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domingo, maio 24, 2026

Morel

     O que inventou Morel? Inventou uma maquineta tenebrosa, capaz de fritar a existência de todos (de tudo?) aqueles que ficassem ao alcance dos seus sensores e sistemas de registo. Na ânsia de preservar eternamente a felicidade proporcionada pela convivência entre pessoas que se amam (ou que, pelo menos, são unidas por sentimentos de amizade), Morel mumificou todos e cada um dos que elegeu para o acompanharem naquela aventura insensata.

    Morel pretendeu imitar o Criador mas deu-se mal. Aliás, bem vistas as coisas, o Criador também não se saiu lá muito bem. Somos nós o resultados dos Seus esforços criativos? Morel e Deus, um par de falhados.

    O narrador da novela de Bioy Casares está vivo? De certeza? Pode muito bem ser um fantasma, uma alma penada, alguém que deixou de existir e passou a pairar num Purgatório sem saída. Nem Paraíso nem Inferno, o narrador de Casares está para sempre esquecido, perdido no labirinto de incongruências construído por Morel, apaixonado por um reflexo, nutre sentimentos profundos por uma coisa que os não tem.

    Seremos nós, todos nós, como o narrador de A Invenção de Morel? Fantasmas apaixonados por formosas fantasias? 

segunda-feira, maio 11, 2026

Rotina extraordinária

    A vida das personagens que habitam um filme, tomemos Blade Runner como exemplo, é uma metáfora da rotina total e absoluta. São vidas suspensas que se animam de cada vez que um espectador entra em contacto com elas. E repetem exactamente a mesma sequência de acontecimentos, no tempo exacto que tinham durado na anterior ocasião em que tudo aquilo voltou a acontecer. 

    Por muito extraordinária que tenha sido e continue a ser a vida de Roy Batty, ela repete-se sempre da mesma forma, sob a mesma luz, as mesmas frases grandiosas, o mesmo final melancólico. Entretanto Rutger Hauer faleceu mas Batty perdura. A personagem é aparentemente imortal.

    Blade Runner é uma rotina extraordinária. Uma narrativa é sempre uma suspensão à espera de uma alma que a contacte e reponha em movimento, todas as personagens são fantasmas, todos os espectadores (ou leitores, ou ouvintes, seja lá qual for o processo que permita o contacto entre alguém e alguma coisa) são animadores de coisas que hibernam.

domingo, abril 12, 2026

Invejoso

     Ontem tive outra vez aquela sensação um pouco azeda de não ter reconhecimento merecido pela arte que produzo. É uma espécie de despeito, quase desprezo pelo "sistema", pelo mundo da arte, pelo mundo todo, porque eu sou genial e ninguém parece reparar. Deixam-me aqui na beira da estrada a fazer figura de urso, a pedir boleia a manadas de elefantes, a aviões que passam lá no alto, deixam-me aqui a imaginar que sou coisas que não sou. E porquê? Porque a necessidade de ser relevante é um ferrão que se nos espeta no cérebro e nos deixa a sofrer a vida toda, provoca uma dor que só é atenuada com atenção e elogios. Nunca ultrapassamos a primeira infância, somos eternamente aquele bebé a quem as tias apertam a bochechinha enquanto dizem: coisa mailinda! É aí que nasce a nossa necessidade insaciável de atenção e carinho que depois não pára de crescer ao longo das nossas vidas.

    Ontem lá tive de resistir mais uma vez àquela sensação um tanto incomodativa que vem agarrada à vaidade e se transforma em inveja, uma inveja difusa e não direccionada, uma inveja injusta, como toda a inveja é. Lá tive de racionalizar as coisas, limpar-lhes o pó, abaná-las um pouco, voltar a colocá-las no devido lugar. E lá recordei aquela frase que escrevi já várias vezes por aí, algures no 100 Cabeças: eu sei que não existo mas, no entanto, estou aqui. 

sexta-feira, abril 03, 2026

A traição das palavras

    Há quem diga que a piada de "A Traição das Imagens" reside no facto de não ser bem uma piada. Que Magritte queria vincar com nitidez a diferença entre um objecto e a sua representação, que um cachimbo serve para fumar e aquele, na pintura, nunca poderia servir para cumprir uma tal função. 

    Também acontece que, por vezes, aquilo que escrevemos vem inquinado por aquilo em que acreditamos ainda que o mundo aconselhasse menos vinagre nas ideias. E quando não temos nada de substancial para dizer podemos sempre remoer uma tolice qualquer nem que seja só para irritar os burgueses. Lá no fundo, todo o texto é uma espécie de "Traição das Palavras".

    Certas leituras, de Filosofia em particular, tornam-se, para mim, impenetráveis. Por vezes vislumbro a ideia, quase sou capaz de captar o conceito, logo tudo se me enrola e cola à sola dos sapatos do pensamento e aí vou eu, a penca veloz e deireitinha ao asfalto da estrada onde passam camiões carregados de sabedoria e autocarros repletos de eloquência fornecida em pequenas doses com duas patas, veículos característicos e imprescindíveis à definição de um certo ambiente intelectual.

    Se as imagens são traidoras, então as palavras, convenhamos, não merecem a mínima confiança. 

quarta-feira, março 25, 2026

Já foste!

     Já alguma vez tiveste a sensação de que pensaste uma coisa que decerto mais ninguém havia jamais imaginado? Já alguma vez tiveste o peito tão cheio de não-sei-quê que até parecia que eras a materialização da felicidade absoluta? Já alguma vez olhaste para algo que acabaste de fazer, algo que trouxeste de um outro mundo até este, e pensaste que era uma coisa mesmo muito muito fixe que merecia ser admirada, analisada e colocada no pedestal onde se acotovelam as obras-primas da Humanidade inteira? Já alguma vez sentiste de repente um arrepio na coluna vertebral porque te apercebeste de que afinal a tua ideia, a tua felicidade, a tua obra, tu próprio, não passam de falhanços, pequeníssimos rasgos no tecido infinito da Realidade? Que, se calhar, nada disto existe, tudo isto é triste, tudo isto é Fado?

    Caramba, isto é o que em linguagem futebolística se chama "uma entrada a pés juntos"! Um tipo vem lá de trás a correr feito maluco e, sem avisar, sem dizer àgua-vai, completa e absolutamente de surpresa, entra de carrinho e leva tudo à frente. Vai relva, vão botas, vão pernas e caneleiras, o adversário a voar pelo ar aos trambolhões. Catrapunfas! Já foste!

segunda-feira, dezembro 08, 2025

Loucura e culpa (2)

     Leio entrevistas, ouço doutores a reflectir sobre a questão e mais comentadores do que os necessários tentando encher minutos de programação com palratório incessante sobre as razões que estão na origem deste movimento aparentemente imparável que é o que vem corroendo e destruindo a Democracia e o Estado Social na Europa. Citam-se autores, académicos, estudiosos, analisam-se tabelas, folhas de excel e sondagens, reflecte-se muito longamente para produzir informação que, caso pudesse ser colocada numa balança, decerto corresponderia a muitas toneladas de coisa nenhuma.

    Fala-se, fala-se, fala-se e os nazi/fascistas avançam inexoravelmente, conquistando as mentes dos jovens, um mistério inexplicável que talvez tenha explicação. É que os analistas ou são demasiado eruditos e não conhecem a baixa cultura popular, a versão actualizada da Pop Art, ou são demasiado burros e centrados em si próprios, o que os torna incapazes de verem o que está ali mesmo à frente das respectivas nariguetas. 

(continua mais uma ou duas vezes, talvez três) 

quarta-feira, dezembro 03, 2025

Loucura e culpa

     A culpa é dos políticos, dos partidos políticos, das suas políticas, dos jornalistas e do jornalismo, principalmente das redes sociais. A culpa é, sobretudo, das redes sociais e da maneira como a informação surge e se move nas redes sociais: no Tique Taque, no Instagram, no Facebook e por aí fora, todos canais possuídos por tenebrosos capitalistas, verdadeiros vampiros, autênticas personagens de Banda Desenhada, da categoria dos génios loucos ou dos simplesmente loucos, daqueles que, caso fossem pobres, seriam internados numa instituição qualquer e por lá esquecidos ou andariam a pedir esmola nas estações de metro e a comer ratazanas ao pequeno-almoço, génios com aquela loucura que os faz imaginarem-se capazes de dominar o mundo.

    A culpa da imparável ascensão de ideologias que repugnam pessoas da minha idade não é culpa fácil de atribuir. Aponta-se a Educação ou a falta dela, a aparente falência do sistema democrático, a incapacidade de distribuir a riqueza, a solidão de indivíduos que se fecham em suas casas e se vão transformando num híbrido, parte humano, parte vegetal, que vai perdendo a capacidade de sentir empatia, essa coisa já declarada horrível por Elon Musk, esse ser vivente que respira e tem a mioleira mais frita que uma batata belga. A culpa, desta vez, não pode ser atribuída ao macaco.

(continua)

quinta-feira, novembro 20, 2025

Rotina matinal

     

    Estou a fazer uma pintura. Começou por ser uma imagem única à qual resolvi acrescentar outras duas, laterais, com as mesmas dimensões da primeira: 100X70cm. O título, "My Sweet Lord". No "painel" central há uma luz que irradia do  alto, sugerindo uma forma cónica ou triangular, luz essa que anuncia actividade divina que se desenrola fora do campo de visão do observador. O que se passa ali, no alto? Não sei, não estou a ver.

    Todas as manhãs olho e observo a pintura durante, pelo menos, meia hora. Tenho uma passadeira com um ângulo de visão aproximado ao desta foto e caminho uns quantos quilómetros a olhar o, agora, tríptico. Surpreendo-me sempre que exerço esta actividade, surpreende-me a forma como o tempo se expande enquanto caminho, olho e sonho. Passo tempo de qualidade comigo próprio.

    Estas caminhadas contemplativas têm qualidades transformadoras que não consigo explicar (nem carecem de explicação), basta-me usufruir da coisa. Todas as manhãs. O dia que segue corre bem.

domingo, novembro 16, 2025

Lutas, jogos e esquinas

     Uma das coisas que gosto de fazer é deixar comentários nas caixas do jornal Público online. A maior parte das vezes fico com a sensação de quem ninguém leu ou, pelo menos, deu atenção ao que opinei. Deixar aqueles comentários é como tegar paredes ou mijar nas esquinas à maneira de cães e gatos. E eu opino, eu cago, eu mijo. Porque posso. 

    Deixo aqui alguns desses comentários. Descontextualizados ganham dimensões porventura inesperadas:

    O texto sintetiza o problema com clareza. Temo que a luta entre os educadores e as máquinas esteja a ser perdida pelos seres humanos. Em breve assistiremos aos resultados dessa luta. 

    Ora aqui está um belo motivo de reflexão para aqueles que andam para aí a ronronar que não faz sentido falar em luta de classes. Faz lá agora! Isso de renomear os trabalhadores como "colaboradores" é uma das coisas mais patéticas que o capitalismo já ensaiou mas que vai fazendo o seu caminho sem problemas de maior nos meios de comunicação social que, como todos sabemos, estão ao serviço da esquerda. 

    Estranha situação em que todos parecem querer atingir o mesmo fim e nada de concreto acontece. No meio desta teia complicada alguém está a falhar ou a querer falhar. 

    Pronto, não é preciso ficarmos assim, foi só um jogo de futebol. Roí a unha do indicador direito à espera que o Félix fosse lavar o cabelo, não estava era a contar que o senhor do côco perdesse as estribeiras. Apesar de tudo, um gajo está sempre à espera de um rasgo individual de um golito, de um milagre, qualquer coisa só que hoje... nada. Nadinha. Népias. É assim mesmo. Amanhã estará tudo bem outra vez.

    E por aí abaixo, como uma cascata a bater nas rochas com vontade de as transformar em seixos, em areia, em nada. 

domingo, novembro 02, 2025

Resumindo seis décadas (e uns trocos)

     Estive demasiado ocupado a viver ou a tentar viver, não tive tempo para a Arte. Ser artista foi coisa que restou, suspensa, na borda do prato. Ainda hoje não sei se a coma se a deite no caixote do lixo da minha história pessoal. 

    Estive demasiado ocupado a perseguir quimeras, fadas, sonhos, a tentar dia após dia fugir deste mundo em direcção a outro. Qualquer outro. A minha falta de critério levou-me a sítios horrendos na maior parte das vezes mas também tive a sorte de vislumbrar um ou outro paraíso. Unicórnios nunca encontrei. Bruxas? Muitas.

    Uma noite houve uma bruxa francesa com aquele característico cheiro adocicado a suor que me disse que eu era (sou) um monge que falhou a vocação. Naquela época eu carregava forte e feio no álcool e quando tive essa interacção com a dita bruxa devia estar já bem aviado. Mas a frase ficou e a ideia regressa de vez em quando para me relembrar o passado.

    Numa outra ocasião houve um gajo intratável com quem partilhei uma sala de trabalho numa casa onde arrendávamos quartos separados a uma senhora decadente, um gajo, dizia, que me apresentou a alguém (impossível lembrar-me a quem) dizendo: este gajo é um génio com quem partilho casa. "Um génio"!? Uau, nunca me esqueci dessa situação. Esse gajo (vão 4 gajos neste parágrafo embora, na realidade, sejam apenas dois) é a única pessoa, que me lembre, com a qual deixei de falar por completo. A única pessoa com quem cortei relações de forma abrupta e consciente. Até hoje, já lá vão uns bons trinta anos.

    Estive demasiado tempo ocupado a tentar não enlouquecer, a tentar não me afundar na filha-da-putice. Nem sempre tive sucesso mas as mazelas são quase nenhumas e os danos permanentes quase não se notam. Hoje imagino-me feliz. 

sábado, julho 26, 2025

3 impossibilidades entre mil

     Impossível. É-me impossível manter um ritmo diário de escrita. Não é que não queira, não é que não possa, não. É porque me esqueço. Essa é a mais implacável de todas as razões e contra ela pouco há a fazer. Talvez tomando Memofante. Forte.

    Impossível escolher a quem confiar o meu voto quando nenhuma das candidaturas apresentadas me inspira confiança. Uma ou outra faz-me despertar uma confiançazinha pequenina, um broto, uma ténue sensação de "je ne sais quoi" mas nenhuma cresce o suficiente para que, no dia da verdade, cruze dois traços no quadradinho que lhe corresponda. Impossível. Resta o voto em branco. Abstenção não é opção.

    Impossível ficar indiferente ao genocídio do povo palestino. Indignação e, por vezes, raiva irrompem em mim de forma mais ou menos descontrolada perante as notícias que vão chegando. Mas todo o meu sentimentário resulta estéril. Qualquer atitude, qualquer discurso, qualquer coisa que pretenda fazer a propósito disto não representa absolutamente nada em termos práticos. Não aquece nem arrefece. E fico a pensar se a minha indignação teria o mesmo tom e semelhante intensidade caso estivesse deveras envolvido no processo, caso tivesse outra proximidade espacial e emocional à Palestina e ao seu povo. Impossível saber.

     

quarta-feira, julho 16, 2025

Animais de criação

     Há quem se veja a si próprio como eterna e constante vítima do "sistema". Esses encaram tal condição como sendo algo heróico, são mártires da pureza dos ideais que os animam. Se, porventura, os seus ideais vierem um dia a triunfar, os nossos candidatos ao paraíso dos deserdados ficarão órfãos da sua razão de existir. Isso é trágico.

    Há também aqueles que são, de facto, vítimas eternas e constantes do sistema mas esses, não sei bem, talvez não coloquem a questão nestes termos além de todos estarmos conscientes de que nunca, mas mesmo nunca, virão a ter direito à mais insignificante migalha de justiça. 

    Entre uns e outros está muita boa gente. Gente farta de aturar as lamentações dos justos eternamente injustiçados e que sente repulsa pelas verdadeiras vítimas. Gente na qual me incluo. Uns têm mais que fazer do que dar atenção a este tipo de questões, estão demasiado ocupados a trabalhar para poderem consumir. Outros vivem em mundos mais ou menos abstractos, não têm espaço mental para oferecer a este mundo. Outros ainda têm ódio aos primeiros e desprezam os segundos. Etc. É muita boa gente, são muitas condições diferenciadas.

    O que resta disto tudo? Um pouco de amor requentado, bastante ódio, muita estupidez e oceanos de ignorância. É a nossa espécie em todo o seu esplendor, criação divina. 

sábado, julho 05, 2025

Morremo-nos

     Eu sei que não vou ser capaz de escrever um post todos os dias deste mês mas, não sei se reparaste, estou a tentar. Porquê? Por nada, lembrei-me agora dessa possibilidade. Ter assunto não é complicado uma vez que sou muito bem capaz de escrever umas linhas valentes sem dizer absolutamente nada. Pelo menos, sem dizer alguma coisa que tenha algum interesse.

    Hoje soube da morte de mais um homem que foi um grande amigo meu. Nos últimos anos tinha-me cruzado com ele apenas um par de vezes. Abraços, festinhas e, até, troca de beijos. Amigo é amigo, mesmo que não saibamos nada dele, mesmo que estejamos anos sem nos vermos. Ser amigo de alguém é um bocado como ser um cão. 

    Morreu mais esse amigo e eu percebi que "vamos morrendo". Eu ainda estou vivo, muitos de "nós" ainda vivem, mas o número dos que já morreram não pára de aumentar (coisa mais óbvia...) fazendo com que a "nossa" presença neste mundo vá perdendo nitidez de contorno, se desvaneça.

    Sinto uma súbita vontade de sublinhar a minha existência. Mas, isso faz falta a alguém, a minha existência marcada a traço grosso nas paredes deste mundo? Parece-me ser apenas um reflexo da angústia que me provoca a percepção de que o tempo que me resta é muito menos do que o tempo que já vivi.

    Será isto, a percepção da caducidade, o que faz com que os ditadores fiquem bandidos cada vez mais ásperos à medida que envelhecem e percebem que a Eternidade ainda não será por eles alcançada? Será esta necessidade ditada por uma certa inveja em relação às vidas mais jovens? Fico inquieto. Tinha-me por melhor pessoa.

sexta-feira, julho 04, 2025

Nem sei que te diga

     Um tipo acorda de manhã a sonhar com o dia que aí vem e com dias passados, um gajo acorda a sonhar. Um gajo sente-se bem. Imagina-se especial. Acordar, sonhar, sentir, imaginar, suave sequência verbal. Prometedora.

     Promessas feitas por encomenda abstracta dificilmente poderão realizar-se de forma a contentar quem delas nada esperava mas que, ao imaginá-las, acreditou virem a ser possíveis para além daquilo que se atrevera a desejar. Protejam-me dos meus desejos. Protejam-me daquilo que eu quero. Qualquer coisa para traduzir a máxima infinita: Protect me from what I want. Espantosa síntese da condição humana estabelecida por Jenny Holzer.

     Jenny, reconheço a magnificência do que afirmaste mas não sei se te agradeça.

quarta-feira, julho 02, 2025

O mundo nunca foi o que era

     Acontece de cada vez que dou por terminado um desenho. É uma sucessão de ideias e sentimentos que desfila perante mim, como um comboio a partir do cais de embarque, a dirigir-se lentamente para fora da estação. Não sei se lhe acene se corra atrás dele na tentativa de saltar lá para dentro.

    Já o disse e repeti várias vezes em alguns dos dois mil seiscentos e tal posts deste blogue: um desenho, uma pintura, uma obra de arte, nunca estão verdadeiramente concluídos, são deixados em estado de suspensão pelo autor no momento em que este considera ter-se empenhado suficientemente no trabalho de dar forma ao objecto.

    Sei que isto é verdade inquestionável mas sei também que custa um bocadinho deixar a coisa entregue a si própria e a quem a possa ver a partir daqui, a partir do tempo em que passa a ser objecto de exposição e não objecto de criação.

    Tenho tantos desenhos que nunca foram vistos por ninguém, além de mim. Tantos desenhos (centenas, pelo menos) que têm um tempo de exposição exclusivamente virtual, vistos apenas através de ecrãs. E depois?

    Ainda esta manhã estive a pensar sobre a razão que me leva a desenhar e qual a utilidade dos desenhos que vou fazendo. Não obtive nem sombra de resposta. Entretanto concluí um desenho a que dei o título de Floresta Desencantada (o mundo nunca foi o que era).

quarta-feira, junho 04, 2025

Desengano

     Já não tenho a mínima dúvida, estamos a regredir a olhos vistos. Regredimos individual e colectivamente. Vejo muitos jovens penteadinhos, dos que raspam o trombil com lâminas de barbear para puxar a penugem, que começam a assemelhar-se a chimpanzés - regredimos.

    Fala-se em ideologias de extrema-direita mas duvido que o vocábulo seja adequado para descrever o amontoado de incongruências patéticas que por aí vão brotando, verdadeiras ervas-daninhas. Aquilo não são sistemas de ideias, aquilo não podem ser considerados valores, aquilo não orienta uma maneira de estar, antes pelo contrário, aquilo desorienta o mais pintado. 

    Quando o ódio é a nossa razão de existir, quando o que nos move é estar contra: contra o outro, contra o mundo, contra o bem e contra o mal, quando não somos capazes de encontrar dentro de nós uma semente de esperança, um vislumbre de felicidade por muito distante que seja, quando somos negativos do nascer ao pôr do sol, quando não somos capazes de ser a favor de nada, incapazes de imaginar construir, quando temos prazer na proibição, no encarceramento, no sofrimento alheio, então temos o caldo entornado.

    Muitas vezes pensei que a qualidade de uma sociedade se mede pela forma como trata as minorias. Esta sociedade é uma desilusão infinita.

    Muitas vezes pensei que a Humanidade vive em constante evolução; afinal somos amibas que se transformaram em macacos que aprenderam a falar. Também aqui me enganei redondamente. Não fui capaz de perceber o que muitos antes de mim escreveram e pensaram e voltaram a escrever. Estamos convencidos de que somos superiores aos nossos antepassados só porque temos telemóveis e computadores quânticos. Que tolice, pobres imbecis.

    Inventámos Deus na esperança de conseguirmos um modelo ideal que orientasse a nossa caminhada futuro adentro. O resultado? É a merda que se vê.

terça-feira, maio 13, 2025

Palestrante

     O palestrante deambulava para a esquerda e para a direita numa linha vagamente recta. Aqui e ali uma paragem, acolá uma suspensão no discurso, tudo razoavelmente dramático. Esboçou uma narrativa carregada com traços terroríficos. O gesto, o tom, o estilo, tudo para convocar um sentimento piedoso entre nós, na plateia. E a coisa funcionou. Os espectadores pareceram irmanados pela compreensão do sofrimento alheio. Tudo muito piedoso, tudo muito solidário em retrospectiva. Bastaria olhar os rostos comprimidos dos que escutavam o professor para perceber que se tratava de boa gente, que era tudo boa gente.

    Algo me incomodou a ponto de retirar o meu bloco do bolso para registar o que se segue: "muito evocamos os tormentos e pouco falamos de alegrias." 

    Voltei a guardar o bloco no bolso do casaco e continuei a seguir o passeio do professor à minha frente; direita, esquerda, parado, em andamento. No fim todos batemos palmas.

quarta-feira, abril 02, 2025

Que somos nós?

    Se "pensar é acrescentar frases a uma frase inicial, multiplicar as frases em volta de uma primeira sentença" (Gonçalo M. Tavares, Atlas do Corpo e da Imaginação, pág 065), o que dizer do ser vivo? O que dizer de ti, que lês estas palavras? 

    O que somos nós senão vidas que andam à volta de si próprias? O que somos senão múltiplos de algo há muito esquecido? O que seremos senão seres unicelulares que se complicaram para além da capacidade de uma imaginação alucinada?                                              

quarta-feira, março 12, 2025

A Máquina

     A Inteligência Artificial (IA) oferece a quem a ela recorre um padrão de pensamento, um denominador comum a toda a informação colectada em relação ao assunto que o utilizador pretende abordar. A sua capacidade para estabelecer uma rede de conexões entre tantos pontos relacionados com o tema quantos o disco rígido contém (os que lhe foram fornecidos mais os que a IA criou por osmose) e a rapidez com que executa tal tarefa conferem-lhe uma aparência de totalidade esmagadora. A máquina é como se fosse Deus e vice-versa e oferece-nos a resposta, a síntese da sua sabedoria, como quem atira um osso a um cão.

    Mas, não será isto (mais) uma ilusão? A máquina resume num sopro aquilo que sabe, e sabe imenso, mas não sabe tudo, a máquina não tem como saber tudo. Então, aquilo que dela recebemos é sempre conhecimento parcelar e circunstancial por mais vasto que seja.

    Fico com a impressão de que a única certeza que recebo da IA é a certeza de que ainda não fomos capazes de imaginar nada que chegue aos calcanhares do que imaginamos ser Deus.

sexta-feira, janeiro 24, 2025

O Jardim das Notícias

 

Em A Traição das Imagens, Magritte explicou com clareza a distância que vai de um cachimbo a uma coisa pintada. As coisas não deviam confundir-se com a sua representação. Ficámos avisados. Picasso terá dito que o desenho “é uma grande mentira que nos ajuda a compreender melhor a verdade” mas, terá acrescentado, na medida em que formos capazes de a compreender. Ficámos a pensar.

Construir uma visão do mundo em que vivemos depende muito da perspectiva a partir da qual tentamos a sua construção. Seja uma visão mais poética ou mais técnica, mais humana ou artificialmente inteligente, a recolha de informação é essencial para que a coisa possa acontecer. Fica a sensação de que a Verdade é um absoluto inalcançável que faz de nós e do ChatGPT amargas anedotas de gosto duvidoso. Na impossibilidade de sucesso vamos semeando o planeta com as nossas tentativas de o compreender, registar e retratar.

Sabemos que o mundo está povoado de monstruosidades ameaçadoras mas temos dificuldade em evitá-las. Chegamos a deixar-nos seduzir pela sua abjecta lengalenga e, como o Flautista levando crianças e ratazanas em direcção ao precipício, arrebanhados marchamos atrás das bestas com o vazio por destino. 

Vindos de Oeste, divisam-se no horizonte os cavaleiros do Apocalipse Chunga. Vêm montados em artefactos tecnológicos, agitam riquezas que seguram nas mãozinhas pequeninas e nas dentuças muito brancas, escorrendo babugem raivosa pelos cantos das fendas que lhes servem de bocas. A Nordeste um aprendiz de feiticeiro imagina-se imortal e tenta afastar a morte bebendo o sangue de povos inteiros. Lá para as bandas do Oriente alinham-se divindades ameaçadores que comandam exércitos de seres muito puros e despidos de pecado. E nós, demónios outrora poderosos, agora velhos e exauridos, aguardamos resignadamente o embate. A guerra não corre de feição mas estamos muito longe de termos sido derrotados.