segunda-feira, maio 14, 2007

Cerumen (ou monstro?)

Terei o colesterol mais ou menos e a tensão arterial assim-assim. Os pulmões devem estar para o negrito e o nariz, caraças, esse, na Primavera, parece sei lá o quê, entupido, fanhoso, aborrecido por não poder estar em paz. Toda esta porcaria acumulada nos canais e vias de comunicação corpo acima, corpo abaixo, provocam uma acumulação de nhanha tal que estou virtualmente surdo.

Tenho passado os últimos dias como se estivesse fechado no fundo de um barril cheio de água, a ouvir o mundo borbulhar ao longe com menos graça ainda do que é seu costume e apanágio. Se não tivesse de dar aulas até que nem seria mau de todo. É uma sensação meio estranha, esta, de estar quase desligado dos sons que me rodeiam. Obriga-me a dar muito mais atenção às pessoas que querem comunicar comigo, olho-as mais fixamente, coisa decerto algo intimidatória para quem não está ao corrente do meu entupimento geral. "Porque está este gabirú a entrar-me com os olhos na cara?", devem pensar, mas não é por nada mais que não seja esta estúpida surdez passageira.

O mais aborrecido é não conseguir ouvir o noticiário na TV sem incomodar as outras pessoas. Então prefiro desistir. Leio o jornal. O menos aborrecido é poder concentrar-me melhor e não precisar de fingir que não ouço aquilo que na verdade não posso ouvir. Ainda por cima posso imaginar um pouco mais ou menos que sou o imortal Goya (mal perca a surdez lá se vai a ilusão!)

Amanhã vou ao posto médico propor que me limpem os ouvidos. Vai ser o bom e o bonito. Estou curioso para ver o que vai sair dali. Se cêra, apenas, se algum monstro langonhento e meio adormecido a espernear por ser desalojado do conforto da caverna que por ora habita.

Se for monstro juro que o mato!

1 comentário:

Eduardo P.L. disse...

Ainda bem que não era!