quarta-feira, junho 13, 2007

Irmãos


A Faixa de Gaza é um território impossível de compreender. O mapa acima é de 2005, talvez não corresponda à actual distribuição das forças no terreno, mas dá para ter uma ideia. A zona que aparece a azul clarinho é Israel. No território os palestinianos estão como sardinha em lata. A situação política é explosiva! (ver notícias de última hora em http://ultimahora.publico.clix.pt/noticia.aspx?id=1296638).
As facções rivais do Hamas e da Fatah envolvem-se em combates terríveis de uma barbaridade difícil de alcançar para quem, como nós, se encontra a milhares de quilómetros de distância. Não há dó nem piedade nesta luta fraticida. O que pode conduzir seres humanos a tão grande desespero e crueldade? Depois destas batalhas o que irá restar de um território já de si exíguo e miserável?
Os actuais combates dão-se numa fase em que se eperava uma trégua para que os alunos dos liceus pudessem fazer os seus exames, tal como os alunos dos nossos liceus os vão fazer, dentro de dias. Aqui é que me ponho a pensar e não passo do ponto de partida. Como será a vida de um "aluno de liceu" em Gaza? E o que estudarão? Como serão as suas escolas, as relações com os colegas, os manuais e o material didáctico? O progresso de um estudante neste ambiente é algo que não consigo imaginar. Estudar com explosões na rua e balas a matraquear a parede do quarto não deve permitir grande concentração. Num território miserável a miséria não pára de aumentar e, imagino, a esperança é substituída pela angústia mais completa.
Decerto haverá "explicações" para a situação. A política é uma arte complexa mas tem as suas regras (para que as entende). Mas, por razoáveis que sejam as explicações, neste caso não vislumbro grandes possibilidades de se vir a encontrar a pedra de toque da resolução dos problemas daquilo a que chamamos Médio Oriente. Se o problema palestiniano é a principal causa de instabilidade na região então a coisa está mesmo preta! Os israelitas observam (apenas?), os americanos não interferem (será?) e a violência espalha-se com uma rapidez assustadora. Não sei o que pensam os países árabes, os irmãos destes irmãos desavindos. Mas, neste contexto, um estado Palestiniano em Gaza parece coisa impossível.

7 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Completamente impossível. De acordo!

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Você coloca diversas questões que também me angustiam. Aliás, hoje, pensei muito em fazer um post sobre o assunto. Não teria chegado aos pés do seu. Um das questões primordiais para mim, que sempre devemos fazer em política, é: a quem interessa o conflito? Certamente não ao povo palestino. Israel, bem perto, mas longe ao mesmo tempo, provavelmente pensa: eles que se devorem! Li certa ocasião que em regiões de guerras e conflitos as pessoas se adaptam, vivem como se aquilo não existisse. Temos relação interessante com a morte. Embora todos saibamos que morreremos um dia, não nos preocupamos o tempo todo com isso. Onde existe luta o medo de morrer é incorporado ao medo mais geral que sentimos. Os meninos palestinos, provavelmente, e me dói dizer isso, torcem para que as provas sejam adiadas. É próprio do ser humano. Nenhum deles analisa a possibilidade de acabar, principalmente porque o fim não faz parte, e agora fico feliz por isso, do imaginário do jovem. Acredito que em cidades como o Rio de Janeiro, os que vivem em favelas, e convivem com a possibilidade de encontrarem uma bala perdida a qualquer momento, pensam do mesmo jeito, ou seja, não pensam.
Grande abraço

Olaio disse...

Após a vitória do Hamas nas eleições de Janeiro de 2006 para o parlamento da entidade palestiniana, Israel pediu ao EUA e à UE para pararem o apoio económico que vinham prestando a essa entidade, acusando o Hamas de ser uma “organização terrorista” que se recusava a reconhecer o estado de Israel, a verdade é que o Hamas afirma-se disposto a reconhecer Israel se estes aceitarem regressar às fronteiras anteriores à guerra dos seis dias e legalmente reconhecidas pela ONU.
Após este pedido, os EUA prontamente cortaram os apoios que vinham prestando aos palestinianos no sentido de estes seguirem o seu caminho para a “democracia”, parece que eles aprenderam depressa demais o significado dessa palavra. A UE demorou mais um bocadinho, disse que talvez, mas que sim…ou não e por fim lá se resolveu a pôr fim aos apoios que dava igualmente ao desenvolvimento da “democracia” na Palestina.
Israel por sua vez limitou-se a controlar as fronteiras dos territórios palestinianos, a ficar com os dinheiros das transacções alfandegárias que pertenciam à entidade palestiniana (normalmente designa-se estes actos por roubo) e sob o pretexto da luta contra o terrorismo, destruiu todas as estruturas económicas existentes em Gaza e volta não volta lá vai uma da Cisjordânia.
Provavelmente os judeus também conhecem aquele ditado; “casa onda não há pão todos ralham e ninguém tem razão” e assim, rapidamente cresceu a miséria entre os palestinianos e começaram os conflitos entre o Hamas e a Fatah.
A UE entretanto “apercebeu-se” dos graves transtornos que estava a provocar a politica de estrangulamento e resolveu, numa atitude altruísta, acabar com o bloqueio económico e recomeçar a dar o seu apoio aos palestinianos. Só com um pormenor, em vez de dar o apoio ao governo palestiniano, resolveu dar o dinheiro aos organismos dependentes do presidente Mahmoud Abbas, o governo, responsável pelo aparelho do estado palestiniano, continuava sem ter acesso à ajuda externa e mesmo aquela que conseguia arranjar junto dos estados árabes, era desviada (roubada) pelos israelitas e entregue a quem Israel queria.
É claro que os resultados eram de esperar e só podiam ser estes, mais uma vez os EUA e a UE deram um forte contributo ao desenvolvimento da democracia no mundo. De Israel nem se fala e, é claro que Amadinejah (no meio disto tudo) é um louco!

Silvares disse...

Pois é Eduardo, parece que estão (estamos?)num beco sem saída.

Lord, a impossibilidade de entrarmos no "outro" impede-nos de ver o mundo com uma perspectiva que não seja a nossa. Essa é uma limitação evidente e que dificulta o ser-se humano. Melhor (ou pior), ser-se humano parece implicar uma visão particular e algo egoísta do mundo que nos rodeia.

Olaio, que Amadinejad é louco parece-me uma possibilidade bastante plausível, embora admita que o louco posso ser eu, por exemplo. Estou ao corrente das situações que expões no teu comentário. Sei que a Democracia para os EUA e para a UE é, também, uma questão de perspectiva particular e egoísta. Quando as eleições são vencidas por aqueles que não interessam é porque houve falcatrua. Basta ver o que se passou com os referendos sobre a Constituição Europeia e a forma como agora se pretende contornar a situação com as propostas recentes de Sarkozy imediatamente aplaudidas pelo "nosso" Sócrates. A coisa fede.
Seja como for, a escalada de violência a que assistimos nos últimos dias não tem qualquer tipo de justificação por muitas injustiças que tenham atingido os partidários do Hamas. O assassinato puro e simples, a destruição gratuita das poucas infraestruturas que os israelitas não destruíram e o ódio sem freio não dão grande crédito aos seus partidários. Estão a completar o trabalho das forças "sionistas"? Não há compreensão possível a menos que aceitemos a "lei da selva" que é aquela que impera actualmente nos territórios palestinianos. Depois desta guerra civil não vai restar qualquer espaço para um estado palestiniano e o Médio Oriente vai continuar a cozer em fogo mais ou menos lento. Se a situação foi provocada pelos inimigos dos palestinianos, a resposta que este povo tão simpático está a dar não poderia ser mais adequada aos seus objectivos.
Há ocasiões em que a máxima cristã de dar a outra face acaba por ser a medida mais adequada. Por muito que possa custar se for essa a forma de garantir a sobrevivência... já agora, qual é o papel de Amadinejad nesta crise, segundo o teu ponto de vista?

kermit disse...

Silvares: É verdade que o ocidente colecciona defeitos na organização das sociedades. Mas os grupos de interesses, os lobys políticos e financeiros e todos os outros pecados do lado de cá são pecadilhos perante o que se passa neste momento em Gaza. Tirar um líder político opositor de casa e matá-lo em praça publica com mais de 10 tiros? – Como dizia alguém no local – “Que é isto senão Guerra?”. Os políticos de Israel devem neste momentos pensar numa velha máxima de Napoleão.- “Nunca interrompas o teu inimigo quando está acometer um erro”.

Silvares disse...

Kermit, o que está a acontecer em Gaza tem um nome: suicídio!

Olaio disse...

Acredito que quem preparoe este caldo todo, foi Israel/EUA com a complacencia vergonhosa da UE, tal como disse no comentário anterior e vêm referido no Público de ontem,14.06.2007

"Mediador da ONU critica processo de paz, Hamas avança

O documento confidencial aponta especial culpa aos Estados Unidos pelo falhanço no processo de paz para o Médio Oriente"

" (...)As responsabilidades aqui são atribuídas à pressão exercida pelos Estados Unidos em favor de Israel, a par de uma "tendência de autocensura" dentro da ONU em criticar o Estado judaico.
É apontado o dedo também ao boicote ao governo palestiniano, lançado depois de o Hamas - organização terrorista para a UE e Estados Unidos - ter vencido as legislativas de Janeiro de 2006, um ano depois de Abbas, que goza do apoio do Ocidente, conquistar a liderança da Autoridade Palestiniana. Para de Soto aquela decisão de "vistas curtas" teve "consequências devastadoras".

É claro que nisto tudo os Palestinianos também têm culpas, mas volto a repetir, que os sionistas de certeza que conheçem aquele ditato:"casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão".

O Amadinejad aparece porque julgo que há uma politica, um pouco louca dos EUA, de desestabilizar toda aquela área e que pode levar a conflitos com Irão, Síria, para além dos conflitos já latentes no Paquistão e Líbano, para não falar no Iraque e Afeganistão.
Está tudo ligado e há uma personagem comum.


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