quinta-feira, maio 24, 2007

Direitos adquiridos


Nos últimos dias temos ouvido falar muito sobre os "direitos adquiridos" de que teremos de abrir mão dada a evolução da economia. É certo e sabido que a Segurança Social não poderá comportar, no futuro, reformas do mesmo nível das que paga actualmente, sob risco de colapsar. Ou seja, eu sei que estou a trabalhar e a descontar uma fatia do meu ordenado para suportar o pagamento de reformas que actualmente são bem "interessantes" e, quando chegar a minha vez de "arrumar as botas", a Segurança Social irá pagar-me (se for possível) uma reforma menos robusta, por assim dizer. Os direitos adquiridos pela geração do meu pai, graças à Revolução de Abril e à extraordinária afirmação dos direitos de quem trabalha, nunca serão meus. A minha geração irá perdê-los. É certinho!

Em termos económicos, os célebres direitos adquiridos, que são direitos próprios de uma Democracia que se baseia em princípios de solidariedade social e não em ditames economicistas, estão a morrer ou, pelo menos, em transformação profunda. Não só vou ter de trabalhar durante mais tempo (devido ao aumento da idade de reforma para os 65 anos) como não tenho a certeza de obter retorno do "investimento" que faço todos os meses ao descontar para a Segurança Social. É um risco que corro, que corremos todos.

Dos vários direitos adquiridos este será um dos que correm maior risco de vir a sofrer danos irreparáveis. Mas estou disposto a correr este risco. Digo mesmo que abdico de bom grado deste direito desde que não me belisquem, sequer, o maior de todos os direitos adquiridos pelo meu pai e a sua geração, a sua verdadeira herança, aquele que caracteriza e distingue o sistema democrático de todos os outros e que me mantém vivo, convicto e actuante: o DIREITO INALEANÁVEL À MAIS COMPLETA E ABSOLUTA LIBERDADE DE EXPRESSÃO!

No dia em que o meu país não me reconhecer ou proteger este direito eu não quero continuar a viver nele. No dia em que isso acontecer este não será o meu país, será o país em que viveram os meus avós e do qual nem me lembro bem por ser tão miúdo que ainda não compreendia o valor absoluto que este direito representa, e eu não quero nem posso retroceder no tempo em matéria de liberdade de expressão. Em nome dessa liberdade estou disposto a correr todos os riscos, estou disposto a dar a cara e o peito e mais que seja necessario para a defender.

Admito que, em nome da Santa Economia, tenhamos que regredir naquilo que diz respeito ao "direito ao consumo" e vejamos a dita Santa a abanar no altar. Mas a Economia não passa de uma Santinha de pau carunchoso. Nesta cosmogonia a Liberdade de Expressão é Deus!

4 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Sua postagem me comoveu. Lembro-me de quando vocês recuperaram o direito de expressão aí em Portugal. Nós, mergulhados ainda em ditadura militar, comemoramos a revolução de Abril, felizes com a conquista de nossos irmãos portugueses. Cantamos, comandados por Chico Buarque de Holanda: "Foi bonita a festa, pá...". Passamos agora, como sempre, por um destino semelhante. A carga tributária por aqui, pasme, consome 5 meses de nosso salário. Significa que trabalhamos esse tempo de graça para sustentar um governo corrupto. A minha idéia, embora não me preocupe muito com isso, é também conseguir me aposentar aos 65, quando passarei a receber mais ou menos um terço do que ganho. Emt troca o estado não oferece: educação, saúde e infra-estrutura razoáveis. O mais importante, concordo, é que possamos continuar reclamando.
Abração

Silvares disse...

Lord, nos últimos tempos andamos preocupados com sinais de intolerância e tentativas de manipular a informação por parte de agentes do governo.
Há um debate público em alguns jornais de referência e começa a haver também alguns detentores de cargos importantes que olham para o assunto com preocupação.
Quanto à questão das reformas e descontos, é melhor não falar muito. Todos os meses eu desconto um 1/4 do meu ordenado. Acho justo descontar não gosto é da forma como o emu dinheiro é aplicado.
Dizem que isto é uma espécie de Democracia...

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Sim, a liberdade de expressão é fundamental! Está tudo dito.

Um abraço :))

Silvares disse...

Cristina
Estava precisamente a pensar "naquilo".
Obrigado pela forcinha!
;-)