segunda-feira, junho 11, 2007

15 minutos (no mínimo)


Ser ou não ser relevante, eis a questão. Não passar despercebido, ter imagem que se imponha, opinião que conte ao ser ouvida, voz para falar e olhos bem abertos. Ter capacidade para ultrapassar as limitações impostas pelo mundo circundante, ser humano e activo, ser relevante.
Este parece ser o motor de muitos de nós, aquilo que nos põe em movimento, o que nos leva a evitar a paragem cerebral ou a física, ter relevância é uma boa motivação para o cidadão das modernas democracias mediático-capitalistas (ena, que termo!).
Andy Warhol profetizou sobre os 15 minutos de fama de que todos gozaríamos no futuro. No futuro dele (que está morto e enterrado), o nosso presente. 15 minutos de relevância. 15 minutos de exposição pública. 15 minutos a ter a sensação de que somos alguém, que preenchemos um espaço único, que é só nosso, que somos nós e mais ninguém a poder estar ali, naqueles 15 minutos de exclusividade e relevância. Relevância efémera e sem consistência, está bem, mas relevância, de qualquer dos modos. Esses 15 minutos devem ser vividos, de preferência e para cumprir correctamente a profecia, num canal de TV (idealmente um canal nacional e de sinal aberto).
Existem outros níveis de relevância menos amplos mas não menos importantes para a sobrevivência do ego e, por via dele, para a sobrevivência do próprio indivíduo. Relevância familiar, relevância profissional, enfim, relevância animal, poderia dizê-lo. Aqui a fama dura mais que 15 minutos, pode durar uma vida inteira ou, mais simplesmente, pode nem sequer existir. Depende da capacidade individual para conquistar relevância.
Nos dias de hoje todos parecemos fadados para sermos figuras relevantes. Agimos como se fôssemos personagens centrais de um filme de Holywood.
O penteado, a cor das calças, a imagem estampada no peito da t-shirt, os ténis com "aquele" look... o i-pod, o telemóvel, o relógio, etc., etc., etc., tal como as personagens dos catálogos da La Redoute ou dos anúncios comerciais da TV, tal como as personagens dos filmes ou os figurantes do telediscos (videoclips, para ser mais preciso) construímos uma imagem que imaginamos relevante. Tentamos estar de acordo com o modelo, entrar em conformidade eufórica com o Cosmos, queremos ganhar direito a sonhar com os 15 minutos de fama prometidos. Queremos tudo! Não podemos perder nada daquilo a que temos direito mesmo que passemos bem sem isso ou, na realidade, usufruir desse direito não nos sirva para nada.
Ter relevância é a aspiração de todo o homem pós-moderno. Relevância social, relevância política (de preferência), relevância económica, qualquer tipo de relevância que lhe (nos) permita ascender ao topo da nossa antropo e autofágica cadeia alimentar. Temos de "lá" chegar, nem que para isso seja necessário comer um filho nosso (coisa própria de divindade alucinada) ou mesmo devorar o pé esquerdo (sempre ficamos com o direito).
Há que optar: ter ou não ter relevância é a questão. Temos de saber se nos preocupamos com isso, a que nível e quais as atitudes que estamos dispostos a tomar para alcançarmos os nossos objectivos. Ou a falta deles.
Aspirações são próprias dos seres humanos mas também dos aspiradores... de pó!

9 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Maravilhoso texto. Inspiradíssimo. Silvares, você me surpreende a cada postagem. Sou seu admirador número um, aqui nas distantes terras, de além mar! Forte abraço.

formiguita bipolar disse...

Para mim as aspirações humanas têm que ver com o auto-conhecimento que cada um tem de si, da sua vida e dos seus objectivos. No mundo actual, tão cheio de novidades e de apelos constantes à relevância pessoal de cada um, desta necessidade constante de trazer ao de cima o ser perfeito que há em cada um de nós, é muito fácil não sabermos quais são as nossas verdadeiras aspirações, é muito fácil seguirmos a corrente dos desejos mais ou menos universais, sem que tenhamos parado para pensar se são aqueles os nossos verdadeiros desejos, se queremos ter relevância naquele campo, ou se nos limitamos a seguir os outros.
Em última análise, a escolha é de cada um, como aliás é bem frisado nos dois últimos parágrafos.

Silvares disse...

Eduardo, agradeço as tuas palavras de incentivo (mais uma vez). Estes textos não são mais que um registo sincero da forma como interpreto o mundo que me (nos) rodeia.

Formiguita, é como fazes notar, a escolha é de cada um e devemos bater-nos por essa liberdade de escolha, por um lado e, por outro, devemos trabalhar por forma a garantir que essa liberdade perdure.

cartolas disse...

Uma vez mais: a realidade existe porque acreditamos nela! E à divindade inquestionável chamaram Hierarquia, agora há quem entre na cruzada deixando para trás aqueles que não engatam a escala até ao topo.( Hierarquia: noção tão religiosa como a que opõe o Bem ao Mal e elimina a ideia de COMPLEMENTARIDADE...por aí fora até conseguir apagar a necessidade animal do outro.)
Grata p'la liberdade aqui expressa:O)

Silvares disse...

A ideia é apetrechar "o outro" com instrumentos que lhe permitam reflectir e... optar. Livremente, se possível.

Célia disse...

Claro que quero ser relevante, mas para as pessoas que me são igualmente relevantes, os outros... quem são, se não são relevantes para mim, porque serei eu relevante para eles?
I really don't care... hehe, mas é lindo o teu texto :)

Silvares disse...

O desejo de relevância "extra" leva as pessoas a sonhar não sei bem com o quê. Olha, por exemplo, as mães que levam os rebentos aos castings das novelas... sabem o que aquilo é? Só pensam na relevância pública... e no dinheirito!

Célia disse...

Claro que para muitos ser relevante só mesmo com audiência...

Os filhos servem de animais domésticados, vão para a tv fazer as gracinhas e cumprir os "sonhos" (será que sonham?) dos pais frustrados...

Silvares disse...

Sonham pois. Toda a gente sonha com coisas diferentes!
:-)