos a fazer. O Rei Ubu não se agradece, faz-se!

segunda-feira, novembro 06, 2017

Bom tempo

O sol brilha, faz calor, a cidade vive mais um dia sossegado. Está bom tempo.

Chove a cântaros, as pessoas passam encolhidas debaixo dos guarda-chuva, os carros circulam com dificuldade. A cidade vive um dia difícil. Está mau tempo.

É assim que consideramos o estado meteorológico: sol é bom, chuva é mau. Nada mais estúpido do que esta apreciação egoísta e inconsciente.

Sem chuva não tarda a faltar água. Aliás, o país vive há anos em situação de seca mais ou menos severa, extrema em certas zonas do território. Apesar de ainda não sentirmos essa escassez nas torneiras das nossas casas, quem vive fora das cidades e precisa de água para a agricultura ou para satisfazer as necessidades dos animais que cria sente uma angústia crescente.

Fiz uma viagem até à Beira Alta. Depois de sair da A1, entrando pela IP3 dentro, comecei a ver os efeitos devastadores dos incêndios que assolaram o país, naqueles dias em que, na cidade, fez um tempo maravilhoso. Ali, no interior do país, foram dias infernais, dias de muito mau tempo.

Talvez devêssemos pensar um pouco mais quando classificamos o tempo que faz. Nos dias que correm, para que o tempo seja bom, estamos desesperadamente necessitados de chuva. Precisamos de muita chuva, imensa chuva, para que os próximos dias sejam esplendorosos. 

quarta-feira, novembro 01, 2017

Afectos

Muito se tem por aí falado de afectos nos últimos tempos. A questão da forma como os políticos reagiram à tragédia contínua dos incêndios e das mortes por eles provocadas é uma questão muito pantanosa.

Costa não mostrou consternação adequada, já Marcelo foi autêntica Madalena  e muito comoveu o nosso povo. Encontrou-se ali uma nesga de oportunidade para desenvolver duvidosa narrativa com os afectos como pano de fundo.

Nunca gostei de velórios nem de funerais. Talvez porque não tenho a certeza de como é suposto comportar-me nesses momentos de dor. Tenho lágrima fácil e comovo-me com facilidade perante a dor alheia mas não sei medir se é muita dor ou se é poucochinha.

Quer-me parecer que esta história é coisa que mete muita lágrima de crocodilo. Não confio em pessoas que choram com excelência e no momento exacto. Os crocodilos usam gravata preta.

sábado, outubro 28, 2017

O perfume

Começa a cheirar a PPD e fica muita gente um pouco doida, um pouco inebriada. É como se a Primavera chegasse no lugar do Inverno, montada nele, a sorrir, disparando sorrisos na direcção da populaça.

Nota-se nas páginas dos jornais, nas entrelinhas, nos noticiários, nos discursos de gente boa (e de gente má também), enfim, sente-se a possibilidade de um Renascimento. Até já se fala outra vez do "arco da governação" e do bom que era o PPD e o PS serem outra vez amigalhaços. Ou ainda numa super-geringonça que metesse ao barulho os partidos todos, de esquerda e de direita e os que são nem uma coisa nem outra, uma espécie de grande cozido à portuguesa. Com todos, como o bacalhau.

O que me surpreende nesta história que agora se desvela é a facilidade com que se criam narrativas mediáticas e se dá a volta a um tão grande número de pessoas só assim, com um estalar de dedos.

Dizia o outro que venderia com a mesma eficácia sabonetes ou presidentes de república. Basta um bom perfume para que um monte de merda quase mude de figura.

quarta-feira, outubro 25, 2017

A coisa vai indo

Desde os tempos em que o PREC foi ao fundo que temos sido governados por uma facção do Parlamento, ali do centro para a direita do hemiciclo. Ora sós, com maiorias absolutas do PS e do PPD, ora mal acompanhados, com o CDS ou com o PPM, criou-se uma espécie de aristocracia democrática que foi orientando as cenas em proveito de... não sei que diga. Em proveito de alguém, pronto, não quero parecer demasiado injusto.

Foi o ministro que se demitiu irrevogavelmente, se não estou em erro, quem criou a expressão "arco da governação" para designar aqueles que, na sua visão muito particular, tinham o "savoir faire" necessário para meter as mãos na massa da República. Claro que o seu partido fazia parte daquela nata social e ele, mais do que qualquer outro, tinha todo o direito de decidir os destinos da nação, submarinos incluídos.

Foi também este rapaz-maravilha quem, em tom jocoso e confiando na vinda do Mafarrico, designou por Geringonça o arranjinho com que Costa, Jerónimo e Catarina Martins lixaram bem lixado o "arco da governação". À direita ninguém acreditava que os comunistas fossem capazes de engolir tantos sapos mas a verdade é que eles se habituaram ao desagradável menu e lá vão mantendo a geringonça a funcionar aos soluços.

Estou convicto que as maiorias absolutas tendem a corromper a Democracia. Principalmente quando são figurões da estirpe de um Relvas ou de um Lelo do PS (só para dar dois exemplos de vigaristas encartados que me vieram de repente à memória) a orientar a formação de listas de candidatos a deputados e a puxarem os cordelinhos que fazem levantar e sentar os rabisoques nas bancadas da Assembleia.

A Geringonça funciona mal? Podia funcionar melhor mas não é capaz disso. No entanto prefiro esta Geringonça a cagar e a tossir do que o "arco da governação" em todo o seu esplendor.

domingo, outubro 15, 2017

Declaração de amor

A acusação do malfadado Processo Marquês vem fazendo sonhar muitos cidadãos portugueses. Iremos andar embrulhados em questões processuais que, decerto, irão dourar muita pílula, entravar muita investigação e desviar atenções.

Iremos assistir a condenações em praça pública e a juras de amor à presunção de inocência; enfim: vamos assistir a uma sucessão de trambolhões magníficos e espectaculares para gáudio da populaça e exibição de extraordinários dotes jurídicos dos causídicos envolvidos no drama que se segue.

Os abutres aguardam, poisados num ramo seco de uma árvore morta.

É por estas a por outras que tenho um particular apreço pela Geringonça. O Partido Comunista Português e o Bloco de Esquerda nunca fizeram parte do malfadado "arco da governação", essa espécie de qualidade misteriosa que enformaria uma elite capaz de governar a nação portuguesa e que, quem não tinha percebido percebe agora, não era mais que uma associação de malfeitores, os vampiros da canção de Zeca Afonso.

Com a Geringoça a guardar o portão da quinta, a bicharada malcheirosa fica a rosnar do lado de fora. Um ou outro, mais atrevido, ladra alto e bom som, mas a coisa fica mais difícil para os monstros glutões que devoram a nossa riqueza comum. A imbecilidade de um Cavaco ou a sonsice de um qualquer Coelho já não fazem grande mossa.

Apesar de todas as suas incongruências e evidentes deficiências físicas, amo a Geringonça. Espero que se mantenha durante muitos e bons anos mas já se adivinha a impaciência dos adeptos do "centrão". Com Rui Rio a chegar-se ao cadeirão do PPD vai-se sentindo muito esfregar de manápula  e um certo pivete ansioso começa a sentir-se outra vez.

Tenhamos o bom senso necessário para evitar que os abutres desçam, de novo, em vôo picado sobre a carcaça agonizante do nosso país. Eles andam por aí!

sexta-feira, outubro 13, 2017

Bombas

Sinceramente não sei porque hei-de ficar inquieto caso o Irão consiga fabricar armas atómicas. Nem sei porque hei-de ficar mais inquieto por essas armas já fazerem parte dos brinquedos do rei-comunista da Coreia do Norte. Inquieto já eu estou pelo simples facto de armas desse género existirem um pouco por todo o planeta. É o bastante.

É suposto eu, na minha qualidade de cidadão ocidental, ser a favor da existência, manutenção e expansão dos arsenais nucleares dos países considerados democráticos? Veja-se o caso dos EUA e do tolo alucinado que agora senta o olho do cu no vértice da pirâmide do poder lá da terrinha. Com uma besta daquelas a ter acesso ao botãozinho nuclear podemos nós estar descansados? Claro que não.

O problema da sociedade global e informatizada parece ser a sua novíssima capacidade de eleger anormais para cargos de poder e publicitar com estrondo os peidos e arrotos de todos os mentecaptos que orientam os destinos dos povos. Sim, dos mentecaptos, porque aqueles que governam com sabedoria e equilíbrio raramente são motivo de notícia.


quinta-feira, outubro 05, 2017

Memória vaga

Lembro-me vagamente de ser criança e olhar para os mais velhos com admiração e respeito. Acreditava que os cabelos embranqueciam à medida que uma pessoa se tornava mais sábia.

Não eram só os mais velhos que me enchiam o peito daquela reverência infantil, também os que desempenhavam papéis sociais relevantes mereciam a minha admiração. Decerto seriam pessoas especiais para terem chegado ali, ao vértice da pirâmide que se erguia no lugar que ocupavam.

O tempo passou e eu próprio fui ganhando cabelos brancos e uma barba branca e percebi que, afinal, isso não tem nada de extraordinário, nem é isso que nos confere a autoridade que me fascinava quando vivi num corpo de criança.

A autoridade é um bicho estranho e inquieto e tem muitas origens diferentes, nem todas merecedoras de admiração, muito menos merecedoras de reverência.

segunda-feira, outubro 02, 2017

Armaduras pretas

O que se está a passar na Catalunha é uma grande confusão. Assistimos incrédulos a uma escalada de violência que poderia perfeitamente ser evitada caso houvesse interesse de parte a parte em que as coisas acontecessem de acordo com o bom senso. Mas não. A uns aproveita a violência, a outros está-lhes na massa do sangue.

No meio do terramoto o povo anónimo. Não duvido que, caso fosse catalão, haveria de andar a levar porrada da Guarda Civil. Mas, estando descansadinho cá no meu Portugal, olho para tudo aquilo com uma enorme dose de desconfiança.

Fica a imagem da brutalidade do estado policial. Aqueles cães de fila, enfiados nas suas armaduras, protegidos por capacetes negros, são o símbolo do poder, a sua materialização junto de quem protesta e clama por aquilo que acredita serem os seus direitos. Não há diálogo, apenas violência. Todos sabemos que a violência se propaga como um incêndio em dia de Verão.

Rajoy é um pirómano perigoso e Puigdemont, para apagar o fogoléu, traz um bidão de gasolina em cada mão. Não é preciso fazer um grande esforço de memória para recordarmos situações vagamente semelhantes um pouco por toda a Europa. Sempre que o povo sai à rua lá aparecem os gajos das armaduras pretas e dos capacetes fechados.

São as forças que garantem que a Democracia funciona como DEVE ser.

sábado, setembro 30, 2017

Putas Assassinas

Lendo Bolaño sinto uma estranha vertigem, um vago reconhecimento. As suas personagens parecem vogar indefinidamente num espaço que nunca lhes pertence, como se fossem sempre estrangeiras, mesmo no seu próprio país ou na sua cidade, até mesmo no seu corpo.

Nos seus contos e romances sinto a solidão como o mais perigoso dos animais selvagens. Um bicho terrível que procura enjaular-se nas almas das pessoas para depois as roer por dentro, como na mais terrível das torturas chinesas, aquela que implica uma gaiola e uma ratazana esfomeada.

Ando a ler As Putas Assassinas.

domingo, setembro 24, 2017

Domingo outra vez

Estar junto a alguém, pertencer a alguma coisa, não ser irrelevante, fugir da invisibilidade como se fôssemos o diabo a fugir de um padre pedófilo empunhando a cruz de Cristo. Olho as faces das pessoas, espio-lhes os gestos, as poses, ir ao centro comercial é como ir ao teatro.

Há uma ameaça séria a pairar sobre o planeta, um espectro maléfico de guerra nuclear. Regredimos 40 anos, mais uma vez tenho a sensação de que não há futuro só que agora sou outra pessoa. Tenho a sensação de que a diferença entre os tempos da Guerra Fria e estes que agora vivemos é que os líderes ficaram muito mais loucos, que são muito mais brutos.

Preparo para mim uma tarde descansada. Talvez pinte um pouco, talvez leia, talvez não faça nada e exerça o meu direito à preguiça. Por vezes penso como terão sido os últimos dias do Império Romano, como viveram os habitantes de Roma os dias que antecederam a invasão da cidade.

quarta-feira, setembro 13, 2017

O dia das eleições

É sempre a mesma bambochata, o dia das eleições em Portugal é como se fosse uma coisinha feita de cristal que é preciso tratar com o máximo dos cuidados não vá desfazer-se ao mais leve sussurro.

A abstenção tem vindo a aumentar, o povo eleitor parece cada vez mais arredado das urnas e das cruzinhas no boletim de voto. Tenta-se explicar a a abstenção das mais variadas formas: o povo baldou-se porque estava a chover ou porque estava calor e foi para a praia. Ou porque era um fim-de-semana prolongado e emigrou em direcção ao Sul, ou porque outra coisa qualquer.

Em suma, todas as razões são boas para não votar. Não é que o povo se esteja a marimbar para o seu dever cívico, não! O povo até queria cumprir o ritual democrático mas há sempre qualquer coisa a distraí-lo.

Desta vez a questão de lesa-democracia é a marcação de um jogo de futebol entre o Porto e o Sporting para esse dia 1 de Outubro de 2017. Haverá alguém que deixe votar porque se joga futebol lá para o fim da tarde? Se isso acontecer parece-me que o problema é do eleitor e não do jogo. Tal como não me parece correcto culpar a chuva ou o sol da falta de cultura democrática.

Talvez os partidos políticos e os candidatos e os meios de comunicação social tenham algumas culpas no cartório. Mas não, o futebol é bem mais fácil de culpar.


segunda-feira, agosto 21, 2017

Ter razão

Todos queremos ter razão!

Vá lá, não adianta estares a rebuscar na tua cabeça se queres ou não ter razão, surpreendido leitor, não vais conseguir encontrar uma justificação aceitável que comprove a tua humildade. Népias, não te safas com facilidade porque a tua Consciência (ou Alma ou lá o que é essa Coisa) está sempre a segredar-te coisas ao ouvido e não te deixa mentir a ti próprio.

A nossa necessidade de ter sempre razão leva-nos a estar constantemente a pensar na melhor maneira de o provarmos. Nota bem: não conseguimos ter razão mas podemos provar que a temos. Confuso, não? Pois, também me parece. É exactamente o que se está a passar comigo à medida que vou escrevendo estas palavras; eu quero ter razão quando afirmo que todos queremos ter (sempre) razão mas não sou capaz de encontrar um discurso suficientemente poderoso que justifique esta patranha.

Todos queremos ter sempre razão!

A melhor maneira de ter razão é ser agressivo, ser afirmativo, avançar como se o nosso pescoço não fosse capaz de nos voltar o olhar para trás. Ter razão é como ter um torcicolo. Só é doloroso se deixarmos a única posição confortável.

sábado, agosto 19, 2017

Macaquices

Ler, ver, filmes, ouvir música, conversar, é como aquela cena dos três macacos mas sem as patas a tapar os olhos, os ouvidos ou a boca. Somos feitos disto, é este alimento que, de alguma forma nos vai fortalecendo o corpo por via do espírito. Somos macacos cultos.

A cena dos macacos tem a ver com um provérbio eventualmente chinês mas que terá ganho os galardões de universalidade por via japonesa. A ideia é não ver o mal, não ouvir o mal e não falar mal, uma via para a sabedoria e a santidade, um manual de bons princípios e humanismo à maneira oriental.

É complicado cumprir o objectivo dos três macacos sábios, afinal de contas somos apenas humanos.

terça-feira, agosto 08, 2017

Estação tola

A "estação tola" (silly season segundo os súbditos de Sua Majestade William Shakespeare) traz consigo a imbecilidade elevada à condição de coisa divina e os incêndios são o inferno na Terra. É assim mesmo, uma época de extremos, um lugar sem fronteiras demarcadas. As coisas entram umas dentro das outras como balas, como setas disparadas por um lança-mísseis.

Dizem-se enormidades, sucedem-se as catástrofes, a estupidez veste fato de erudição e o contrário é uma ratazana com penas a cantar dentro de uma gaiola dourada. Mas...

... será que este mundo ao contrário acontece apenas nesta época do ano? Não vivemos nós uma eterna "estação tola", longa e imprevisível como um inverno no mundo da Guerra dos Tronos?

Tudo pode não acontecer, bem como o seu contrário.

segunda-feira, agosto 07, 2017

Metafórico

- Quando temos uma ideia que não se revela grande coisa, melhor será deixá-la pairar, como se fosse um abutre a voltear lá no alto, namorando o corpo moribundo da nossa imaginação. Mais tarde ou mais cedo o abutre vai agir e alguma coisa haverá de acontecer. Quanto mais não seja, a ideia-abutre levanta vôo outra vez...
- E depois?
- Depois? Depois voa...
- Que metáfora de merda.

sábado, julho 29, 2017

Heroísmo

E se o problema dos incêndios descontrolados fosse potenciado por um excesso de voluntarismo heróico por parte de bombeiros nem sempre bem preparados para o combate? E se os nossos heróis fossem demasiado corajosos e pouco cerebrais?

Esta possibilidade é terrível. Levantá-la é uma atitude arriscada. Eu posso fazê-lo aqui pois a minha voz dificilmente chegará ao Céu, mas que essa hipótese tem fundamento, lá isso tem.

Temos muitos bombeiros voluntários, problemas na coordenação de acção de combate a incêndios e o país vai ardendo. E arde (percentualmente) mais que os outros países europeus. Somos o Inferno na Europa mas temos dificuldade em debater a proveniência do Diabo que preside a esta devastação. Porque arde mais Portugal do que arde Espanha, do que arde França, do que ardem todos os restantes?

Haverá alguém interessado em debater este "pormenor", para lá da questão das listas de nomes das vítimas, do populismo ou não populismo, do raio que os parta? Hércules, o maior de todos os heróis, foi empurrado para o heroísmo por razões sórdidas.

segunda-feira, julho 24, 2017

Traduções

Abri duas edições diferentes de Coração das Trevas de Joseph Conrad. Li a primeira página de uma, depois a primeira página de outra. Eram tão diferentes! Não fixei os nomes dos tradutores (podiam ser tradutoras) mas uma das traduções era deselegante a outra parecia muito melhor. Qual delas seria fidedigna?

Quando pego no Moby Dick fico a olhar a capa, a pensar. Não tenho muita vontade de ler. Quem me garante que não estou a ler uma merda qualquer? Não tenho dúvidas que qualquer tradução é uma interpretação mas ter consciência disso é bastante aborrecido. Como sei que estou a ler uma boa tradução ou uma tradução manhosa?

Preciso de aprender inglês o suficiente para poder ler os originais. E aprender mais francês e mais espanhol. Não vou ler nunca autores japoneses nem chineses nem indianos nem os clássicos gregos. Claro que isto sou eu a gozar comigo próprio, nunca serei capaz de aprender aquelas línguas e daqui a uns dias já me esqueci desta experiência traumática e vou voltar a ler traduções.

Não há como escapar desta armadilha.

quarta-feira, julho 19, 2017

Um sonho

Gostava de um dia descer a rua conversando com alguns gregos mortos, um ou outro romano e, porque não, um grande pintor flamengo. Lá mais adiante havíamos de parar numa esplanada e sentar os ossos para bebermos uma imperial e continuar divagando.

Eu e os meus amigos zombies, ali, bebendo e conversando como se a morte não fosse nada ou, pelo menos, como se a morte fosse igual à vida. As coisas espantosas que havia de vê-los descobrir!

Havíamos de falar cada um na sua língua mas tudo seria perceptível e perfeitamente compreensível porque a verdade não teria obstáculos para fluir entre nós. Nem a mentira. A vida igual à morte, a verdade igual à mentira.

Risos e palmadas nas costas. 

Gostava que um dia tudo fizesse parte de uma coisa só. Só não consigo imaginar que coisa pudesse ser. Talvez possa sonhá-lo.

terça-feira, julho 18, 2017

Liberdade de expressão

Nos tempos que correm, uma opinião pessoal publicamente assumida pode ser fonte de uma enxurrada de insultos, exigências de castigo, uma tremenda dor de cabeça para quem, à partida, nada mais fez do que dizer aquilo que pensa.

Vivemos numa sociedade democrática onde a liberdade de expressão é um dos nossos bens mais preciosos. No entanto a sua utilização sem barreiras é cada vez mais um problema para quem acredita poder fazê-lo.

Há grupos significativos de cidadãos que, sempre que se confrontam com opiniões que consideram reprováveis, em vez de as rebaterem com argumentos pedem de imediato a intervenção repressiva seja dos tribunais, seja de associações de profissionais com o intuito de castigarem aquele que emitiu uma opinião com a qual não concordam. Isto parece-me lamentável.

Se vamos perseguir pessoas por delito de opinião o que resta da nossa dignidade social? 

domingo, julho 16, 2017

Indolência absoluta

Por vezes sentia-se cansado de viver consigo próprio. Apesar de se conceder largos momentos de descanso, momentos que desejava de pasmaceira absoluta (moscas a voar, vento a passar, sol a brilhar, simplicidades deste género); ainda assim era um gajo cansativo. E cansava-se.

Que raio! A mosca levava-o com ela, o vento desarranjava-lhe a pose e o sol torrava o horizonte. Cansava-se de tanto procurar o descanso.

Este texto, inútil e desprovido de sentido, era o tipo de coisa que ele seria capaz de fazer. Tédio puro, indolência absoluta.

segunda-feira, julho 10, 2017

Pequena historieta de embalar

Vendem-te armas, fazem-te promessas de amizade e dizem que te apoiam. São amigos, faz-se negócio. Depois retiram-se e deixam-te a trabalhar. Tu lutas, matas, destróis, escapas por pouco. O teu país fica em ruínas. É hora para os teus amigos regressarem. Agora vêm apresentar-te toda uma outra linha de investimento, trata-se de reconstruir aquilo que as armas destruíram. Trazem novos empresários, outras ideias para te vender. São amigos, o negócio faz-se sempre.

sexta-feira, julho 07, 2017

Reflexão preguiçosa

EUA, Coreias, Arábia Saudita, Qatar, Egipto, Venezuela, Iémen, Sudão, Líbia, Filipinas, a lista é curta, como a minha memória, um esboço deste mundo feito com traço tosco. Leio o jornal e a sensação é a de que o mundo está dentro de uma panela de pressão posta ao lume.
A temperatura sobe.

Por aqui as coisas vão rolando calmas. O festival de Teatro de Almada oferece espectáculos diários. O povo assiste, sereno e divertido, discutem-se qualidades e defeitos de encenações, cenografias, interpretações... visões artísticas do tal mundo, da tal panela de pressão.

Por vezes recordo vagamente os anos 80, a Guerra Fria, o no future, nem sequer me apetece sorrir. A espécie humana é uma ameaça constante para si própria e, no entanto, é também a sua única esperança. Deus não é para aqui chamado embora, numa certa perspectiva, faça muita falta.

segunda-feira, julho 03, 2017

Beleza?

 Anjo da Covilhã (Junho 2017)


Por vezes questiono-me: por que razão pareço possuído por um espírito obscuro e melancólico sempre que avanço de encontro a uma folha de papel com a intenção de desenhar? Não há espaço na minha arte para um passarinho, uma flor bonita, uma criança a sorrir?

Nem sempre me apetece responder a mim próprio, ainda menos em questões deste teor.

Tenho a impressão consciente de que desenho para interpretar o mundo que me rodeia e que este mundo se transmuta dentro de mim naquilo que sou e, por extensão, naquilo que penso e sinto. Será que não tenho esperança na possibilidade de existência da beleza? Será que tenho da beleza uma imagem pouco consistente com o senso comum? Que raio!?

Acho que vou experimentar mais um desenho.

sexta-feira, junho 30, 2017

Imparcialidade

A imparcialidade pode revelar-se uma doença da alma. Não tomar partido, observar o mundo e os acontecimentos de uma forma absolutamente justa, sem o julgamento inquinado por um ponto de vista específico? Tenho a impressão de quem nem Deus será capaz de tão extraordinária façanha.

Para um mortal comum, o esforço de olhar o mundo de forma imparcial poderá provocar um caos desapaixonado pela percepção de que tudo é mesquinho, pode sugerir que a existência humana emporcalha tudo e destrói o planeta arrastando tudo o que a rodeia para o vórtice do aniquilamento absoluto.

A constatação de que cada um de nós tem um nariz e um umbigo, limites óbvios da perspectiva individual do universo, também não ajuda.

A imparcialidade é uma coisa impossível?

domingo, junho 25, 2017

Confusão

A exposição mediática é uma coisa monstruosa. Qualquer assunto que caia na malha apertada das redes dos pescadores de desgraças que distribuem o seu produto aos serviços noticiosos, corre o risco de crescer subitamente, uma lombriga transmutada em anaconda num abrir e fechar de olhos.

A catástrofe de Pedrógão Grande é mais um entre mil casos de consumo mediático, tão característicos da era digital e da TV por cabo.

Mesmo as questões mais graves, os momentos mais significativos, incham como um tumor e esvaziam-se de conteúdo quando submergidas por maremotos opinativos que tudo levam na enxurrada. É uma confusão, um fastio, um tédio infinito.

Consumimos a dor e miséria como se fossem iogurtes ou bebidas frescas numa tarde quente. Todos se aproveitam, muitos exploram, mas, no fim e lá no fundo, ninguém sai completamente limpo de uma cena destas: nem os que mostram, os que oferecem, nem os que vêem, os que consomem.

Tudo isto me parece extremamente complexo e me deixa extraordinariamente confuso.


terça-feira, junho 20, 2017

Mentira

Várias coisas me enojam ao ponto de fazer crescer em mim uma incómoda vontade de fazer mal, também ela nojenta a gastar. Não pretendo justificar a baixeza de certos impulsos que de tempos a tempos me animam, sou um bicho, assumo-o com plena consciência da minha animalidade; mas tenho de reconhecer que, se não fosse devidamente estimulada, uma certa besta imunda que trago cá dentro talvez nunca saísse do seu sono mais profundo.

À estupidez suporta-a a custo, à mentira premeditada, tal como à sonsice, não admito qualquer tipo de espaço por ínfimo que seja. Aqueles que mentem de forma deliberada espevitam o tal bicharoco imundo que habita as profundezas das minhas entranhas.

A mentira terá diferentes graus numa escala que lhe determine a gravidade, admito. Há mentiras inofensivas, mentiras piedosas, essas são suportáveis. Há até mentiras que são proferidas com uma profunda convicção de se estar a falar verdade. Essas podemos mesmo respeitar. Mas a ignorância não pode justificar todas as baboseiras que possamos engendrar.

Finalmente há as grandes mentiras. São essas que me tiram do sério e me transformam numa autêntica besta.

segunda-feira, junho 19, 2017

Terrível beleza

Sinto-me incomodado com a estilização da catástrofe. Imagens editadas num serviço noticioso mostram a estrada da morte no incêndio de Pedrógão em artísticos planos e graciosos movimentos de câmara. Uma música em fundo dramatiza ainda mais a peça (noticiosa?) e contribui para conferir ao cenário desolador uma esmagadora beleza. Como se fosse um filme, como se fosse uma obra de ficção.

Nestas ocasiões o coração confunde-se de tal modo com a razão que não percebemos muito bem as sensações que nos rolam na mente. Desligo a TV, tento não pensar no inferno. Mas isso é muito complicado. O calor sufocante que paira na rua e me entra em casa não permite que a abstracção seja eficaz.

A dor, o drama humano, a violência descontrolada das forças que a Natureza é capaz de convocar para nos reduzir à nossa insignificância, tudo isto, em conjunto, me confunde. Acho que vou regressar à leitura. Estou a ler, pela primeira vez, Moby Dick.

domingo, junho 18, 2017

Ter coragem

Ontem morreu tanta gente! Foi o inferno. Mais um, outro inferno, um novo inferno. Após o inferno na torre de apartamentos em Londres vimos o inferno nas florestas e estradas de Pedrógão. Dezenas de cadáveres carbonizados, centenas de famílias em pranto, milhares de pessoas aterrorizadas, milhões a lamentar no espaço virtual estas ocorrências.

Não podemos fazer nada. Vivemos o desespero da impotência, desesperamos com a percepção da fragilidade da vida. "Quando um gajo não tem sorte até os cães lhe mijam em cima". Quando um gajo não tem sorte arde como uma folha de papel. É terrível.

Que podemos fazer? Ter coragem. Penso que é a única coisa que nos resta: ter coragem e continuar a viver.

sábado, junho 17, 2017

Fantasmita

Diz-se que o cão é o melhor amigo do homem, que um livro é uma óptima companhia, coisas assim. Não me parece nada que estas ideias sejam sinceras, parece-me que são tentativas de espantar o mais melancólico dos fantasmas, aquele que ali está e que tem Solidão por apelido.

Quando passamos muito tempo sozinhos sentimos uma mordida no coração. Não é muito forte, não quer despedaçar-nos o músculo vital, não. É apenas assim mesmo, um fincar de dentes para não largar, uma coisinha teimosa ali pendurada, a tremelicar a cada batida, uma coisa bastante melancólica, até.

Pessoalmente, são mais as ocasiões em que opto por ficar só do que aquelas a que tal sou obrigado. Ainda que muito preze a companhia das letras, que não desdenhe a presença de um canídeo e ame  a Humanidade muito mais do que gosto de admitir, tenho por este bichito que mordisca o meu coração um carinho especial. Gosto deste fantasmita.

quinta-feira, junho 15, 2017

Metáfora

Cada vez menos sou capaz de acreditar que haja, de facto, uma separação de poderes na forma como interpretamos o sistema democrático no nosso país.

Os responsáveis pela elaboração das leis parecem estar profundamente comprometidos com as forças obscuras do vampirismo que tem a dentuça ferrada na jugular do Estado. É como ter raposas a guardar o galinheiro e um bando de furões como encarregados dos serviços de limpeza da gaiola onde pomos os nossos ovos. Anda a galinhada num virote, a levar dentadas, a perder penas, a sofrer de desorientação e com inveja da vizinha a quem apenas foi levada uma pernoca na última investida das bestas que zelam pelo nosso bem-estar.

Quando olho, por exemplo, para o que se passa no Brasil ou em Angola, não sinto qualquer tipo de alívio por estar enfiado neste galinheiro lusitano. Sinto uma espécie de solidariedade melancólica por perceber que eles têm leões no lugar das raposas e jacarés no lugar dos furões.

Vivemos um tempo em que as máscaras das bestas que nos devoram caem com facilidade. Vemos com nitidez a deformação hedionda dos seus focinhos, aspiramos o hálito fedorento que exalam enquanto cirandam ao redor das nossas vidinhas. E, no entanto, parecemos hipnotizados, imobilizados perante o poder encantatório das ilusões que nos oferecem para nos amolecer as carnes antes de lhes ferrarem o dente.

No meio desta merda toda Portugal não passa de metáfora, coisa pequenina. Mas, para mim, para os que vivem neste galinheiro, é coisa enorme por ser o lugar das nossas vidas.

quarta-feira, junho 14, 2017

Um sonho

Esta noite tive um sonho de que me recordo. Sonhei que caminhava calmamente rua abaixo.  Era a rua em que moro mas não era, compreendes-me? Nunca te aconteceu sonhar que passeias num espaço que te é familiar mas onde não reconheces nada?

Mas, o que interessa para o caso, é que eu caminhava sem dor nem esforço nem muletas: nada! Durante o sonho isso era algo perfeitamente adequado (ia escrevendo "natural") e não me obrigou a pensar muito nos gestos vigorosos que o corpo me permitia executar.

Foi um sonho particularmente bizarro devido ao encontro inesperado com uma amiga que já não via há muito, muito tempo e que, num flash, desatou a cabecear um muro repetindo insistentemente a frase "sou boa pessoa". Espero que ela esteja a passar bem, cá fora, fora do mundo dos sonhos.

Entretanto acordei com o ruído vibrante do berbequim ou lá o que é aquela merda que os operários vêm utilizando na obra que decorre no andar de baixo. Acordei e apercebi-me que ainda não recuperei da lesão muscular que me mantém fechado em casa.

Aqui estou, sentado, perna esticada, enquanto tento fazer durar o tempo de escrever estas palavras. Um dia destes vou poder sair de novo e caminhar, calmamente, rua abaixo. Se encontrar a minha amiga...

segunda-feira, junho 12, 2017

Chateação

O tempo está parado; é espesso como uma malga de sopa morna. Compreendo o que sentiria uma ervilha ou um pedaço de cenoura que tivesse escapado ao passevite, ficando a boiar enquanto não viesse a colher recolher-lhe a alma para a levar à boca de quem come.

O tédio é um bicho gordo e egoísta que se deita sobre os teus pensamentos e ali fica, sem fazer nada, a tapar a vista à imaginação, a peidar-se e a fingir que abana a cauda. Tentas enxotar a bestiola mas... qual quê! Dali não sai, dali ninguém a tira que ela é uma estátua plantada no jardim da tua inutilidade.

Não sinto o vento no rosto. Não sei se por estar um dia sossegado, se por ter as janelas todas fechadas. Não sei. Não me apetece saber.

Nem a leitura me ajuda a completar tanto espaço vazio que me entrou dentro do corpo.

domingo, junho 11, 2017

Vontade de desenhar

Continuo para aqui sentado, perna esticada, a secar. Ter os movimentos condicionados é chato (terrível seria expressão exagerada, caríssimo leitor; mais adiante iremos reflectir sobre isso mesmo), surpreendentemente muito mais chato do que era capaz de imaginar olhando outra pessoa nas mesmas condições em que me encontro.

Imagino (tento imaginar!) como será um gajo poder movimentar-se com eficácia motora mas estar emparedado, prisioneiro num espaço exíguo. Querer e não poder dar mais que cinco passos seguidos em linha recta; terrível! Isto sim, será certamente algo terrível. Esta merdice que por ora me atormenta irá ser debelada. A lesão diluir-se-à no tempo e com o tempo, desaparecerá de forma discreta, a contrastar com a estridência estapafúrdia da sua chegada, serei livre de novo.

Pensei que esta pasmaceira, esta imobilidade, imaginei que estar assim, sentado horas a fio fosse propício ao desenho. Pedi À minha filha um certo bloco, rodeei-me de lápis e canetas. Já lá vão dois dias e... nada. Nem sequer vontade de desenhar.

Talvez a minha vontade de desenhar resulte da liberdade de movimentos, talvez o apetite pela criação me exija alguma capacidade de levar o cérebro daqui para ali. Talvez alguns consigam criar quando estão em cativeiro ou sintam necessidade de se expressar quando têm o cu irremediavelmente agarrado ao tampo de uma cadeira.

Agora que reflecti um pouco sobre este assunto talvez seja capaz de desenhar alguma coisa.

sexta-feira, junho 09, 2017

Frágil

Como na canção de Jorge Palma, "sinto-me frágil". Ontem, ao atravessar uma rua movimentada, fiz um gesto qualquer, daqueles que não chegamos a perceber que fazemos e logo senti um músculo na barriga da perna a abrir-se como um folha de papel a ser rasgada. A dor foi forte e de imediato tive de me sentar. Ainda caminhei um pouco, coxeando muito mas tive de parar e procurar ajuda.

Uma ida ao hospital de Almada e uma consulta médica de urgência atiraram-me para aqui, para o sofá, com a perna esticada e apoiada na mesa, isto por um período nunca inferior a uma semana. Num momento um gajo está descontraído e confiante até à inconsciência de si próprio, no momento seguinte está incapacitado de se movimentar livremente e muito mais consciente do seu corpo do que aquilo que desejaria.

Ok, estás de férias, dirias tu, angelical leitor, numa tentativa de elevares o meu ânimo. O caraças, responderia eu, prefiro trabalhar que nem um cão mas manter a mobilidade e poder levantar-me e caminhar quando me apetecer sem necessitar de deitar mão a um par de muletas.

É quando ficamos assim, frágeis, que percebemos aquele desejo que normalmente é formulado pelos mais velhos quando nos dizem "saúdinha!"

quarta-feira, maio 24, 2017

Mudam-se os tempos...

Eles andam por aí. Rastejam sobre duas patas carregando uns expositores com rodinhas onde expõem uns escritos ranhosos oferecendo felicidade a troco de devoção total. Devoção a um deus merdoso que só existe lá na igreja deles.

São os modernos evangelizadores da treta, pobres diabos mal disfarçados de anjos. Trazem asas presas no rabo, asas que arrastam pelo chão. O Verbo não os ilumina. A igreja que representam é um negociozito tão mal amanhado que só pode atrair os analfabetos e os desesperados por um pouco de conforto. Seriam dignos de dó, não fossem tão assanhados e convictos de serem os israelitas dos subúrbios.

Os antigos encomendavam-se a Deus implorando boas colheitas e uma Natureza benévola. Os modernos pedem-Lhe bons negócios e um emprego. É a diferença entre uma sociedade agrícola, na qual os seres humanos viviam com as ventas enfiadas na terra e uma sociedade urbana, na qual os seres humanos vivem com as ventas enfiadas nos mass media.

Sinto-me acabrunhado.

quarta-feira, maio 17, 2017

Escárnio e maldizer (com final esperançoso)

Durante anos venderam-nos a ideia de que Portugal seria o "bom aluno" da Europa. O que caracterizava o nosso país para merecer tal designação?

Ser subserviente, fazer sempre aquilo que era esperado que fizesse e obedecer sem questionar as ordens vindas de quem era suposto mandar. Obedecer e, para ficar mais bonito aos olhos dos grandalhões, ser ainda mais severo consigo próprio do que aquilo que lhe era imposto. Um toque de masoquismo: abraçar o sacrifício com aquela alegria beata dos gajos que se autoflagelam para expiarem os seus pecados.

O bom aluno da era cavaquista copiava com atenção o que o mestre escrevia, nem que o escrevesse nos tomates, e reproduzia com a exactidão que as suas vistas curtas lhe permitissem tudo aquilo, mesmo que não percebesse bem que raio de merda estava a fazer. O mestre escreveu é porque é importante. Assim se comporta o bom aluno.

O bom aluno não tem opinião ou, se a tem e não coincide com a do mestre, fica calado, engole e faz de conta que não se passa nada. De facto, com o bom aluno, nunca se passa nada.

Quantos anos perdemos nós a ser governados por estes borra-botas, estes pichas-murchas, alforrecas corcundas, seres destituídos de coluna vertebral? Ainda por cima havia uns quantos ladrõezecos entre estes bardamerdas enfatuados.

O puto Salvador mostrou, num contexto muito diferente, é certo, que andar a lamber a cartilha do mestre nem sempre dá bom resultado, nem sequer é uma atitude particularmente inteligente. Quem não tivesse percebido talvez tenha agora compreendido que arriscar ser quem somos pode ser a melhor forma de alcançar o sucesso. Só temos de valer alguma coisa e acreditar em alguma coisa que se pareça com a Verdade.

segunda-feira, maio 15, 2017

Um gajo esquisito



Finalmente Portugal conseguiu um objectivo muito antigo (na época contemporânea 53 anos corresponde à quase totalidade do tempo bíblico) e um cantor luso venceu o célebre Festival da Canção ou da Eurovisão, não tenho bem a certeza da designação actual.

Quando eu era puto o Festival era um acontecimento do caraças. A família reunia-se na expectativa de que alguém pudesse reparar no nosso artista, rezando para que, pelo menos os espanhóis, votassem na nossa cançãozinha. Por favor senhores...

Mas a coisa nunca resultava e o pessoal ficava a matutar nas razões que estariam na base de tanta indiferença para com os nossos artistas da cantoria: que o problema era esta nossa língua (demasiado bela ou demasiado complexa, conforme as opiniões), que o problema era o arranjo musical, demasiado antiquado, que a gente não era nunca capaz de acompanhar o ar dos tempos, mil e uma explicações que seriam esquecidas no ano seguinte durante um bocadinho, o bocadinho que durava a tal esperança de sermos notados.

Fui crescendo e deixei de ver a coisa. Para um jovem amante de boa música o Festival era algo execrável: uma merda! E quem quer enfiar merda pelos ouvidos dentro?

Agora que estou... crescido, por assim dizer, já não temo que me caiam os parentes na lama só por prestar atenção ao dito concurso musical. Em boa hora pois, por uma vez na vida, Portugal, através de Salvador Sobral, conseguiu superar todas as expectativas vencendo a coisa.

O rapaz, que é um anti-herói, tornou-se um herói nacional. Já tudo foi dito e redito sobre tão feliz desenlace mas o que me deu especial prazer foi que o tão ambicionado troféu foi conseguido por alguém que se distinguiu da massa através de uma original estranheza.

Sempre que se tentou copiar as formas consideradas canónicas para parir um objecto musical capaz de ombrear com os "estrangeiros" o resultado foi pouco menos que patético, horripilante na maior parte das ocasiões.

Quando Salvador venceu o Festival cá do burgo houve logo quem gozasse com o aspecto dele, com a forma esquisita como interpretava a canção. Habituados ao fracasso imaginavam mil e uma maneiras de minimizar a personagem que iria representar, mais uma vez, a desgraçada miséria nacional.

Mas, desta vez, não foi assim. Salvador venceu e mostrou que ser um gajo esquisito não é, obrigatoriamente, um factor negativo. Antes pelo contrário.

sábado, maio 13, 2017

Momento (pouco) zen

Cada um de nós é fruto de uma determinada árvore genealógica. Pendemos dos ramos da nossa árvore com aspecto mais ou menos apetecível, dependendo da fome de quem nos olha. Estamos neste mundo para comermos e sermos comidos. Sim, somos frutos carnívoros.

A complexidade patética do ser-se humano é tão grande que não percebemos nada. Não sabemos de onde vimos, não sabemos onde estamos... como poderemos, sequer, imaginar para onde vamos?

Esta cena deixa-nos assim, como somos: desprotegidos, vulneráveis; desorientados. Olhamos em redor procurando algo que nos ilumine, qualquer coisinha que alumie tenuemente as trevas que envolvem esta nossa condição.

A muitos de nós custa a crer que a vida seja isto. Que seja só isto. Temo bem que seja assim.

sexta-feira, maio 12, 2017

Perguntem ao Chico

Fátima, Fátima... Fátima. Nos últimos dias, como sempre acontece por esta altura, não se ouve falar de outra coisa. Este ano o falatório começa a chatear de tão intenso, pois temos entre nós o Santo Padre, o Papa Chico.

O Chico vem para canonizar os pastorinhos. Ok, o gajo é o boss da igreja católica, está a desempenhar o seu papel. Terá o Santuário apinhado de ovelhas, as do seu rebanho, uma espécie de Woodstock religioso. A coisa promete.

As dúvidas que me fazem cócegas na cachimónia é: o Chico acredita mesmo nesta cena das aparições em Fátima? É com convicção que vai enfiar mais 3 bonequitos na prateleira dos santos católicos?

Gostava de poder perguntar-lhe estas coisas mas, como não dá para chegar à fala com o amigo Chico ficarei para sempre com as dúvidas enfiadas na garganta.

Alguém que possa que lhe pergunte e depois diga qualquer coisinha. Gostava mesmo de saber, porra!

sábado, maio 06, 2017

Sob um céu cinzento

Tiramos a religião a uma comunidade e o que lhe deixamos em troca? Sai Deus do cadeirão mais elevado do Tribunal e quem lá vai sentar o cu? A coisa é complicada. A Lei divina substituída por um Código Penal trabalhado por homens pouco escrupulosos é a resposta a que temos direito?

As grandes catedrais foram substituídas por centros comerciais. As famílias deslocam-se em peregrinação dominical aos McDonald's de todos os tipos, a devoção à Palavra é transformada em devoção ao Consumo. Isto é complicado, caraças.

Teremos, de facto, matado Deus? Ou Ele, simplesmente, amuou e foi pregar para outra freguesia? Talvez tenha criado outro tipo de vida capaz de O adorar nalgum planeta longínquo e tenha agora a forma de uma lula ou de um veado com asas de morcego, uma coisa assim, tão incompreensível para nós, seres humanos, como nós seremos para as espécies alienígenas que eventualmente existam algures no Universo.

A desagregação do espaço humano vai corroendo o Mundo, a Lei de Lavoisier aplicada à escala da existência da nossa espécie, este mundo que se achata e vai perdendo a esfericidade sob um céu muito cinzento.

terça-feira, maio 02, 2017

Dada Combatendo a Maldade

Passei a última hora a tentar recolher dois ou três textos deste vosso 100 Cabeças que possam servir de apoio a quem visitar a próxima exposição de desenho que vou realizar conforme consta na imagem acima.

Clico na etiqueta "arte" e, catrapunfas, logo surgem 229 textos que fui escrevendo ao longo dos anos neste blogue. É muita coisa, a escolha decerto terá sido difícil.

Nem por isso. Mais difícil foi escrever este post sem parecer lamechas.

sábado, abril 29, 2017

Valha-nos Deus (Nosso Senhor)

Foi algures aí atrás, numa curva da estrada, perdemo-nos, ficámos desorientados. Foi quando deixámos de ser cidadãos e passámos a ser consumidores. Quando aconteceu tal coisa?

Nos dias que correm, ao percorrermos o nosso caminho, ouvimos falar primeiro em Economia e depois, se tivermos tempo para isso, ouvimos falar em Democracia. Se repararmos bem só ouvimos falar em Democracia caso sobre tempo para tal.

Os nossos direitos são os do consumidor, que se lixe a cidadania.

Quando aconteceu isto, Deus meu!?

quinta-feira, abril 27, 2017

Visão mística?

Ó Deus glorioso, eu Te agradeço esta cagadela tão boa.

Grato estou, eternamente grato, por me teres oferecido um aparelho intestinal deste gabarito, por me possibilitares estes sublimes vislumbres do mundo quando, em pleno esforço de expulsar a coisa, no tremelique do "já lá vem", a quase-dor é transformada em alívio total, calmaria absoluta; é como se subitamente olhasse o gracioso frol a enfeitar-me os dedinhos dos pés após o ribombar monstruoso de uma onda de 10 metros que viesse assustar a areia da praia.

Tenho, por vezes, a ímpia sensação de Te ver encostado à parede, sorrindo na minha direcção, quando a coisa lá vai, sanita abaixo e o tremelique cessa de me confundir os olhos.

Será isto uma visão mística?

segunda-feira, abril 24, 2017

Podia ser pior...

A cena é essa: um gajo está tão ocupado a tentar sobreviver que não tem espaço mental para reflectir sobre a vida e a morte, sobre o que é a felicidade, essas coisas.

Um gajo está tão ocupado a imaginar que raio de imagem exporta em direcção aos olhos dos outros que não tem tempo para pensar no que significa um olhar.

Um gajo está tão enfronhado na vida quotidiana que acaba por se elevar ao nível básico do bicho. Já não é mau, já não é mau... podia ser pior.

E como podia ser pior acabamos a dar-nos por satisfeitos: é uma merda, eu sei, mas podia ser pior, podia ser pior...

domingo, abril 23, 2017

Domingo

Hoje só saíram à rua as pessoas feias, acompanhadas por um ou outro bebé. Tenho a sensação de estar no interior de um tríptico de Bosch iluminado por lâmpadas de néon. As pessoas surgem grotescas aos meus olhos, como se estivessem todas trocadas e as peles que lhes envolvem os ossos fossem peles de outros seres, alguns deles nem sequer humanos.

sexta-feira, abril 21, 2017

Academia

Já não consigo aguentar sem ripostar a opinião douta e definitiva dos grandes académicos que sabem muito bem o que é e o que não é arte. Aliás, Arte, pois que aquilo que tão extraordinárias personagens sabem, conhecem e preservam, o Conhecimento, a Beleza, estas coisas escrevem-se sempre com uma letra Maiúscula a abrir a palavra, não vá algum ignorante desrespeitar a coisa.

É frequente perder-me nos discursos labirínticos destes doutores e destas doutoras que pretendem balizar o fenómeno da criação artística, que lhe definem as fronteiras e montam postos alfandegários onde alguém nos perguntará, lá do alto do seu posto: tem algo a declarar?

E, caso declaremos algo, de imediato nos sujeitamos ao julgamento do douto alfandegário e às sanções que ele considerar convenientes. A maior parte das vezes somos obrigados a permanecer do lado de cá, não nos é reconhecido valor suficiente para atravessar a fronteira; a nossa ignorância, a nossa rudeza e falta de sensibilidade impedem-nos de apreciar o que os Grandes Académicos guardam do lado de lá.

Ok. Fiquem lá com essa merda para vocês. Espero que, pelo menos, sejam felizes.

quarta-feira, abril 19, 2017

F......

A sensação não me tranquiliza, antes pelo contrário.

Tenho a sensação de que estamos a construir uma sociedade onde um gajo entra por uma porta e é cidadão e sai por outra transformado em consumidor. Os direitos e deveres são alterados ao longo deste estranho processo de transmutação.

É todo um novo Contrato Social que nos orienta a partir daqui. Consumir implica uma atitude que não se coaduna lá muito bem com o ideal de solidariedade que importava observar quando éramos cidadãos de uma sociedade democrática. O Consumidor é um predador.

Tenho a sensação de que, nesta sociedade, há mais espaço para a intolerância e o que o fascismo apresenta muitos rostos. A maior parte deles sorridentes. Os fascistas aprenderam a sorrir sem parecer que estão apenas a rilhar os dentes ou a espumar de raiva.

Em que parte do caminho é que nos enganámos? Quando foi que desobedecemos a nossa mãe e saímos do caminho no meio da floresta? Quando foi que metemos conversa com a merda do Lobo Mau?

Tenho a sensação de que esta sociedade de consumidores acabará por rebentar e com ela rebentará uma parte considerável do planeta (se não todo o planeta).

Tenho a sensação que estamos f......

terça-feira, abril 18, 2017

Ir ao Porto e regressar

Num país como este as grandes distâncias são sempre pequenas.

quinta-feira, abril 13, 2017

A velha questão volta a atacar

Quando o discurso do artista se enrola em volta daquilo que lhe interessa (a ele, enquanto indivíduo) qual a possibilidade de o resultado da sua reflexão e do seu trabalho vir a interessar, também, o espectador?

Há uma questão que me dança constantemente dentro da cabeça: qual o futuro de um objecto artístico que não convoque uma narrativa? Sim, eu sei, esta pergunta interessa-me a mim, enquanto indivíduo, qual a possibilidade ela vir a interessar-te também a ti, paciente leitor?

Seja como for, estou para aqui a escrevinhar estas palavras como se estivesse a berrar para um desfiladeiro e nada mais me preocupa do que reflectir simplesmente.

terça-feira, abril 11, 2017

La vida loca



As viagens de finalistas ao sul de Espanha funcionam como uma espécie de ritual contemporâneo de passagem à idade adulta da juventude lusitana. Tal como noutras épocas e noutras culturas, os nossos jovens são colocados à prova numa situação em que, muitos deles, estão pela primeira vez entregues a si próprios, longe do ambiente familiar, confrontados com a sua capacidade de responder a preceito a questões desafiantes. Talvez aquilo a que vamos assistindo nestas viagens, ano após ano, seja um reflexo da sociedade que construímos. O excesso, a boçalidade, a ausência de espírito crítico, a vontade de explodir, de ultrapassar os limites, sejamos justos, não são exclusivos desta geração, sempre fizeram parte da condição da adolescência. Apenas têm crescido de intensidade.

Desde que se tornaram um alvo para as campanhas publicitárias que excitam a vontade de consumir, os jovens são bombardeados com mensagens cada vez mais excessivas. O apelo à plenitude absoluta do prazer, a associação do prazer a situações extremas, são factores corriqueiros no quotidiano mediático, há uma idolatria da loucura que potencia comportamentos esquizoides. A coisa vai-se entranhando num crescendo ansioso, as expectativas da viagem de finalistas vão sendo colocadas em patamares altíssimos, a necessidade de viver tudo o que ainda não foi vivido no curto período de uma semana faz com que os filtros sociais sejam desligados; aqueles dias têm de valer a pena, têm de ser experienciados como se não houvesse amanhã!

Depois há a amplificação mediática (outra característica do tempo actual) e as notícias são marteladas em ritmo de hip-hop, a toda a hora, uma e outra vez, com especial ênfase na espectacularidade alarmista. Os meios de comunicação comportam-se como aqueles jovens: pintam manchetes com frases bombásticas, atiram os factos para dentro de serviços noticiosos que os mastigam como se fossem chiclete, todos os jornais se transformam em correios da manhã. Dentro de alguns dias tudo será esquecido, outros escândalos irão ocupar o espaço mediático, os jovens regressarão à vida académica, agora pressionados pela aproximação dos exames nacionais. Se tudo tiver corrido bem, as memórias destes dias loucos irão contribuir para que se entreguem com maior afinco ao estudo. Afinal de contas agora são adultos, já cumpriram o ritual.

sábado, março 25, 2017

Crocodile Bambi (6)

Vomitar é um impulso higiénico que a nossa alma adquire ou não. Depende do grau de lucidez que o teu corpo mantém quando é desligado do cérebro. Imagino que os meus músculos, os meus ossos, as minhas entranhas, tenham vontade própria e se reúnam em plenário de cada vez que o álcool irrompe tomando de assalto o castelo do meu crânio. Tentam isolar a bebedeira, tomam as rédeas do cavalo estúpido em que me transformo, a gatinhar (transformo-me em gato? Não.), a andar em quatro patas pelo passeio seboso, como se procurasse um pasto que não existe, tão bêbado como um autocarro abandonado à beira do passeio. Penso em coisas sem sentido, como poderia ser de outro modo? O cérebro não tem hipóteses, o corpo é, agora, um animal autónomo e triste que lhe pede, por favor, que reconsidere: cérebro, por favor, volta para mim, não me deixes, não me abandones, tenho medo quando fico sozinho.
Não sei se isto é verdade, não sei se as coisas funcionam assim pois este pensamento é registado muito depois de ter vivido os acontecimentos daquela fatídica noite e nunca mais voltei a embebedar-me daquele modo. Nunca mais voltei a vomitar. Nunca mais o meu corpo se desligou do cérebro que me serve de morada. Desde aquela noite tenho vivido uma vida tristemente sóbria, uma vida de uma lucidez arrepiante.

quarta-feira, março 22, 2017

Crocodile Bambi (5)

- Aquilo não foi normal. O Sr. António estava a convencer um cliente a pagar a conta. Era um tipo franzino com ar de intelectual, não sei se está a ver? Um tipo daqueles que não sabem beber sem ficarem a cair de bêbados. O Sr. António estava com dificuldades em fazer ver ao betinho que as contas são sagradas e resolveu recorrer à sua Maria, uma tranca simpática que costumava guardar por trás do balcão. Só queria explicar-lhe melhor a sua ideia, está a perceber? Mas aquilo não foi normal. O betinho estava todo cagado, a patinar nos calcanhares, agarrado a uma mesa, imagino que a ver a vida a andar para trás, quando a gaja que veio com ele pareceu que caía do tecto ou o caraças. De onde veio aquela fúria? Nem deu para perceber. O Sr. António vinha de tranca levantada, o betinho vomitou-lhe em cima o que fez com que ele hesitasse no gesto de lhe arriar e foi então que a tipa foi como se tivesse entrado pelo Sr. António dentro: deu-lhe um soco nas trombas com tanta força que até lhe desapareceu o punho nas fuças do homem ou o caraças! O Sr. António largou a Maria e foi dar com o lombo num banco. Esguichava sangue do nariz às golfadas. O betinho desequilibrou-se (acho que escorregou no próprio vómito) e foi ao chão, deve ter sido aí que se magoou porque a gaja é que tratou da saúde ao Sr. António. Atirou-se para cima do homem ao pontapé e ao soco com tanta rapidez de gestos que era impossível perceber bem com que partes do corpo é que o ia aviando. Parecia uma cena de efeitos especiais ou de desenhos animados, não sei se está a ver? O Sr. António nunca mais foi o mesmo. Mudou de cara e mudou de atitude. Tornou-se mais meiguinho para a clientela e agora arrasta a perna esquerda.
- E a gaja? E o betinho?
- Depois de deixar o Sr. António feito num oito, a gaja foi para o betinho que estava apoiado num cotovelo a olhar para o chão como se tivesse perdido alguma coisa. Acho que estava apenas a tentar focar o olhar, a ordenar ideias. Tinha parado de vomitar mas não parecia muito melhor. Branco! A tipa ria-se a bandeiras despegadas. Nem se baixou para ajudar o outro, até lhe deu um pontapé no cu! E depois outro, conduziu-o até à porta, aos pontapés no cu e o gajo de gatas, a parar de vez em quando para vomitar mais um bocadinho, uma cena do caraças! Eu e os meus parceiros ficámos um bocado enxofrados, não sabíamos o que fazer. O Mauro tinha pousado as cartas, o Diocleciano continuava a olhar para as que tinha não mão como se o jogo nunca tivesse parado. Eu o Zé António lá acabámos por nos levantar quando o gajo e a gaja saíram porta fora, ele de rojo, ela atrás, lá no alto dos sapatos. Acho que foi com os saltos dos sapatos que abriu aqueles buracos todos nas pernas do Sr. António. Ajudámos o homem a levantar-se, devagarinho para não se desconjuntar, não sei se está a ver. Fui em quem chamou a ambulância.
- Ok. Obrigado pelo seu depoimento. Foi muito útil.

segunda-feira, março 20, 2017

Crocodile Bambi (4)

Ele sentou-se primeiro... ela sentou-se. Ao balcão. O lugar estava imundo. Cheirava a mijo que tresandava, aquele cheiro acre que nos rasteja pelas narinas como se tivesse patas peludas, o cheiro a subir-nos em direcção ao cérebro como um insecto rastejante. Já me tinha esquecido que existem pivetes assim. Ele... ela, atirou-me aquele olhar tipo facada mortal, tipo a Casca a endrominar o Mogli, o hipnotizador e o basbaque. Lá fui, depositar o cu no banco alto e seboso ao lado do Zeca Punk, "Chama-me Camomila", pedira ele há coisa de um quarto de hora. Ordenara ela. Sentei-me ao lado da Camomila, portanto. Não me atrevi a perguntar-lhe de forma directa qual o seu género, optei por uma pergunta tão parva que ainda estava a desfazê-la e já me apercebia da imbecilidade da coisa "Ainda mijas em pé?". Ela pousou a sua mão ossuda sobre a minha. Senti um frio medonho a enrolar-se-me na espinha; não que a mão dela estivesse demasiado fria, aquela incómoda sensação atacou-me na forma de um flash, uma recordação súbita que se me espetou na memória com toda a força "Ó filho, gostas do que estás a ver, dou-te tusa?". E sorriu daquela forma assustadora. Fui salvo pelo empregado que arrotou lá detrás do balcão "O que é que vai ser?".
Começámos com um simples submarino, uma caneca de cerveja com um cálice de bagaço mergulhado, passámos às 1920, mais uns submarinos, mais umas cervejas e novas aguardentes velhas ou nem por isso. Aterrámos numa sucessão de cálices de Licor Beirão e lambretas para ajudarem a coisa a deslizar mais depressa.
A conversa foi errática, nada de muito pessoal, nada de referências ao passado, muito menos sobre perspectivas de futuro. Falámos de coisas que estavam à nossa volta: o espelho por trás das filas de garrafas, das garrafas, do poster de uma rapariga com mamas descomunais reclinada sobre o capot de um carro vermelho e provocante no entender de Camomila (Camomila... que nome mais ridículo!). Falámos com o Sr. Tó, o empregado-patrão que nos ia servindo os copos com as suas mãos como presuntos de onde saíam salsichas em forma de dedos com unhas compridas debruadas a negro; fomos falando, falando, falando, até que comecei a sentir dificuldade em produzir palavras com todas as sílabas, até que comecei a enrolar a língua, a sentir-me descontraído, a gozar da libertação alcoólica. Se tivesse caído do alto do meu banco decerto teria voado.
Numa viagem ao urinol tive um pequeno lampejo de lucidez "Como vou safar-me desta merda?", mas foi sol de pouca dura. Já nem o fedor me incomodava. Mijei abundantemente e regressei ao meu lugar. Zé Camomila não estava onde a deixara. "45 euros." informou o Sr. Tó. Olhei em volta e nem sombra do meu anfitrião. "Não tenho assim tanto dinheiro comigo, aceita multibanco?" O homem olhou-me como se me tivesse transformado de súbito numa barata gigante, "Esta a armar-se em engraçado comigo?" Não, não estava a armar-me em engraçado, antes pelo contrário, cambaleei, estava até a ser muito honesto e sincero, apoiei-me numa mesa e senti os dedos a colarem-se ao tampo, assegurei a minha honestidade, a pureza das minhas intenções mas, nada feito, o Sr. Tó queria dinheiro vivo e queria-o já. "Imediatamente!" disse ele. Comecei a entrar em pânico. O homem saiu de trás do balcão segurando uma tranca ameaçadora. Não percebi se ele queria de facto o dinheiro, se queria apenas um pretexto para me rachar a cabeça de alto a baixo. As pernas tremeram-me e colei a mão à mesa com mais força. Foi então que tudo se precipitou, como acontece nos filmes.

domingo, março 19, 2017

Crocodile Bambi (3)

A memória não é de fiar. A minha memória é um buraco. Faltam-me os momentos, sobram as sensações. Tenho guardada uma vertigem, um incómodo, uma torrente de medo a abrir caminho, imparável, a atingir-me, a rebentar-me no peito como uma bomba de excrementos.O Zeca Punk era um gajo mau que tinha prazer em criar situações embaraçosas, armadilhas emocionais que montava com minúcia de relojoeiro onde apanhava patinhos como eu. Fazia aquilo por puro divertimento. Não ganhava nem perdia nada quando me deixava imerso em merda e vergonha e embaraço. Recordo vagamente a sua cara de fuínha a fazer caretas horripilantes de divertimento. Alguns gajos saíram magoados; houve ossos partidos, feridas abertas e sangue em abundância. Nunca foi o meu caso. Apenas recordo vergonha e embaraço. Talvez ele gostasse de mim. Sempre que aparecia com uma ganza ou uma garrafa de cerveja no início da noite, eu já sabia que aquilo iria acabar mal mas não havia como recusar embarcar na aventura. Seria indelicado da minha parte tentar esquivar-me e não convinha nada ser indelicado com aquele filho da puta. Acho que não convinha, não tenho bem a certeza, porque nunca me recusei a ir por ali fora, noite dentro, à procura do medo, a sentir o perigo a formar-se à nossa volta como uma onda de calor, como um nevoeiro, como uma cidade inteira sem portas nem janelas.

segunda-feira, março 13, 2017

Crocodile Bambi (2)

Era um espectáculo digno de ser visto. O homem cambaleava com o corpo tão inclinado para trás que poderia acreditar-se possuir poderes excepcionais capazes de o manter em pé, por assim dizer. Já a mulher, magra, desconchavada, estranha sob qualquer ângulo que experimentássemos para a olhar, a mulher seguia impante, a matraquear o cimento do pontão com os saltos agudos dos sapatos altos, a rir-se, a rir-se, a rir-se com malícia. Pelo menos era o que me parecia, visto daqui de onde estou, de onde estava, visto deste lugar exacto que é um lugar que, como bem sabes, não existe de facto. Eu próprio não sou bem aquilo que possa considerar-se um ser vivo. Seja como for estou aqui, a falar contigo, a expor o meu ponto de vista. O meu testemunho não terá valor jurídico mas é cem por cento honesto. Mil por cento honesto! Sabes bem que podes confiar em mim.