domingo, julho 09, 2006

Sua Santidade

Sua Santidade o Dalai Lama. Não soa mal. Soa melhor que chamar Sua Santidade a uma personagem como Ratzinger que, não sei porquê, me causa arrepios.

Ratzinger, o Papa, tem o olhar de uma fuinha insensível (sim, porque há fuinhas capazes de actos de amor às fuinhas que lhes são próximas) e não inspira sentimentos de compaixão. Comparado com o defunto Wojtyla, que tinha ar de avôzinho meio perdido, este novo velho Papa apresenta-se algo sinistro, como um vampiro disfarçado de exorcista.

Vem isto a propósito do texto de Frei Bento Domingues no Público de hoje com o título "Jesus e Buda". O episódio aí narrado com o Dalai Lama por protagonista mostra como Budismo e Cristianismo podem cruzar-se pacificamente neste tempo e neste espaço enquanto correntes de meditação e pensamento ocupadas na reflexão aberta e o mais pura possível sobre o mundo que nos rodeia na tentativa de descobrir uma via que nos possa transportar a um outro mundo.

Não estou a ver que Budismo e Catolicismo possam encontrar esse espaço de convivência pacífica aí proposto. A igreja católica é demasiado esfomeada de almas para permitir que alguma ovelha abandone pacificamente o seu rebanho. Conta a História que em inúmeras situações preferiu matá-las a perdê-las.

Penso que é cada vez mais importante mostrar bem a diferença entre ser Cristão e ser Católico já que são coisas tão diferentes como ser Humano e ser Português. Nem todos os cristãos são católicos da mesma forma que nem todos os seres humanos são portugueses. Isto parece estúpido de pensar e, ainda mais, de se escrever, não parece? Mas não será tanto assim se notarmos o facto de a igreja católica reclamar direitos inerentes à sua suposta implantação e influência sobre os cidadãos. Há demasiadas ovelhas que são católicas por não distinguirem a erva que pastam da merda que cagam.

Na imagem vemos Sua Santidade a proteger-se do Diabo com uma gesto de defesa típico .

sábado, julho 08, 2006

Ó Que Cenaça!

Os Ó Que Strada estão em grande forma! Se calhar sempre estiveram... é o mais certo. Esta noite assisti a uma das suas celebrações de vida e energia no Teatro Nacional D. Maria. O foyer cheio, a deitar por fora, a música a jorrar em catadupa por sobre as cabeças dos presentes.
O Jean-Marc, o Zeto, o Sá, a Marta, todos em festa no palco e à volta dele, mas a figura que me prende mais a atenção continua a ser o Lima.

Com este gajo a guitarra portuguesa é um instrumento impossível, uma coisa de outro mundo, um OVNI, um poço de som sem fundo nem tampa. A inventividade musical deste portento com dedinhos de prata é digna de nota. O grupo é coeso e tudo faz sentido. Uma festa a não perder caso se possa participar.

Continuam até dia 21, se o jornal não estiver errado, às sextas-feiras a partir da meia-noite. Como os fantasmas. Mas que fantasmas, senhores!

Se não é lindo anda por lá perto.

sexta-feira, julho 07, 2006

O ódio

I Love You Anyway, RSXXI 2005

Israelitas matam palestinianos que adorariam matar israelitas mas não têm a força que os israelitas têm para o fazer. Então vão-se a eles com bombas atadas à cintura e BUM. Nos autocarros, nos restaurantes, qualquer lugar serve. É uma carnificina infinita.

Todos os dias recebemos notícias desta sangueira com uma naturalidade inquietante. Parece fazer parte da natureza dos povos. Os israelitas e os palestinianos odeiam-se, toda a gente sabe disso! Mas poderá ser assim tão simples, tão lisinho, tão sem sentimento que não seja a raiva mais primária?

Sei que é fácil viver aqui (digam lá o que disserem), ter a barriga confortável e saber que amanhã o maior problema será o calor ou a distância. Incómodos desprezíveis. Posso imaginar que vou rir, comer bem... se tudo correr como previsto estarei de volta ao remanso do lar a tempo de ver o Portugal-Alemanha sem temer que o céu me caia em cima da cabeça, ameaça que os israelitas já fizeram para as terras da Faixa de Gaza.

Habituados a odiar os gajos do clube rival e os que nos passam à frente na fila se calhar já não sabemos o que é isso, o ódio. Ódio verdadeiro, de nos levar a desejar a morte de outro ser humano. Sinceramente não sei o que isso seja ou o que possa significar cá dentro, nas minhas entranhas.

Estou em crer que milhares de israelitas e milhares de palestinianos têm a mesma dúvida: o que é o ódio? E no entanto...


quarta-feira, julho 05, 2006

Dúvida

Estes gajos são de outro planeta.
O que andarão a fazer ou a pensar os líderes norte-coreanos? Que cena é esta de terem lançado 3 mísseis sem aviso, deixando o resto do mundo a fazer contas de cabeça? O que poderá isto significar?

Os EUA iniciaram a guerra no Iraque dizendo que procuravam armas de destruição maciça. Toda a gente percebeu que esse argumento não passava de uma desculpa de mau pagador.

Na Coreia do Norte há, comprovadamente armas perigosíssimas nas mãos de um louco varrido, mais varrido do que Saddam Hussein alguma vez sonhou poder ser. O que irá passar-se a seguir?

Enquanto andamos a ver na TV serviços noticiosos que abrem com notícias do campeonato do mundo em futebol e ficam a falar infinitamente do assunto, a Faixa de Gaza é cada vez mais um inferno e os mísseis coreanos caem no mar, a 500 quilómetros do Japão.

Até parece que os loucos furiosos aproveitam a deixa para cometerem actos de loucura absoluta. Estarão estas coisas ligadas? Comparado com isto percebemos como a "crise" dos cartoons foi uma historieta de merda, sem assunto nem sentido.

Haverá nos líderes norte-coreanos um desprezo absoluto pelo nosso mundo? Poderão estar a preparar algo verdadeiramente estúpido? A coisa está pouco animadora. O mundial começa a perder a piada. Ou ainda não?

domingo, julho 02, 2006

O homem das 1000 cabeças


A palavra é "surrealismo".

Pede-se à plateia que diga o nome de um artista relacionado com "a" palavra.

O nome brota dos lábios da maioria dos presentes. Ora tem o aspecto de uma flor que desabrocha numa velocidade 500 mil vezes superior à que seria normal, ora parece uma barata gigante, com bigodes no lugar das antenas. E tantas patas que faz corar de vergonha uma centopeia.

O nome é: Salvador Dali!

A vida é muito injusta e a História é-o ainda mais. Então a História da Arte é incompreensivelmente malvada para com alguns dos que fizeram da pequenez humana um imparável motor da sua grandeza.

O nome devia ser Max Ernst.
O nome "é" Max Ernst!

A inventividade técnica e a imaginação sem limites de Ernst trouxeram ao mundo coisas inomináveis as quais ele baptizou alegremente, noutro exercício criativo assombroso. Não há palavras que preencham a necessidade de encontrar uma explicação para o universo.

Decalcomania, frottage, colagem, sei lá que mais. Atirar um pano embebido em tinta sobre uma tela e ficar à espera que, da mancha assim produzida, surja a forma, que a imagem se liberte por si mesma... é automatismo psíquico, não? Pode ser. E que interessa isso?
Na imensidão da NET devem flutuar milhares de imagens que reproduzem obras de Ernst. O cruzamento de uma extrordinária variedade de formas e técnicas com uma imaginação delirante tem como resultado uma obra inacreditavelmente variada. À primeira vista poderão parecer obras de 1000 artistas diferentes (ou mais) mas é, afinal, o resultado do trabalho de uma vida de um homem com 1000 cabeças!
Um gajo do caraças!

sábado, julho 01, 2006

Buuuuh!

Mesmo sabendo que eles existem não conseguimos evitar um arrepio sempre que se manifestam. Eu não acredito em fantasmas mas, tal como as bruxas, que os há, há!!!

Há fantasmas de carne e osso. João Jardim, por exemplo, é um fantasma com muito mais carne que osso. Assombra o país inteiro com as suas bocas peludas, daquelas com pêlos na boca... uma nojeira! Mas, apesar do sêbo, é um fantasma com nome e cara de chouriço. Sabe-se que existe e confirma a suspeita.

Há fantasmas virtuais, daqueles que andam por aí e não se tem bem a certeza que existam. Se um de carne e osso pode cheirar mal já um virtual não cheira a nada, nem a merdoca nem nada.

O Amigo da Onça era um boneco de um cartoon que eu gostava à brava quando era miúdo. Saía numa revista brasileira qualquer que aparecia em casa do meu avô paterno e eu costumava copiar a personagem e tentar ir mais longe naquilo que conseguia compreender do seu humor, com infantilidades, pois então.

O amigodaonça não sei bem o que seja, mas imagino que seja um coiso feio e tipo João Jardim, com muito mais carne que osso, coiso que se mastiga mais do que se possa roer e, no fim, se cuspa para o pote dos escarros, para junto dos familiares e amigos.

Confesso que me irritam todas as personagens, mesmo as virtuais, que vêm arrotar postas de pescada sem saber do que falam e se armam em caras de cú quando nem o cú são capazes de assumir, caso contrário arriscar-se-iam a levar um valente pontapé no dito. Ou nem isso.

Para quem possa estar a pensar que merda de conversa é esta, estou a dirigir-me a um palonço qualquer que resolveu comentar o meu post anterior.

Eu sei que isto de manter um blog tem qualquer coisa de adolescente (ver post de Sábado, Dezembro 03, 2005 Blogue, blogue, bloooogue). É claro que um imbecil não se caracteriza pelo cuidado investido em tentar deixar de o ser. Um imbecil é um imbecil em todas as situações da sua vida pois não compreende a própria imbecilidade. É por isso que é um imbecil. Por isso e mais algumas coisitas, decerto.

Se o imbecil que assina amigodaonça ler esse post ficará elucidado e perceberá porque razão não digo mais nada a estúpidos que não conheço de lado nenhum (acho eu).

Pois, e esta conversa tão agressiva justifica-se por isso mesmo: não tinha mais nada a dizer nem que fazer, por isso resolvi dar alguma atenção e consequente conforto a este tótó sem nome, nem tomates, nem tromba, nem nada que se possa ver.

Um fantasma.

sexta-feira, junho 30, 2006

Zombie Nation

Alexander Droboniev e o seu castelo papados por um azar, 1995-2001

Um gajo não devia meter-se em trabalhos que se desviem dos respectivos talentos naturais. Para quem os não tem, se calhar, não fará muita diferença servir bicas ou abrir valas comuns. Já para quem sonha a realidade acaba sempre por parecer pouco e saber a menos ainda.

Demasiado mesquinho.

Passei a manhã toda a fazer contas. Multiplicar horas por minutos e dividir o resultado por blocos de 90. Dividir o resultado dessa divisão por semanas (era necessário descobrir o número exacto de semanas) para encontrar o resultado pretendido. Agora será necessário encaixotar estas coisas todas num horário semanal, enfim, um trabalho que deixaria Hércules com saudades da querida Hidra mais as suas cabeças infinitas.

Sinto-me mesquinho.

Após três horas nesta merdonga já quase me cai a cabeça dos ombros e vem aquela vontade meio manhosa de pintar. Sim, meio manhosa porque, se fosse genuína, não precisava de estar nesta espécie de trabalho forçado para a sentir e lhe cheirar a necessidade. Depois de fazer este tipo de trabalho, nos intervalos, não apetece fazer mais nada que não seja babar a pança em frente a um écrã de televisão a ver uma merda qualquer. Qualquer merda serve desde que não me obrigue a... pensar.

Amanhã volto a ser mesquinho. Está combinado.

quinta-feira, junho 29, 2006

"A Crise"

Mas... espera lá! Houve algum dia, alguma hora, um minutinho que fosse em que o o país não tivesse estado em crise? Que merda é essa, "A Crise"? Essa merda que nunca veio, nem nunca chegou nem se foi embora. Quando começou, o que a define, qual o seu aspecto, porque não descola? Há tantas perguntas que não são perguntas! Porque se o fossem decerto teriam respostas.

"A Crise" é a porca da loba que nos amamenta. Uma loba porca, a precisar de ver água que não lhe sacie apenas a sêde. Eu sou Rómulo, tu és Remo e ambos esticamos as beiças em direcção aos cones das tetas virados ao contrário. As tetas da loba que já não tem nome, que não é nada, que nem sequer é ninguém. Aquelas tetas sempre a pingar tristeza, a pingar desejo e nós a tentarmos mamar, a falharmos os lábios, a usarmos os dentes.
Mordemos a teta que nos amamenta porque não gostamos do que delas jorra mas também não temos nada melhor para chupar.

Nós somos Remo, vós sois Rómulo. E a puta da loba abala, encosta abaixo. Vai buscar alguma ratazana que lhe mate a fome, algum cacho de uvas verdes que lhe sacie a sêde, nem ela sabe bem o que quer ou o que necessita. Ficamos abandonados à nossa sorte. Lá regressa ela, encosta acima, para confortar os nossos corpos nús, corpos de bébé, sem destino nem cemitério ou catacumba que nos acolha agora e nem na hora da nossa morte.

Nós somos Rómulo, vois sois Remo e o contrário é bem verdade.
Temos uma cidade para inventar, num mundo que não existe e temos um império por construir.

Eles vivem!

Será mesmo assim tão arrasador? Estaremos definitivamente transformados em algo que o destino não nos havia reservado por sermos europeus? Transformados numa espécie de americanos mal amanhados, a viver o sonho americano fora do lugar e colonizados por um imaginário que não queremos mas nos é imposto por uma máquina de ilusões demasiado forte para as nossas mentes pouco brilhantes, por cá andamos alegres e com as cabeças entre as respectivas orelhas.

Temo bem que sim. Resta saber se isso nos prejudica mais do que beneficia ou se antes pelo contrário e vice-versa. Na verdade é um dos grandes ricochetes da História. Os europeus colonizaram o continente americano, chacinaram por completo uma série de povos autóctones, substituindo-os e moldaram todo aquele espaço à sua imagem e semelhança. Longe dos constragimentos impostos pelas tradições religiosas e políticas da "Velha Europa", os colonos geraram um "Novo Mundo" sem os respectivos velhos habitantes. Os portugueses experimentaram isso no Brasil, os espanhóis pela América central acima, os franceses e os ingleses mais para Norte, foi um fartar vilanagem que está longe de acabar enquanto houver seres humanos em cima da carcaça do planeta.

Algumas centenas de anos volvidas começámos a receber de volta uma cultura europeia reciclada e adaptada pelas novas tecnologias, transformada em produto comercial altamente apetecível. As Grandes Guerras mandaram para o outro lado do Atlântico todo o tipo de artistas, cientistas, pensadores e outras aves raras que se foram estabelecer no tal mundo novo, capaz de os aceitar e lhes dar apossibilidade de criarem coisas novas. Tão novas, tão novas que, no ricochete, vêm fazer de nós uma espécie de reflexo.

A América (não apenas os EUA, todo o continente) envia para a Europa o resultado deste estranho intercâmbio cultural e económico, ao ponto de agora ser o "Velho Mundo" a ver-se obrigado a um esforço de adaptação a formas "alíenigeas". É a invasão ao contrário, a eterna mutação dos seres humanos à procura de... ninguém sabe bem do quê!

Estamos melhor? Estamos pior? Quem sabe! Ficamos diferentes.

quarta-feira, junho 28, 2006

Eterno

Acabei de rever 2001 na TV. Raio de filme! Pensar que foi realizado em 1968... como deve ter parecido absolutamente estranho na época. Mesmo hoje continua a ser um objecto de outro mundo. É tão perfeito nos enquadramentos, tão completo na criação de ambientes, tão duro.

Se há filmes que têm escrito "eterno" no prazo de validade este é um deles. Merece ser visto por extraterrestres depois de a nossa espécie se volatilizar. Pode ser que percebam melhor aquela cena do monolito.

terça-feira, junho 27, 2006

Nós Vida

Nós Vida

As coisas no futuro não serão melhores nem piores do que são hoje. Serão diferentes. Tal como hoje são diferentes do que foram ontem e assim por diante e assim para trás. A vida é uma constante tentativa de reformular os princípios da existência. Há quem diga que andamos apenas a entreter a morte. Há quem pense que depois da morte nos transformamos noutra coisa qualquer. Nem pior nem melhor. Diferente. Apenas diferente.

segunda-feira, junho 26, 2006

A coisa promete

Hoje tem que ser, tenho de escrever qualquer coisinha sobre a selecção nacional de futebol. É que o jogo de ontem deixou-me a roer as unhas até aos cotovelos e em estado semi catatónico até o árbitro ter usado o apito sem ser para avisar que lá vinha cartão. Não me lembro de ter visto coisa assim. Aquele jogo foi uma verdadeira batalha campal e finalmente lá se marchou (quem diria) contra os canhões que sempre me pareceram deslocados no hino nacional. Por uma vez que fosse, a cançoneta havia de fazer algum sentido.

Os holandeses andam a mijar fora do testo. Desde as histórias sobre trabalho escravo em plantações de tulipas até ao partido pedófilo as surpresas vindas daquele lado não têm sido famosas. Agora que os putos da selecção de futebol das laranjocas tenham vindo jogar à maluca com os mestres do faz-de-conta é que constituiu surpresa absoluta. Então não é que os holandas quiseram jogar sujo e na fita contra a nossa selecção!? O que lhes passou pela cabeça? Mal os portugas perceberam que os adversários de ontem vinham com navalhas debaixo das botas e a baterem-se à falta como se fossem brasileiros na 3ª divisão meteram mãos à obra e deram cabo deles. É que em matéria de fita os nossos são catedráticos e os deles não passavam de aprendizes.

No fim o treinador holandês veio com conversa de taralhôco falar em teatro e perdas de tempo dos portugueses. Bem pode queixar-se mas é da falta de futebol dos seus jogadores e das opções tácticas algo manhosas que andou para ali a inventar. Se o lateral direito não tinha como missão específica arrumar o Ronaldo para o banco inventou muito bem. E não era amarelo que o árbitro lhe devia ter mostrado. O tipo fez uma entrada assassina mas mostrou ter alguma falta de inteligência em mais uma jogada, desta vez sobre o Figo, capitão do nosso time de actores profissionais. Aquele cotovelo maroto a passar perto do nariz de Figo só podia dar expulsão. Talvez o palonço não tenha querido atingir o português mas a penca de Figo é enorme e proeminente e ele joga com todas as partes do seu corpo, nariz incluído.

Peripécias à parte fica a memória de uma equipa que joga com tripas no lugar do coração e vice-versa, que joga seja lá como fôr e tudo faz para sair vitoriosa do campo. Essa maneira de jogar não é habitual entre nós e andamos todos um pouco confusos. Aquilo parece mais a célebre "Fúria espanhola" só que em versão portuguesa (revista e aumentada).

A coisa promete.

domingo, junho 25, 2006

Antes uma salada de polvo!


Sei que não sou nenhum expert e ando longe de poder fazer uma crítica cinematográfica sustentada e arrasadora. Tenho como principal credencial o facto de "papar" filmes uns a seguir aos outros. Gabo-me de não ser esquisito. Tanto vejo filmes a preto-e-branco como não, na TV com 20 intervalos ou em DVD, no cinema com putos a comerem pipocas com a matraca encostada aos meus ouvidos ou em salas de conaisseurs (vai na volta escreve-se com dois "n", não me apetece confirmar), com écrans merdosos e mais pretensiosismo que qualidade de imagem. Não me corto nunca.

Hoje regressei às salas VIP das Amoreiras (haverá designação mais imbecil para salas de cinema na capital e arredoors?) para ver A Lula e a Baleia. O espaço é agradável, as cadeiras confortáveis e, às duas da tarde, a sessão está bem composta. Tal como no Modigliani para aí uns 10 espectadores, contando já comigo e com o amor da minha vida.
Os críticos encartados que botam faladura nos jornais até davam umas palmadinhas nas omoplatas deste filme. O Jeff Daniels é um baril, a Laura Linney uma excelente actriz e o trailler tinha-me parecido bem. Tudo somado ali estava mais uma óptima oportunidade de dar uma saltada ao cinema. Nas calmas.

O filme lá vai, ao sabor de uma brisa fresquinha que empurra o barquinho por sobre as ondas, deslizante, sem grandes balanços. É uma coisa assim, certinha, sem grandes contrastes logo sem grande emoção. Bem feito, cenas de tamanho certo e prontas-a-vestir, personagens lisinhas com um ou outro momento a deixar adivinhar mais espessura que aquela. Agrada pela singeleza, pela frescura narrativa mas acaba por deixar o espectador a coçar os tomates (caso os tenha ou possa fazê-lo) e, quando acaba, salva-se o Lou Reed. Sempre magnífico o motherfucker (leia-se "sacana" como nos filmes legendados em português de Portugal)!!!

No fim de contas, pés já fora da saleta, entre uma lula e uma baleia talvez não fosse pior uma saladinha de polvo. Com azeite lá da terra, se puder ser.

sexta-feira, junho 23, 2006

Um amor assim é coisa pra não ter fim!

Um amor assim é coisa pra não ter fim
Aí está o S. João em todo o seu esplendor, brilhante e a cheirar a sardinhas quase tanto como o Antoninho dos Manjericos. É agora que o meu bom povo sai à rua e mostra os dentes naquilo que é capaz de imaginar mais parecido com cultura popular. Isto sim, são manifestações genuínas de uma tradição que nada tem de português, é algo que cai muito mais para trás no poço do tempo e nos leva de regresso ao tempo em que o Cristo ainda nem sequer andava nos tomates do Pai.

Quando eu era puto e vivia em Viseu passávamos a tarde a procurar rosmaninho nas matas das traseiras para podermos saltar as fogueiras com algum requinte e a dignidade que a celebração do santo exigia.

Basicamente a ideia era beber mais do que a conta e tentar aproximações de carácter sexual com a benção do santinho. Como é mais do que evidente isto não tem nada de católico, é uma celebração pagã do Verão que se aproxima e já nos faz suar as estopinhas.
O São João deve ser uma personagem abstrusa e caralhuda, roubada à noite dos tempos, capaz de feitos extraordinários que o catolicismo foi incapaz de apagar por completo limitando-se a um travesti pouco ousado com perucas feitas de cabelo roubado a defuntos de famílias pobres.

Aqui em Almada é feriado municipal. O São João sai em procissão da igreja de Cacilhas e vem dormir uma noite à capela da Ramalha, cá em cima, do outro lado de Almada. Vem dormir uma noite com a Santa da Ramalha! Amanhã ou depois, não sei bem, regressa ao poiso para mais umas centenas de dias de abstinência e bom comportamento.

Foi assim que o catolicismo se insinuou, apropriando-se dos deuses pagãos e dando-lhes "categoria" de santinhos de pau carunchoso na sua hierarquia merdosa, imposta lá das bandas de Roma, a Puta Eterna.

quinta-feira, junho 22, 2006

Chorai, pedras da calçada!

O filme tem por título Modigliani. Narra de forma mais ou menos romanceada (vá-se lá saber) aventuras e, principalmente, desventuras de Amedeo Modigliani em Paris. É o artista boémio, bebedolas mas íntegro, arrebatado e sedutor, o perfeito estereótipo que vive encafuado nos recantos mais sombrios do imaginário popular. Ele e a sua musa amam-se perdidamente, a coisa descamba e temos um final trágico à brava com o pessoal todo a fungar na sala.
Fui confirmar aquela cena final. A morte do tuberculoso e o suicídio da amada, grávida ainda por cima, janela abaixo até se espatifar no chão. Confirma. Uma breve biografia do artista confirma a coisa.

Quanto ao filme, descontando o Picasso com aspecto um tanto mais ridículo do que terá sido o real do verdadeiro, até que se papa sem necessidade de recorrer a demasiado tempêro. Formalmente parece-me ser um objecto coerente, com momentos visuais interessantes. Os enquadramentos rigorosos e bem imaginados proporcionam situações de fino recorte. Belas, até.

O que se torna um tanto insuportável é o toque melodramático que se vai acentuando em direcção ao grande final com a dupla morte das personagens principais. Não digo que seja uma lamechice (o rigor das imagens não permite tal classificação) mas talvez tivesse sido possível ir menos longe no empurrão descarado à lágrima que se adivinha.

Não chorei. Verdade, verdadinha, nem sequer andei por perto. Mas os meus olhos comoveram-se uma ou outra vez com as imagens belíssimas que entenderam ver com alguma frequência ao longo da película.

Não é nada do outro mundo mas também não será de desdenhar uma deslocação à sala das Amoreiras onde está em exibição este filme. Penso que é a única sala. Se passares por perto, caro leitor eventual, entra e vê. Pode ser que encontres motivos de interesse, quem poderá sabê-lo? Se és do tipo impressionável leva um pacotito de lenços de papel, talvez te possam ser úteis.

O óbvio

O Homem Dúvida, 2006

"Cada coisa tem a sua palavra; pois a palavra própria transformou-se em coisa. Porque é que a árvore não há-de chamar-se plupluch e pluplubach depois da chuva? "

Realmente... porque não?
Estas duas frases, retiradas de um manifesto dadaísta da autoria de Hugo Ball escrito em Zurique a 14 de Julho de 1916, ganham uma estranha consistência de cada vez que as leio.

Porque as coisas deixam o anonimato quando se lhes cola uma palavra que as traga para a luz do dia mas, logo a seguir, podem regressar ao limbo pré-objecto caso o conceito associado não se materialize com a força de uma mousse de chocolate na mente do leitor (ou do pensador ou do varredor de ruas com calos nas mãos e buracos nas solas dos sapatos).

Então poderemos ficar preocupados. Plupluch? Pluplubach!? Caramba, meu velho senhor Ball, que raio de ideia a sua. Então não vê logo que uma palavra é tão concreta e verdadeira que quando dizemos "árvore" estamos logo a pensar "na" árvore? Em qual? Naquela, com tronco castanho e uma copa verde-bem-verde, como nos ensinam na escola primária as professoras enfastiadas quando insistimos que o tronco pode ser branco e a copa amarela e vermelha. Que devemos estar tantãs, que tolice, que é uma ideia estapafúrdia. Mesmo que seja Outono e já haja árvores sem folhas nem nada que se pareça.

Para as professoras, primeiras defensoras do senso comum a sistematizarem o nosso pensamento (a diluirem o individuo que somos na massa amorfa que haveremos de vir a ser), é óbvio que uma árvore tem aquelas cores e não outras por muito que saibam que é uma mentira tão estúpida quanto aparentemente inocente.

O senso comum torna tudo óbvio para não ter que discutir seja o que for. Temos aí a raíz de muitos males e maleitas intelectuais. Mas não há-de ser nada. A gente sobrevive e ainda tem tempo para comer uns caracóis lá mais para o fim da tarde, na esplanada sob a copa das árvores (seja lá qual for a cor delas!).

terça-feira, junho 20, 2006

Recorde Mundial

Retrato de Adele Bloch-Bauer I, óleo e ouro sobre tela, 1907, Gustav Klimt
Ora aí está, o recorde foi batido. Estamos numa época em que o mercado da arte tem apresentado uma forma invejável com alguns recordes a serem sucessivamente batidos. O Título Mundial de "O Mais Caro de Sempre" acaba de ser arrebatado pelo Retrato da Adele Bloch-Bauer, do imortal Gustav. Terá sido adquirido pela soma astronómica de 105 milhões de Euros (seja lá isso o que for) relegando para o segundo degrauzinho do pódio Rapaz Com Cachimbo, uma aguarela do divino Pablo. Num mundo como o nosso nada melhor que muitos zeros sguidos no preço do que quer seja se quisermos provar o valor da coisa. É evidente. Se vale muito dinheiro é porque tem muito valor. Não é preciso ser-se nenhum génio para compreender uma evidência destas! Seja uma obra de arte, uma empresa cotada na bolsa, um jogador de futebol, uma jóia ou urânio enriquecido, o valor monetário é que interessa. Apaga as fronteiras entre ética, estética, comércio ou economia, apaga todas as fronteiras sejam elas quais forem.
A partir de hoje a obra do imortal Gustav vai ser olhada com outros olhos pois tem um título mundial em seu poder.
Por coincidência e curiosidade irá estrear na 5ª feira um filme dedicado a Gustav. Até era capaz de apostar que irá ter muitos mais espectadores que Modigliani (discretamente em exibição numa sala das Amoreiras). Sim, afinal de contas é um filme dedicado a um recordista mundial, nem mais nem menos!

segunda-feira, junho 19, 2006

Oh Elsa!!!

Frankie goes to Hollywood (pormenor)

Não há nada que nos mantenha inteiros além da Química e da Física. Acreditar em mais do que isto é crer que a poesia se pode materializar no olhar inocente de um carapau assado na brasa.

Jeová é uma anedota que acabou por pegar melhor do que a encomenda até se tornar uma piada de mau gosto. Uma mentira mil vezes repetida acaba por se confundir com a verdade penetrando o frágil espaço da realidade. Jeová é uma anedota digna dos Malucos do Riso.

Quem sabe se, dentro de alguns séculos, num futuro longínquo, os nossos descendentes irão erguer altares a uma tal de Elsa, deusa dos festivais de Verão, propiciadora de alegria e boa disposição?

Se lhe derem espaço será uma hipótese tão credível quanto Jeová o foi noutros tempos, tempos de outros festivais.

domingo, junho 18, 2006

Too many happy-meals


Havemos de conseguir. Todas as crianças do mundo terão igualdade de oportunidades perante os bens de consumo correntes nas nossas sociedades demo-capitalistas.
Não é de todo aceitável que continuem a morrer crianças de fome, vítimas de doenças evitáveis com um simples sopro na moleirinha, crianças que nunca pousaram o plácido olhar sobre um écran eléctrico e luminoso. Não é aceitável que continuem a existir países onde as crianças não conhecem o rato Mickey nem o Gato das Botas nem o raio-que-os-parta mais a puta que os há-de parir (aos dois).
É nosso dever e nossa sina proporcionar estas e outras felicidades básicas a todas (mas mesmo todinhas, caraças!) as crianças do mundo inteiro que, de outro modo, nunca será um mundo completo e, muito menos, complexo.
Nem que para isso tenhamos que matar, destruir, trucidar, engaiolar, comprar, vender e trocar tudo e todos como se modernos Nóes fôssemos, reordenando o mundo dos vivos e dos mortos, havemos de conseguir levar a felicidade tão longe que a conquista do espaço parecerá coisa de atrasadinhos a distraírem-se num fim-de-semana com a família.
Todas as crianças merecem ser felizes e todas, sem excepção, merecem ter acesso aos mesmos bens de consumo que este palonço aqui na imagem, símbolo completo ( e complexo) do mundo que andamos a exportar e a construir com a alegria de um estúpido perante a ilusão de o não ser.

Caraças, estarei a passar-me?

Como disse?


Queen of Hearts (sem data)
Tenho cada vez mais dúvidas sobre a possibilidade de uma arte sem objecto poder cumprir alguma função que não seja a de preencher o vazio com outro vazio de igual valor.
O discurso da arte sobre si própria, a reflexão exclusiva sobre os limites do suporte ou em torno da plasticidade dos materiais parecem-me coisas inúteis.
Sei bem que a arte do século XX trilhou caminhos que nos trouxeram até ao futuro presente. Só que me apetece voltar atrás com frequência e regressar, não sair do lugar. Tomar atalhos, misturar as coisas. A originalidade do discurso não se me afigura uma necessidade absoluta. Citar outros, roubar-lhes ideias, copiar-lhes formas. Porque não?
Pintar com pincéis e tinta.
Há qualquer coisa que me obriga a representar figuras humanas. Procuro-as quase sempre no meio do vazio e é com elas que o tento preencher. É uma forma de me sentir humano. Como essas imagens permanecem quase secretas não sei bem se poderão causar sensações semelhantes a outras pessoas e tenho dúvidas sobre se isso interessa mais ao Menino Jesus se à vaca do presépio. Este texto já me começa a parecer quase tão inútil como um objecto de arte sem objecto.

sábado, junho 17, 2006

Sangue, Iago, sangue!

As notícias são o menos. À esmagadora maioria dos jornalistas parece interessar apenas o sangue que as suas penas possam fazer correr. Estes escrevinhadores ou repórteres televisivos (os que usam o microfone como torneira de onde jorra o sangue) são os nossos Iagos e nós, pobres Otelos, vivemos enganados, a desejar a morte a quem não devemos, com o coração dilacerado pela dúvida.

A notícia incide demasiadas vezes sobre o pormenor, o acessório sórdido, o sinal ambíguo que permite a especulação, que dirige o raciocínio ao abismo da mentira ou, pelo menos, da tão pós-moderna "inverdade". Otelo já pede sangue e Iago sente que pode oferecer ainda muito mais.

Todos sabemos que a felicidade não faz notícia, a menos que seja a de alguma celebridade rançosa que se casa ou que tem um filho ou que descobre o amor pela enésima vez no corpo de outra celebridade e vem declará-lo em letras coloridas nas capas das revistas da especialidade. Mas, mesmo nesses areópagos da vacuidade, a intriga e a maledicência são de longe preferidas. E assim vamos erguendo um zigurate tenebroso pelo qual ascendemos à nossa divindade de hoje: a Mentira, essa velha gorda e malcheirosa que habita escondida nos nossos corações e se alimenta incessantemente da crendice que os Iagos deste mundo tão laboriosamente nos oferecem embrulhada em papel perfumado.

A solução (se é que se pode chamar a isto solução!) é tornarmo-nos eremitas da comunicação social cortando relações com o mundo mediático. Escondidos nas profundezas das nossas cavernas cranianas poderemos enfim sonhar e meditar sobre um mundo ideal e vazio onde, além de nós, haja apenas uma luminosa Desdémona a quem possamos oferecer o nosso amor sem um Iago que nos atormente.

quarta-feira, junho 14, 2006

Paciência

Ter paciência deve ser uma virtude mas às vezes apetece pensar que é o pior dos defeitos.
Um dia de trabalho árduo ao ritmo da cafeína ingerida mais que a conta deixa marcas. Um tipo fica entre o excitado e o eufórico, capaz de trucidar os minutos com a eficácia de um Hércules a partir ossos de recém-nascidos. Tungas, tungas, tungas, vai tudo a eito sem hesitação nem temor!
O pior é quando, apesar de todo o esforço, da boa vontade, dos resultados apresentados, da eficácia das acções, um gajo se apercebe que tudo aquilo vale o peso de um saco meio cheio de vento, meio cheio de nada. Afinal nem a satisfação do dever cumprido limpa a cabeça porque um gajo, na voragem criativa, acaba a fazer mais que a conta e, quando dá por ela, já está metido em trabalhos extra porque há sempre uma multidão de canastrões que passam o dia a queixar-se mas, na verdade (e também na realidade) não fazem a ponta de um corno. O dever já tinha sido cumprido anteontem! No fim das contas bem feitinhas os tais madraços ainda levam os louros, são os primeiros da lista e tu... lá te diriges ao balcão e bebes outro café. Antes que a coisa esmoreça.

Paciência! Pronto, lá dás por ti com esta taralhoquice a afagar-te a testa já que a frustração espreita, prontinha para te morder o cérebro com dentinhos de piranha. Paciência? Paciência mas é o caraças!!! Apetece-te espernear, barafustar, berrar um pouco até, para compor melhor a personagem que está quase, quase, fora de si. Falas muito, esbracejas, mas estás apenas a lamentar-te e o lamento anda sempre com a cotação muito por baixo. Não vale nada. Vai outro café goela abaixo e pensas que é necessário tomar uma atitude. Olhas em volta e, finalmente percebes. Não podes vencer, tens de juntar-te a "eles". E lá vais, com uma chávena de café na mão, procurar um lugar vago na parede.
E encostas-te.

A menos que queiras ser santo e garantir um lugarzinho no céu.

domingo, junho 11, 2006

Dia de quem?

Não há nada a fazer. Sempre que se comemora o 10 de Junho as ratazanas saem da toca e vêm vomitar na sarjeta. Nestas ocasiões aparecem uns gajos de cabeça rapada a fazerem de conta que são pessoas e a provocar a boa consciência cívica. Digam o que disserem estes gajos não têm direitos democráticos iguais aos dos outros cidadãos uma vez que pura e simplesmente abominam a democracia e tudo fazem para a mutilar. A democracia não pode ser condescendente com estes energúmenos pois eles, se fossem crescidinhos, haviam de lhe deitar gasolina e fogo em cima.

Aqui há dias foi um pagode. Um destes gajos veio mostrar-se forte e feio num documentário na RTP. Arma em punho, conversa do género "Se for preciso defender a nação temos um exército organizado" e outras balelas do género. Claro que foi preso. Tal demonstração de inteligência emocional diz tudo sobre a personagem. Veio a saber~se que este tipo, um tal de Machado, está a ser julgado por suspeita de envolvimento em vários crimes de delito comum. Desde extorsão a rapto, passando por tráfico de drogas e posse ilegal de armas de fogo, as acusações são tudo menos monótonas. E diz-se este tipo perseguido pelas suas ideias políticas? Parece-me bem que não é esse o caso.

Só não percebo bem a ligação de grupos de criminosos deste calibre com as celebrações do dia de Portugal. Portugal não precisa destes tipos. Precisa de emigrantes dispostos a contribuir com o seu trabalho para o crescimento económico e social. Não precisa de meliantes comuns dispostos a cometer os mais variados tipos de crimes para poderem pagar a rapadela do cabelo e a graxa para as Doc Martens.

Honra seja feita a Rui Tavares pelo excelente texto por ele assinado ontem no Público. Caro leitor se ainda não leste, tenta fazê-lo. Vale bem a pena.

sábado, junho 10, 2006

Umbigos

Hoje vou participar num debate sobre Culturas Comunitárias, Instituições, Auto-Organização e Redes no âmbito de um seminário sobre Arte, Educação e Sociedade. Chiça, a coisa promete! Estarei presente na minha qualidade de professor e dinamizador de uma coisa que chamamos Atelier de Artes na escola onde dou aulas.
Reflectindo um pouco sobre estas questões não tardei a concluir que a principal cultura comunitária dos tempos que correm é a que passa pela televisão. Novelas, futebol, futebol e novelas. A Arte, na verdade, verdadinha, nem sequer para aqui devia ser chamada. A Arte é elitista e causa indigestões e insónias às mentes menos poderosas, habituadas à sua dietazinha de futebol e novelas, novelas e futebol (eu adoro futebol e novelas nem sequer vejo, só para que conste).
Os artistas contemporâneos discursam sem parar e na sua maioria sobre a própria arte e sobre si próprios, remetendo o discurso e as narrativas artísticas para um baú cuja fechadura é o umbigo de cada um. Podemos admirar os baús mas, para podermos dar uma olhadela ao seus conteúdos, teremos de andar a esfurancar o umbigo dos artistas o que, além de pouco higiénico, é extremamente desagradável.
Entre o mundo televisivo e a colecção de umbigos que nos oferece a Arte Contemporânea o povão escolhe rápido. Nem sequer escolhe porque não tem curiosidade pelos umbigos dos artistas plásticos. Se ainda fossem os de Cristiano Ronaldo ou de outro qualuer produto cultural comunitário...
Assim sendo lá irei para o meu debate a pensar nestas coisas e a engendrar um modo de conseguir dizê-las sem ofender nem parecer demasiado acanhado. Talvez ainda dê para ver um bocadinho de televisão antes de sair de casa enquanto dou uma olhadela à História da Arte do Gombrich, o meu Deus e a minha Bíblia. Ou vice-versa.

quinta-feira, junho 08, 2006

Bof!

Um gajo pode chegar ao fim do dia e pensar... bof! Quem dizia isto com frequência era Achille Talon, a personagem de BD. E o que significa bof? Enfado, desconfiança e nem por isso. Hoje, ontem, espero que amanhã não: bof! Bof! Bof! Tanta coisa a fazer. Tanta coisa feita e tão pouco sumo, zero em realização. Até amanhã.

quarta-feira, junho 07, 2006

(...)

Nem o sono vem nem o sonho nem nada que se pareça.
Há noites assim, parecidas com os dias só que sem o sol a iluminar os passos à consciência.
A lua deve lá estar (tem de estar).
Os aviões passam na janela, a piscar luzinhas, descendo para o outro lado do rio perante a indiferença do gigantesco Cristo plantado do lado de cá.
Muitas outras janelas iluminadas deixam imaginar pessoas como eu, debruçadas no parapeito da memória com os olhos passeando sem destino.
Apetecia-me pintar, mas até isso é mentira. Uma mentira caridosa que ofereço à preguiça que me impede de dormir.
Amanhã há um mundo inteiro de coisas por fazer. Caótico, à espera de uma ordem que, não podendo existir, teima em tentar sobreviver uma vez mais.
Assim sendo vou desligar esta trampa e tentar outra coisa qualquer. Talvez dormir. Boa noite.

terça-feira, junho 06, 2006

Querido Presidente

Chegou à minha caixa de e-mail uma petição dirigida ao Presidente da República. Pede-se a Cavaco que venha em defesa do ensino público, afirma-se mesmo que "Vossa Exª saberá certamente melhor do que ninguém como melhor agir face a esta situação e esperamos sinceramente que o faça e o quanto antes melhor." Além do tom geral da carta, que não me agrada e com o qual não posso estar de acordo, parece-me no mínimo sinal de inocência apelar a este presidente que interceda em tal matéria.
Enquanto foi 1º ministro, Cavaco foi responsável por medidas desastrosas no campo da educação. Basta lembrar quando colocou no ministério da educação a agora tão admirada Manuela Ferreira Leite. Comparada com ela a actual ministra é uma mera bonequinha de porcelana.
Não me parece possível que a simples eleição para o cargo que agora ocupa transforme Cavaco em santo padroeiro, uma espécie de Nun'Álvares Pereira de pau carunchoso. Cavaco é Cavaco, nem mais nem menos. Apelar para ele não adianta nada. Aliás nada garante que o cargo actual o leve a ler jornais, coisa que nunca havia feito, a acreditar no que ele próprio afirmava em tempos que já lá vão mas que a memória não apagou. Mas lá terá quem os leia por ele e lhe faça resumos de modo a que consiga compreender o essencial das questões menos complexas. Mesmo assim não vejo como se possa sensibilizar neste capítulo.
por estas e por outras não assinei a tal petição o que não me impede de deixar o link respectivo
http://www.petitiononline.com/piprep/petition.html .
A mensagem acaba com um texto merdoso que anda por aí a infectar a paz de espírito de muito boa gente com um vírus malandro. O autor é certamente um tótó com a mania que tem piada mas que só consegue ser incoveniente de tão grosseiro. O grave será não se aperceber da vulgaridade tremenda das alarvidades que profere. Como não sou uma professora não me parece que seja particularmente ofensivo, apenas grosseiro e estúpido quanto baste.
Estão a dar-lhe demasiada atenção e ele, como estúpido encartado que é, deve estar a pensar que, afinal, até é um gajo do caraças.
Manias.
Sempre gostaria de ser uma mosca para esvoaçar no gabinete do querido presidente no momento em que ele leia o tal texto. Mera curiosidade... mera curiosidade.

domingo, junho 04, 2006

Não dou pra este peditório

A esta hora deve estar a passar no canal 2 da RTP uma entrevista com esta senhora. Como sou professor deveria estar interssado na coisa mas, afinal e de facto, não estou. Nem tão pouco li a versão em papel de jornal que saiu hoje no Público.
Não me seduzem discursos populistas de governantes com mais certezas que dúvidas na hora de atirar a matar. Não me interessam conversas feitas sem margem para surpresas. Não tenho pachorra para a senhora.
O meu objectivo, enquanto professor, é cumprir com profissionalismo as minhas funções. Apesar da ministra. Como dizia a canção de José Mário Branco: "Qual é a tua, ó meu? Neste peditório o pessoal já deu!" Neste caso é só substituir "meu" por "minha". Perde-se a rima mas fica o recado. Estou farto da "minha" ministra.

sábado, junho 03, 2006

Arte

A questão é: "Para que serve a arte?"
Nestes tempos com pós de modernidade a resposta não entusiasma ninguém. Está entretida por discursos crípticos que nem aqueles que os produzem parecem compreender. O que são as modernas instalações conceptuais comparadas com as pinturas rupestres conhecidas? Eu respondo; são uma merda.
(complemento)
Mas se comparadas umas com as outras, as ditas instalações e outras manifestações artísticas contemporâneas, já são outra coisa.

Se a pós-modernidade relativiza tudo, então também no campo da arte acaba por encontrar justificação para certas realizações menos... ortodoxas, por assim dizer.
Resumindo, se compararmos um monte de merda com outro monte de merda poderemos estabelecer parâmetros de avaliação que os tornem menos merdosos do que poderiam parecer à primeira vista.
É uma questão de perspectiva.

Por nada

O tempo de olhar para trás nunca mais acabava. Assim, da janela para baixo, o mundo até poderia estar de pernas para o ar. Mas tenho a impressão de que não estava e que ainda se encontra mais ou menos da mesma maneira. Sujo, pequenino e lá em baixo na rua. Nem mais nem menos.

O vizinho lá estaria, a morrer, como sempre, com aquele olhar de quem está farto da vida e tem saudades do cabelo. Já deixara de chatear. Parecia que tinha perdido a força de se intrometer nos minutos menos interessantes e nos outros todos, a importunar os momentos de intimidade sem pedir licença. Como se fosse dono do tempo e o obrigasse a ser sempre tempo de olhar para trás. E era por isso que nunca mais acabava. Mas agora talvez isso já fosse passado, não me lembrava bem.

Talvez o tempo resolvesse andar e ir dali para fora, para a frente, que é o sentido que imaginamos que o tempo usa nas suas deslocações. Dantes o tempo andava mais às voltas, nos mostradores dos relógios, como um cão estúpido a tentar morder a cauda. Ou talvez fosse alguma pulga maldita. E rodava, rodava, rodava, dando aquela sensação de que as coisas recomeçavam continuamente, sem nunca se cansarem de ser coisas que é algo complicado porque uma coisa, para ser coisa, é porque ainda não tem um nome que lhe dê um lugar no mundo.

O tempo novo, digital, brilhante e despachado, um pouco frenético, reconheço, desloca-se na vertigem dos dígitos. Então se o mostrador for daqueles que marcam os milésimos de segundo, um gajo até pode perder o tino a olhar para ele. Imaginar que está a envelhecer aquela velocidade não deve dar saúde a ninguém a menos que se tenha vontade de morrer e não haja coragem de trocar o relógio por uma pistola encostada ao céu da boca. A táctica que eu gostava de ter ensinado ao meu avô consiste em desviar o olhar e fazer com que o tempo fique suspenso. Esquecendo o relógio o tempo é capaz de se descontrolar.

A suspensão da acção é uma arte imensa. A arte consiste na capacidade de utilizar essa suspensão no momento certo (ou no momento errado, acho que tanto faz) acreditando que conseguimos realizar algo no momento imediatamente anterior à suspensão do gesto, da acção, do pensamento, seja lá o que for que estejamos a utilizar. A arte é isso mesmo. Suspensão. Depois o objecto que criamos fica para ali, suspenso, fora do tempo, à espera de uma presa que será o observador.

A arte é como um bicho de atalaia. E o tempo, com a arte, não brinca. Penso que seja por não poder. Porque o tempo é como meu vizinho. Intromete-se, atrapalha o descanso, faz da nossa intimidade algo que pretende tirar-nos. Não é que queira fazer nada com o que nos tira. É só para chatear. Porque isso de ser tempo, eterno, a andar em circunferência ou aos pinotes de dígito para dígito, também deve ser uma seca das antigas!

segunda-feira, maio 29, 2006

Má ideia

A proposta de alteração ao estatuto da carreira docente apresentada pelo Ministério da Educação resulta de uma necessidade. A forma como se vem organizando o percurso profissional de milhares de professores configura situações desastrosas e injustas para muitos deles (de nós, professores). A progressão quase automática tanto do monga que se balda com frequência e destempero quanto do rato de biblioteca que, além de ser assíduo e pontual ainda tem o desplante de se interessar pela qualidade do seu trabalho, não pode continuar a vigorar. Se um professor não presta não presta mesmo. O corporativismo de que somos tão frequentemente acusados é um facto. Esta situação precisa de ser revista, sem dúvida, é necessário repensar os processos de avaliação de desempenho. De acordo.

Assim à 1ª vista a proposta agora parida pelo Ministério da Educação tem alguns objectivos mal escondidos. Por um lado. em nome do rigor na avaliação, parece pretender-se restringir o acesso de professores aos escalões mais elevados da carreira. A preocupação não será a de melhorar a qualidade do ensino mas sim reduzir os gastos com o pessoal. Prova disto é a ideia peregrina de pôr encarregados de educação a contribuir para a avaliação do desempenho profissional dos professores. Se não fosse tão malévola não passaria de uma má ideia. Mas o populismo da proposta mostra bem as linhas com que se cose a ministra. Até acredito que, no processo de negociação que se vai seguir, deixe caír esta proposta imbecil. Mas o odioso da questão vai incidir nos professores que, perante a opinião pública, vai surgir como uma classe que não aceita ser avaliada, que apenas pretende boa-vida e pouco trabalho. A ministra é mesquinha. Se não é mesquinha, se age com boa vontade e intenções realmente puras, então que me desculpe. A imagem que exporta é, então, de alguém que anda à deriva e muito mal aconselhada.
Cuide-se, minha senhora, tenha lá cuidado com as companhias.

sábado, maio 27, 2006

Export-export


Continuo com dúvidas do tamanho de uma manada de camiões. Exportar a Democracia será um bom negócio?
Têm ficado os importadores do nosso modelo político e social a ganhar alguma coisinha que se veja quando põem o brinquedo a funcionar, lá na terra deles? Quer-me parecer que não. Quer-me cada vez mais parecer que andamos a vender gato por lampreia e por detrás do nosso Humanismo versão século XXI anda asneirada da grossa escondida com um grande mangalho de fora.
Tudo estará bem quando, num novo território bafejado pelo hálito a rosas das democracias capitalistas, abrir um Mc Donalds e estará perfeito quando chegar o Kentucky Fried Chicken, tudo regado com a melhor Coca-Cola da última colheita. E nós fazemos parte desta merda, somos peças da máquina que provoca problemas mesmo querendo ser peças da máquina que engendra soluções. Tá mal!
Temos uma vinhaça tão baril... se exportássemos apenas Baco aos pedacinhos e metido em garrafas não seríamos mais felizes e, sobretudo os importadores, não seriam muuuuito mais felizes? Temos por aí deuses aos pontapés e insistimos em exportar o mais escorregadio de todos, o Deus Dólar (nem sequer podemos pôr no altar o Deus Euro!). Chiça penico!

sexta-feira, maio 26, 2006

Timor is back!


As coisas estão azedas para os lados de Timor. Os acontecimentos dos últimos dias chegam até nós em ritmo acelerado. Ouvimos novamente falar de Timor com uma frequência assustadora. Isto porque os factos narrados são deveras assustadores.
Mortes e saques, assassinatos, fugas em massa, refugiados, a comunicação social volta a ter assunto e não se faz rogada. Uma confusão de ditos e não ditos, acusações cruzadas entre Xanana e Alkatiri, entre polícias e forças armadas, um novelo complicado e difícil de desenrolar.

Como se chegou a este ponto? Que razões estarão na base de tão desgraçados eventos? Desgoverno, dizem os australianos que entretanto enviam tropas para sossego da população. Sim, parece existir uma situação de impasse entre diferentes grupos no seio das instituições que governam o país, de tal modo que a solução para as desavenças tem sido a velha violência. Pura e dura com sangue e mortes sem remédio.

Regressam apressadas as forças que entretanto já iam abandonando o território, a GNR entre elas. Estabelecem-se novas pontes de solidadriedade. Sobretudo fala-se de novo sobre Timor. Parece que apenas a desgraça é capaz de dar visibilidade àquele território perdido. Os motivos da desgraça? Podemos apenas deitar-nos a adivinhar.

Talvez nos próximos dias se faça alguma luz sobre o assunto. Agora que Timor está de novo a arder talvez possamos saber com algum pormenor o que se tem passado desde a independência até à actualidade. Talvez agora nos contem a história desse tempo "morto" em que, não havendo mortes violentas, parecia não haver assunto para qualquer tipo de notícias.

Um horizonte enfeitado por uma casa em chamas com pôr-do-sol ou um militar levando ao colo um colega moribundo e pintado de sangue são imagens de uma irresistível beleza. Fazem belas capas de jornal e despertam o sonho na cabeça do cidadão-de-classe-média nostálgico das guerras ultramarinas.

Timor is back!

quinta-feira, maio 25, 2006

O balde

Todo o estardalhaço mediático a propósito do livro de Maria Carrilho, o Manuel, mostra bem a natureza daquilo que está em causa. É tudo uma questão de marketing.

Ficámos a saber que as candidaturas a cargos políticos vivem tanto das campanhas organizadas por agências de publicidade quanto o azeite Galo ou o Mateus Rosé. Todos querem chegar ao grande público dê lá por onde der, seja como fôr. Os publicitários, desde que haja dinheirinho, fazem o seu trabalho com empenho e seriedade vestino a camisola do momento não importando qual a que trazem por baixo. Carrilho, no trôpego debate do Prós e Contras na RTP1, chegou mesmo a falar em mercenários, como se nunca tivesse recorrido aos serviços desses profissionais da venda a retalho.

Ainal de contas não há surpresa nem espanto em relação a este facto. A nossa sociedade não é um "Capitalismo Demo-Mediático"? (o "Demo" é de democracia e não relativo ao "chifrudo") O que não tiver visibilidade mediática é como se não existisse, a Democracia só existe nos écrãs da TV e o Capitalismo compra tudo, compra os écrãs, os políticos e as empresas de tratamento e comercialização de imagem.

Só não percebo muito bem é se Carrilho não vê o mundo em que vive e no qual pretende protagonismo e visibilidade. Ele, que é um tipo inteligente, decerto compreende na perfeição as linhas com se cose. Após ter entrado no mecanismo da imagem mediática, o indivíduo tende a ser mastigado, mastigado, ensalivado e, uma vez perdido o sabor, cuspido para o baldinho dos escarros. Carrilho já nada no baldinho mas teima em não aceitar essa situação, mesmo que seja transitória. Vem agora com arremedos de virgem ofendida justificar a derrota nas autárquicas com campanhas organizadas contra a sua pessoa e respectiva família no tenebroso mundo mediático. Ninguém se acredita que o filósofo seja tão inocente e tão canhestro ao mesmo tempo que não tenha ainda percebido que jogando com as mesmas armas do adversário, se foi derrotado, talvez tenha sido culpa própria.

Não deixa de ser estranho que tenha tido ao seu lado, no tal debate da RTP1, um tipo que em tempos afirmou que vender sabonetes era mais ou menos o mesmo que vender presidentes da República. Ironias do destino neste mundo virtual que, por o ser, não chega a existir para lá de si próprio. Esta historieta toda junta não vale os escarros no balde.

domingo, maio 21, 2006

Frei Bento


Frei Bento Domingues é um daqueles homens que conseguem falar de Religião sem se porem a ditar sentenças directas à cabeça de quem os ouve. Tenho o hábito de ler as suas crónicas semanais, aos Domingos, no Público. É sempre um momento de intensa reflexão que faz hesitar nas minhas posições mais heréticas. Na verdade (ou será na realidade?) raramente discordo com a perspectiva de Bento Domingues. Ele vê a Religião numa perspectiva humanista que muito me diz.
Na realidade (ou será na verdade?) sempre me considerei um Cristão por nascimento e cultura. Os meus problemas começam sempre à porta da igreja. O catolicismo causa-me náuseas profundas e tonturas incontroláveis. Aqui residirá a minha distância em relação a Frei Bento Domingues mas ele decerto me compreenderia caso tivessemos oportunidade de trocar ideias sobre o assunto.

http://www.triplov.com/espirito/frei_bento/

Aqui se podem encontrar alguns textos interessantes. Reflexões sérias e inteligentes. Abominar o catolicismo não me impede de admirar alguns católicos (na verdade admiro muitos).

sábado, maio 20, 2006

Amor com amor se paga

Lá fui ver o filme. Acho que nem é bom nem é mau, é uma coisa assim-assim.
Estará cheio de erros de interpretação da História, também me parece. O autor do livro tem uma imaginação criativa interessante, disso não restam dúvidas. O fundo da "cena" é sem dúvida fortemente anti-católico e de um cristianismo lírico, e depois? Não me parece que isso constitua motivo para tanto alarido.
Acaba por ser um filme um tanto maçador. Mas como não li o livro acredito que também a obra escrita de Dan Brown o seja. Como a espada de D. Afonso Henriques que era, ao que consta, comprida e chata.
Apesar de tudo vê-se. Sem grande emoção, podendo mesmo produzir um ou outro bocejo, chega-se ao fim mais ou menos como se tinha partido.
A preocupação da Igreja Católica parece-me exagerada, por um lado, e justificada, por outro.
Para pessoas como eu, que até andei na catequese quando era criança, há algumas questões que se levantam. Na verdade a intolerância da Igreja foi o primeiro safanão no meu catolicismo tinha eu para aí 12 ou 13 anos e uma reflexão mais atenta pôs-me fora lá para os meus 14.
Desde aí sou um forte crítico do catolicismo que é, na minha óptica (e aqui a minha opinião coincide mais ou menos com a de Dan Brown) um dos maiores logros da História do Ocidente com o objectivo último de oprimir o pensamento livre.
Já para quem não perceba nada de Cristo nem tenha a mínima noção dos conteúdos gerais dos Evangelhos, o Código Da Vinci poderá parecer demasiado real e bem fundamentado. É isso que põe a Igreja aos pinotes!
Os chefes católicos sabem bem que a ignorância é uma fraqueza terrível uma vez que a acarinharam ao longo dos séculos como forma de melhor oprimirem os fracos e ignorantes. Só que agora, num mundo mediatizado mas igualmente inculto e largamente estupidificado, a Igreja não detém o Poder de outrora e não consegue censurar a informação consoante os seus interesses, daí que veja o seu próprio veneno a contaminá-la. Isso incomoda-a e faz com que mostre as garras e os dentes afiados. Mas já não mete medo a ninguém.
Sendo assim, ironia da História, a Igreja Católica, mestra da ilusão e do misticismo, vê um tipo qualquer chamado Dan Brown utilizar as mesmas armas contra ela com larga difusão mediática. Haverá erros e "mentiras" na historieta do Código Da Vinci, não duvido. Tal como nos Evangelhos canónicos e na Doutrina Católica.
Amor com amor se paga.
Aguenta e não bufa!

quinta-feira, maio 18, 2006

Teologia de trazer por casa

Há uma coisa que de vez em quando me vem fazer cócegas no cérebro. É a distinção entre Verdade e Realidade. Enquanto a questão foi como algo que dormia no meu regaço, sem que me apercebesse da sua existência, nada! Estava lá mas eu não sabia, logo, como diz o povo, "olhos que não vêem, coração que não sente" ( O povo diz isto, não diz? Pelo menos acho que dizem que diz!)
Mas um belo dia, ia eu ao cinema com a família ver Big Fish, o filme de Tim Burton e a questão surgiu de um local improvável: da boca da minha filha. Na altura teria ela uns 10 anos, não sei bem, e estávamos a recordar os filmes de Burton que já haviamos visto. Eduardo Mãos-de-tesoura, Marte Ataca, Pee Wee Big Adventure, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça, Ed Wood... aí a mãe perguntou que filme era esse, Ed Wood? A miúda explicou que se tratava da história de um realizador de cinema que era um tipo estranho. E estranho porquê? Estranho como? Estranho porque não percebia a diferença entre verdade e realidade. Póinnn, ficámos de olhos arregalados a pensar no assunto que, para a criança, era de uma limpidez absoluta.
Lá fomos ver o Big Fish (ainda recentemente revimos o filme) e, desde aí, a pergunta visita-me de vez em quando.

Vem isto a propósito da questão em redor da estreia nos cinemas de O Código da Vinci e da agitação que vem causando entre católicos apostólicos romanos. Insurgem-se por considerarem que o filme divulga "mentiras" sobre a figura de Jesus. Andará tudo à volta da suposição veiculada na obra de Brown de que Jesus teria constituído família com Maria Madalena. Sacrilégio! Blasfémia! Para os guardiões da Fé católica isto não passa de uma fantasia.
Tudo bem, estão no seu direito.

Convenhamos que a dita Fé se baseia em pouco mais que suposições e enormes doses de imaginação perdida nas brumas do tempo. Evangelhos adoptados e por adoptar. Traduções manhosas de textos supostamente sagrados. Anjos a ditarem textos a evangelistas semi-analfabetos... fantasias!

A religião não se baseia em factos, se assim fosse dispensava-se a Fé. A religião baseia-se em crenças. Acredita-se na existência de Deus e, a partir dessa crença fundamental, tudo é possível. Dá até para acreditar que a mulher foi criada a partir de uma costela do primeiro homem. É um pormenor abstruso. Porquê de uma costela? Deus não tinha melhor matéria prima à mão de semear? E por aí fora.

Ora é por esta altura que regressa a questão da Verdade e da Realidade.
Pensando bem são coisas completamente distintas.
Deus, por exemplo. Pode muito bem existir na Verdade e andar muito longe de existir na Realidade. E vice-versa.
Pode ou não pode?

quarta-feira, maio 17, 2006

Tá calado!



Há dias em que nada parece valer a pena e um gajo dá por si a perguntar: será que posso recomeçar e ser tudo o que nunca fui outra vez?

Se um gajo fizer uma pergunta destas a si próprio o mais certo é não ouvir a resposta o que não faz mal nenhum.

domingo, maio 14, 2006

Uma visão mística


O Dinheiro é o nosso Deus e a Economia a religião que dá consistência à doutrina e sustenta o Templo.
Os grandes sacerdotes vivem na sombra de inimagináveis palácios. Nós, os simples, podemos apenas ver a carne (o osso está escondido bem fundo em camadas sucessivas das mais variadas gorduras) de pequenos fantoches que dão a face e escondem os mestres. Economistas de trazer por casa, banqueiros de opereta e demais personagens, enforcados em gravatas de sêda, não passam de esbirros e serviçais que engordam em banquetes de migalhas que os verdadeiros (grandes) sacerdotes sacodem da altura das suas mesas, quando são atacados de flatulência e fastio. Estes pequenotes mal conhecem a superfície dos Mistérios da Economia Real.

Nós, os basbaques que com suor e trabalho, contribuimos para o sustento do Templo, somos forçados a acreditar na bondade das intenções dos que ditam o futuro e nos aterrorizam com o apocalipse do Défice e da bancarrota. Os Grandes Sacerdotes profetizam, baseando as suas visões em gráficos complexos e orçamentos equilibrados na leitura de números implacáveis.

Somos levados a crer que vivemos no melhor dos mundos possíveis, tal como Cândido cada um de nós tem o seu Pangloss e não consegue vislumbrar outro modo de existir que não seja aquele que nos é imposto. Afinal de contas não somos capazes de mudar o Mundo! Ou somos?

sábado, maio 13, 2006

Ferramenta no armário

Willem (Bernhard Willem Holtrop) – FrançaUntitled – Libération (França) – 1/Dez/05

A igreja católica vai andar outra vez nas conversas de ocasião. A próxima estreia do Código Da Vinci nos cinemas por esse mundo fora já está a agitar os católicos mais fundamentalistas. A fúria divina desses guardiões do templo é uma óptima publicidade para o filme. Nada melhor que uma boa polémica para fazer disparar as audiências.
O filme até pode não ser nada de especial mas o cheirinho a escândalo promete encher as salas.

Convenhamos que em matéria de escandaleira os chefes da igreja não são lá muito versáteis sempre que tentam deitar alguma água na fervura. Com os casos de abusos sexuais sobre crianças a fazerem muito mal à imagem da padralhada resolveram agir declarando que os homossexuais seriam denunciados e postos a andar de malas aviadas em direcção ao inferno.

Com esta atitude mostraram, mais uma vez, que não compreendem o mundo que os rodeia. Por um lado associaram estúpidamente abuso sexual de menores com homossexualidade, por outro vieram confundir as almas das ovelhinhas mais simples.

Então os padres não fazem voto de castidade? Se juram ao Eterno que não darão uso à ferramenta qual é a diferença de serem homo ou hetero? É para rir.

Idolatria?

Esta cena da Nossa Senhora de Fátima é um caso sério. Raras vezes uma boneca levou tanta gente à loucura. Talvez só mesmo a Barbie consiga atingir semelhantes índices de popularidade mas não consta que haja criancinhas dispostas a rastejar ou andar centenas de metros de joelhos em sinal de devoção à sua boneca preferida.

O terceiro "F" da portugalidade tem hoje o seu dia. Brevemente teremos a final da Taça de Portugal em futebol. Não sei quando, lá virá a grande noite do fado.

A imagem da Virgem é uma pedra no sapato da religião católica? Talvez, já que configura uma situação de idolatria pura e dura. Lembremos a recente procissão pelas ruas de Lisboa com milhares de pessoas a encomendarem-se... à bonequinha. O Povo é mais dado a compreender o papel da santa do que questões teológicas complicadas. À Senhora pedem-se favores, umas cunhas nas mais variadas situações e, como não se lhe pode oferecer um presuntinho ou um garrafão de azeite, vai de esfolar os joelhos em sinal de gratidão.

Pois, talvez esteja a ser demasiado cruel para com a Fé do meu Povo. Talvez precise de ir até ao santuário de Fátima e sentir a força da credulidade da multidão para ganhar alguma humildade que me falte. Talvez... mas não me parece que adiante grande coisa. Não sou gajo de acreditar em milagres ou em aparições sobrenaturais.
Mas lá diz o dito "não acredito em bruxas mas que as há, há!". Talvez haja. Talvez...

sexta-feira, maio 12, 2006

Iupiii!!!

Portugal é um país de mendigos. Os pobres mendigam nas ruas, os remediados mendigam pelos corredores do poder e os ricos mendigam ao grandes do capital, normalmente estrangeiros. Ninguém está satisfeito com aquilo que tem. Uns com mais razão outros com menos, anda tudo a reclamar da sorte e a dizer mal de um Deus que parece ter esquecido todos os sacrifícios feitos em Seu nome por gerações sucessivas de portugueses. Nem com a queima de judeus lá fomos, nem o ouro do Brasil nos bastou. Toda a riqueza que entrou, saiu a toque de caixa pelo outro buraco, no fundo da caixa.
Parece que nunca fomos capazes de perceber como devíamos investir a riqueza que nos ia chegando à praia. Tratando sempre de a estoirar logo ali em nome do prazer, de Deus e do momento. Uns cromos!
Assim começou a célebre "crise" de que tanto se fala. É difícil situá-la no tempo. Parece existir desde sempre, embora continuemos a ouvir falar dela como se houvesse algo antes e alguém acredite que possa haver algo depois. A "crise" instalou-se e deprime os portugueses. Como não sabemos bem quando nasceu o bicho estamos deprimidos desde sempre, a cantar fado e a empolgar-nos com o mal dos outros já que o nosso bem parece ser coisa impossível de alcançar.
Dançamos sempre o mesmo passo de dança, sem tirarmos as patas do mesmo sítio, a rodopiar no vazio do destino que, acreditamos fatalmente, já está há muito traçado nos livros arrumados nas estantes do Paraíso. E que destino é esse?
O destino dos portugueses é a mendicância, a depedência da caridade alheia, a pobreza eterna. Quanto mais não seja a pobreza de espírito.

Iupiiii, assim não temos de trabalhar! Do mal o menos.

quarta-feira, maio 10, 2006

Anjos

"Dizem-me que Vossa Excelência segue os ensinamentos de Jesus e acredita na promessa divina do reinado dos justos. O regresso à palavra divina dos profetas é o único caminho para a salvação. Aceitará este convite?" Segundo o Público, esta é uma passagem da carta enviada por Mhamoud Ahmadinejad, presidente da república Islâmica do Irão, ao seu inimigo figadal George W. Bush.

O que terá passado pelo cérebro de Bush ao deparar com estas palavras tão amenas? Haverá realmente um caminho para a salvação? E o que quer salvar o iraniano? A sua alma, as nossas almas, apenas as almas dos adeptos do Islão? A coisa é grave.

A religião tenta regressar ao lugar do piloto que conduz os destinos do mundo. Seja pela mãozinha marota da Opus Dei ou pela beiça melada de Ahmadinejad, o canto da sereia volta a ecoar pelos 4 cantos do planeta a prometer a salvação, o paraíso e mais que se deseje que a coisa também se faz por encomenda.

O problema é que (Ahmadinejad também refere isso na sua carta) aquilo que designamos por Democracias Liberais, com toda a sua lógica depositada na livre concorrência, essa face luminosa do capitalismo selvagem, têm vindo a desiludir em todo o lado por não resolverem os problemas sociais que vão gerando e ampliando por esse mundo fora.

A exportação forçada do "nosso" modelo político e social tem gerado as maiores abortices materializadas em regimes muito baços e pouco recomendáveis. Os problemas reproduzem-se e não se vislumbra quem tenha vontade de encontrar verdadeiros antídotos para os diferentes venenos que vão atirando o Ocidente para o cantinho do descrédito. O Humanismo é cada vez mais difícil de explicar aos putos, nas aulas de História. Não percebem do que se está a falar.

A via religiosa lá vem, regressando do fundo dos tempos, uma perninha já fora da zona de sombra, a mostrar vigor e força para andar. Adivinha-se o monstro que lá vem, mas estamos demasiado ocupados a discutir se Deus é o Dolar ou se poderemos considerá-lo deposto pelo Euro, essa jovem divindade ascendente.

Quando dermos por ela, regressam os velhos deuses que, como sempre fizeram, se alimentam dos que presentemente adoramos.
E se são gulosos!

Tá bonito, tá!

domingo, maio 07, 2006

Riquexó


Lá se cumpriu mais um congresso partidário e bem patusco, por sinal. O líder queria saber quem era por ele e se havia muitos contra ele. Ficou mais ou menos informado e nem por isso aliviado.
Surpresa? João Almeida surge como uma força dentro do PP o que só poderá surpreender quem pensar que aquilo é um partido para levar a sério.

Vi o jovem Almeida a discursar. Foi só um bocadinho mas deu para perceber que o discurso dele é tão vazio como os bolsos de um desempregado de longa duração. Apesar do aspecto enérgico e do dramatismo que empresta a si próprio, percebe-se com facilidade que por ali não passa nada.

Ouvi-o, no tal pedacito de discurso, reclamar que o PP necessita de se afirmar, mostrar aquilo que o distingue do PSD e blá, blá, bló. Ora, era isso mesmo que eu gostava de ver; o PP apresentar-se sem o amparo do PSD a umas eleições legislativas. Duvido que a ideia entusiasme muito personagens como Nuno Melo ou Telmo Correia. Mesmo Pires de Lima, apesar de todo o sex appeal que o caracteriza, deve perceber que, na melhor das hipóteses, o grupo parlamentar voltaria a caber inteirinho num táxi.

Eu, que não gosto deles e acho que sou apenas um entre milhões, arriscaria mesmo que poderiam alugar um riquexó para se deslocarem até à Assembleia. Enquanto um puxasse o outro ia estudando a papelada. Na melhor das hipóteses.

Em trânsito

Quem se lembra de Fernando Gomes, o ex-presidente da Câmara Municpal do Porto? Aquele tipo, com um penteado especial, que chegou a Ministro da Administração Interna num governo PS e desceu até Lisboa para governar.
Lembram-se como, enquanto ele foi ministro, o nosso país resvalou para um clima assustador de insegurança, trazido na crista da onda de um maremoto mediático que deixou a nação portuguesa submersa em medo e pânico?
No entanto, tanto quanto me é possível recordar, fora das páginas dos jornais e dos estúdios de televisão, Portugal estava mais ou menos na mesma, como a lesma.
Fernando Gomes, com a sua figura impossível, a pose hirta e o discurso canhestro, não foi capaz de se aguentar à bronca e saiu borda fora, cuspido num safanão mais violento, de volta às tripas à moda do Porto, de onde nunca devia ter saído. Foi aquilo que se pode chamar um assassinato político perpetrado na imprensa.

Freitas do Amaral tem andado a ser espicaçado nessas mesmas páginas. Nos últimos tempos o homem não pode dar um peidinho que ganha logo proporções de diarreia! Convenhamos que o actual Ministro dos Negócios Estrangeiros tem dado todas as possibilidades aos que lhe andam a fazer a cama que lha façam com lençóis de serapilheira e almofada cravejada de alfinetes.

Primeiro foi aquela treta desajeitada sobre os cartoons (quem se lembra da "crise" dos cartoons?). O MNE meteu os pés pelas mãos e acabou a dar o dito por não dito. Uma confusão.
Depois entendeu por bem meter-se noutra trapalhada por causa dos emigrantes expulsos do Canadá, cometendo algumas gaffes dignas de um principiante borbulhento.
Agora é o Expresso que utiliza abusivamente algumas declarações do ministro para dar a impressão de que ele está à espera de ser atirado borda fora ou até de saltar por iniciativa própria, com o comboio em andamento. Convenhamos que o homem insiste em ir à floresta buscar lenha para se queimar com a inocência de um Capuchinho Vermelho.

Confesso que Freitas não é figura das minhas simpatias. Nunca foi e, como em política sou muito rancoroso e abuso da memória sempre que posso, nunca será. Mas uma campanha mediática destas dimensões entra pelos olhos dentro do mais cego dos cidadãos.
Como realça Mário Mesquita no Público de hoje, Freitas deslocou-se no sentido errado. Vem da Direita para a Esquerda e cruza-se com Sócrates, a deslocar-se no sentido inverso. Os pequenos monstros que deixou pelo caminho e que agora se amontoam como larvas em cima de um cadáver naquela espécie de partido que se chama CDS-PP, não lhe perdoam a "deserção" e andam em cima dele como autênticas carraças.

Não digo que é bem feito, mas não me comove particularmente. No entanto mete um bocado de nojo ver o que estão a fazer ao "camarada" Freitas esventrando toda e qualquer afirmação que produza em público com uma elegância digna de um talhante.

Mário Soares disse um dia que "Só os burros não mudam de opinião." Lamento dizer-lhe, caro Mário, que isso era dantes, no seu tempo. Agora as coisas não são bem assim, nem são antes pelo contrário. São aquilo que quem detém o poder de titular jornais quiser que sejam.
Sim, porque se um gajo ler mais do que o título de uma entrevista talvez perceba o que quer o entrevistado dizer.

sábado, maio 06, 2006

Trabalho infantil

É uma coisa que me faz alguma confusão. Como decidem os legisladores sobre os limites do trabalho infantil?

Se um puto anda a acartar baldes de massa nas obras ou a cozer sapatilhas numa fábrica clandestina é caso de polícia. Se anda a decorar páginas de diálogos imbecis e a filmar 12 horas por dia a lei deixa passar e o juíz ainda assiste à novela das sete enquanto descansa os pézinhos.

Nas passerelles e nos plâteaus as crianças não trabalham? Se calhar estão ali por divertimento. Qual será o critério? Quer-me parecer que é uma questão de classe. Classe social, é bom de ver. Os filhos das classes médias não se dedicam a criar calos nas mãos, criam-nos mais facilmente no cérebro. Já os filhos das classes mais baixas dão o corpo ao manifesto de outra maneira e isso não pode ser. A lei condena e a boa consciência social aplaude.

O problema é bicudo e não me quero meter nele mais do que um bocadinho. Olhando para o marmanjito na foto podemos reparar que tem um sorriso bem construído e se estivesse a cozer bolas de futebol para o campeonato do mundo dificilmente ostentaria uma alegria como a que parece transpirar nesta imagem.

Outro aspecto que distingue os trabalhadores infantis é o dinheiro que ganham com o trabalho que realizam. Mas isso não se passa, também, com os adultos? Se um tipo trabalho muito e ganha pouco é um quase-escravo. Se trabalha muito e ganha muito é um quase-patrão.

Depois há a questão da exposição pública. Um puto que esfole a mioleira a telenovelar tem, ainda, o "benefício" de ser reconhecido na rua e pode (glória das glórias) dar uns autógrafos a fãs de guardanapo de papel em punho. Um pobre operáriozinho, na melhor das hipóteses, poderá sentir uma pontinha de felicidade por contribuir com uns cêntimos para mitigar a penúria lá na barraca.

A objectividade e a imparcialidade na análise destas situações não são o nosso forte. Pois não?

New World

Raras vezes uma história de amor foi filmada com tal beleza. O filme é mesmo estranho! As personagens são como fantasmas e o cenário é um mundo encantado. No fim é como se tudo tivesse começado. Caramba, que coisa!!!

sexta-feira, maio 05, 2006

Ready-mades

Foi Marcel Duchamp quem introduziu o conceito. Recolhe-se um objecto, retira-se do contexto que lhe reconhecemos como "habitual" e recontextualiza-se num novo ambiente. De imediato as leituras possíveis do objecto ganham novos contornos e dimensões. O mais célebre ready-made da História da Arte será o urinol que Duchamp assinou e intitulou "A Fonte" considerada, no ano de 2005, como a obra de arte mais significativa da Arte Contemporânea.

Na imagem acima podemos ver o interior do Museu Britânico. Os visitantes admiram os despojos de um frontão grego ali exposto. Adivinha-se o formato triangular do conjunto. Originalmente foi um conjunto escultórico criado para um templo.

O que faz aquilo ali, ao nível dos olhos, sem o peristilo nem o friso, cortado às postas, com papelinhos por baixo que saltam à vista como gritinhos estridentes? Onde está a cor que outrora revestiu aquelas formas, a pujança visual da arte grega que apenas podemos adivinhar? Não será aquele objecto um ready-made?

Os responsáveis pela exposição dos objectos nos museus não serão considerados artistas mas isso parece-me uma tremenda injustiça. São artistas, sim senhor, Dadaístas na esmagadora maioria.
Arriscaria a opinião de que todos os museus são imensas (por vezes insuportáveis) manifestações dadaístas. Raros serão os objectos que expõem que tenham sido criados especificamente para lá serem colocados.
Uma sala de museu é uma colecção de ready-mades!

Já a casa-de-banho dos homens não poderá ser considerada uma instalação, com todos aqueles urinóis alinhados na parede, mas anda lá perto. Ainda por cima existe interacção permanente com os visitantes que lhes mijam para dentro. Magnífico!

quarta-feira, maio 03, 2006

Coisa ruim!

Cinderela ao Contrário? Que raio de coisa quererá isto dizer? Que a senhora lavava o chão de algum palácio com a cabeleira, de pés para o ar, quando ainda era tenra e jovem? Que em vez de ter uma abóbora por veículo andou de ratazana naquela noite em que perdeu um sapatinho de látex? A imaginação humana não conhece limites e não paramos de ter provas disso.
A nova obra literária promete revelações arrepiantes como, por exemplo, o 1º beijo desta Cinderela de trazer por casa ou ainda a fase difícil que atravessou após o divórcio. Sim, divórcio! Pois se até a rainha de Inglaterra arranjou um gajo que casasse com ela porque raio não haveria esta princesinha de conseguir o mesmo feito extraordinário?

Humor de pacotilha à parte, a coisa promete! Se provas faltassem sobre a dimensão do bom gosto desta senhora e dos amigos, bastaria olhar a imagem acima com olhos inocentes, sem maldade nem nada. Que coisa ruim! Que esgar arrepiante nos é oferecido sob aqueles olhos demoníacos, numa malévola imitação de um sorriso.
Meu Deus.

P.S. Oferece-se o convite que serviu de modelo à imagem deste post a quem provar ter estômago para se deslocar ao Centro Cultural de Cascais no próximo dia 11 pelas 18 horas.
Como é diferente a cultura para os lados de Cascais, caraças!

Daumier

Crispin et Scapin, tela, 60 cm x 82 cm, c. 1863-65
Honoré Daumier . Caricaturista, gravador, escultor, pintor... um nome a descobrir por todos aqueles que não reconhecem de imediato a excelência do seu trabalho. Uma pesquisa na NET poderá revelar-te este artista do século XIX, normalmente etiquetado como figura proeminente do Realismo oitocentista. Nas artes plásticas e não só.
Quando abro o Google e busco imagens de Daumier tenho um longo e agradável passeio garantido.

segunda-feira, maio 01, 2006

Pergunta ao espelho

De súbito saltou-me uma pergunta dentro da cabeça: os putos deixaram de ser curiosos ou estarão, simplesmente, viciados? Eu explico (se for capaz). Porque razão a Escola é, cada vez mais, uma seca das antigas? Serão os assuntos abordados desinteressantes? O problema estará nos processos adoptados, no arcaísmo dos materiais pedagógicos? O que se passa?

Aqui há 3 ou 4 anos atrás, durante uma aula de Geometria Descritiva, um aluno do 10º ano de escolaridade pediu a palavra, interrompendo a explicação de um exercício prático. Apesar de ser inoportuno, deixei-o manifestar-se. Ele disse qualquer coisa como "Não estou a divertir-me nada!" Fiquei estupefacto. Nunca me passara pela cabeça que uma aula de Geometria Descritiva pudesse ser divertida. Interessante, quando muito,mas... divertida!!!???

A Escola deve ser divertida? A vida é divertida? O dia-a-dia é divertido? Haverá espaço para a diversão, mas a variedade de sensações e situações fazem a coisa mais intensa. Ou não?
A imagem que tenho do quotidiano dos putos é estranha. Imagino-os a repetir constantemente os mesmos processos, a consumir repetidamente os mesmos produtos, procurando uma repetição incessante daquilo que lhes dará, garantidamente, prazer. É um processo de viciação! O espaço da experimentação reduz-se e a interrupção dos tais processos, a privação dos tais produtos, o impedimento do prazer provoca a ira ou, pelo menos, a irritação dos catraios. Não há grande espaço para a curiosidade. Para quê experimentar outra coisa se aquela nos proporciona níveis de satisfação garantidos?

A vida nas cidades afasta os putos da rua que se vai tornando um espaço potencialmente perigoso. Fechados em casa, encontram nos écrans janelas sobre horizontes mais vastos que as paredes do quarto. Os jogos de realidade virtual são tremendamente viciantes. A repetição dos gestos, os sons, as imagens eléctricas, têm a potência de uma droga dura e retorcem o cérebro de qualquer criatura. Não vale a pena ir em busca de outra coisa. Aquilo é bom e preenche os espaços necessários. Quando muito poderão (poderemos) procurar algum substituto, outra fonte de prazer. Outro jogo, uma nova consola.
E a Escola? A aprendizagem? Uma seca!
A pergunta dança-me na cabeça: substituimos a curiosidade pela viciação?

1º de Maio

"O 1º de Maio é Vermêlho", ouvia eu dizer, vai para uma catrefa de anos atrás. Era dia de ir à manifestação, reunir um grupo de amigos e ir lá, para a festa. Comiam-se umas bifanas e bebiam-se umas cervejas nem que estivessem mais quentes que frias. Isso não interessava nada porque festa era festa.
Ali via a face do povo. Aquelas caras grotescas como caricaturas de Bordalo Pinheiro ou pinturas de Grão Vasco, iluminavam-se de uma alegria que as tornava belas e todos gritavamos palavras de ordem e deitavamo-nos no relvado da Alameda contentes como putos em dia de Natal.
Os discursos eram todos semelhantes, chatos e longos, mesmo que fossem curtos, mas isso não constituia problema nem arrefecia o entusiasmo. Festa era festa.
Os anos foram passando e o entusiasmo esmoreceu um pouco (ou terá sido muito?). Já não vou à manifestação nem teria pachorra para discursos de sindicalistas nem de outros camaradas desse género. As faces grotescas do povo vejo-as com frequência nas grandes superfícies comerciais, já sem o brilho do festejo primaveril do 1º de Maio, mas com aquele brilhozinho nos olhos que se acende quando somos contaminados pelo vírus consumista.
O povo, o nosso povo, tem mudado como o caraças nestes últimos 30 e poucos anos, desde a Revolução de 1974.

Saído da escuridão mais negra da boçalidade do Estado Novo, pobre, inculto e miserando, no espaço de apenas uma geração, o Bom Povo Português vê-se, de súbito, imerso numa sociedade consumista sem tempo nem maneira de fazer a aprendizagem necessária. Somos o resultado de uma espécie de enxerto social. Ainda o PREC estava longe de satisfazer as mais obscuras promessas de algumas das suas luminárias, já Portugal ensaiava os primeiros passos na direcção da, então, Comunidade Económica Europeia.
Foi como dar um Ferrari a um tipo habituado a conduzir carros de bois. Os filhos dos Agricultores vestiram fatos escuros e aprenderam a fazer nós de gravata até conseguirem confundir-se com os filhos dos Doutores ao ponto de não serem diferenciáveis a olho nú. Aliaram-se a fome e a vontade de comer, numa estranha associação de interesses. Alargou-se a mesa do banquete, redistribuiu-se o processo de distribuir a riqueza e o resultado está à vista.
Portugal é o país rico onde a diferença entre as classes sociais é mais acentuada e onde a indigência é ainda um modo de vida.

Neste 1º de Maio fui ao Seixal passear na marginal que bordeja o Rio Judeu. Centenas de pessoas caminhavam ao sol, para trás e para diante, fazendo exercício. Outros passavam em bicicletas alegremente.
Fui beber um café à Sociedade Filarmónica Democrática Timbre Seixalense. Cá fora, na esplanada, um velho com aspecto de reformado do Fundo de Desemprego comentava em voz alta "Isto parece Biarritz!". O Sol, a baía, a calma de um dia feriado, o povo a passear... Biarritz? Talvez. Apesar de tudo há algo para comemorar.