quarta-feira, maio 30, 2007

3 histórias 3





O mundo roda e deve ser isso que nos faz como somos, meio tontos.
Hoje estou em greve e quis saber pormenores dos níveis de adesão por esse país fora. À uma hora da tarde liguei a TV para acompanhar os serviços noticiosos nas 3 estações de canal aberto. Todos abriram com notícias relativas ao impacto da Greve Geral na vida quotidiana do país. Como se esperava o sector dos transportes públicos foi o mais afectado com particular incidência na zona da Grande Lisboa. Um pouco por todo o lado fez-se sentir a adesão da milhares de trabalhadores descontentes com o rumo que o governo tem aplicado na definição das suas políticas. Como se esperava, a leitura que os representantes do governo fazem desta greve, tende a desvalorizá-la.
Teixeira dos Santos, ministro de estado e das finanças, afirma que "As greves gerais paralisam os países mas o país não está paralisado". Pois não, isso seria inédito, mas o recado das classes trabalhadoras está dado. Ouçam-no, senhores governantes.
Nos telejornais apareceram uns secretários de estado a fornecer e analisar dados recolhidos pelos seus serviços (um deles era o senhor do frigorífico que protagonizou a rábula dos congelamentos que analisei no post de sexta-feira passada, um tipo rigoroso nas suas análises, como sabemos). Segundo eles nada de significativo se passou, tudo está dentro da maior das normalidades (mais normal até do que em certos dias normais!). Logo a seguir surge Carvalho da Silva, Secretário Geral da CGTP garantindo que os objectivos da greve foram alcançados e que apresentaria os seus números (que diferença extraordinária haverá quando comparados com os do governo) lá mais para o final da tarde, uma vez que muitos serviços funcionam por turnos e não quer estar a enganar ninguém, precipitando-se na sua análise.
Resumindo, a informação será, mais uma vez, estúpidamente contraditória, cada um a querer fazer valer o seu ponto de vista. Será de todo impossível uma leitura clara e descomplexada deste género de situações?
Da Venezuela chegam notícias da cruzada de Hugo Chávez contra as televisões privadas. Este ditador populista está a fazer história. Regressam os regimes ditatoriais à América Latina, agora por via de ditadores eleitos em processos democráticos. Uma vez no poder engendram formas de aí se perpetuarem. Este é o sonho de qualquer aspirante a feiticeiro social que se preze. O nosso Sócrates bem que deve olhar Chávez com uma pontinha de admiração.
Após o encerramento da Radio Caracas Television (foi-lhe recusada a renovação da licença de emissão) Chávez aponta agora baterias sobre outro canal privado, a Globovisión, acusada em tribunal de encorajar um atentado contra a vida do presidente. O mais extraordinário desta situação é a base da suspeita que, segundo a BBC, estará relacionada com a emissão pela Globovisión de imagens relacionadas com a tentativa de assassinato do Papa João Paulo II, em 1981, , acompanhadas da canção This does not stop here, interpretada pelo actual ministro do turismo do Panamá!!! Como argumento legal não está nada mal. Um dia destes quem olhar de lado para o ditador venezuelano será abatido a tiro desde que haja, pelo menos, 3 testemunhas do olhar maldoso.
Finalmente a notícia da agitação que está a causar na, aparentemente pacata, Holanda a estreia de um programa de TV intitulado "O Grande Dador". O programa é fruto da imaginação prodigiosa da Endemol que, entre outras pérolas televisivas, já ofereceu (a bom preço) ao mundo o conceito do Big Brother. A ideia é simples: uma doente em estado terminal oferecerá um rim a um de 3 concorrentes participantes no programa. Estarão todos em estúdio esgrimindo argumentos para convencerem a mulher a doar-lhes o rim. O público também poderá participar na eleição do feliz contemplado votando por SMS.
São 3 histórias muito diferentes mas todas elas exemplares. Onde está a verdade? Como se materializa? O entretenimento pode ir ao ponto que é proposto pelos produtores de "O Grande Dador"? Bom, não sei bem, não. Mas posso sempre lembrar que os romanos, nos tempos do Império, se divertiam com pessoas a desmembrarem-se na arena do circo. E, ao que parece, divertiam-se mesmo!

14 comentários:

Jorge disse...

Uma ideia utópica, eu sei, mas sedutora: e se o Huguinho e o Teixeira dos santos fossem os 'Grandes Dadores', mas cada um doasse os dois rins?

Olhar disse...

O Hugo Chavez ganhou as ultimas eleições na Venezuela, em Dezembro passado, com mais de 60% dos votos, num país onde as televisões privadas (todas elas contra Chavez), representavam 80% do espaço televisivo (http://www.rebelion.org/noticia.php?id=51507), dominando também o capital privado a rádio e a imprensa escrita.

Antes das eleições Hugo Chavez afirmou que não iria renovar a licença à RCTV, transformando-se a sua vitória numa legitimação dessa pretensão.

Em 2002, aquando do Golpe militar que pretendia e retirou durante 2 dias Chavez do poder, a RCTV teve um comportamento de quem estava envolvida no golpe. Noticiaram entre outras falsidades, que Chavez tinha levado a cabo um massacre na capital.

Fazer oposição em democracia não é colaborar em golpes militares,pondo em causa as decisões tomadas pelo povo através do voto.
Era bom que nos entendêssemos nestas regras.

Num estado Democrático cabe ao estado renovar ou não renovar as licenças do espaço radioeléctrico. É um direito que lhe assiste, ou partimos do principio que uma estação de TV ou rádio, a partir do momento que ganha essa licença ela é para a eternidade e tornam-se inimputáveis as suas direcções e os governos inibidos de decidir, tornando a renovações uma mera pró-forma?
Será o capital intocável, tendo os governos legítimos que se submeter a eles?

Estranho ditador este, num país onde há tanta diversidade de opinião nos meios de comunicação, onde a oposição tem plena liberdade de se manifestar nas ruas.
Tomara que em Portugal a oposição de esquerda tivesse a mesma possibilidade de aceder aos meios de comunicação.
Estranha democracia esta.

Não há duvida: “há que lavar os olhos entre cada olhar”.

Silvares disse...

Utopias, utopias... com rins ou sem eles esses gajos não esmorecem!

Caro Olhar, dou o braço a torcer. Perante os argumentos que apresentas sou forçado a reconsiderar. As questões colocadas mantêm-se, no entanto: Onde está a verdade? Como se materializa? A informação que circula e nos leva a construir os nossos modelos da realidade tem muito a ver com aquilo em que queremos acreditar. Será tudo uma questão de fé?

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Três comentários:
a) Que a greve geral daí surta efeito, que ouçam o que têm a dizer com atenção, são os meus votos.
b) De Hugo Chávez já não espero nada. A idéia do atentado não é má. Rei morto, rei posto.
c) Impressiona-me que o mau gosto possa imperar em um país culto como a Holanda. Nada mais chão, baixo, vil, do que a idéia do programa.

Abraços

Silvares disse...

Lord.
1- A greve ficou aquém das expectativas. O governo sorri...
2- Já não sei o que pensar desse homem.
3- A ânsia de ganhar dinheiro com a miséria alheia produz estranhas ideias.

Jorge disse...

O que o 'olhar disse, não é exactamente assim. Bastou ver na Tv o comportamento da polícia nas manifs a favor e contra o Chavez. Que dizer de um homem cujo governo vai reformular os manuais escolares de forma a que as crianças venezuelanas possam aprender na escola, desde tenra idade, a doutrina 'chavecita'? Que dizer de um homem que alterou a constituição de modo a poder perpetuar-se no poder? Que dizer de um homem que tem entre os seus melhores (poucos) amigos no estrangeiro o presidente do Irão, conhecido entre outras coisas pela negação do holocausto? Por fim, queria lembrar que na Albânia de Enver Hoxha, este também ganhou eleições com percentagens de 99% (!) e Fujimori, para me situar geograficamente mais perto de Hugo Chavez, também ganhou eleições no Perú. O próprio Adolfo, que o Inferno com certeza tem, ganhou eleições na Alemanha. Depois, foi o que se viu...

Jorge disse...

Só para falar de mais um sul-americano, queria lembrar que o Pinochet ganhou por larga margem os plebiscitos de 1978 e 1980, o primeiro deles por 'goleada'. Depois veio a alteração da constitução para prolongar o seu mandato, a Caravana da Morte, a Operação Condor, as contas secretas no estrangeiro, as barras de ouro num banco em Hong-Kong, etc...

eu disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
eu disse...

Gostava de ser inteligente como vocês.


D. Galinha

Silvares disse...

Jorge, obrigado pelas notas históricas. Realmente as percentagens obtidas valem o que valem, conforme as circunstâncias.

D. Galinha Para começar talvez possas encarnar noutra animalejo. Enquanto fores galinha estás em desvantagem!
:-)

Olaio disse...

Aqui ao lado, na vizinha Espanha mais propriamente no Pais Basco, temos o partido Batasuna proibido pelo facto de não condenar abertamente a actividade da ETA.
Nas últimas eleições a Esquerda Independentista que pretendia concorrer às eleições do passado dia 27, foi proibida de apresentar candidatos, sob a acusação de estarem vinculados ao Batasuna.
A Acção Nacionalista Basca (ANV) teve 133 candidaturas proibidas, também por alegadamente estarem ligados ao Batasuna, isto apesar de nos seus estatutos se condenar claramente a violência.
No entanto não se houve ninguém nesta nossa bendita democracia, principalmente jornalista, chamar a atenção da deriva totalitária no real reino dos Borbons. Diria que é tudo uma questão de classe.
Jorge comparar Pinochet com Hugo Chávez só pode ser por ignorância ou má fé. Chávez foi eleito e reeleito em eleições democráticas, devidamente certificadas por todos os observadores estrangeiros da EU e dos EUA. Como uma oposição com muitos mais meios do que a nossa oposição tem e superiores aos de Hugo Chávez, só em termos de TV`s tinham a RCTV, Venevisiom e Globovision (A Venevision faz parte de um dos maiores impérios da imprensa na América TODA, uma espécie de Balsemão das Américas), comparar isso com qualquer eleição realizada no Chile de Pinochet é puro mau gosto.
Já agora é só para lembrar que uma das razões porque a RCTV perdeu o direito aquele espaço radioeléctrico foi precisamente por ter participado num golpe militar, que por via militar queria pôr uma espécie de Pinochet no poder!
Não conheço nenhuma “doutrina chavecita”, mas sei que Hugo Chávez aumentou e bem o salário mínimo, está a levar a saúde a muitos venezuelanos e principalmente, está a distribuir os lucros do petróleo de uma forma mais justa pela população e, esta parece-me ser uma das razões porque há quem não goste dele.
Por fim, entre ter como amigo o presidente do Irão que diz que; já que o Holocausto foi na Europa, porque não são os europeus a gramar com os Israelitas e o presidente dos EUA, não sei quem é que está melhor acompanhado.

Jorge disse...

Ok, Olaio, dou-te razão na observação acerca do Pinochet, que foi um pouco provocatória, bem como na comparação entre o louco do Presidente do Irão e o atrasado do Bush. O resto, acerca do Fujimori, como sabes é verdade, e os que o aclamaram entusiasticamente, foram os que mais tarde se queixaram dele. Hitler também foi democraticamente eleito em 1932 e criou emprego para o povo alemão, aumentando o seu nível de vida e galvanizando-o para grandes feitos. O resto é história. E como queres que leve a sério um tipo que exibe orgulhosamente um papagaio com uma boininha igual à sua? Será que o animal sabe dizer 'Viva Chavecito'?

Olaio disse...

Em relação ao Chávez, o que eu recuso liminarmente é a visão maniqueísta e manipuladora do governo americano e seus amigos europeus, difundida pelos meios de comunicação de massas como o “pensamento único”. Considero que o que se passa, é uma questão de classe, nomeadamente de luta de classes, não sendo inocente nem independente a posição dos diversos comentadores e intervenientes.

Sou critico do seu estilo populista e acho ridículo aparecer com um papagaio de boina vermelha, mas entendo que o populismo em si não é razão para se condenar um politico. Esse estilo, como outros, servem para levar à prática determinadas politicas e são essas politicas que é necessário avaliar.
Nesse aspecto, Chávez tem desenvolvido uma politica que assenta numa mais justa distribuição da riqueza, nomeadamente a que provém do petróleo. Facto reconhecido e com repercussões mesmo em Portugal, dado os nossos imigrantes dominarem o comércio alimentar e este ter crescido significativamente devido precisamente à população ter mais poder de compra.
Outros factos reconhecidos são o investimento na saúde, na educação e a procura de uma politica que resolva o problema da habitação.

Uma das coisas que admiro em Chávez, é sua oposição frontal, clara e corajosa em relação à administração americana e a Bush, o seu apoio activo e militante a esta espécie de renascimento da América Latina, que se regista desde o muro que separa os EUA do México até às terras da Patagónia, mesmo no interior dos EUA, veja-se as grandes manifestações de imigrantes.

Percebo que isto não agrade a determinada gente e que sobre o fim da concessão à RCTV, as TV`s repitam até à exaustão as mesmas imagens das manifestação contra esta decisão, e que a SIC numa reportagem sentida e emocionada tenha terminado afirmando: “calou-se a única voz da oposição, ficando agora no ar uma única voz; a de Chávez!”, o que é uma grosseira e despudorada mentira.
Entendo, no entanto, que tudo isto é uma questão de classe.

Quanto aos confrontos entre manifestantes e policia, recordo que nos mesmos dias em que eles aconteciam em Caracas, na Alemanha registava-se igualmente confrontos por causa da próxima reunião dos G8, com resultados semelhantes. Vamos lá a ver o que vai acontecer durante a cimeira nos próximos dias 6 a 8 de Junho.
Mas será que isso é sintoma de uma deriva ditatorial na Alemanha e no espaço da UE? (não falando já do crescente controle dos cidadãos feito à custa do papão do terrorismo).

Por fim e quanto à RCTV. Ttambém eu no futebol, gosto e prefiro que a minha equipe ganhe contra 11 adversários em campo, mas se o adversário faz jogo baixo e perigoso, pondo em risco a integridade física dos jogadores da minha equipe, então a bem do jogo, da verdade desportiva e da qualidade do espectáculo, exijo que o árbitro expulse os jogadores faltosos.

São as regras do jogo!

Silvares disse...

Quer-me parecer que, seja na Venezuela, na Alemanha, nos EUA ou em Portugal, o poder tende a reprimir e "evitar" as investidas de quem o ponha em causa. Seja o poder de direita, de esquerda, populista ou catedrático, olha sempre de soslaio quem o confronta com os limites e as incongruências das suas opções. Não há poderosos inocentes (muito menos inocentes poderosos). Se excluirmos os países nórdicos e algumas democracias do resto da Europa, temos o poder sempre com cara de mau e músculo de polícia bêbado.