sábado, julho 19, 2008

Sonho de uma tarde de Verão

Imagem de Alexandre
Hoje tive um momento estranho. No calor abrasador da tarde, saí para deitar umas garrafas de plástico no ecoponto e ir comprar cigarros. Na soleira da porta do prédio ao lado do meu estava um rapaz que contava entusiasmado uma história a uma rapariga. Não teriam mais de 14 ou 15 anos. Ele explicava como tinha sido intensa uma experiência qualquer, passada algures num sítio chamado Bairro Branco. Não faço a mínima ideia de onde será tal sítio. Apanhei qualquer coisa relacionada com pintura. Graffiti, imaginei. O rapaz dizia que estava a pintar quando a mãe lhe telefonou. Dobrei a esquina, perdi o resto. Ao regressar após ter deitado as garrafas no contentor, havia mais um rapaz, um vizinho que mora naquele prédio. A rapariga era a namorada dele pois, apesar do calor, estavam abraçados. O outro miúdo contava a história de novo, a tal aventura passada no Bairro Branco.


Quando entrei no carro lembrei-me daquele tempo em que, quando um gajo tinha uma história, a contava vezes sem conta até ficar perfeita, até a realidade se ajustar à nossa perspectiva dos acontecimentos. Aquele tempo em que a verdade não era mais do que contar histórias repetidas até à exaustão.


E como era bom sentir as peças a encaixarem-se umas nas outras, perfeitamente, cada vez melhor sempre que a história era repetida. E o entusiasmo com que o fazia, a volúpia de poder limar algumas arestas colorindo o meu papel nos acontecimentos. Fazia de mim o herói do meu próprio filme, claro.


No calor da tarde senti-me outra vez um adolescente feliz por encontrar uma ordem segundo a qual a realidade fazia todo o sentido, por recordar como o Mundo já foi, para mim, um lugar completo e preenchido, uma ficção maravilhosa onde as coisas verdadeiras se misturavam com perfeição nas outras, menos verdadeiras mas não menos reais. E misturava tudo, uma e outra vez, até encontrar a narrativa ideal. Depois repetia-a até à exaustão e fazia rir ou apenas sorrir os meus amigos. Na verdade fazia as histórias para eles. Dedicava-lhas, incluía-os, oferecia-lhes protagonismo sem perder de vista o (meu) papel principal.


Ali estavam aqueles 3 adolescentes indiferentes ao sol implacável do verão Almadense, a reviverem a eterna paixão pela vida, uma paixão que se incendeia cada vez mais à medida que se vai percebendo e deixando descobrir. Eles estavam felizes e são felizes. Eu também já fui. E sou... e quero continuar a ser...


10 comentários:

Cristina disse...

Gostei muito deste texto. Fez-me um bem incrível lê-lo. Obrigada.

Beijinhos.

Cristina Loureiro dos Santos

Silvares disse...

Ainda bem que gostaste.Fica bem. Beijinhos.

Eduardo P.L. disse...

A Cristina tem razão.
" Fez um bem incrível, le-lo"
Bonita e sincera frase. Bom texto, mais uma vez! E desta, mais otimista! Fico contente!

Bom Domingo.

Eduardo P.L. disse...

Dando uma volta pela web descobri aqui uma matéria que pelo conteudo e ilustração me lembrou você:

http://www.papelenblanco.com/2008/07/15-humor-grafico-en-la-rep-checa-pavel-reisenauer#more

Espero que concorde comigo!

Forte abraço,

Silvares disse...

Eduardo, pessimismo não é doença, é estado de espírito... será? Por vezes ficamos optimistas.
Quanto à imagem que você encontrou tem toda a razão "sou eu". É o monstro de Frankenstein na versão cinematográfica de James Whale de 1931. Um clássico.
:-)

imelda disse...

Mais uma vez um excelente texto!

(Excepto o "comprar tabaco".... mas, felizmente ou não, não há textos perfeitos).
Uma narrativa tão envolvente,tão realista, tão cheia de vida e de esperança.... prova que esse "estado de alma do pessimismo ... já teve outros dias.

Parabéns pela criatividade e pela "eterna paixão pela vida".

Silvares disse...

Só posso agradecer as tuas palavras. São um incentivo para mim. Obrigado.

mumia disse...

O sonho foi da sestinha...

Silvares disse...

Frankie nã dorme a sesta!

:-)

jo-zéi disse...

eh,eh...Frankie fugiu para Hollywood e o Tom Waits(Espera)...aguarda.


^-^ ^-^ ^-^ ^-^ ^-^