quarta-feira, abril 25, 2007

(R)evolução(!)

Aqui há uns anitos houve uma tentativa de amputar o "R" à revolução. Se bem me lembro Durão Barroso era ainda 1º ministro e andava Paulo Portas a destilar glamour nos gabinetes ministeriais. Fizeram aquele cartaz com uns cravos Pop, numa macaqueação infeliz da estética de Warhol, e quiseram fazer-nos acreditar que a Revolução terminou há muito e vivemos agora a felicidade imensa de uma sociedade evoluída. Mas os cravos de Abril são vermelhos e a Revolução nunca acaba, apenas muda de paradigma.

Em 1974 a Revolução foi política. Era necessário acabar como salazarismo (aquilo nem fascismo pode ser considerado) porque nos impedia de evoluir enquanto povo. Não podíamos continuar a viver num país governado conforme os sonhos de um saloio beato e amedrontado com a imensidão do mundo, capaz apenas de ter pesadelos. Salazar era um déspota de pacotilha, um frouxo intelectual incapaz de admitir liberdade de pensamento a quem quer fosse, ele próprio incluído. Um beirão do piorio! Acreditem que sei do que falo uma vez que, também eu, sou beirão e cresci na Beira Alta, tal como o ditador.

Recortes biográficos à parte, regressemos à mudança de paradigma revolucionário. Uma vez livres do regime salazarista e com Marcelo Caetano no exílio, ficámos entregues a nós próprios. A Revolução das instituições políticas foi penosa e estivemos à beira da guerra civil mas conseguimos evitá-la o que mostra um bom senso grandioso que alguns de nós associam ao que é normalmente designado por "brandos costumes" do povo português. Abençoados sejam esses costumes tão brandos.

Após a estabilização institucional deu-se a entrada na União Europeia cumprindo-se um dos desígnios revolucionários. A maioria da população viu as suas condições de vida extraordinariamente melhoradas e, apesar de todas as assimetrias e injustiças sociais a que assistimos diariamente, Portugal tornou-se um País, com letra maiúscula. Nesta parte da nossa História houve quem visse a Revolução concluída e quisesse deixar cair o "R".

Mas, na verdade, a Revolução é imparável. Uma vez posta em marcha nunca termina. Apenas se transforma, como na lei de Lavoisier. Agora a Revolução está dentro de cada um de nós. Se queremos viver num mundo melhor temos de fazer por isso. A Revolução não é um milagre, não é transcendente. Explica-se, pratica-se... vive-se. Nós podemos mudar o mundo. É claro que não temos a capacidade, enquanto indivíduos, de alterar tudo de um momento para o outro. Não.

Lembro-me de ver uma palavra de ordem anarquista inscrita em 1974 (ou terá sido em 75?)num muro próximo da minha casa em Viseu que dizia "A Revolução começa na cama!". Na época não compreendi o sentido da coisa. Hoje lembro-me por vezes dessas palavras. A Revolução está nos pequenos gestos, no quotidiano, nas relações que estabelecemos com os outros. A Revolução é a vida! Resta-nos a felicidade de a viver.

2 comentários:

alice disse...

estou sem fôlego. Ena, lindo! Agora que falas na frase, lembro-me dela... eu por volta de 79, 78 com a guerra fria e o NUCLEAR NÂO OBRIGADA, dizia que não queria morrer virgem! (vitima da bomba)

Eduardo P.L. disse...

Bonito relato histórico. Aprendi muito. Abçs