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terça-feira, julho 18, 2017

Liberdade de expressão

Nos tempos que correm, uma opinião pessoal publicamente assumida pode ser fonte de uma enxurrada de insultos, exigências de castigo, uma tremenda dor de cabeça para quem, à partida, nada mais fez do que dizer aquilo que pensa.

Vivemos numa sociedade democrática onde a liberdade de expressão é um dos nossos bens mais preciosos. No entanto a sua utilização sem barreiras é cada vez mais um problema para quem acredita poder fazê-lo.

Há grupos significativos de cidadãos que, sempre que se confrontam com opiniões que consideram reprováveis, em vez de as rebaterem com argumentos pedem de imediato a intervenção repressiva seja dos tribunais, seja de associações de profissionais com o intuito de castigarem aquele que emitiu uma opinião com a qual não concordam. Isto parece-me lamentável.

Se vamos perseguir pessoas por delito de opinião o que resta da nossa dignidade social? 

domingo, junho 11, 2017

Vontade de desenhar

Continuo para aqui sentado, perna esticada, a secar. Ter os movimentos condicionados é chato (terrível seria expressão exagerada, caríssimo leitor; mais adiante iremos reflectir sobre isso mesmo), surpreendentemente muito mais chato do que era capaz de imaginar olhando outra pessoa nas mesmas condições em que me encontro.

Imagino (tento imaginar!) como será um gajo poder movimentar-se com eficácia motora mas estar emparedado, prisioneiro num espaço exíguo. Querer e não poder dar mais que cinco passos seguidos em linha recta; terrível! Isto sim, será certamente algo terrível. Esta merdice que por ora me atormenta irá ser debelada. A lesão diluir-se-à no tempo e com o tempo, desaparecerá de forma discreta, a contrastar com a estridência estapafúrdia da sua chegada, serei livre de novo.

Pensei que esta pasmaceira, esta imobilidade, imaginei que estar assim, sentado horas a fio fosse propício ao desenho. Pedi À minha filha um certo bloco, rodeei-me de lápis e canetas. Já lá vão dois dias e... nada. Nem sequer vontade de desenhar.

Talvez a minha vontade de desenhar resulte da liberdade de movimentos, talvez o apetite pela criação me exija alguma capacidade de levar o cérebro daqui para ali. Talvez alguns consigam criar quando estão em cativeiro ou sintam necessidade de se expressar quando têm o cu irremediavelmente agarrado ao tampo de uma cadeira.

Agora que reflecti um pouco sobre este assunto talvez seja capaz de desenhar alguma coisa.

terça-feira, fevereiro 28, 2017

Lapidações

As redes sociais são uma espécie de locais perigosos, frequentadas por todo o género de fundamentalistas. Basta uma palavra imbecil, uma opinião mais extremada, uma confissão sincera de algo que escorregue para lá dos escorregadios terrenos do politicamente correcto e... catrapunfas, estás a levar com um exército de trolls que te agridem e enxovalham muito depois de já estares no chão, coberto de porrada e incapaz de ripostar.

Muito antes do Facebook e do Twitter já havia aquelas correntes de e-mails com boatos que circulavam para pôr toda a gente em pé de guerra mesmo que o conteúdo da mensagem fosse falsa ou evidentemente impossível. As pessoas adoram indignar-se.

A lapidação não é praticada na nossa sociedade mas a chuva de comentários ofensivos e atentatórios da liberdade de expressão são como calhoadas atiradas bem no meio da testa dos incautos que se atrevem a abrir a boca para dizerem coisas que não caiam nas boas graças do povoléu.

Cada sociedade tem a sua forma de lapidar aqueles que blasfemam.

domingo, maio 15, 2016

Ai, caramba!!!

Apercebo-me que sou incapaz de imaginar uma coisa que não esteja contida noutra coisa. A alma contida no corpo; a galáxia contida no universo; Deus contido no espírito humano; etc. e tal, por aí fora, por aí adiante... a noção de infinito, a possibilidade da ausência de limites é algo muito para lá da minha compreensão.

Isto traz-me uma angústia fundamental: o que é a Liberdade? Não é a Liberdade, por definição, uma ausência de limites?

 A Liberdade tem limites? Como pode a liberdade ter limites? Significa isto que a Liberdade está contida em alguma coisa? Não é isto uma tenebrosa contradição?

Ok, isto está ficar descontrolado, demasiado confuso. Um prisioneiro é livre de se movimentar no espaço da prisão que o confina? Uma pessoa que é livre de se deslocar num determinado espaço não encontrará um limite, uma fronteira que a impeça de ser totalmente livre?

Totalmente livre... ao dizer isto estarei a admitir a hipótese de que existe a possibilidade de sermos mais ou menos livres. Isto faz algum sentido? Como pode alguém ser mais livre ou menos livre? A Liberdade admite uma escala de valor?

Ai, estou a ficar nauseado!

Talvez a questão da Liberdade só possa ser colocada num plano ideal; talvez a questão da Liberdade não faça sentido no mundo real. Talvez a Liberdade seja possível apenas num mundo onírico. A Liberdade não cabe neste mundo em que nos cruzamos e somos aquilo que somos.

Como diz a canção dos GNR: "Horrorosa Natureza, pseudo-mãe, até há fronteiras na selva".

Por vezes penso que nunca saí da adolescência.

quinta-feira, fevereiro 18, 2016

Dúvida essencial

Liberdade de expressão, liberdade de deslocação, liberdade de escolha, liberdade religiosa... assim, de repente, lembro-me de todas estas liberdades como sendo evidentes dentro das nossas fronteiras, características do nosso modo de vida.

Mas, ainda agora, vi um gajo a remexer num contentor de lixo. Ainda ontem, ao andar nas ruas da cidade, ouvi e vi pessoas com aspecto pouco próspero a arrastar os passos na calçada. Farrapos de conversas deprimentes chegaram-me aos ouvidos. Aquelas liberdades aplicam-se a quem não tem meios de subsistência dignos?

A riqueza é cada vez pior distribuída. Os ricos mais ricos, os pobres mais pobres, a história de Robin Hood ao contrário. E as liberdades...

domingo, março 29, 2015

Je suis Frankenstein

Não sei me comovem os esforços (tantas vezes patéticos) daqueles que pretendem desvendar grandiosas intenções pré-determinadas quando olham, observam e veneram a obra de algum artista, objecto da sua devoção.

Quem se dedica ao acto criativo sabe bem que a sua criatura é algo independente. Somos todos Frankenstein, o criador alucinado, o visionário deslumbrado que gerou um monstro; magnífica metáfora do mais negro e belo Romantismo!

Quem cria sabe bem que a criatura deseja sempre a liberdade (pelo menos até ser capaz de compreender o que significa Liberdade).

Quem cria deve ter grandeza de espírito suficiente para se aguentar à bronca com as consequências da sua criação.

quinta-feira, janeiro 15, 2015

Ser ou não ser

As reacções descabeladas dos muçulmanos mais radicais perante a publicação de uma nova caricatura de Maomé na capa do Charlie Hebdo mostram que não há qualquer possibilidade de entendimento entre o nosso mundo e o deles, que vivemos em mundos distintos, que não há, nem de um lado nem do outro, a mínima intenção de encontrar uma plataforma comum de convivência. Parece absolutamente impossível explicar aos radicais islâmicos que uma coisa é o Estado, outra coisa é a Religião, que as pessoas são diferentes de Deus. Nunca compreenderão a frase de Jesus “dai a César o que é de César e a Deus o que é de Deus”, nem nós seremos capazes de compreender a inevitabilidade da submissão da vontade humana aos desígnios de Deus. Azeite e água misturam-se melhor?

Levámos séculos até conseguirmos separar Deus e Estado, até alcançarmos a liberdade religiosa proclamando a tolerância como valor universal. Está bem abelha, vai contar essa aos radicais islâmicos ou aos grupelhos de extremistas xenófobos e racistas que pululam por aí. Para gente desta qualquer pretexto é bom para matar, estropiar, destruir, intimidar; a violência parece ser parte essencial da mensagem divina ou finalidade última da actividade cívica. Assassinar em nome de Deus não é considerado blasfémia, matar outro Ser Humano não é considerado crime. Blasfémia é desenhar caricaturas de uma certa personagem histórica, crime é ser estrangeiro, ser diferente. Este mundo é lixado! Vá-se lá desvendar-lhe um sentido.

Os líderes muçulmanos radicais vêm uma vez mais ameaçar de morte, guerra e destruição indiscriminada o espaço ocidental; isto na maior das calmas: voz pausada, olhar seráfico, pose flutuante, como se tivessem conferenciado com o Profeta há coisa de cinco minutos e este lhes tenha transmitido ordens directas do Big Boss. Sentem-se ofendidos com um punhado de desenhos e umas bocas foleiras. Tretas. Eles querem é um pretexto para justificar as suas acções terroristas, os seus impulsos criminosos e a sua agenda política, tal como do lado de cá uns certos hipócritas justificaram ataques assassinos em território muçulmano com a existência de armas de destruição maciça que afinal eram refinada mentira. É tudo farinha do mesmo saco. De um lado e do outro os líderes mais agressivos e sem escrúpulos conseguem arrebanhar exércitos, semear a discórdia e fazer a guerra com uma facilidade assustadora. A guerra será lucrativa para alguém, decerto para uns e outros, caso contrário haviam de se esforçar por viver em paz.


Acredito que a maioria das pessoas do outro lado sejam pessoas como eu. Acredito que tenham as suas convicções, que tenham os seus ódios e as suas fidelidades absolutas, que tomem um lado da barricada em caso de guerra mas que, acima de tudo, querem é viver em paz, ver os filhos crescer e pensar na vida como ela é, não na vida como nos querem convencer que devia ser. 

segunda-feira, julho 23, 2012

Tolinho

Passou um ano sobre o massacre da ilha de Utoya. Os noruegueses mostraram ao mundo uma comovente capacidade de resistência à desgraça.

Contrariamente ao pretendido por Breivik, o assassino, que afirma ter protegido o país da “invasão muçulmana” e de uma sociedade “multicultural”, "O povo norueguês respondeu abraçando os nossos valores. O assassino falhou, o povo venceu", nas palavras de Stoltenberg, primeiro ministro do país nórdico, em Oslo, durante a cerimónia de homenagem às vítimas dos ataques.

Breivik aguarda o veredicto do tribunal. Ele afirma-se inocente e quer que o seu acto seja considerado como tendo motivações políticas. Por outro lado a acusação defende que Breivik é um refinado tolinho (como pode afirmar-se inocente se não for completamente tótó?) e que deverá ser julgado como tal.

Se for considerado culpado dos crimes a pena máxima é de 21 anos. Caso seja considerado tolinho vai o resto da vida para uma gaveta num hospício.

Oxalá seja fechado num hospício. Por mim fechava-o num quarto vazio com paredes espelhadas para que se visse a si próprio sempre que tivesse os olhos abertos. Talvez assim percebesse que não passa de um refinado tolinho, um demente inútil a quem a única obra que resta é olhar-se nos olhos até ao dia em que se apague e vá ocupar o lugar que lhe compete nas profundezas dos esgotos do inferno.

A prisão é um lugar demasiado confortável para semelhante animal.

Clicar aqui para ver post sobre o mesmo animal publicado a quente em cima das primeiras notícias sobre o massacre.

domingo, fevereiro 05, 2012

Desculpa lá Malraux

"A cultura é a soma de todas as formas de arte, amor e pensamento que, ao longo dos séculos, permitiram ao homem ser menos escravizado." escreveu André Malraux. Se não foi exactamente assim terá sido um pouco mais ou menos.

Numa época em que estamos a observar o progressivo desmoronamento da utopia democrática, com um olhar entre o desencantado e o nostálgico, uma frase deste género proporciona uma reflexão algo melancólica.

Malraux não parece admitir o fim da escravatura, apenas um certo alívio dessa condição. A cultura funcionará (funcionaria) como uma espécie de lenitivo, pouco mais, algo menos, suavizando apenas a inevitabilidade do sofrimento característico dos escravos. Viveríamos no Purgatório. Vivemos?

Temos a arte, temos o amor, temos o pensamento livre. Ao que tudo indica, a possibilidade de libertação encontra-se encerrada no coração dos indivíduos. Poderemos algum dia ampliar o seu raio de acção ao colectivo, abrir-lhe a porta da gaiola que temos encerrada no peito? Como fazê-lo? Não sei, não sei, sinceramente, sinto-me às escuras.

Continuo convencido que o mais essencial dos bens a que podemos aspirar enquanto colectivo social é a liberdade de expressão. Se a democracia nos proporcionar esse direito essencial já estaremos a afastar-nos suficientemente da condição de escravos? Desculpa lá, Malraux, mas penso que, apesar da força da tua opinião, a liberdade está mais próxima de nós do que aquilo que propuseste. Quero acreditar nisso, Ardentemente.

domingo, novembro 27, 2011

Não há acordo numa coisa destas!


Já há uns dias que acabei a leitura de "o remorso de baltazar serapião" livro escrito pelo pulso poderoso de valter hugo mãe (é tudo assim, com letras minúsculas por vontade expressa do autor embora em "O filho de mil homens", a mais recente obra do dito cujo, as maiúsculas, ao que parece, tomem os lugares que lhes são devidos, graças a Deus Nosso Senhor).

Trata-se de um livro que dispensa em absoluto as discussões bizantinas que se vão mantendo a propósito do tão esgadanhado Acordo Ortográfico que por aí vai tentando deitar a cabeça fora das águas turvas onde ainda chafurda em aparente aflição.

Em o "remorso de baltazar serapião" a língua portuguesa é uma outra coisa que, sendo o que é, mais parece o que não pode ser, ou não fosse assim sonhada e melhor registada pelo autor de tão extrordinário relato. Ler este livro é um exercício de puro prazer.

Este livro mostra como a liberdade, na escrita tal qual no resto das coisas que compõem o mundo, é uma  maluca que nos faz ir para lá das fronteiras do óbvio e nos abre horizontes maravilhosos, assim sejamos capazes de a aceitar e com ela ir passear, onde quer que nos leve.

Disse o velho Saramago que este livro de valter hugo mãe era um tsunami na lígua portuguesa. Completamente de acordo. Leia-se um livro assim e esqueça-se a polémica absurda do Acordo Ortográfico. Escrever é muito mais do que aquilo que os xerifes da língua portuguesa são capazes de imaginar. Ah grande valter!

sexta-feira, junho 24, 2011

Weiwei na gaiola grande


O caso da detenção de Ai Weiwei deu que falar em todo o mundo lá para o início do passado mês de Abril. As autoridades chinesas eclipsaram o artista sem qualquer justificação. Depois veio a suspeitar-se que o problema era relacionado com pornografia, finalmente estabeleceu-se que Weiwei tinha problemas graves com o fisco e, por isso, havia argumentos suficientes para o engavetar em parte incerta e deixá-lo sem contacto com o mundo exterior.

O regime chinês é uma coisa estranha. Nem comunista, nem capitalista, talvez uma miscelânea de ambas as coisas, cozinhada em lume pouco brando. O poder central põe e dispõe das vidas dos cidadãos, das leis, das regras, enfim, mete o nariz em todo o lado e tenta controlar tudo o que pode em proveito próprio.

Weiwei foi libertado. Finalmente! Mas, tal como em tantas outras situações, também aqui o governo chinês inovou. Ao que consta o artista foi libertado com a condição de se manter caladinho durante um ano (ver aqui) e não pode ausentar-se da sua residência. Abriram-lhe a porta da gaiolinha onde o mantinham sem contacto com o mundo exterior, para o colocarem numa outra gaiola.

O que pensará agora Weiwei sobre a liberdade? O que é ser livre na China? Um tipo fechado à chave está preso, sem dúvida. E um tipo impedido de falar abertamente mas que pode passear o cú pelas ruas? Estará livre? Imagino que sempre seja melhor poder passear mas duma coisa tenho a certeza: não é suficiente!