quarta-feira, julho 29, 2026

A dívida

     Ouço conversas verdadeiramente estúpidas. Conversas que exalam uma manhosice pestilenta; conversas de tal modo cretinas que expõem com absoluta limpidez a ignorância de quem as mantém. Há naquilo alguma malvadez.

    A coisa desenrola-se na mesa atrás de mim, na esplanada. Por muito que não queira ouvir não consigo evitá-lo. "Era construir aqui uma mesquita para os talibans andarem aí de cu para o ar." Entretanto passa o vizinho que usa um turbante e conduz um TVDE. Com ele vêm as suas duas filhas, não terão menos de 3 nem mais de 5 anos. As crianças dirigem-se à mesa atrás de mim e o pançudo vermelhusco que perorara sobre a mesquita e os talibans sorri-lhes e faz-lhes festinhas. As crianças vão ter com o pai. Parecem felizes. Deus saberá o que vai na cabeça do homem sentado atrás de mim, eu evito pensar muito no assunto.

    A conversa prossegue nas minhas costas; desligo para escrever: As pessoas ouvem umas coisas que compreendem apenas vagamente. Mais tarde, quando tentam reproduzir a informação recolhida, a tarefa revela-se demasiado complexa. Aquilo que parecia escrito na pedra transforma-se em vagas interjeições, reduz-se a grunhidos porcinos, perde-se ou confunde-se o significado da coisa. Restou uma espécie de papa comunicacional. E assim se vai disseminando a mais profunda grunhice. 

    Fico na dúvida se os cretinos têm consciência da sua cretinice. Talvez não ou, em caso afirmativo - eles sabem que são estúpidos e ignorantes - se é isso que os leva a serem tão agressivos para com tudo o que lhes cheire a intelectualidade. Será que assistimos a uma espécie de vingança de um ressentimento acumulado ao longo de séculos por milhões de cretinos, estúpidos e imbecis, que pagam a dívida em maldade e violência?

Sem comentários: