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quarta-feira, setembro 26, 2018

Vagar

Passam apressadas, com a urgência estampada no rosto, pessoas iguais a mim, cada uma transportando um mundo lá dentro. Vão daqui para ali, rápidas como águas de um rio revolto. Da parte que me toca faço um esforço tremendo para caminhar devagar.

Não falamos, trocamos olhares. Haveria tanta coisa a dizer! Ou talvez não. Talvez não conseguíssemos entender-nos caso tentássemos trocar duas ideias: toma lá; obrigado; dá cá; não tem de quê. Para que quero eu isto? Não me serve de nada.

Se calhar é melhor passarmos, apenas, um olhar que afaga o outro, uma ligeira carícia. Apetecia-me dizer: a senhora é tão bonita; mas temo ser mal compreendido. Calo-me. Sigo a minha vagarosa viagem para já aqui adiante.

Passam apressadas, com a ausência estampada no rosto, pessoas semelhantes a mim. Sinto que não sou ninguém mas, no entanto, estou aqui. Vagueando.

sexta-feira, dezembro 11, 2015

Dia sem princípio (nem fim)

Há dias assim, dias em que estar acordado parece resultar no prolongamento do sono, na materialização do pesadelo (que até começara por ser um sonho com muitos tons de rosa), pesadelo que agora se interrompe. Olá, bom dia.

O café parece não ser mais que um vago sabor no confins do céu da boca, o jornal um dejà vu, os passos na escadaria em direcção à rua ecoam na memória, as frases que crescem na ponta dos dedos são pomposas e não aguentam uma questão que as ponha em causa. Mesmo que seja uma questão de merda, tipo: que merda é esta?

Há dias assim, dias que parecem nunca mais começar, dias em que as coisas são chatas porque não há volta a dar-lhes, dias que, caso cheguem ao fim, será lá mais para o fim-do-mundo.

sexta-feira, abril 18, 2014

Regresso e fuga

Tanto tempo sem escrever uma linha que fosse aqui, no 100 Cabeças! É a modorra da zumbisfera a inquinar-me a escrita.

Por alguma razão que me escapa dou por mim a teclar de novo nesta coisa. Poderia falar sobre os livros que li, os filmes que vi, as músicas que me impressionaram entretanto. Poderia tentar escrever algo vagamente inteligente acerca das viagens que fiz, das coisas que me encheram o olhar. Mas não.

Escrevo apenas por escrever, escrevo apenas para não deixar morrer esta centésima cabeça que me enfeita os ombros. Só isso, apenas isso. Coisa pouca e nada mais.

Escrevo e parece-me ouvir o eco do ruído das teclas a serem pressionadas pelos meus dedos roídos nas pontas, como se estivesse enfiado num corredor escuro e comprido, um corredor sem tempo nem memória, vazio e pouco limpo.

Paro a função. Não procuro imagem nem faço questão de terminar com elegância.

quinta-feira, outubro 10, 2013

Bom e bonito

O dia amanheceu fresquinho como uma alface. O sol, lá longe, a trepar a linha do horizonte prometia algum calor. Uma ou duas horas e o calorzinho agradável de um sol luminoso a cantar no céu virá tornar o dia ainda mais agradável.

Na rua as árvores resplandecem em variados tons de um verde magnífico e projectam no chão sombras que são rendas escuras bordadas pelo astro-rei.
Amon Ra mostra-se magnânimo e bem disposto.

Ouvem-se chilreios de pássaros escondidos na folhagem e ramos mais altos. Tento adivinhar-lhes a forma, imagino-os coloridos. Uma mulher passa por mim com uma criança pela mão. Vão apressadas, decerto em direcção à escola.
A manhã nasce bem disposta.

Os automóveis deslizam silenciosos, respeitando religiosamente os sinais de trânsito. Está tudo tão bem, tão perfeito, tão bonito que até parece mentira!

Olho em redor, desconfiado, à espera que me caia um piano em cima da cabeça ou que um demónio assassino saia detrás do caixote do lixo de faca em riste... mas nada. O dia está, simplesmente, bom e bonito.

terça-feira, setembro 24, 2013

Tempos livres

Uma música suave (como que vomitada por anjos que tenham abusado na ingestão de pétalas de rosa) vai entediando o espaço. Pessoas com muitos cabelos brancos vão chegando, devagar, vão-se sentando, calmamente, tudo se passa a 5 à hora. Percebe-se que são pessoas que têm muito tempo livre.

Como se consegue tanto tempo livre? Passo a tentar explicar o que me pareceu ver naquele lugar onde o aborrecimento é feito de veludo.

As pessoas sentam-se por ali, fingindo que não têm nada que fazer. Passeiam os olhos por jornais, livros e revistas (se não tivessem tantos cabelos brancos decerto olhariam para écrãs de computador, de iPhone, de iPad, etc.), não se passa nada.

Na verdade aquelas pessoas estão a fingir distracção. Elas estão ali para caçar tempo livre! O isco são elas próprias, a sua alma a armadilha que haverá de capturar algum tempo mais descuidado que se abeire dos seus corpos estáticos. O tempo chega-se e... zás, é apanhado na armadilha. É tempo livre capturado. Parece um contrassenso (de facto é) mas as coisas são mesmo assim.

As pessoas gostam de exibir o tempo livre que capturaram. Exibem-no como são exibidos os animais selvagens, em jaulas mais ou menos espaçosas. Depende da qualidade do tempo e da qualidade do indivíduo. "Olhem bem este meu tempo livre, vejam como sou poderoso e feliz por ter semelhante exemplar no circo da minha existência."

E sorri, mostrando na sua jaula reforçada um imponente tempo livre capturado em Roma ou em Vladivostoque, olhando de soslaio para um tempito livre capturado ali, naquela sala onde a música não chateia mas também não anima, um tempo livre tão inofensivo que o guarda no bolso ou numa gaiola de plástico, daquelas onde se guardam os grilos.

Entretanto as pessoas vão-se substituindo umas às outras, muito semelhantes no aspecto e na atitude, o tempo livre a correr riscos de ser aprisionado. Tempo livre prisioneiro, é a suprema aspiração na vida de muitos de nós. Principalmente daqueles que não se incomodam com vómito de anjinho, desde que cheire a rosas. Como é o meu caso.

domingo, janeiro 06, 2013

O russo


Esta historieta rocambolesca da troca de nacionalidade tem feito correr mais tinta do que, se calhar, devia. Pessoalmente não sei se me espante. Na verdade nunca liguei muito a Depardieu, cuja principal qualidade sempre terá sido, a meu ver, o nariz torto e uma figura grotesca que ele equilibra com uma imagem afável. O tipo parece bonzinho.

Pelos vistos não é tão bonzinho como parece e, com um nariz daqueles, quando lhe sobe a mostarda perde a compostura.Trocar a cidadania francesa pela russa parece-me um pouco andar de cavalo para burro, mas o vil metal fala alto e cada um sabe de si.

A fazer fé numa notícia que acabei de ler num jornal desportivo online, ter-lhe-á sido oferecido o lugar de Ministro da Cultura de uma república russa, a Mordóvia. Isto é que é subir rápido na vida!

Nunca tinha ouvido falar da Mordóvia (o nome presta-se a jogos de palavras brincalhões) mas, pelos vistos, o lugar de Ministro da Cultura lá para aquelas bandas dispensa a necessidade de falar a língua local. Imagino que, tal como diz Depardieu, seja um sítio onde há uma democracia muito bonita.

Na verdade Gerard Depardieu sempre foi russo! Embora na imagem não se note, pois está caracterizado como Rasputine e, por isso, tem o cabelo escuro, o actor ex-francês tem o cabelo russo. Sempre teve.

quinta-feira, junho 07, 2012

O barco atraca

Um olhar de soslaio e uma sobrancelha franzida; o livro aguarda paciente (como só os livros sabem ser) o regresso dos teus olhos. Agora sim, os teus olhos focam-se de novo nas letrinhas organizadas em elegantes conjuntos de palavras que sugerem surpreendentes universos de significados.

A tua sobrancelha continua franzida, a leitura não satisfaz a curiosidade que te rói a humidade do cérebro. A intensidade luminosa que o sol atira à janela suja e essa timidez disfarçada de indiferença, impedem que voltes a olhar a mulher sentada a teu lado.

Pensaste que era bela, mas, na contra-luz do astro-rei, a mulher é pouco mais do que uma silhueta enfeitada por tonalidades que viajam entre o amarelo e o cor-de-laranja mais quente que pudeste observar nos últimos tempos.

A curiosidade, o sol, o livro, essa tua sobrancelha, tudo se enrola e te incomoda o desejo de perceber que raio de coisa está para aí a acontecer. Talvez não aconteça nada. Isso é, ainda mais, irritante.

Talvez a mulher não mereça esse levantar de sobrancelha que te vai descobrindo o canto do olho, talvez esse olhar que tentas atirar-lhe não mereça o esforço.

Talvez o livro não seja tão interessante como pensaste quando pagaste a conta na caixa da livraria. A mulher pode não ser tão bela quanto imaginas. O sol não te permite chegar a nenhuma conclusão satisfatória.

O barco está a atracar. A mulher levanta-se e passa por ti. Tens de encolher os joelhos para não lhe tocar. E não lhe tocas nem a olhas nem nada. Enfias os olhos até ao pescoço numa frase qualquer.

Não estás a ler, estás apenas a pensar como podes ser tão mansamente selvagem que devoras o teu próprio desejo como uma fera inventada devora as suas crias recém-nascidas só por serem fofinhas.

Dás por ti a pensar que a banalidade pode ser a mais incomodativa das aventuras, uma dessas aventuras em que não acontece nada. O barco atraca. Chegaste ao teu destino e ficaste só.

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Bom 2012

Os dias de Inverno, assim como o de hoje, são os mais bonitos, os mais perfeitos de todos. Trazem o sol lá do fundo da paisagem e deixam-no ir subindo devagarinho, para lhes não estragar o frio, que sempre são dias de Inverno. E é isso que os faz tão bonitos e perfeitos: o sol a iluminar o frio pousado sobre as coisas.

O calor amansado pelo ar que nos rodeia a cabeça, a lutar de mansinho com a friagem, como se fossem dois gatos pequenos a rolar doçuras no tapete da sala onde Deus adormeceu e ressona levemente, como um músico de orquestra a experimentar o trombone com um sopro levezinho.

Nestes dias de Inverno, dias gelados de sol, o mundo quer dizer-nos que tudo pode acontecer, que uma coisa não é assim tão diferente do que for o seu contrário.

Bom 2012 companheiros.

sábado, julho 17, 2010

Olhar não custa


As existências banais ganham uma outra dimensão quando observadas com atenção e minúcia. Veja-se, a título de exemplo comparativo, o mistério de certos objectos apresentados como obras de arte por alguns artistas contemporâneos. São muitos os casos em que nos deparamos com a profundidade misteriosa das coisas superficiais. Neste paradoxo reside a semente do extraordinário mistério da banalidade mais atroz.

O olhar de um leigo não desbrava a floresta de significados de um objecto banal. Para penetrar a floresta de signos de um vulgar home movie ou de um par de sapatos exposto numa galeria de arte, é necessário possuir um olhar devidamente apetrechado com os filtros subtis da crítica contemporânea, capaz de ir desencantar significados inquietantes a lugares de reflexão onde eles, aparentemente, não existem.

A vida dos simples é, afinal de contas, potencialmente tão interessante e complexa quanto a mais glamourosa das existências. Olhar não custa, o difícil é ver.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Um pensamento que não chega a sê-lo. É envelope.


Parece-me conveniente afastar da cabeceira da cama os fantasmas que sejam da família de outras pessoas. Não estou disposto a deixar-me assombrar por eles. Na maior parte dos casos nem sequer os conheço. Não podem meter-me medo.

Prefiro entreabrir a porta e espreitar os meus próprios fantasmas. Quem sabe, uma noite destas lhes entrego as chaves dos meus sonhos?

quarta-feira, dezembro 31, 2008

Votos de Ano Novo


Para o Ano Novo que aí vem desejo que todos consigamos perceber com precisão cirúrgica quanto amamos e quanto odiamos.

Que o amor e o ódio se confundam numa coisa só.

Que essa coisa seja suficientemente forte de modo a permitir-nos escolher com clareza os caminhos que trilhamos sem falsidades e com toda a honestidade que os nossos corações forem capazes de suportar.

Bom Ano Novo para todos. Para os que amo e, também, para aqueles que odeio.

terça-feira, dezembro 30, 2008

2009 está quase aí (parte 3)


Esta sequência de posts está decerto influenciada pela leitura de O Jogo do Anjo, de Carlos Ruiz Záfon. Ofereceram-me o livro no Natal e, contrariando a minha habitual lentidão, li-o em dois dias apenas. Eu sei que é fácil gostar das histórias de Zafón, que a sua escrita escorre pelo cérebro como gelatina de sabor a tutti-frutti escorre goela abaixo, que as suas personagens só dizem coisas extraordinárias e fazem afirmações estonteantes, mesmo nas situações mais simples e, aparentemente, banais. Eu sei. E é precisamente por isso que gosto de o ler. Não terá a densidade de floresta virgem longe de ser desmatada que tem a escrita de Lobo Antunes, por exemplo, nem a profundidade de um Ian McEwan, decerto. Será literatura de cordel, doce como açucar em pó, mas lê-se de um fôlego e, no fim, é uma desilusão que tenha acabado.

Espera lá, o que é que eu queria dizer quando comecei este post? Ha, já sei, estava a falar da sequência misteriosa dos meus últimos posts. Pois é. Já vou no 3º com "2009 está quase aí" no título e ainda não fiz os meus votos de Ano Novo. E também não é agora que irei fazê-los. Só amanhã. Não quero estragar alguma magia que a formulação dos ditos votos possa ter. Quem sabe se antecipá-los ao último dia do ano não lhes retira força e eficácia? Não quero arriscar porque tenho muita fé naquilo que vou desejar para o próximo ano. Espero que seja um ano cheio de magia... ooops, isto contará como voto de Ano Novo? Ainda não queria...

domingo, dezembro 28, 2008

2009 está quase aí


Miró. Personagens na noite guiadas pelo rasto fosforescente dos caracóis

Precisamos de algo que nos faça sonhar. Precisamos de algo em que acreditar, algo que dê um sentido à nossa existência. A religião desempenha esse papel para milhões de pessoas. Ampara e reconforta nos momentos de desespero, ajuda a perspectivar um futuro melhor. O meu problema é que as religiões tendem a enviar a esperança para outro mundo, numa outra vida. Não gosto da ideia.

Outros procuram conforto na possibilidade de existirem ideias suficientemente puras e perfeitas que possam ordenar a nossa existência individual e colectiva de modo a que todos possamos ser felizes neste mundo. Esta postura parece-me mais atractiva.

Seja como for, pela fé ou pela razão, precisamos de valores o mais universais possíveis, valores que possamos perseguir no nosso quotidiano que nos dêm a sensação de que existe justiça para todos e não apenas para alguns.

O ano está a chegar ao fim e é tempo de fazer votos para o próximo. Ainda tenho 3 dias para pensar nisso. Não quero precipitar-me. Já tenho algumas ideias mas ainda não vou formular os meus votos para 2009. Amanhã ou depois. Ou depois. Ainda há tempo para sonhar mais um pouco.

sábado, dezembro 20, 2008

Peço desculpa, mas isto está uma merda.


Sinceramente, este mundozinho onde me sento está muito deprimente. O Pai Natal vestiu uma capa preta, com um capuz a tapar-lhe as fuças e veio sem pedir licença. Mas que raio de coisa, Pai Natal, que merda de ideia!

sexta-feira, março 28, 2008

Flores no alcatrão


Viver na cidade afasta-nos tanto da natureza que chegamos a esquecer a nossa própria condição animal. A chuva é uma maçada, o sol incomoda, o vento desorganiza. As manifestações da natureza não se coadunam com a nossa perspectiva da passagem do tempo urbano. Tempo urbano tem a ver com relógio. Tempo que se perde, tempo que se ganha quando é vendido ou comprado. Como se pode perder ou ganhar uma coisa tão abstracta como o tempo?

Na cidade não há bem Primavera nem Inverno. Não damos atenção aos sinais das diferentes estações do ano porque o nosso ritmo quotidiano não se organiza de acordo com elas mas sim apesar delas, ignorando-as o mais possível. O nosso ritmo quotidiano é organizado de acordo com a agenda, o calendário e, outra vez, o relógio. O relógio, o relógio... que se lixe o relógio!

Os animais vivem em apartamentos e vêm à rua pela trela fazer cócó, já nem sequer se diz que cagam. Pobres animais. Até a fruta, que dantes anunciava as estações do ano mais ou menos como as andorinhas, até a fruta aparece sem ordem natural que o explique, exposta nos supermercados a preços tão estranhos como a sua presença fora de época.
Na cidade a natureza vive também fechada em pequenos quartos, escondida em memórias que ansiosamente temem ser esquecidas de uma vez por todas. Vive em vasos, nas varandas ou em canteiros devidamente delimitados e organizados. Ou se porta bem ou é metida na ordem.

O que nos vale é que, algures lá fora, longe dos prédios e dos automóveis, sem computadores nem écrans de TV que estão sempre a falar, a falar, a falar, há-de haver pelo menos um lugar qualquer que ainda respeita aquilo que aprendemos nos livros de leitura (quando éramos pequeninos e íamos à escola aprender a ler e a perceber melhor o mundo que nos rodeava).
Eu sei que esse lugar existe.
Quer dizer, acho que existe.
Caraças, TEM de existir um lugar assim!!!!
Mas, no entanto, gosto de viver na cidade. E tu? trocavas a poluição e o ruído por ar puro e silêncio absoluto? Então de que estás à espera?

quinta-feira, novembro 01, 2007

BIC


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domingo, outubro 21, 2007