terça-feira, outubro 21, 2008

Não há dinheiro, não há palhaço!


A notícia não pode espantar ninguém. As leiloeiras, que costumam encher páginas de jornais com pontos de exclamação à frente dos preços com que colocam obras de arte no mercado, também sentem a tal crise económica.
"Depois de cerca de cinco anos de expansão do mercado de arte contemporânea, nos últimos quatro dias a Christie's e a Sotheby's obtiveram receitas inferiores às suas previsões."

Cinco anos de expansão, cinco anos a bater recordes, cinco anos a facturar milhões e mais milhões. O que me espanta é que os preços baixos continuem tão elevados. Parece que estou a brincar com as palavras mas não estou.

Uma coisa que sempre me fez confusão foi a ânsia constante de manter a economia em expansão. Os níveis de crescimento económico não pararam de crescer nos últimos anos e parecia que nunca iriam abrandar, como se não houvesse um limite, um ponto máximo para esse crescimento. Na minha cabeça, pouco capaz de compreender este tipo de situações, sempre imaginei que a economia, de tanto crescer, haveria um dia de rebentar, como um balão.

Não sei se rebentou mas tem, pelo menos, um furo e está a esvaziar. Os governos dos países mais ricos tentam tapar o furo com milhões de milhões "injectados" nos bancos que precisam do dinheiro como um drogado precisa de injectar heroína só para poder mexer os braços e as pernas. O mercado da arte haveria de ressentir-se desta situação. E, lá está, "Segunda-feira à noite, a Sotheby’s fez menos de 57 milhões de euros num leilão em que previa conseguir um mínimo de 71 milhões de euros."

Este sintoma vem juntar-se aos restantes que permitem aos especialistas diagnosticar um estado febril e de alguma fraqueza física à economia global. Entre os analistas do fenómeno do comércio de arte há quem tire as suas conclusões, "O "Arts Newspaper" cita alguns observadores que se questionam “se o consumo ostentatório da arte não estará a chegar ao fim”."

Como se diz por aí, nas ruas: "Não há dinheiro, não há palhaço!". No entanto não tenho a certeza se não continuará a haver muitos palhaços com dinheiro e vice-versa...


A notícia que serviu de base a este post pode ser lida na íntegra aqui.

domingo, outubro 19, 2008

Mundo bruto


A Europa pretende ser um farol para a Humanidade. O Velho Continente persegue o sonho da unificação tentando construir uma democracia baseada nos princípios humanistas que, gostamos de acreditar, caracterizam a nossa herança histórica.

Um dos palcos onde a Europa costuma passear a sua imagem algo vaidosa e pretensamente superior, é a do combate à poluição na tentativa de inverter as alterações climáticas. Os europeus, representados nos palcos internacionais pela União Europeia (UE), estão sempre prontos a assinar acordos, a promulgar leis e a dar lições sobre o melhor modo de tratar as doenças que afligem o Planeta. É louvável, sim senhores.

Mas a crise económica é uma diaba chifruda e veio pôr a nú algumas falácias dos representantes da UE. Os nossos ministros do ambiente reunem-se amanhã para debaterem o estado actual do plano climático europeu e as nuvens de dióxido de carbono adensam-se sobre a cimeira. Segundo notícia do Público online:
"A crise financeira está a ameaçar as medidas previstas, como aconteceu na cimeira que os líderes da UE celebraram nas passadas quarta e quinta-feira, quando cerca de dez países pediram diminuição do nível de compromissos." Ou seja, é tudo muito bonito quando não estão em causa os princípios sacrossantos do "desenvolvimento" industrial que serve de motor ao sistema económico.

A economia espirra, o Planeta adoece um pouco mais. Este mundo é um mundo bruto. Definitivamente. Não há Humanismo que aguente a quebra das bolsas nem herança grega que disfarce um Orçamento de Estado a tremer de frio. Sinais dos tempos...

sábado, outubro 18, 2008

Uma visita ao museu

Uma das obras em exposição
Revelations
ARTIST:
Damien Deroubaix
WORK DATE:
2006
aquarelle, encre, acrylique, collage et gravure sur bois sur papier
SIZE:
h: 330 x w: 450 cm


O Museu/Colecção Berardo continua em grande. Das exposições que por lá estão fui à procura da que tem por título "não te posso ver nem pintado". A ideia é propor um percurso pela figuração na arte contemporânea, tendo a figura humana por protagonista. O resultado é deveras interessante e a variedade de linguagens plásticas pode deixar o visitante menos informado um pouco zonzo. O visitante mais informado sai de lá zonzo na mesma mas com a sensação de que, afinal, há vida em Marte e até noutros planetas menos simpáticos.

Enfim, uma exposição a ver com curiosidade e algum tempo livre.

As outras exposições não me preencheram grande coisa uma vez que já vinha cheio daquela que ali me levou.

De enaltecer o facto de a entrada continuar a ser livre como um passarinho. Havia muita gente e, talvez por acaso, muitas crianças que dão uma alegria extra ao espaço já que se deslocam em grande velocidade produzindo sonoridades de uma alegria imensa. Foi bom.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Aquilo em que eu acredito mas não posso provar


Banksy ataca de novo! Desta vez em Nova Iorque, o mais notório artista de rua inglês, promove uma exposição (ver aqui, é um espectáculo!!!) no mínimo surpreendente. Banksy pretende parodiar as relações que os seres humanos estabelecem com os seus animais de estimação num contexto urbano e dá largas à imaginação. A notícia corre mundo e, como sempre, o resultado do trabalho de Banksy, "até há pouco tempo tão famoso quanto desconhecido" numa excelente frase de Ana Brasil no Público de ontem, deixa-nos entre o espanto e o desconcerto.

O macaco que vê televisão com auscultadores nos ouvidos é tão humano que mete medo. Os "nuggets" no galinheiro, as salsichas rastejantes, ou os douradinhos nadando no aquário questionam-nos sobre algumas opções alimentares. A coelhinha que se mira ao espelho com sombra azul nos olhos e um batôn nas patinhas é uma imagem da vaidade que transportamos para os nossos animais de estimação, como se a sua beleza potencial, fosse um reflexo de nós próprios, da nossa própria beleza.

É uma exposição de animatronics (ver o vídeo que está aqui), seres artificiais com movimentos obtidos através do recurso a peças mecânicas motorizadas, que viaja entre a arte conceptual, a instalação e o universo do cartoon e dos desenhos animados.

Banksy continua a quebrar barreiras e a mostrar trabalhos absolutamente originais. Damien Hirst é considerado o artista contemporâneo mais influente no mundo actual. Esse rótulo foi-lhe colado muito por causa do mega-leilão onde realizou 140 milhões de euros, produto da venda de um número considerável das suas obras.

Aquilo em que eu acredito, mas não posso provar, é que Banksy, apesar de não ganhar fortunas com a sua arte, é um artista bem mais influente que Hirst em termos da construção de um discurso sobre o imaginário da sociedade de consumo contemporânea. Acredito que a simplicidade desarmante dos seus trabalhos tem muito mais valor que a afectação algo exibicionista dos complexos trabalhos de Hirst. Acredito que o discurso artístico de Banksy é melhor compreendido e mais eficaz que o de Hirst. Acredito nisto embora não o possa provar, até porque, numa sociedade onde a economia e a finança continuam a ser as principais preocupações das elites, a tendência é considerar mais valioso o trabalho de Hirst, o milionário bem sucedido.

quarta-feira, outubro 15, 2008

Voar (blogagem colectiva da Tertúlia Virtual)

Dentro da gaiola também se voa.
(Tweety obra de Banksy)

domingo, outubro 12, 2008

Acredito que vocês existem (isso já é qualquer coisa!)

Neurónios


No post colocado aqui no 100 Cabeças no dia 7 de Outubro, referia-me a um livro intitulado Grandes Ideias Impossíveis de Provar. O livro é uma torrente de temas e de ideias interessantíssimas. Hoje não resisto a transcrever uma parte. Trata-se do contributo de Daniel Gilbert, professor na Faculdade de Psicologia da Universidade de Harvard e director do seu laboratório de emoção e cognição social. A questão colocada é "O que é que acredita ser verdadeiro, mesmo sem conseguir prová-lo?". A resposta de Gilbert, no final do seu texto é: "O que é que eu acredito ser verdadeiro mas não posso provar? A resposta é: em vocês!"
Uma resposta que surge no final de uma elegante sequência de ideias:

"Num futuro não demasiado distante, seremos capazes de construir sistemas artificiais que darão toda a aparência de consciência - sistemas que agirão como nós de todas as formas. Estes sistemas poderão falar, caminhar, piscar um olho, mentir e parecer preocupados com eleições iminentes. Hão-de jurar a pés juntos que estão conscientes e exigirão os seus direitos civis. Mas não teremos maneira de saber se o seu comportamento é algo mais do que um truque bem concebido - algo de superior a um pombo que foi ensinado a escrever, batendo com o bico num teclado: «eu existo, eu existo!»
Aceitamos a consciência uns dos outros com base na fé, porque é preciso, mas depois de dois mil anos de preocupação com esta questão, ainda ninguém concebeu um teste definitivo da sua existência. Na sua maior parte, os cientistas cognitivos acreditam que a consciência é um fenómeno que emerge da complexa interacção de partes decididamente não conscientes (os neurónios), mas mesmo quando finalmente compreendermos a natureza dessa complexa interacção, continuaremos a não ser capazes de provar que produz o fenómeno em questão. E, no entanto, não tenho a menor dúvida de que toda a gente que conheço tem uma vida interior - uma experiência subjectiva, um sentido do «eu» - que é muito semelhante à minha. O que é que eu acredito ser verdadeiro mas não posso provar? A resposta é: em vocês!»

Faço minhas as palavras finais de Gilbert. Bom Domingo.

sexta-feira, outubro 10, 2008

A rua


Para conhecer verdadeiramente a cidade é necessário caminhar nas ruas. É na rua que sente o pulsar da vida quotidiana. É na rua que vemos outras pessoas como nós, que percebemos os contornos dos objectos, que sentimos os odores da cidade, é nas ruas que ouvimos os ruídos que ajudam a compor o panorama que nos cerca.

Quando passamos dentro do nosso carro, com o leitor de CD a dourar-nos os ouvidos, com os vidros corridos a fazerem de muro separador, temos uma percepção deturpada do que vai lá fora. Não vemos as pessoas, elas passam na vidraça como imagens virtuais, os contornos dos objectos ficam distorcidos (a velocidade desmaterializa os corpos, segundo a máxima dos artistas Futuristas ), o odor que nos sobe pelas narinas é o do ambientador que dançarica pendurado no espelho retrovisor, os ruídos não entram ou, se entram, chegam-nos disfarçados de palhaço pobre.

Há pessoas que nunca põem um pé na rua. Passam sempre de carro. Quanto mais importantes são as pessoas na escala social, menos pisam a calçada. Mais sofisticados são os carros em que se deslocam e maior é a sua capacidade de se isolarem do ambiente circundante. Normalmente, aqueles que nos governam, os que se encontram mais próximos do vértice na pirâmide social, nunca assentam os sapatinhos reluzentes na poeira do nosso chão e muito menos pisam a caca dos cãezinhos da vizinha. O exercício do poder afasta os poderosos da esfera do humano, elevando-os à esfera do não-sei-que-raio-de-merda-é-aquele-gajo.

Então como podem eles governar? Como podem legislar sobre os nossos problemas quotidianos? Os problemas deles são outros. Nem nós os compreendemos nem eles nos compreendem a nós. Caímos assim num paradoxo. Governados e governantes preocupam-se com a mesma coisa pública mas, lá no fundo, essa coisa não é a mesma.

Nestes dias de crise económica crescente ouvimos dizer que esta bodega toda na alta finança vai afectar a economia real. Então torna-se evidente que existe uma outra economia (virtual?) diferente da real e que é a que realmente orienta a nossa existência.

Estou confuso mas, apesar de tudo, continuo feliz como um perú no dia a seguir ao Natal.

quinta-feira, outubro 09, 2008

Problema de expressão



Sou admirador dos Clã. Gosto muito. Mesmo muito. Gosto principalmente de assistir ao vivo e deixar-me levar pela energia contagiante de Manuela Azevedo sempre excelentemente suportada pelos restantes elementos da banda. Neste Problema de Expressão gosto particularmente da parte em que a cantora nos explica que "devia ser como no cinema, a língua inglesa fica sempre bem e nunca atraiçoa ninguém..." é bonito. Muito bonito.

terça-feira, outubro 07, 2008

Provavelmente improvável


clica na imagem para poderes ler


Este é um livro, no mínimo, curioso.
Parte de uma pergunta colocada no site Edge
( http://www.edge.org/) "O que é que acredita ser verdade, mesmo sem poder prová-lo?". A pergunta partiu de John Brockman, editor e escritor que se debruça sobre temas científicos, e foi respondida por um extenso número de pensadores e intelectuais das mais variadas zonas do pensamento e da especulação contemporâneas. Brockman coordenou o volume que agora anda por aí e que teve a sua edição original em 2005 (a edição portuguesa é de Fevereiro deste ano, pela Tinta da China http://www.tintadachina.pt/, uma editora cheia de boas ideias e livros com óptimo aspecto).
O resultado é deveras interessante. São umas dezenas largas de perspectivas inesperadas e, algumas vezes, espantosas sobre a mais variada panóplia de questões que possamos imaginar.
Tenho andado a lê-lo com tempo e muito espaço. O facto de os textos nunca ultrapassarem 3 ou 4 páginas torna a leitura bastante aerodinâmica e permite ao leitor parar para respirar um pouco, reflectir sobre algo estrondoso que acabou de ler, antes de se meter de novo ao caminho. Por ar, terra, mar e outras superfícies menos definíveis, montado em veículos estranhos que se deslocam a velocidades variáveis, entre o passo de tartaruga e a velocidade da luz.

domingo, outubro 05, 2008

Lembrete

Eça de Queiroz (1845-1900)

Neste ano de eleições, lembremo-nos: «Os políticos e as fraldas devem ser mudados frequentemente e pela mesma razão.»
Recebi este lembrete por e-mail.
Em Portugal iremos votar 3 vezes no próximo ano (!!!). Eleições legislativas, locais e para o parlamento europeu. No Brasil está também a decorrer um processo eleitoral. Daí que seja importante relembrar estas palavras de um dos grandes escritores da nossa língua comum.

sábado, outubro 04, 2008

Crença

Não sou gajo de acreditar naquele Deus das barbas que os pintores inventaram para dar uma forma ao indizível. Para mim,se Deus existe, é uma coisa sem hipótese de ter nome nem ter forma, nem nada que se possa mostrar aos olhos que nos saem do cérebro e nos atiram os sentidos ao mundo. Se Deus existe acredito que faço parte Dele que sou um átomo (ou menos do que isso) do seu infinito corpo. E tu és outro átomo e por aí fora, que todos somados, brancos e pretos, os bons e os maus, os cães e as libelinhas, as minhocas e os bisontes, mais as pedras, as árvores, os rios, o mar e o céu por cima, tudo isso é Deus e Deus, sem o saber, é isso tudo.E mais o resto.
Tenho alguma fé nesta crença. Será pouca mas é toda a que tenho.

quarta-feira, outubro 01, 2008

O sentido da vida


Ao ler a crítica de Jorge Lourenço Figueira ao mais recente espectáculo da Seiva Trupe (Estados eróticos imediatos de Soren Kierkgaard, de Agustina Bessa-Luís com encenação de Roberto Merino , ver também aqui com vídeo e notícia do Cartaz da SIC), estreado no Teatro do Campo Alegre, no Porto, deparei com uma ideia que me pareceu muito interessante.

"Anne Bogart e Tina Landau, num manual de metedologia teatral (The Viewpoints Notebook) dão exemplos de como se foi alterando, ao longo da história do teatro ocidental, o destinatário principal das palavras dos actores. Nos anfiteatros de Roma e da Grécia Antiga, o actor dirigia-se aos deuses, representados em estátuas colocadas acima e atrás da assistência; durante o Renascimento, falavam para a corte, sentada nos lugares centrais do primeiro balcão; no século XIX, para a plateia, dando origem às formas populares do melodrama e do vaudeville; com o advento do naturalismo, e as peças de Ibsen e Tchekhov, os actores passaram a falar uns com os outros, como se houvesse uma quarta parede entre eles e o público; finalmente, com Beckett, a relação do actor é com o Nada. O foco da representação passou do cósmico, pelo humano, para o existencial. Este espectáculo é um um exemplo dessa mudança que culmina no olhar para o vazio (...)"

retirado do jornal Público, suplemento diário P2, em 30 de Setembro de 2008, página 11

A forma como o destinatário das acções desenvolvidas em palco se vai deslocando das divindades para os poderosos, até se centrar no espectador, independentemente da sua origem ou classe social, mostra também a maneira como o espaço intelectual se foi democratizando ao longo dos séculos na nossa sociedade.

O objecto artístico (neste caso o teatro mas poderemos considerar diferentes formas e técnicas de expressão) vai perdendo o carácter reverencial e celebratório das forças dominantes da sociedade (os deuses, os soberanos) para se centrar na reflexão da existência dos seres humanos, por mais simples e aparentemente insignificantes que eles sejam ou possam parecer.

Esta atitude parece-me ser fundamental em todo o pensamento artístico e seria importante que estivesse presente em todo o acto criativo. A Humanidade é a razão da nossa existência e o Humanismo uma forma mais justa de arquitectar a coisa social.

Foi com Tchekhov que aprendi que o sentido da vida é construirmos uma sociedade mais justa para as gerações futuras mesmo que saibamos que nunca vamos usufruir dessa justiça durante o nosso tempo de vida. Não me recordo exactamente das palavras, lembro-me que recebi essa ideia enquanto assistia à peça "As Três Irmãs", pela Companhia de teatro de Almada com encenação de Rogério de Carvalho. Desde esse dia que a ideia não pára de dançar dentro da minha cabeça.

terça-feira, setembro 30, 2008

Opção visual


Leio no jornal um artigozinho de José Vitor Malheiros onde narra a experiência de viajar de táxi com os novos écrãs colocados no encosto do banco da frente, à altura do nariz do passageiro. São mais écrãs. A invasão dos écrãs continua, implacável e imparável. O mundo capitalista ocidental está a abarrotar de écrãs que vão engolindo os horizontes. Todos os horizontes, os reais e os imaginários. Os horizontes do presente, à frente dos nossos olhos, e os horizontes do futuro, aqueles que idealizamos nos momentos de abstracção e de projecção imaginativa. Não há volta a dar-lhe.

Já havia a sensação de afogamento visual pela proliferação de rectângulos coloridos nas ruas, nos autocarros, nos quiosques, nas lojas, nas montras, nas salas de espera dos consultórios médicos, nos cafés e restaurantes, nas nossas casas, por todo o lado. Os outdoors publicitários, as capas de revistas, os cartazes, os grafittis, os automóveis; a intoxicação visual é violenta e deixa o cérebro feito em papa de bébé, com sabor a bacalhau e mel de abelha. Um nojo.

O habitante das cidades contemporâneas tem necessidade de possuir um cérebro robusto, musculado, bem preparado para o embate diário do caos visual e informativo a que é sujeito. Tem de ser capaz de processar, registar, interpretar e reproduzir milhares (serão milhões?) de mensagens de complexidade variável, cada vez mais agressivas e coloridas, cada vez mais frenéticas e fragmentadas, com um ímpeto subliminar angustiante.

Das duas uma: ou o cidadão desiste e se deixa levar aos trambolhões na torrente informativa, deslocando-se na cidade como um zombie sem vontade, que é dirigido por mãos invisíveis que decidem por ele; ou o cidadão resiste e passa usufruir do que o caos visual tem de positivo para lhe oferecer. Desloca-se no espaço com vontade própria e decide onde virar, o que fazer, o que consumir ou não consumir. Decide. Ponto final.

O que fazer? Abrir os olhos e deixá-los alimentar o cérebro com a rica dieta visual que a cidade actual nos proporciona. Pedir ao taxista para desligar o écrã quando começa a viagem ou prestar atenção às mensagens que vão passando. Seja como for deve-se optar. Optar é sempre um acto consciente e é disso que se trata a vida no mundo dos écrãs: opção.

segunda-feira, setembro 29, 2008

Leilão em tempo de crise


Depois do polémico leilão de trabalhos de Damien Hirst, segue-se o da colecção de arte e afins do falecido Yves Saint Laurent. Agora não será a Sotheby's a meter a mão na massa, é a vez da Christie's. Independentemente de quem promove a festa o resultado será, previsívelmente, nova chuvada de milhões, acompanhada de ventos fortes e muita loucura à mistura.
Olhando para a imagem acima podemos identificar na parede uma pintura de Giorgio De Chirico e duas que parecem ser de Fernand Léger (não meto as mãos no fogo, mas parecem). A que está no cavalete sugere um retrato pintado por Goya. Isto sem falar naquela parafrenália de objectos com aspecto de serem muito valiosos.
Os ricaços deste mundo lá vão ter com que se distrair outra vez, um motivo para espantarem o tédio e viverem uns momentos de emoção. "Quantos milhões irei gastar naquela mesinha?".
Enfim, também há obras de Cezanne, Picasso, Mondrian e Matisse, num universo de aproximadamente 700 peças que poderão valer entre 200 e 300 milhões de Euros. Há projecções mais arrojadas que apontam o meio milhão como uma meta muito plausível.
Seja qual for o resultado de mais este leilão decerto mostrará a dimensão da crise económica mundial que atravessamos. Teremos a confirmação de que a dita crise não é bem igual para todos. Se dúvidas houvesse...
Comentário: O leilão de Hirst rendeu só e apenas 140 milhões. Trocos.

domingo, setembro 28, 2008

Não há fome que não dê em fartura!

convite da exposição da autoria de Luís Miranda



Ainda a exposição de trabalhos que tive no Porto não arrefeceu por completo e já vem aí nova mostra, desta vez colectiva. Com inauguração marcada para o próximo dia 10 de Outubro na Galeria Municipal de Almada, "Seis cadeiras e uma mesa" vai reunir um grupo de artistas que têm em comum a Escola Anselmo de Andrade, nesta cidade. Sara Bichão, João Gaspar, Ana Rebordão e David Castanheira foram recentemente estudantes nessa Escola. Luís Miranda e Rui Silvares ali continuam como professores.
Esta exposição terá um conjunto de trabalhos com características muito diferentes uns dos outros. Desde desenho a pintura e instalação, o visitante terá oportunidade de contactar trabalhos cujas técnicas de execução ultrapassam com frequência aquilo que, à partida, as caracteriza. Sendo uma exposição que tem como ponto comum entre os participantes uma Escola, posso garantir que os trabalhos a apresentar serão tudo menos académicos. É que cada um tem uma personalidade bem vincada que se reflecte nos objectos que produz. O resultado global é prometedor (eu sei que sou suspeito ao afirmar uma coisa destas mas...) e confesso que estou um pouco impaciente por começar a montagem que terá o seu início ao longo da próxima semana.
Espero poder postar no Carapau Staline fotos dos trabalhos de todos os intervenientes durante o período de montagem para ir aguçando o apetite de possíveis visitantes. Estes últimos tempos têm sido, para mim, de uma actividade expositiva pouco habitual. Como diz o povão, "não há fome que não dê em fartura". Mas a fartura também se acaba.



sábado, setembro 27, 2008

Morreu o Homem Novo

A notícia da morte de Paul Newman não surpreende. Ele desistiu do tratamento de quimioterapia com que tentava debelar um cancro no pulmão para descansar na paz da sua casa enquanto esperava a visita derradeira da dama da gadanha. E pronto. Já está.
É um pouco estranho quando morre um ícone do cinema. Ainda ontem milhões de pessoas o terão visto em diferentes filmes e em diferentes situações. Em casa, num cinema de reprise, com 30 anos, 50, 60, um Paul Newman representando várias idades da existência humana, numa aparente indeferença para com o passar do tempo. Agora está morto. No mundo real está morto. No mundo virtual permanece jovem ou nem por isso. Mas permanece.
Seguem-se os habituais exageros post-mortem. Toda a gente vai descobrir como ele sempre foi adorável, admirável, extraordinário, um actor fora-de-série. Vai haver rios de gente a considerar uma injustiça ter recebido um único Oscar em tão longa carreira. Vai haver montanhas de gente a recordar episódios em que o velho Paul protagonizou alguma situação picaresca. A morte santifica-nos a quase todos. Um mar de gente nos ama depois de morrermos.
Newman (Homem Novo) era uma figura carismática. Nem o envelhecimento lhe retirou aquele aspecto digno e galante que foi a sua imagem de marca. Um tipo duro, com um queixo perfeito para enfiar um par de sopapos e uma boca rasgada, óptima para sorrisos enigmáticos, trocistas de preferência. O olhar não deixou de ser azul mas a doença retirou-lhe fulgor. É estranho como a vida tantas vezes se apaga no olhar das pessoas.
Descansa em paz, Homem Novo, se é que a morte traz algum descanso.

sexta-feira, setembro 26, 2008

Fundamentalista perigosa


Ao ver este vídeo não consigo evitar um aperto no estômago. Que Sarah Palin é uma fundamentalista tresloucada. Isso já sabia. O meu problema, agora, é saber que ela joga com a magia para alcançar os seus objectivos. Isso já me custava a imaginar sequer. Anda meio mundo inquieto com o programa nuclear iraniano quando nos EUA, o arsenal atómico está nas mãos de personagens deste calibre vai para 8 anos. Anda meio mundo incomodado com o fundamentalismo islâmico quando os EUA, farol das democracias capitalistas, é governado por fundamentalistas de uma qualquer seita cristã mais obscura que o olho do cú de uma cegonha.Perante uma personagem tão horrenda como esta, até Bush parece um velhinho simpático.Inquietante.

quarta-feira, setembro 24, 2008

Notícias


Leio o jornal, assisto ao noticiário na TV, desgraças, crimes, acidentes, o mundo não parece ter nada de bom para nos oferecer. No "horário nobre" parece que que as coisas ficam ainda piores, os tons são mais carregados, o desânimo vai ganhando terreno. Como pode isto ser? Não haverá um acontecimentozinho luminoso para clarear um pouco o negrume do dia? Ou será que os acontecimentos positivos não captam audiências? Talvez seja isso, talvez seja necessário um bom crime violento para conseguir o patrocínio da Coca-Cola ou um incêndio arrasador para ter investidores de jeito a anunciar no intervalo ou nas páginas centrais.

O que o povo quer é sangue à sobremesa, a acompanhar o cafézinho. Mas, na verdade, as notícias positivas são uma seca ou então não passam de mera propaganda. Começo a pensar que ler tantos jornais e assistir a tantos noticiários televisivos é pura perda de tempo se é que o tempo é coisa que se possa perder. Tudo o que leio, tudo o que ouço e vejo cada vez mais parece sempre a mesma coisa. Cada vez mais parece papel de embrulho para embrulhar publicidade e propaganda.

Se calhar estou apenas cansado e com sono e é por isso que me sinto tão enganado e com tanta dificuldade em construir um modelo da realidade que me possa parecer satisfatório. O melhor é ir dormir, descansar e, amanhã, regressar ao mundo com os olhos bem abertos. É isso. Até amanhã Mundo. Descansa também que bem precisas. Boa noite.

segunda-feira, setembro 22, 2008

Um caso de infidelidade conjugal


Afinal o capitalismo é ainda mais merdoso do que podíamos imaginar. Já se sabia que a base do sistema era a exploração do homem por seres muito parecidos com ele.

O que ainda não sabíamos era que, quando esses seres, aparentemente humanos, vêem os seus negócios correr mal, têm auxílio financeiro suportado por aqueles que são explorados. Ou seja, o mito de que o sistema capitalista se auto-regula através das sacrossantas leis da oferta e da procura não passa disso mesmo: é um mito de merda.

Os últimos acontecimentos na terra do Tio Sam põem a descoberto a careca escondida do sistema. Se os capitalistas estão a ganhar muito dinheiro o mundo está de boa saúde. Se começam a perder dinheiro o mundo está doente e são sempre os mesmos que pagam a crise.

O casamento de gosto duvidoso entre as democracias parlamentares e o capitalismo é definitivamente posto em causa. Os capitalistas sacam o dinheiro "honestamente" e põem-no a render em paraísos fiscais, enganando o sistema democrático uma vez que os lucros que obtêm não são redistribuídos, como estava claramente especificado no contrato de casamento. A democracia é parte enganada neste negócio e não tem capacidade nem autonomia suficiente para reclamar divórcio.

Nós, filhos desta união, assistimos estupidificados ao desmoronar deste matrimónio de conveniência e não conseguimos compreender como foi possível termos co-habitado o mesmo espaço, durante tanto tempo, sem que tivéssemos sequer suspeitado da infidelidade do capitalismo em relação à nossa mãe, a democracia. Quer dizer, havia por aí muitas vozes de filhos desavindos, vozes que reclamavam maior atenção ao pai, maior respeito pela mãe, mas, o capital, tudo compra, tudo alisa, tudo consegue transformar em quase nada. Umas prendas oferecidas aos filhos certos na ocasião adequada foram iludindo a maioria, ávida do amor e dos favores do pai.

Agora vamos a ver no que vai dar esta salsada. O pai anda saído de casa e a namorar com as autocracias mais a Leste ou a Oriente ou lá onde moram as suas novas namoradas. Há quem diga que vai mudar-se de vez e por completo, deixando a nossa mãe agarrada às tetas, que já não lhe interessa apesar de se mostrar tão submissa e implorar que volte, que regresse, que lhe limpa os fatos e lhe lambe as botas até elas brilharem outra vez. Mas o pai não se comove, o capitalismo é macho, a democracia é fêmea. Lá para o Oriente o pai encontrou companhia mais ambígua, meio estranha, andrógina, há quem diga. O capitalismo namora agora uma coisa com dois sexos. Ao que parece acredita ter encontrado uma cama mais macia, uma via para a felicidade mais radiosa. Bem que nos enganou. Pelo menos a todos os que acreditaram nas suas qualidades como pai de família.

Um belo filho da puta, é o que é. Mas, afinal, de que estávamos nós à espera?

sábado, setembro 20, 2008

Negócio é negócio?

Edgar Mugralla tabalhando, exibindo algumas obras primas por ele "interpretadas" e piscando o olho ao espectador. Ele sabe que nós sabemos que ele sabe.


Actualmente damos muita importância à originalidade dos artistas. As obras que nos impressionam e que valem milhões terão de possuir uma marca individualizada, uma atitude inovadora.
Nem sempre foi assim. Tempos houve em que os artistas eram tanto melhores quanto conseguissem reproduzir com fidelidade os modelos típicos da grande arte. Os encomendadores procuravam aqueles que fossem capazes de exibir dotes técnicos suficientes para (re)criarem protótipos formais considerados exemplares.


Foi com o Romantismo que se iniciou a longa marcha da emancipação do artista. Ao longo dos séculos XIX e XX assistiu-se a uma progrssiva libertação do artista em relação aos preceitos académicos e tradicionais. Vieram as grandes revoluções estéticas com o Impressionismo e, mais tarde, o Cubismo, para citar dois exemplos bem populares e passou-se a associar a arte ao génio do artista.


Hoje os mais afoitos de entre os artistas são aqueles que conseguem captar a atenção da crítica e, por consequência, dos investidores que adquirem obras de arte a preços absolutamente inacreditáveis. O artista já não responde a encomendas, ele cria obras que depois coloca no mercado um pouco como o agricultor que expõe legumes na banca da praça, à espera de um cliente que se interesse pelo seu produto e esteja disposto a pagar o preço exigido. É negócio, puro e muito duro.


No meio desta Babilónia formal é difícil emergir e conseguir notoriedade. Há um artista que alcançou o estrelato por vias menos ortodoxas. Falo de um tal Edgar Mugralla, alemão nascido em 1938, falsificador de obras de arte de méritos reconhecidos.


Mugralla revela uma tal capacidade de copiar obras de outros pintores que deixa muito boa gente a pensar quantas das suas pinturas foram transaccionadas por milhões e tidas como originais quando, na verdade, não passavam de cópias.


À conta do seu trabalhinho, Mugralla já esteve preso, hoje tem um museu em Busum (no norte da Alemanha), onde dá aulas de pintura e vende as suas cópias com a identificação «Atelier de falsificações de Mrugalla». Ou seja, tornou-se um honesto negociante de falsificações.


Toda esta história me leva a reflectir no caso de Damien Hirst (ainda ele!). Sabe-se que a esmagadora maioria das obras assinadas por Hirst são efectivamente realizadas pelos seus numerosos assistentes. Dezenas deles a trabalharem nos seus ateliers, como os ajudantezinhos do Pai Natal a preparem as prendas para a próxima época natalícia. Hirst tem o trabalho de assinar as peças. É claro que não se trata de falsificações, meter um tubarão num tanque com formol é um trabalho complicado e Hirst não tem que o fazer. O que as pessoas estão a pagar quando compram uma peça destas é o conceito, a ideia, isso pertence, sem dúvida a Hirst. Mas, na verdade, os objectos que se transaccionaram no mega leilão do génio britânico são uma espécie de falsificações autorizadas. Ou não?


As telas de Mugralla são resultado de um trabalho solitário de grande minúcia e extraordinária perícia técnica. Valem milhões se não se souber de onde vieram, se se souber que são de Mugralla desvalorizam-se vertiginosamente por serem falsificações não autorizadas.


Que raio de mercado é este onde um honesto e genial falsário vai parar à cadeia e um artista apenas genial ganha milhões sem sequer sujar as mãos?

sexta-feira, setembro 19, 2008

Ver de Fazer 12

Na foto: "Júnior" escultura de fita-cola em tamanho natural da autoria de Rita Sousa


Inaugura hoje, pelas 21 horas na Oficina de Cultura situada na Praça de São João Baptista em Almada, a 12ª edição da exposição de artes plásticas Ver de Fazer.


Trabalhos de escultura, pintura, desenho, fotografia e o mais que se verá, vão estar patentes ao público ao longo de uma semana naquele espaço cultural. Os trabalhos são fruto dos esforços de alunos, ex-alunos e professores do curso de artes da escola Anselmo de Andrade.


Na inauguração haverá danças orientais e uma performance-surpresa para abrilhantar o acontecimento.


Se o leitor está por perto não deve perder esta inauguração aberta a toda a população. Habitualmente é um acontecimento muito concorrido, um espaço de convívio e debate, uma oportunidade para ver, conhecer e fruir os ecos da arte que se vai fazendo por esta banda do Tejo.


Ficamos à vossa espera. Apareçam que não vão dar o vosso tempo por mal empregue.


P.S. convidámos Damien Hirst mas, embore com muita pena dele, não vai poder estar presente pois ainda não decidiu se lhe apetece lasanha ou raviolli para o jantar... tem o tempo e o espírito demasiado ocupados por este dilema irresolúvel.

quarta-feira, setembro 17, 2008

140 000 000 €€€€€€€€€€€€€€€€


A coisa deu-se. O leilão de obras de Damien Hirst rendeu, segundo rezam as crónicas, 140 milhões de euros, somados os valores das vendas dos dois dias. Uma soma astronómica.

Em tempo de crise económica internacional ainda mais espantosa se torna a soma alcançada pelo artista britânico. Afinal parece que os dramas dos bancos norte-americanos não incomodam assim tanto o pessoal do dinheiro.

Compradores dos 4 cantos do mundo investiram somas quase inacreditáveis nos bicharocos conservados em formol, nas "pinturas" feitas com asas de borboletas e nas caveiras revestidas a diamante. Quase todos os lotes leiloados foram transaccionados e os ricaços da Rússia foram os que mais se divertiram a gastar toneladas de papel moeda na aquisição das peças de Hirst.

Isto dá que pensar.

terça-feira, setembro 16, 2008

Ontem


A palavra "solidariedade" não passa de isso mesmo; é uma palavra. Como tal ela ressoa no espaço quando a dizemos, ecoa nos nossos corpos, bem fundo no interior da caverna craniana. O que surge lá no fundo do nosso ser quando a ouvimos, isso é o mais complicado de explicar.

Por ser uma palavra, corre o risco de nada significar, de se tornar banal, uma coisa bonita para mostrar, como uma florzinha na lapela ou uma foto de família sorridente guardada na carteira. "Está a ver? Essa é a minha filha e aquela a minha mulher. Não são lindas?" São lindas? São maravilhosas, caramba! São, de longe, o melhor que o mundo foi capaz de me proporcionar. Mas a experiência de tanta felicidade é tão completa e individual que estou a falar de uma beleza que é só minha. Não há a mínima possibilidade de passar isso a outra pessoa por muito que essa pessoa me possa confortar afirmando que "São muito bonitas." Claro que são muito bonitas! Eu sei, estou seguro disso, amo-as tanto que nem sequer sinto o elogio, estou longe, não o ouço.

A imagem que ontem postei, "Sólido e solidário" tem um significado profundo no meu íntimo. Um significado que ainda não fui capaz de sintetizar na totalidade. Cada leitura que foi proposta pelos visitantes nos respectivos comentários é um reflexo dessa imagem. Ela funciona como um espelho onde cada um vê aquilo que tem dentro de si ou aquilo que o mundo, num determinado momento, parece significar, potenciado pela leitura da imagem.
Eu tenho a minha leitura. Nada me garante que seja a leitura correcta. Na verdade não acredito que exista uma leitura correcta. Existem tantas leituras correctas quanto as que forem feitas com honestidade. A leitura de uma imagem é uma questão pessoal, uma coisa que depende mais do leitor que do criador da imagem.
Acredito que esta é a essência da arte enquanto processo e meio de comunicação. O criador solta imagens nesse mundo e elas tornam-se coisas selvagens e tão livres... elas transformam-se naquilo que oferecem a quem as vê. Isso é beleza. Mesmo que possa não parecer.

segunda-feira, setembro 15, 2008

Solidário


Sólido e solidário

post para a Tertúlia Virtual

tema-SOLIDARIEDADE

clica na imagem

domingo, setembro 14, 2008

Tanto barulho...


Jeff Koons está, mais uma vez, a provocar uma cena de ciúmes entre os que acreditam que a arte é uma coisa meio morta e os que defendem que a arte está em permanente evolução, não havendo um corte obrigatório entre o que a arte foi e aquilo que é.

A exposição de trabalhos de Koons no Palácio de Versalhes pôs em total "desafinanço" muitas vozes defensoras de uma suposta pureza das formas artísticas que deveriam ser poupadas a contágios perigosos com a contemporaneidade (ver vídeo no Youtube). Mas a exposição lá está, os trabalhos de Koons infectando o ambiente barroco engravatado de classicismo, característico da arquitectura sumptuosa e glorificadora do monarca absoluto que arquitectos franceses criaram para Luís XIV, inspirados em obras italianas.

O próprio palácio é uma forma arquitectónica que resulta dessa técnica infecciosa, de estilos que se interpenetram para originar algo inovador (ou, pelo menos, diferente), algo que vai buscar uma forma aqui, outra ali, resultando, neste caso, numa monstruosa exibição de ambição e poder de um rei que pretendia comparar-se com o Sol. Versalhes está longe de ser um exemplo de pureza formal.

O luxo faraónico (a adoração do Sol pelos antigos egípcios terá algo a ver com a ambição de Luís em ser considerado "irmão" de Ra?) dos interiores do palácio, a mistura infindável de materiais, formas, volumes, texturas, ambientes e mais que se possa imaginar, fazem de Versalhes um gigantesco objecto "kitsch". Daí que me pareça perfeitamente adequada a escolha de Koons, proclamado actualmente como o "rei do kitsch", para expor ali as suas obras.

As vozes dissonantes e as manifestações públicas de desagrado e desacordo com a exposição estão ao mesmo nível de ignorância que, por exemplo, as manifestações de fundamentalistas islâmicos quando foram publicados na Dinamarca os tristemente célebres cartoons com Maomé como protagonista.

Mais uma vez se faz muito barulho por nada. Koons não é tão iconoclasta que desmereça o Palácio de Versalhes. Afinal este está à altura do mau gosto do artista norte americano. Na minha opinião estamos perante um casamento perfeito. Mais perfeito ainda do que aquele que Koons contraiu com Cicciolina. Mas essa é já outra história...

sexta-feira, setembro 12, 2008

Da pintura

O Sonho de José, Paula Rego



A pintura é uma coisa suspensa.
Resulta da interrupção de um último gesto e ali fica, eternamente inacabada, à espera do olhar que a completa.
A pintura completa-se no interior da tua cabeça.
A pintura, suspensa no tempo, espera por ti. Será tudo o que fores capaz de fazer dela.
Quando a olhas ela brilha de vaidade, ajeita-se e faz pose, arma-se em boa.
Insinua-se, tenta seduzir-te.
Quer contar-te uma história.
A tua história.
A pintura, sem o saber, é como tu.
E tu és parte da pintura que contemplas.
Ela dir-te-á aquilo que quiseres saber.
Sejas tu capaz de a ver e ela mostra-se.
Seja ela capaz de te descobrir e irá ao teu encontro.
Texto para O Espírito da Coisa

quinta-feira, setembro 11, 2008

Lá está

A inauguração do Espírito da Coisa no Contagiarte decorreu na paz do Senhor. A afluência de visitantes na primeira noite foi pouca mas muito boa.
As conversas desenrolaram-se a um nível cultural elevado e por pouco não foi descoberta a cura definitiva para os males do mundo.
Não há fotografias do acontecimento porque ninguém levou uma máquina uma vez que não fazia falta nenhuma (a foto aí em cima é da fachada do prédio onde fica a Associação Cultural) e a memória encarrega-se de preencher o aparente vazio com os retoques que só ela pode dar.
Os trabalhos vão continuar pendurados na sala até dia 27 do corrente mês.

O Contagiarte é um espaço extraordinariamente versátil, que oferece lugares agradáveis aos visitantes. A programação cultural convida à participação dos cidadãos que por ali passem e estejam dispostos a passar um bom bocado. Há bar e música e boa disposição. Enfim, posso dizer sem correr riscos que há por ali uma muito boa onda. Quem vive no Porto já sabe disso e quem não vive e faça uma visita à Invicta só tem mesmo é que ir lá ver e confirmar os elogios que aqui deixo.

If the world could vote? (sigam o LINK)




Uma curiosa iniciativa que, pelo menos, terá um efeito apaziguador de eventuais azias que possamos vir a sentir no dia 4 de Novembro, quando os "américas" elegerem o próximo sobrinho do Tio Sam (foi o João Samões que, num comentário a um post anterior, deu a pista).

É ir até ao lugar a que nos conduz o link onde está a decorrer esta votação virtual, votar e divulgar. Seria interessante enviar o resultado num envelope para Washington e metê-lo numa urna.

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segunda-feira, setembro 08, 2008

Inaugura amanhã



Inaugura amanhã, no Contagiarte uma exposição de pintura com trabalhos da minha autoria. Estão todos convidados. A morada está aqui ao lado e podem encontrar informação completa aqui, no Carapau Staline. Até amanhã.

BOMBA!!!


Uma pequena bomba a participação deste tal Russell Brand (nunca tinha ouvido falar do chavaleco) na entrega dos prémios MTV. A forma como este comediante inglês entrou pela política americana dentro teve a elegância de um elefante a desmanchar uma loja de porcelanas. Sem dúvidas. Aqui encontra-se uma versão legendada em português. Ainda estou meio de boca aberta. Nem sei se acredite.

Qual será (qual foi) a reacção das autoridades americanas a tão descabelada (o termo aplica-se) intervenção deste rapaz? Vale a pena ver. É uma muitíssimo estranha situação!

Eles vivem!

Ilustração publicada no Fanzine MUMIA

domingo, setembro 07, 2008

I'm scared (também)

Ao passear pelo maravilhoso mundo dos blogues dei com uma sequência de posts, no "no Ví tá" intitulados "I'm scared". Mostram imagens fantásticas e de inspiração surreal, imagens com potencial assustador ou, pelo menos, perturbador.
Uma coisa leva a outra e dei por mim a pensar em algo que me tenha assustado nos tempos recentes. As personagens na imagem acima vieram de imediato à minha memória.
Tenho medo que esses seres vivos possam vir a ser eleitos para a liderança de um monstro mal adormecido que é a América violenta, xenófoba e semianalfabeta. No meu pesadelo o monstro irá acordar definitivamente em todo o seu potencial destruidor.
Militaristas, cabeças-de-burro anti-mundo, fundamentalistas, evangelistas e todos os matrecos maldosos que aguardam uma palavra de comando para se lançarem sobre o planeta que imaginam ter-lhes sido oferecido por uma abstrusa divindade roubada à penumbra dos tempos, esfregam as mãos de impaciência.
Com esta dupla à frente dos EUA o mundo será, definitivamente, um lugar (ainda) mais perigoso.

sábado, setembro 06, 2008

Uma coisa tão frágil só pode ser de uma beleza que quase incomoda!


É. Há coisas assim. Todos sabemos que há mas, quando deparamos com elas, não dá para evitar um espanto doce e bom, um aconchego no estômago e no espírito, uma sensação de que faz algum sentido viver. Ficamos um bocadinho estúpidos perante a confirmação de que é possível...


The Savages é um filme que não chegou a estar um dia que fosse em exibição nos cinemas portugueses. Foi direitinho para a edição em DVD e, quem quiser vê-lo, que compre o DVD ou o alugue (se encontrar uma cópia no clube lá do bairro ). Mas é tão bom!


Tão bom, tão bom que se compreende porque é que os vendedores de pipocas não o meteram no meio da confusão. Vi-o ontem à noite, no remanso do lar, na companhia mais agradável. Tudo perfeito para um filme daqueles. Íntimo, de uma perfeição artesanal, construído com um cuidado que apenas as obras de arte produzidas com o coração aberto numa vertigem são capazes de ostentar.


Os actores são absolutamente fora-de-série, o argumento é genial de tão simples. O resultado é algo tão frágil que só pode ter aquela beleza, aquela grandiosidade sensível. Enfim, ando apertado de tempo e não vale a pena estar a alargar-me nas minhas considerações. Tirei cinco minutos a um dia preenchido para dar notícia do meu deslumbraento aqui, nas veredas do Blogger, e deixar ecoar este grito sussurrado aos teus ouvidos, caríssimo leitor.


The Savages (Os Selvagens) a não perder. Absolutamente.

sexta-feira, setembro 05, 2008

Desencontro eterno?

Li hoje uma entrevista com o senhor da foto, Gianfranco Ravasi, ministro do Vaticano para a cultura. Não podia imaginar tal personagem, mas, afinal, o Vaticano é um Estado, não é? É natural que tenha ministros que, além do ministério divino, se dediquem a outros, bem mais terrenos.
A ideia mais forte da conversa era o desejo manifestado por Gianfranco de fazer com que os grandes artistas contemporâneos se interessem por temas religiosos. Uma ideia interessante, sem sombra para dúvidas.
Monsenhor Ravasi recorda a grande tradição da arte europeia e a sua contribuição para a expansão do cristianismo, primeiro, e do catolicismo, um pouco depois. O discurso é um tanto desajeitado, no que à produção artística diz respeito, e baseia-se numa estranha inocência, como se o divórcio que actualmente se verifica entre a arte e a igreja fosse resultado de uma espécie de amnésia que tivesse atacado um lado e outro.
É evidente que, durante séculos, nesta velha Europa, a esmagadora maioria das obras de arte foram de inspiração religiosa. Eu diria antes que o dinheirinho da igreja inspirou muito boa gente. Os artistas ou representavam cenas inspiradas nos Evangelhos ou... nem sequer podiam trabalhar. Monopólios...
O problema que monsenhor Ravasi prefere ignorar é que os artistas contemporâneos são livres e raramente temem as chamas do inferno. Além de que há muitos chineses e indianos cheios de papel e prontos a investir balúrdios em obras não-religiosas. Haja dinheiro e os grandes artistas depressa se interessarão de novo pela Palavra.
"É a Economia, estúpido!" como dizia o outro,

quarta-feira, setembro 03, 2008

Abstracção?

Os comentários ao post anterior trouxeram uma questão que me parece pertinente. Os valores astronómicos (ou poderei dizer: absurdos?) atribuídos a determinados produtos causam indignação à maioria das pessoas. Falou-se das pinturas de Ticiano, em posts anteriores tinhamos lançado um olhar sobre o leilão de obras de Damien Hirst e as latinhas de merda de Piero Manzoni, vendidas ao preço da grama de ouro. Aqui se colocava a hipótese de ouro=merda, numa manifestação de desprezo terrorista em relação ao mais cobiçado dos metais.
Nos últimos dias vieram a público notícias que dão conta da transferência do jogador brasileiro Robinho que trocou o Real Madrid pelo Manchester City por 42 milhões de euros pagos em "dinheiro fresco" pelos novos donos do clube, uns árabes cheios de guito. Não satisfeitos com esta compra estonteante, os ditos árabes do Abu Dhabi United Group oferecem 165 milhões de euros por Cristiano Ronaldo. Inacreditável?

Estes milhões todos cruzam os ares sem que lhes possamos pôr a vista em cima. Os números são de tal modo estranhos de tão grandes que para o comum dos mortais é quase impossível compreender o que significam. Para mim é tão difícil de entender a extensão destes valores como imaginar um universo infinito em expansão.
Talvez a grandeza incomensurável destes números esteja na base de uma suposta natureza divina do capital (e do dinheiro) e Cristiano, Robinho, Hirst e Ticiano sejam uma espécie de ícones de santos a colocar nos altares mediáticos desta divindade implacável que é o Capital (assim, com "C" grande).

O papel principal destes ícones será provar aos cépticos a existência real dessa divindade. E nós, servos potenciais do Capital e seus adoradores indefectíveis, pasmamos perante provas de tão grande poderio e vigor. Só nos resta sonhar com fatias pequeninas da sua "carne" que nos permitam comprar a felicidade e usufruir das benesses que o Capital promete aos que nele acreditam, para ele trabalham e, em última análise, o adoram acima de todas as coisas.
Temos divindade!

segunda-feira, setembro 01, 2008

Milhões


Nos últimos dias têm vindo a público algumas notícias relacionadas com um negócio de milhões no mundo da Arte, com "A" maiúsculo, nada de sapos verdes nem latinhas de merda (ver posts anteriores). Trata-se da aquisição de duas pinturas de Ticiano, Diana e Actéon (à esquerda) e Diana e Calisto (este link mostra-nos uma versão do episódio pintada por Boucher, o tal gajo que terá pintado aquele ganso de pescoço pervertido), obras realizadas por encomenda para o rei Filipe II de Espanha (Filipe I de Portugal) entre 1556 e 1559.
As obras pertencem há várias gerações à família do actual Duque de Suterland que agora resolveu vendê-las bem como outros tesouros da célebre colecção Bridgewater que inclui um rol estonteante de obras de outros mestres reconhecidos pela História da Arte. As pinturas são propriedade dos Duques de Suterland há 220 anos e estão emprestadas desde 1945 à National Gallery da Escócia. Segundo rezam as crónicas, as duas pinturas estão actualmente avaliadas em 600 milhões de dólares o que faz delas as mais caras de História. Mas o bom do Duque está disposto a "cedê-las" à nação por uns módicos 200 milhões, um terço do "preço de montra", o que é uma autêntica pechincha.
Seja como for estamos perante um novo negócio que envolve números astronómicos, valores que deixam de fazer sentido na minha cabeça por não ser capaz de imaginar tanto dinheiro junto. Será lícito que assim seja?
Pode uma obra de arte, por extraordinária que seja, alcançar valores tão elevados?
Perante notícias deste género sinto uma certa simpatia por obras como a de Piero Manzoni apresentada no post anterior. Quanto pode valer uma pintura de um mestre? Quanto valeria uma latinha com merda de Ticiano lá dentro?

Recuperando posts antigos (1)

Entusiasmado pela interessante troca de comentários feita a propósito do post intitulado "Arte (o que é isso?)" fui rebuscar os primeiros posts do 100 Cabeças. Encontrei este que, na altura, não teve nem um comentariozionho para amostra mas que mantém toda a actualidade.
Parece-me que, se o sapo verde provocou tanta celeuma, esta obra de Piero Manzoni tem um potencial destruidor de ideias feitas ainda maior.
O texto era o que se segue (com um retoque ou outro):


Se o Urinol de Duchamp cria resistências nas almas mais comuns que dizer da obra da Manzoni intituada Merda de Artista? Este caramelo terá embalado a sua própria caca em latinhas como a da imagem que depois colocou no mercado ao preço da grama de ouro.

A questão reside em aceitarmos ou não a natureza artística desta merda.

Será necessário, antes do mais, decidir os limites da obra de arte. Desde Duchamp, pelo menos, que essa tarefa se tem revelado, no mínimo, complexa. Com os ready made o consumo de arte deixou de ser cómodo. Anteriormente o amador sabia perfeitamente o aspecto e os limites permitidos á criação artística. Um quadro, um fresco luminoso, uma estátua no centro da praça recordando feitos heróicos ou o passado histórico. Nada mais fácil! Mas agora... latinhas de merda!?Os exemplos são mais que muitos.

O espectador é frequentemente confrontado com os seus próprios limites perante os mais variados objectos. Cabe-lhe participar, completando a obra de arte. Convenhamos que pode revelar-se um trabalho de merda para o qual podemos não estar disponíveis, o que é perfeitamente normal.

Consta que Manzoni terá vendido todo o stock, 90 latinhas de merda embalada, pelo preço pedido. Não há notícia (que eu saiba) de que alguém tenha ousado confirmar o conteúdo das latinhas já que isso iria arruinar o seu valor e quebrar-lhe o encanto. Dá que pensar, não dá?

Então deve ser arte!

sábado, agosto 30, 2008

Bizarria


Hoje é Dia Europeu dos Morcegos. Dia Europeu dos Morcegos!?

Para assinalar com a pompa devida tão extraordinária efeméride, o Público associou-se a um projecto intitulado Morcegos na Web (não é lá muito imaginativo...) que lança hoje um novo e estranho site que pode ser encontrado aqui.

A partir do dia de hoje estarão disponíveis online imagens de uma gruta habitada por diferentes espécies de morcegos 24 horas sobre 24. Para podermos ter uma noção do que isto significa note-se que, nessa gruta, cohabitam as seguintes espécies de morcegos: Morcego-de-peluche, Morcego-rato-grande, Morcego-lanudo, Morcego-de-ferradura-mediterrânico, Morcego-de-ferradura-grande, Morcego-de-ferradura-pequeno, Morcego-rato-pequeno, Morcego-de-franja, Morcego de Bechstein, Morcego-de-ferradura-mourisco, Morcego-hortelão e, last but not the least, o patusco Morcego-de-água.

Tem todo o aspecto de ser uma chatice do caraças. Para já podemos admirar nos arquivos disponíveis momentos de grande espectáculo: um Morcego-de-ferradura-grande a fazer higiene corporal, naquilo que parece um gajo com espasmos a morder-se todo ou ainda um Morcego-de-peluche a beber água de uma estalactite, esta uma estranha cena em que podemos observar o vulto de um morcego que parece mamar directamente de uma teta gigante que descai do tecto da gruta.

Um lugar bizarro que comemora uma bizarra efeméride mas que, estou certo, representa um triunfo e uma alegria imensa para aqueles que se empenharam no projecto e nutrem uma admiração sem limites por estes horripilantes pequenos seres, os únicos mamíferos voadores de toda a Criação.
Há pessoas capazes de eleger as mais inesperadas causas e ainda lutarem por elas. São essas pessoas que mantêm acesa a chama da esperança numa loucura qualquer que possa transformar este mundo num outro.

Morcegos de todo o mundo, uni-vos! O 100 Cabeças saúda-vos.

sexta-feira, agosto 29, 2008

Arte (o que é isso?)


A Arte é uma daquelas coisas que todos sabemos o que é mas não conseguimos explicar.
Como tal, um post sobre este assunto terá de ser um pouco longo, como o que se segue.

Não deixa de ser curioso que sejamos capazes de afirmar com um certo grau de certeza "isto não é Arte" perante um objecto que nos repugna plasticamente, mas já nos seja um pouco (ou muito) mais difícil explicar porquê. O mesmo se passa com aquilo que consideramos como Arte.

Importa tentar perceber o que é Arte? Primeiro que tudo poderemos partir do princípio que um objecto artístico, sendo produto de uma actividade humana, está dependente de um tempo e de um espaço. Esse objecto é um reflexo de um momento determinado na História e as suas características, formais (os aspectos relacionados com a técnica) e iconológicas (o que normalmente designamos por mensagem ou conteúdo), são matéria e produto dessa conjuntura espácio-temporal.

A História da Arte mostra-nos bem a evolução das formas e dos discursos artísticos ao longo dos tempos e o modo como a Arte foi um poderoso meio de propaganda. Mas, tal como as sociedades evoluíram e transformaram os seus paradigmas sociais e políticos, também a Arte se transformou. É lógico.

Mas, para tentar perceber afinal o que é (ou não é) Arte, temos de confiar essa missão em alguém. Quer dizer, nós, simples mortais, não temos a capacidade de decidir sobre a natureza artística de um objecto embora possamos formar uma opinião que, tal como disse aí mais atrás, acaba por ser intuitiva e pouco fundamentada. É do género "gosto disto" ou "não gosto disto" como se nos estivessemos a referir a um prato de bacalhau cozido. E a Arte não parece ser bem a mesma coisa que bacalhau cozido, embora por vezes se possam confundir.

Chegamos então a uma questão fundamental: quem é que sabe o que é Arte? Ou, quem valida a natureza artística de um objecto? Pois é, aqui é que a porca torce o rabo e o pessoal costuma começar a sacudir a água do capote. "Para mim é Arte" arriscamos por vezes "ou não acho que seja Arte" podemos afirmar com um encolher de ombros. Assumimos uma postura que nos desresponsabiliza. Não sendo nós peritos, podemos apenas dar uma opinião... intuitiva.

A História da Arte mostra-nos como essa validação foi passando de mãos ao longo dos séculos. Entidades religiosas, burgueses ricos ou Academias Reais de Belas Artes foram decidindo sobre a natureza da Arte. Forças de sinais contrários ou com raízes sociais diversas, todas tiveram , no entanto, uma coisa em comum: riqueza ou capacidade económica para encomendar e pagar o trabalho daqueles que hoje designamos por artistas. Em última análise poderemos considerar que é o valor comercial, a capacidade de angariar divisas que valida o objecto artístico.

Esta visão é demasiado redutora, dirão alguns, mas uma análise superficial do fenómeno permite-nos mantê-la com argumentos bastante sólidos. Esta perspectiva economicista sofreu um primeiro abalo com o Romantismo do século XIX quando os artistas se assumiram como tal e reclamaram liberdade criativa fora das esferas de poder habituais. As revoluções liberais retiraram muita da capacidade económica e política às forças religiosas tradicionais. O crescimento do sentimento Democrático fez que, como seria de esperar, também se democratizasse a perspectiva que temos sobre a produção artística.

Quando Marcel Duchamp criou os seus ready-mades, provocou uma transformação radical nos mecanismos que validam a natureza artística dos objectos. É paradigmático que a sua "Fonte" (o célebre urinol) seja consensualmente considerada a mais importante obra de arte de século XX. Não porque seja uma exibição de cpacidades técnicas supreendentes ou mesmo um objecto que possamos considerar belo, mas porque transferiu a capacidade de validar a Arte para o comum dos mortais, para o observador ocasional, que, neste universo criativo, é chamado a tomar uma posição perante aquilo que observa.

A Arte Contemporânea responsabiliza o próprio observador na construção do objecto artístico que apenas se completa através da sua leitura pessoal e particular. Todos sabemos que, no mundo actual, a crítica de arte publicada nos jornais e nas revistas da especialidade carimba e certifica definitivamente a natureza de um objecto. Mas isso serve principalmente para atrair os tais gajos com poder e capacidade económica para investir na compra dos objectos. Daí que seja difícil compreender como pode um sapo verde pregado numa cruz valer mais do que uma tela da Ju, como foi notado num comentário ao post anterior.

Concluindo, numa sociedade democrática contemporânea, os indivíduos são considerados responsáveis pelos seus actos. A igreja já não tem o direito de nos condenar por blasfemarmos ou simplesmente porque lhe desagradamos, como aconteceu ao longo da Idade das Trevas. Isso é assim na esfera da nossa vida quotidiana e também no campo da Arte. Daí que o triste episódio do sapo verde seja apenas mais um tique intolerante de uma igreja que ainda não percebeu em definitivo qual é o seu verdadeiro lugar no mundo actual. A perspectiva que a Igreja tem da arte não é altruísta nem desinteressada, tradicionalmente vê-a como uma ferramenta de propaganda e divulgação.

Deixem o sapo em paz. Aquilo é Arte! Ou não?

quinta-feira, agosto 28, 2008

Por falar em blasfémias...



Fotografia: Cortesia Museion/Reuters

28-08-2008 13:03:00

Arte Contemporânea ou blasfémia?

Uma escultura de madeira com um sapo verde crucificado exposto no Museion, Museu de Arte Contemporânea em Bolzano, norte de Itália, provocou a ira do Papa Bento XVI. Em solidariedade com o presidente do Governo regional, Franz Pahl , que no início do Verão entrou em greve de fome para que removessem a peça de arte contemporânea da exposição, o Papa considerou, em carta enviada ao museu, que a obra era uma blasfémia: “É ofensiva para os cristãos que vêem na cruz o símbolo da salvação”. A direcção do museu reúne-se hoje para decidir se retira ou não o sapo da exposição.

Texto retirado do Público online

Segundo fonte do dito museu, a escultura é um auto-retrato do artista alemão Martin Kippenberg em estado de crise profunda. Crise existencial, poderemos nós depreender. É de salientar que Kippenberg faleceu em 1997, com 44 anos de idade e, portanto, já cá não está para apreciar a polémica causada pela sua obra.

Como é seu timbre, a Igreja Católica reagiu violentamente contra o objecto em causa, dando-lhe a habitual publicidade que, se estivesse menos actuante no campo da censura, nunca teria.

Pelas fotos trata-se de uma obra, no mínimo, grotesca. Um sapo de louça verde e vidrada, com uma caneca (de cerveja?) numa mão e um ovo cozido na outra, pregado numa cruz... que raio de ideia! Ainda por cima tratando-se de um auto-retrato. É caso para bradar: meu Deus!!! Mas pouco mais do que isso.

Ao pretenderem fazer justiça divina, castigando os mortos (o artista) e os vivos (os responsáveis do museu), o Papa, o bispo e até o presidente do governo regional, estão apenas a fazer figuras tristes, mostrando aos mais distraídos que não são capazes de conviver pacificamente com um mundo onde a igreja ocupa um lugar que já não lhe permite mandar ninguém para a fogueira nem estigmatizar obras no Index, de má memória.


Esquecemo-nos frequentemente que a Igreja Católica tem estes instintos e apetites. O facto de estar domada vai para quase um século, não lhe apagou totalmente os tiques absolutistas, herdados ao longo de séculos em que se manteve ao lado dos poderosos e fez a vida negra a todos quantos punham o pé na frágil e instável linha do que era e do que não era permitido pela lei divina. Lei essa bem terrena nos seus propósitos e características. Tal como agora, com esta história do sapo.

Deus, se existir, poderá sentir-Se insultado por tão pueril espantalho? Deus, se existir, será muito superior a qualquer tipo de insulto que um mero ser humano possa fazer-Lhe. O mesmo não se pode dizer dos homenzinhos que dizem (será que acreditam?) representá-Lo aqui na Terra.
A haver blasfémia, neste caso, será mais contra a Arte que contra Deus, mas isso já é outra conversa...