segunda-feira, maio 07, 2007

Reconciliação

Vanessa Fernandes cortando a meta no Pavilhão Atlântico perante uma multidão no mais completo delírio. Heidi Grimm havia de chegar mais de 15 minutos depois...


Disputou-se ontem em Lisboa mais uma prova da Taça do Mundo de Triatlo. Como se esperava, Vanessa Fernandes foi a vencedora da prova feminina, ascendendo à liderança do ranking. Foi a apoteose desta atleta extraordinária com o povão a entrar em delírio numa festa bem portuguesa, a transbordar de emoção, com lágrimas misturadas nos sorrisos rasgados pela gritaria vitoriosa, à beira da histeria. É disto que o meu povo gosta e eu também.



Mas o motivo deste post e da minha reconciliação com o sol que enegrece as sombras do dia que agora fenece tem a ver com uma notazinha publicada no Público, juntamente com a notícia da retumbante vitória de Vanessa. Filipe Escobar de Lima, o repórter de serviço na Taça do Mundo de Lisboa, oferece-nos um pormenor que, na minha óptica, diz muito do que é ser português. Ora vejamos:

Heidi Grimm foi aplaudida como vencedora

O prazer de ser última (ou antepenúltima)

"Só à segunda passagem pelo pavilhão é que percebi que as palmas eram para mim", contou Heidi Grimm. Cada vez que a norte-americana do Colorado entrava pela porta em direcção à passadeira azul estendida lá voltavam os aplausos. Sem ironia e com todo o calor humano. "Foi incrível, senti-me uma portuguesa a correr em casa." A triatleta de 39 anos, agora a viver em Nova Iorque, passou quase toda a corrida no último lugar e foi a mais aplaudida a seguir às portuguesas.
Foi uma espécie de catarse. Quando Grimm irrompeu no recinto, descalça e a pingar a água do rio, [o Triatlo é uma prova composta por natação, ciclismo e corrida a pé] correu para a sua bicicleta - era a única que restava, num deserto de fatos de mergulho e toucas espalhadas pelo chão - e os olhos de todos fixaram-se naquele corpo esguio. Ela, indiferente; o público, acabrunhado, foi-se soltando em incentivos. Era a última, sem hipótese de lutar por nada e, mesmo assim, teimosa, montou no aparelho para se fazer à prova de ciclismo. Tanto empenho para quê? Quando voltou para a primeira de oito voltas, [a prova realizou-se em circuito com passagem pelo interior do espectacular pavilhão Atlântico, sobre a tal passadeira azul] o público levantou-se e aplaudiu-a. Ela, 46ª do ranking, respondeu com sorrisos e acenos [pronto, ela sorriu para uma turba de portugueses eufóricos pela liderança de Vanessa, nem sabia no que se estava a "meter"!] Foi assim até à "cavalgada" final. Ultrapassou quatro ou cinco... Na parte de atletismo, entrava de braços abertos, acenava para as bancadas, os adeptos respondiam. A chegada foi triunfal. Como triunfante foi o 49º lugar... em 51 atletas! Mais de duas horas de puro esforço (duas horas e dezanove minutos a lutar com uma francesa e uma romena).
"Gosto de desporto e assim também aproveito para viajar. Vou agora à África do Sul [próxima prova da Taça do Mundo], diz, de sorriso contínuo. Abraçou as portuguesas. "Nem acreditei. Senti que estava a correr em casa. Foi muito boa esta estreia em Taças do Mundo. Eu respondi ao entusiasmo do público", explicou a atleta. O público perfilhou-a. Quis tê-la como um dos seus. Ela não se importou."

Esta narrativa derreteu-me o coração. Não estive no Pavilhão Atlântico. Vi as imagens pela TV da extraordinária festança que foi a entrada de Vanessa Fernandes para cortar a meta. Arrepiante! Não imaginava que houvesse uma Heidi Grimm, quem se lembra de referir a 49ª classificada em nota de destaque? Lembrou-se Filipe Escobar de Lima que realizou, assim, um excelente trabalho de reportagem. No jornal desportivo que folheei ao fim da tarde não havia lugar para a saga de Grimm, apenas referências aos feitos dos atletas portugueses envolvidos.
Escobar de Lima mostra-nos aquilo que sabemos ser de vez em quando. Na nossa incondicional admiração pelos que não desistem podemos tornar-nos tão humanos, tão humanos que só temos emoção à flor da pele e mais nada interessa. Gritamos, esbracejamos, choramos e rimos ao mesmo tempo. Como animais ou lá que é isso. E é tão bom!!!
Obrigadão, ó Filipe, fizeste-me regressar à Terra com algo melhor dentro de mim e a dançar-me nos lábios.

4 comentários:

luis lima disse...

1º- Era so para te dizer que embora nao comente, leio sempre.
E divulgo.
E gosto de ler, sempre

2º- Eu queria era comentar era aquela do '``a procura da beleza', o 'Post Scriptum', claro, fez-me lembrar Viseu, mas tive medo que ja nao lesses por ser antiga.

E um copo um dia destes,n~~ao?

Silvares disse...

Olha o Lima!
É, aquilo é uma espécie de descrição de um Paraíso viseense... um copo um dia destes.... sim. É combinar.
Um abraço.

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Lindo, Rui!
Fiquei com lágrimas nos olhos...

Beijinhos :)

Cláudio Tereso disse...

Eu estava lá, vi e aplaudi!
Nem consigo imaginar o que passou pela cabeça da Heidi, quando nós, milhares de Portugeses, aplaudimos fervorosamente cada vez que ela passava!
Foi do outro mundo!!!!

Parabens para ela, para a Vanessa e para os outros e outras :)