quarta-feira, setembro 03, 2008

Abstracção?

Os comentários ao post anterior trouxeram uma questão que me parece pertinente. Os valores astronómicos (ou poderei dizer: absurdos?) atribuídos a determinados produtos causam indignação à maioria das pessoas. Falou-se das pinturas de Ticiano, em posts anteriores tinhamos lançado um olhar sobre o leilão de obras de Damien Hirst e as latinhas de merda de Piero Manzoni, vendidas ao preço da grama de ouro. Aqui se colocava a hipótese de ouro=merda, numa manifestação de desprezo terrorista em relação ao mais cobiçado dos metais.
Nos últimos dias vieram a público notícias que dão conta da transferência do jogador brasileiro Robinho que trocou o Real Madrid pelo Manchester City por 42 milhões de euros pagos em "dinheiro fresco" pelos novos donos do clube, uns árabes cheios de guito. Não satisfeitos com esta compra estonteante, os ditos árabes do Abu Dhabi United Group oferecem 165 milhões de euros por Cristiano Ronaldo. Inacreditável?

Estes milhões todos cruzam os ares sem que lhes possamos pôr a vista em cima. Os números são de tal modo estranhos de tão grandes que para o comum dos mortais é quase impossível compreender o que significam. Para mim é tão difícil de entender a extensão destes valores como imaginar um universo infinito em expansão.
Talvez a grandeza incomensurável destes números esteja na base de uma suposta natureza divina do capital (e do dinheiro) e Cristiano, Robinho, Hirst e Ticiano sejam uma espécie de ícones de santos a colocar nos altares mediáticos desta divindade implacável que é o Capital (assim, com "C" grande).

O papel principal destes ícones será provar aos cépticos a existência real dessa divindade. E nós, servos potenciais do Capital e seus adoradores indefectíveis, pasmamos perante provas de tão grande poderio e vigor. Só nos resta sonhar com fatias pequeninas da sua "carne" que nos permitam comprar a felicidade e usufruir das benesses que o Capital promete aos que nele acreditam, para ele trabalham e, em última análise, o adoram acima de todas as coisas.
Temos divindade!

27 comentários:

Tihauanaco disse...

Tudo que se faz com o dinheiro, além de gastar, é imoral. Mas, frente a estes fatos, acho que gastá-lo de maneira fútil ou até debochada (e não falo de Ticiano) também não deixa de ser.

Silvares disse...

Mas como podemos gastar algo que não existe de facto? Quando se trocam tantos milhões por uma obra de arte ou pelas qualidades de uma pessoa não se estará a negociar num plano meramente abstracto? Aliás, o valor de um quadro de Ticiano na Somália deve ser próximo do zero perante as necessidades básicas das populações que estão por satisfazer. Isto é mais complicado do que estou a ser capaz de equacionar...

expressodalinha disse...

Eu acho que o papel dos ícones modernos é provar que ainda existe dinheiro!

Tihauanaco disse...

Silvares.
Desculpa a mudança de assunto, mas o nome daquele trabalho é anjo claro para personagem obscura ou Bons amigos?

Silvares disse...

Jorge, também me parece. Mas, se calhar, é tudo ilusão.

Beto, os títulos dançam conforme a música. Por vezes a parte de trás dos meus trabalhos parecem o rascunho de um conto de Natal.
:-)

Tihauanaco disse...

Fico com anjo... hehe
É muito bom mesmo. E, de uma maneira bastante significativa, creio que representa de certa forma meus temas recorrentes.

Quanto custa o que, disse bem o Silvares, depende de onde se está.
Em Mõnaco Ticiano deve ser uma barbada, no Sudão a coisa fica diferente. E o Robinho e qualquer outro astro do futebol, fazem parte do ópio das multidões, que é o futebol. Não serve de parâmetro para nenhuma comparação.

Alice Salles disse...

"Quando se trocam tantos milhões por uma obra de arte ou pelas qualidades de uma pessoa não se estará a negociar num plano meramente abstracto?"

Concordo com essa sua ideia e desculpe-me pela falta de acentos. Acredito que baseamos nao so nossa cultura mas tambem nossa economia em fatores irreais e absurdos!

Eduardo P L disse...

Esta discução é muito boa para o blog do Silvares, mas não vai mudar em nada essa realidade! Uma coisa é o que achamos que tem VALOR e PRIORIDADE outra é o que os ÁRABES INDINHEIRADOS acham!

Silvares disse...

Alice, é isso que me confunde. O valor que atribuímos aos bens que consumimos é absolutamente fictício.

Eduardo, se pudessemos mudar a realidade com uma discussãozinha aqui no Blogue eu erguia uma igreja em nome do Grande Blogger!
:-)
Os árabes estão apenas a aproveitar-se das oportunidades que o sistema lhes oferece. Como eles detêm muito poder económico aproveitam... enquanto é tempo, pois o petróleo é bem real e um dia acaba.

jo-zéi disse...

O dinheiro está muito mal distribuido.
Uns com tanto e outros com tão pouco.
:-S

Silvares disse...

É a história da humanidade.

claire disse...

Estou com o mesmo dilema, haver necessidade de ter uma colaboradora para as tarefas domésticas e ter urgência de ir ao dentista.

roserouge disse...

Ora, são todos uns aldrabões, isso sim! Artistas e futeboleiros! Ah, pois...eheheh...esta agora doeu!

Luma disse...

Silvares, viu que o pedaço de bolo que havia sido dado a Moyra Smith, uma faxineira da residência real de Clarence House, em Londres, por um chef da família real, no dia do casamento de Lady Di em 1981, foi à leilão? Um louco arrematou por 1.200 libras, pra quê? O gosto não deve ser bom...e nem foi um novo rico querendo aparecer, foi um colecionador privado da Grã-Bretanha, que deseja permanecer anônimo. Dizem que a fatia somente possue umas rachaduras e danos. Beijus

peri s.c. disse...

O problema é que nunca achei, empoeirado no meu sótão, um quadro com assinatura milionária ( os grandes artistas nunca estiveram aqui nos trópicos ), nem tenho criação de jogadores de futebol lá no quintal.

Tihauanaco disse...

Luma, é a demência. Uma pessoa que compra isso é maluca, pra não dizer burra!

Eduardo P L disse...

Não vou perder a oportunidade de relatar aqui, uma coisa que nunca contei no meu blog, e cai a propósito do comentário do Peri:
Morei dois anos em Belém do Pará, no Norte do brasil, e como sabia que um grande artista brasileiro era natural de lá, todo esse tempo procurei encontrar um trabalho dele, que fosse! E nada. Ninguém conhecia o arista, que havia se mudado para o Rio de Janeiro, e só lá se tornado conhecido de poucos à época!
No dia que iria voltar para São Paulo, de mudança, com ela já no caminhão, e dormindo a última noite num hotel, descubro uma notinha no jornal O LIBERAL de Belém, sobre duas telas de ISMAEL NERY nas mãos de uma família que gostaria de se dispor das obras!
Imediatamente corri atrás dessa família, muito simples e morando nos arredores de Belém, e adquiri essas telas, que apesar do péssimo estado de conservação, eram autenticas e talvez uma das primeiras pinturas a óleo do , HOJE famoso e valorizada ISMAEL NERY. Não foi no sótão, como propõe o Peri, mas quase!!!!
O prazer é o mesmo de ganhar na loteria. Levei-a para São Paulo, no mesmo dia, e a primeira pessoa a quem mostrei foi o professor BARDI, que era diretor do Museu de Arte de São Paulo, uma autoridade em artes à época! Ficou tão encantado com meus Nerys que resolveu que o próprio Museu faria a restauração necessária!Molduras à altura das obras e o "mercado" foi obrigado a engulir mais dois Nerys, artista de pouquíssimas telas a óleo.E portanto muito valorizadas!
Desculpe Silvares, por ter me estendido, mas achei oportuno registrar!

Jo-zéi F. disse...

"A Propaganda e a Publicidade são uma espécie de Pornografia".-dise Possó(Pintor).

Somos todos vítimas das MODAS.

:-))))

Tihauanaco disse...

Silvares, e a exposição?

Silvares disse...

Claire, temos de nos desdobrar...
:-)

Roserouge, por acaso até não doeu.
:-D

Luma, há coisas verdadeiramente exraordinárias e inesperadas.

Beto, vá-se lá saber o que leva alguém a fazer uma coisa daquelas!

Eduardo, esse episódio mostra o poder da informação. Quem sabe e conhece pode decidir com maior qualidade.

Jo-Zéi, a moda só vitima quem tem pinta de vítima (olha a importância dos acentos nesta frase!)

Beto, é já na próxima terça-feira!
Yeeeessss!!!

Eduardo P L disse...

E pergunto, faltando seis dias, já sabe quanto pedir por cada obra?

jo-zéi disse...

rui: e a internet, por exemplo, será uma MODA??? ou não??'

Silvares disse...

Eduardo, sinceramente, não tenho tido tempo para pensar no assunto. Para mim, vender ou não vender é (quase) indiferente. Expor é um acto meio insensato. Os meus trabalhos não são do género de colocar na sala de jantar. Prefiro não me alongar muito neste assunto.Agora mesmo estive a pintar e tenho a noção de que não há dinheiro que pague aquilo que faço. É demasiado pessoal, é bom demais!

Jo-Zéi, tenta responder a essa pergunta. Tu sabes a resposta.

Jo-zéi F. disse...

não sou vítima da net, mas já não podemos passar sem ela.

:-)))

disse...

Valores, valores mutantes,e tão diversamente "avaliados"...ou será "criados"?Discução para horas...
Silvares sempre tão interessante este teu espaço...teus textos, escolha de assuntos e comentários fazem deste sitio um prazer.Bom fim de semana e ótimo preparativo para tua exposição...

Ela anda a partir pedra e eu nas tintas disse...

Muda-se as cortinas ora!

claire disse...

ela anda a partir pedra e eu nas tintas, é o meu nick, não linko errei numa tecla. já tens tudo prontinho para o strip!