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sexta-feira, outubro 26, 2018

Questão de coração

Andamos todos confusos com o desenrolar alucinante dos acontecimentos que nos últimos tempos têm alterado a ordem que vinha definindo o nosso mundo. A coisa passa-se tão perto de nós, tão à frente do nosso nariz, que não temos afastamento suficiente que nos permita percepcionar os contornos do bicho, compreender o fenómeno.

Há quem trema de receio que o Fascismo regresse, quem levante as bandeiras do "politicamente correcto", quem aponte o dedo acusador aos emigrantes, aos pretos, aos pobres, aos comunistas, aos homossexuais, aos velhinhos e aos amantes da Natureza, há grupos de apoio para tudo e de oposição a mais alguma coisa. Andamos numa roda-viva.

No meio da refrega vemo-nos impelidos a escolher um dos lados da barricada e é nesta situação que se revela a massa de que somos feitos pois uma escolha como esta é feita com o coração; absolutamente. Eu sei que procuramos uma justificação mais ou menos racional que corrobore a nossa opção mas isso não passa de reflexo cerebral condicionado, é no tambor do nosso coração que encontramos a explicação para a essência das escolhas que fazemos nesta refrega.

Assim vivemos estes acontecimentos pré-apocalípticos com o coração ao pé da boca. Braços no ar, punhos erguidos contra mãos estendidas, a história a repetir-se, desta vez como Tragédia. Novos fascistas, novos comunistas, novos anarquistas, novos sociais-democratas, socialistas, tudo remisturado pela varinha mágica do tempo, preparando-se para um novo embate, semelhante a todos os anteriores mas em diferentes locais, com novos actores, diferentes figurinos e cenografia renovada.

Nesta Tragédia cada um escolhe a personagem que pretende interpretar. Segue o teu coração.

sexta-feira, outubro 13, 2017

Bombas

Sinceramente não sei porque hei-de ficar inquieto caso o Irão consiga fabricar armas atómicas. Nem sei porque hei-de ficar mais inquieto por essas armas já fazerem parte dos brinquedos do rei-comunista da Coreia do Norte. Inquieto já eu estou pelo simples facto de armas desse género existirem um pouco por todo o planeta. É o bastante.

É suposto eu, na minha qualidade de cidadão ocidental, ser a favor da existência, manutenção e expansão dos arsenais nucleares dos países considerados democráticos? Veja-se o caso dos EUA e do tolo alucinado que agora senta o olho do cu no vértice da pirâmide do poder lá da terrinha. Com uma besta daquelas a ter acesso ao botãozinho nuclear podemos nós estar descansados? Claro que não.

O problema da sociedade global e informatizada parece ser a sua novíssima capacidade de eleger anormais para cargos de poder e publicitar com estrondo os peidos e arrotos de todos os mentecaptos que orientam os destinos dos povos. Sim, dos mentecaptos, porque aqueles que governam com sabedoria e equilíbrio raramente são motivo de notícia.


sexta-feira, julho 07, 2017

Reflexão preguiçosa

EUA, Coreias, Arábia Saudita, Qatar, Egipto, Venezuela, Iémen, Sudão, Líbia, Filipinas, a lista é curta, como a minha memória, um esboço deste mundo feito com traço tosco. Leio o jornal e a sensação é a de que o mundo está dentro de uma panela de pressão posta ao lume.
A temperatura sobe.

Por aqui as coisas vão rolando calmas. O festival de Teatro de Almada oferece espectáculos diários. O povo assiste, sereno e divertido, discutem-se qualidades e defeitos de encenações, cenografias, interpretações... visões artísticas do tal mundo, da tal panela de pressão.

Por vezes recordo vagamente os anos 80, a Guerra Fria, o no future, nem sequer me apetece sorrir. A espécie humana é uma ameaça constante para si própria e, no entanto, é também a sua única esperança. Deus não é para aqui chamado embora, numa certa perspectiva, faça muita falta.

quinta-feira, novembro 10, 2016

Perguntas, perguntas…


É o presidente Trump um retrato do mundo actual? É ele o espelho mágico no qual nos olhamos e a quem perguntamos se há alguém mais democrata do que nós? Nós… nós… mas quem somos nós, aqueles por quem o Senhor Director fala no seu editorial de 10 de Novembro, “Este território desconhecido”? Somos os que estão surpreendidos com a vitória do Donald? Os que vivem preocupados com os movimentos populistas de pendor totalitário que medram um pouco por toda a União Europeia? O que nos une, o que nos torna um todo?

Tal como nos comics americanos, por cada super-herói há um super-vilão. Se “nós” existimos “eles” também estão por aí e, de momento, são “eles” quem está a ganhar. Temo que o problema resida precisamente na possibilidade que “nós” não existamos, que “nós” sejamos uma personagem ficcional e “eles”, pelo contrário, sejam reais. Temo que “eles” saibam o que (não) querem enquanto “nós” queremos coisas diferentes uns dos outros. “Eles” têm inimigos definidos e unem-se, “nós” não temos como nos unir pois não identificámos ainda o inimigo, estamos divididos. “Nós” acreditávamos que personagens como Trump, Farage e Le Pen só poderiam crescer noutro tipo de contexto sociopolítico. Erro crasso, percebemos agora. Seremos,"nós" e "eles", a mesma coisa, a mesma gente?

Olhando para os resultados das duas votações (a do Brexit e a eleição do Donald) que obrigam a reflectir sobre que mundo é este, verificamos que uma e outra foram razoavelmente renhidas, que há uma tendência clara para uma divisão em duas partes que se equivalem. Estará o Ocidente a partir-se ao meio, a abrir uma brecha através da qual se esvaziará irrevogavelmente?
Se Trump for o tal espelho mágico decerto não tardará a dar-nos respostas.

Carta enviada ao Director do jornal Público

sábado, outubro 08, 2016

Um homem triste

Tenho alguma simpatia para com António Guterres. Sempre me pareceu um gajo fixe metido em sarilhos muito maiores do que aqueles que estava preparado para enfrentar. Agora mais do que nunca.

Será necessário observar que Guterres não é santo embora possa parecê-lo, tais os panegíricos com que o têm presenteado nos últimos dias. É um homem vulgar com alguma predisposição para o sofrimento. Daí que seja escolhido para liderar causas perdidas.

A sua carreira política em Portugal não foi isenta de erros, alguns deles graves (como o de trazer José Sócrates para a ribalta) mas custa a crer que tenha errado em proveito próprio como o fazem tantos outros candidatos à canonização pública.

Enfim, agora que é secretário-geral da ONU resta desejar-lhe alguma felicidade. O homem parece sempre infeliz. Era tão bom que o mundo lhe pusesse um sorrisinho nos lábios...

terça-feira, junho 28, 2016

Vontade popular

Até que ponto o resultado do referendo britânico reflecte a divisão entre um mundo urbano e cosmopolita e um mundo rural, menos formado nas visões que o Mundo oferece aos que para ele olham e nele viajam?

Até que ponto a elaboração de um discurso complexo, resultado da observação do mundo, que tenta reflectir sobre a sua variedade, um discurso construído no coração da cidade, vai perdendo consistência e clareza à medida que se desloca em direcção às periferias, até ser transformado no antiquíssimo "bar-bar", a linguagem que os gregos da antiguidade clássica atribuíam aos povos que lhes eram estranhos?

Em Democracia, o conhecimento e a ignorância equivalem-se no momento do voto, misturam-se e diluem-se na contagem dos boletins e acabam por ser uma e a mesma coisa quando são publicados os resultados da votação, expressando a vontade popular.

segunda-feira, julho 06, 2015

Quem é esta coisa?

Estou confuso e desorientado. Os últimos dias têm sido uma vertigem europeia. O continente não consegue entender-se nem consigo nem com os os que tentam chegar-se, vindos do resto do mundo.

A designada "questão grega" vai tornando cada vez mais nítidos os limites do "projecto europeu". Quem vive estes dias na Europa e tenta prestar atenção aos acontecimentos fica com os miolos virados do avesso.

Terão os gregos protagonizado o primeiro e decisivo passo no sentido de colocar todo um continente a mirar-se ao espelho, ao ponto de o fazer repensar a estranha construção sócio-política que vem tentando de há umas décadas a esta parte? Irá a "Europa" fazer-se de cega e ignorar o que se passa à sua volta, permitindo que o periclitante edifício que habita desabe como um castelito de cartas?

Por outro lado, continuam a chegar às costas mediterrânicas milhares de pessoas que fogem à guerra, à fome e à miséria, iludidas por histórias que não sabemos bem quais são mas que as atraem em direcção a esta coisa informe.

A Europa parece não ter respostas à altura das circunstâncias. Nem para uns nem para outros.

terça-feira, abril 28, 2015

That's economics, stupid!

A imagem de uma horda de maltrapilhos armados até aos dentes com equipamento bélico topo de gama é coisa comum nos meios de comunicação social. Como lhes vão parar às mãos todas aquelas metralhadoras, pentes de balas, rockets e lança-rockets?

Onde conseguem estes gajos abastecer-se de munições e ter sempre disponível a opção de atirar e matar, atirar e matar, atirar e matar?

A comida esgota-se nos campos de refugiados, a água escasseia, o dinheiro nunca chega para satisfazer as necessidades básicas das populações deslocadas. Os países amigos envidam os mais esforçados esforços no sentido de reunir recursos capazes de garantir a sobrevivência de milhares, de milhões de inocentes que fogem da guerra em busca de refúgio.

Quem financia as armas? Quem financia a comida e a água? Haverá dinheiro ganho a vender armas aplicado na compra de mantimentos para os refugiados que sobreviveram aos tiros por elas disparados? E o contrário, será possível o dinheiro da água servir para comprar gás pimenta?

É bem possível, afinal de contas vivemos num mundo global e isto é o capitalismo. Não sejamos estúpidos!

sexta-feira, abril 24, 2015

Nuvens de tempestade

Andamos para aqui a derramar lágrimas de crocodilo nas águas do Nosso Mar, o Mediterrâneo. Choramos a morte de emigrantes que vêm fugidos da morte e, só quando morrem, se apercebem que a morte é certa e que, nas águas do Nosso Mar, é uma fatalidade.

De que fogem estas pessoas? Que sonhos trazem incrustados no imaginário? Para onde pensam que vêm? 3 perguntas com uma resposta e duas incógnitas.

Do que fogem estes migrantes (como agora são designados) toda a gente sabe mais ou menos, basta conhecer o seu ponto de origem. Uns fogem da guerra, outros da fome, outros da miséria, fogem da repressão ou de inimigos ancestrais. Fogem em direcção ao Mediterrâneo, África ou Próximo Oriente para trás das costas, Europa na ponta do nariz.

O que me intriga é o que imaginam eles que irão encontrar caso consigam alcançar as costas europeias?

O que me intriga é que lugar imaginam os migrantes que é a Europa? Qual o seu aspecto? Como imaginam eles os europeus?

Seja como for aí estão! Fogem das guerras e vêm cair nas mãos dos que lhes vendem as armas para se matarem uns aos outros... a poesia deste mundo continua a escapar-me.




domingo, março 22, 2015

O imbecil

Sermos pacíficos vivendo ao lado de um imbecil com tiques violentos deixa-nos vulneráveis.
O imbecil vê em nós seres inferiores a ele por não termos apetites semelhantes aos dele, apetites que lhe confundem as tripas com os testículos e o fazem desejar tudo. O imbecil deseja tudo mas não sabe para quê.

Deseja por desejar, deseja para possuir, para usar e, depois de usar, atirar para um canto o que usurpou. É preciso ter cuidado com o imbecil. Quando ele investe, bruto e violento, pouco mais podemos fazer que desviar a cabeça quando atira o primeiro soco.

O imbecil violento é um imbecil perigoso.

quarta-feira, agosto 20, 2014

Guerra Mundial?

Síria, Gaza, Iraque, Ucrânia, Líbia, Somália, assim de repente, sem puxar muito pela cabeça, nomeio 6 países em guerra; Próximo Oriente, Europa, África.

Isto deixa-me a pensar: o que é necessário para estarmos perante uma guerra mundial? Que as grandes potências estejam directamente envolvidas nos conflitos? Que haja um ditador desvairado com pornográficos sonhos de conquista?

Talvez seja necessário que exista um conflito generalizado com dois blocos em confronto e não vários conflitos espalhados e com motivações diferenciadas. Talvez seja isso.

No entanto, embora não chamemos Guerra Mundial à carnificina que vai evoluindo em diferentes continentes, temos o Mundo em pé de guerra, lá isso temos!

quarta-feira, junho 04, 2014

O Mundo muda bué

Muito barafustamos nós com os chineses por eles não serem como nós dizemos que somos nem respeitarem os princípios que nós imaginamos respeitar.

Que não há Democracia na China, que não há Direitos Humanos. Ora bolas... os chineses que se lixem? Isso é que era doce!!!

A Democracia e os Direitos Humanos são invenções nossas, coisas surgidas no Ocidente, criaturas da nossa civilização, porque carga de água haveriam de dizer o que quer que fosse aos habitantes do Império do Meio?

Pois é mas... segundo rezam recentes previsões de encartados bruxos, o Produto Interno Bruto da China será maior que o dos Estados Unidos já em 2016, faltam dois anitos! A China será a maior economia do mundo em 2021, a sua moeda substituirá o dólar como reserva mundial em 2027 e, trema-se de pavor, será a potência militar mais poderosa do universo em 2030. Com alguma sorte ainda por cá andarei para assistir a algumas destas mudanças, com algum azar ainda por cá andarei para assistir a todas elas.

Quererá tudo isto dizer que, muito em breve, o mundo começará a estudar as línguas faladas na China para, dentro de um ou dois séculos, esquecer o inglês? Irão os Direitos Humanos tornar-se ainda mais deslocados e desprezados quando nós, os orgulhosos e petulantes ocidentais nos voltarmos de mão estendida para a imensa China?

Eu sei que o Mundo muda bué, que não há Valores Universais, que os Valores (com "V" maiúsculo) são muito parciais mas, caramba, isso não me ajuda a aceitar os valores de outros povos e de outras civilizações assim, de monco caído.

Irá o Ocidente praticar a secular arte de engolir sapos vivos?

terça-feira, maio 27, 2014

Não ter medo

Eles chegaram. Os fascistas regressaram em força à ribalta da política europeia. Parece impossível mas é verdade.

Como podemos nós, europeus, ressuscitar o mais terrível monstro da nossa História comum e trazê-lo desta forma para dentro de casa? O que faz com que, num país como a França, os eleitores votem maioritariamente num partido assumidamente nazi?

Muitas vezes tenho aqui expressado o meu descontentamento com "o estado a que isto chegou" mas era incapaz de imaginar uma coisa tão abjecta.

Muitas vezes penso: será que um nazi olha para mim, por ser de esquerda, com um asco equivalente ao que sinto por ele? Imagino que o sentimento dele seja mais forte do que o meu.

Esse é o problema com esta gente; desenvolvem uma incrível capacidade para odiar aquilo que receiam ao ponto de se animalizarem. Com os nazis não há discussão nem debate: há porrada! Estaremos nós a caminhar para uma Europa onde grandes as decisões se vão decidir segundo o método nazi?

Não há que ter medo, há que estar preparado.

terça-feira, março 04, 2014

A pergunta

Nos últimos dias tenho acordado da forma habitual: pronto para dormir, como diz a canção de Manuel da Cruz. À medida que me vou deslocando de modo automático no regresso a este mundo vem-me à cabeça uma pergunta.

A guerra terá começado?

A situação na Crimeia parece explosiva. Russos de um lado, ucranianos do outro, a comunidade internacional a enviar recados. Os meios de comunicação abordam a questão oscilando entre um tom apocalíptico e outro mais optimista. É uma situação estranha. O conflito parece ser inevitável mas ninguém, deste lado do mundo, quer realmente acreditar nessa possibilidade.

E se a guerra estoirar, de facto? Como vai ser? Irão os ucranianos ser abafados pelo exèrcito russo numa batalha desigual? O que farão os Estados Unidos e a União Europeia? Não foi mais ou menos assim que começaram as duas grandes guerras do século passado?

Faço café e torradas, leio mais umas páginas da Trilogia de Nova Iorque de Paul Auster. Vou tomar banho. Depois tenho de me deslocar ao banco (o meu cartão de débito foi engolido por uma máquina que não mo devolveu) e levar o computador a um feiticeiro informático qualquer (o computador pifou, morreu, foi-se), um feiticeiro que, pelo menos, lhe recupere a memória.

É assim; pouco tempo após ter regressado ao mundo real a realidade vai-se transformando em algo próximo, comezinho, vulgar. O futuro deste mundo discute-se lá longe, na Crimeia, mas, para já, as minhas preocupações são outras.

Terá a guerra começado enquanto escrevi estas palavras?

sexta-feira, fevereiro 21, 2014

Apolos

Oh, quantas vezes esquecemos, quantas vezes ignoramos as divindades! É como com as fadas nas histórias infantis: se não se acredita nelas acabam por desfalecer e, no extremo, batem as botinhas e vão desta pra melhor. Adeus, até nunca mais...

Deus, o Tal, o Verdadeiro, o dos judeus, Jeová, acho, já sente, de vez em quando, uma tontura (com tanta vírgula não admira). Nada de muito grave, mas convém verificar os níveis de confiança na própria existência. É que, para nós, mortais, a Fé é uma coisa interior, pessoal e intransmissível. Quando alguém diz que tem Fé só nos resta acreditar e aceitar, ainda que a não tenhamos.

Mas Deus, o Tal, omnipotente e omnisciente, sabe bem da sinceridade de cada um, não tem como se auto iludir. E Jeová desfalece, toma vitaminas, vai ao ginásio e consulta um homeopata após sair da sessão de acupunctura mas a coisa está, definitivamente, a ficar feia. Os crentes são menos crentes do que seria suposto e já não O temem como deviam. Já foste, Jeová!

Isto vem a propósito da recente descoberta de uma estátua de Apolo no fundo do Mediterrâneo, resgatada por um pobre pescador palestiniano (ver aqui).

Apolo, um deus meio esquecido (entrada da Wikipedia) que regressa às bocas do mundo após ser pescado e trazido à superfície dos noticiários mundiais. Mas o que me chamou particularmente a atenção foi o lençol sobre o qual deitaram a imagem do dito para lhe tirarem as fotos da praxe: um magnífico estampado de Schtroumpfs (ou Smurfs, como lhes chamam agora).

Alguns milhares de anos separam a estátua de Apolo do Schtoumpf Amoroso ou da sensual Schtroumpfina estampados no lençol mas, quis o acaso (ou o capricho de algum deus), que viessem a encontrar-se numa imagem que corre mundo, comovente e improvável fusão de imaginários culturais.

Isto é uma das coisas que me fascinam: a hibridização anárquica de referências e imaginários, o universo de informação visual que está à nossa disposição, mesmo à frente dos narizes que nos guiam os passos, à espera de um olhar, à espera de uma visão, imagens prontas a usar, imagens ready made, que temos apenas de ser capazes de recontextualizar e... voilá!

Apolo e os Schtroumpfs, uma torrente de ideias...

sexta-feira, outubro 25, 2013

Anjos salvadores

Os partidos populistas crescem de influência um pouco por toda a Europa. Os líderes destes partidos emergentes apresentam-se como salvadores da pátria amada, regeneradores das mentes corruptas, paladinos da verdade e da justiça. Vêm degolar o monstro instalado no poder e ocupar o seu lugar: simples, belos, puros, reluzentes, eles são a esperança de Deus na humanidade.

Olhados um pouco mais de perto, os candidatos a santo têm rugas, dão peidos e cheiram mal da boca, tal como os que dizem execrar. Anda por ali muito fascista disfarçado de menino de coro, muito oportunista de Capuchinho Vermelho e vice-versa.

O problema da corrupção dos poderosos não se resolve com a vinda destes messias de pacotilha. Resolve-se com instituições democráticas fortes e uma participação cívica activa. Os anjos salvadores depressa se transformam em vingadores e depois... a desgraça.

segunda-feira, setembro 30, 2013

Noite escura

Em comentário ao post anterior o Eduardo P.L. disse...
Que esperança se pode ter quando nossa juventude ( normalmente a esperança do futuro ) está apática, distante e desencantada. O pior dos mundos.

Neste momento estou a pensar que mundo temos nós para oferecer às gerações vindouras. As imagens que me passam pela cabeça são estranhas, são imagens distópicas, dignas de um filme de ficção científica série Z, coisa a rondar o imaginário de um filme de zombies mais ou menos pacíficos. É tudo cinema de má qualidade.

A nossa juventude é resultado da nossa idade adulta. Normalmente a juventude reage aos princípios dos mais velhos. Mas, no cenário actual, temo que essa reacção seja mais violenta do que em gerações anteriores. Parece-me evidente que estamos a exaurir o planeta, esgotando recursos a uma velocidade supersónica sem acautelarmos alternativas credíveis que permitam manter os níveis  civilizacionais por muito mais tempo.

Não sei o que sentem os mais jovens mas talvez estejam a perceber que o "planeta petróleo" não será o deles, que "os amanhãs que cantam" já foram ontem. Talvez estejam a sentir que o Estado Social não aguenta a tormenta capitalista e que os ricos serão cada vez menos e mais ricos e os mais pobres cada vez mais e mais pobres. A classe média a resvalar para a base da pirâmide social que, um dia destes, deixará de ter a forma de pirâmide para tomar a forma de uma coisa estranha com uma base enorme e compacta e um topo fininho.

Meu caro Eduardo, eu diria: que esperança se pode ter quando as nossas elites se comportam como vampiros agressivos e tão desencantados como a massa popular a quem sugam o sangue e a vida?

quinta-feira, julho 25, 2013

Mundo de aventuras


Os "outdoors" publicitários não mentem: o mundo é para as pessoas bonitas, as pessoas perfeitas. O cabelo sedoso, a pele limpa, os dentes correctamente alinhados em fileiras a fazerem lembrar uma parada militar de soldadinhos brancos, puros, brilhantes como as estrelas no céu.

Na TV os apresentadores sorriem sempre, rebentam de felicidade e oferecem coisas aos telespectadores que telefonam. O ritmo a que falam deixa sem respiração os mais resistentes: tomem lá dinheiro, tomem lá prémios, tomem lá felicidade! Tudo parece bem, tudo parece a caminho da perfeição.

A artificialidade tornou-se mais real que a substância. Quero aqueles "jeans", quero aquele perfume, quero aquele corpo!

Envelhecer é uma doença. Ser velho não está na moda. Compre o creme milagroso, acabe com as rugas. Faça o implante de cabelo, engane a calvície. O mundo oferece-lhe o milagre do rejuvenescimento, só tem que ter dinheiro disponível.

Longe vão os tempos dos aventureiros que arriscavam a vida em busca da Fonte da Eterna Juventude nas profundezas de selvas impossíveis. Agora, para beber da água dessa Fonte, só precisa de um computador ou de um telemóvel de última geração. E uma conta bancária recheada.

sexta-feira, junho 21, 2013

Apocalipse (ainda não)

A Revolução Industrial começou a mostrar aos seres humanos como poderiam ser substituídos por máquinas na produção de bens de consumo. A Revolução Informática mostra-nos como somos, cada vez mais, dispensáveis. Os seres humanos estão a mais no seu próprio mundo!

Ainda assim, muitas indústrias continuam a apostar na mão-de-obra humana. Como os custos dessa mão-de-obra são dispendiosos, os donos das fábricas "deslocam" os seus locais de produção. As fábricas são colocadas em países onde a democracia nem sequer chega a ser uma miragem, explorando  a fome, a pobreza e a ambição de uma vida melhor de multidões de trabalhadores sem direitos. Exploração do homem pelo homem na sua versão mais pura e mais dura.

Hoje surgiu-me uma pergunta: e quando, também nesses países, a Revolução Informática for uma realidade? Quando não houver outros países pobres para "deslocar" a produção? A crise que agora vivemos no Mundo Ocidental terá de alastrar inevitavelmente. Os custos de produção irão subir nos países onde, agora, são atractivos para os exploradores.

Com a população humana a aumentar de forma imparável, com a exploração de recursos a atingir níveis próximos do insustentável, com o alastrar da consciência dos direitos individuais... o balão enche e incha até quando? Até não haver mais mundo para explorar?

Será aí que o termo "apocalipse" vai fazer sentido?

terça-feira, maio 14, 2013

Dúvidas

Ontem comprei uma camisa que, mais tarde, verifiquei ser "made in Bangladesh". A primeira coisa que me veio à cabeça: terá sido fabricada por algum dos que morreram na derrocada daquele prédio que matou mil pessoas?

Não me buliu o coração nem um bocadinho e isso deixou-me um pouco incomodado. Se calhar não sou tão solidário como imaginava, não me preocupo com a espécie humana com o desvelo que se impõe a uma boa alma. Comprei a camisa porque era barata. Fiquei com ela porque o "made in Bangladesh" está escondido na etiqueta e não revela ao mundo essa minha nódoa moral?

Na verdade, o que se passou foi que quando reparei no pormenor da origem da camisa já estava no balcão, a pagar. Já tinha uma factura e digitara os números do meu cartão de débito na maquineta. Não me apeteceu dizer à empregada (que tinha cara de se preocupar mais com revistas cor-de-rosa do que com jornais "sérios") que não queria aquela camisa porque... porquê? Sou mais preguiçoso do que solidário.

Quando saí da loja tive uma iluminação! Talvez aquela camisa tivesse sido fabricada por Reshma, a rapariga que sobreviveu 17 dias sob os escombros do prédio que vitimou outras mil pessoas, entre colegas e nem tanto. Fiquei mais sossegado. Decerto que trazia no saco uma peça saída das mãos da rapariga protegida por Deus. É assim que os fracos se convencem que são mais ou menos fortes?

Leio que o salário médio de um operário no Bangladesh é de 29 euros (ver aqui). A camisa custou 12. Ou seja, quantas camisas daquelas faz um operário por dia já que duas e uns trocos pagam o seu ordenado mensal? É melhor nem pensar nisso, comprei uma coisa daquelas, para onde vai o dinheiro que paguei?

A tragédia fez com que o governo decidisse rever as condições laborais e a tabela salarial destes quase-escravos. As empresas que exploram o trabalho destas pessoas fazem valer o velho ditado "casa roubada, trancas à porta" e anunciam que irão investir nas condições de segurança das fábricas. Pouco perderão, igual a nada.

Se a morte de mil operários teve o condão de por em movimento todas estas acções o que aconteceria se tivessem morrido dois mil? Ou três mil... quantas pessoas precisam de morrer para que se faça justiça social? Quantas pessoas precisam de morrer para que o capitalismo selvagem fique manso, nem que seja por breves momentos?