domingo, abril 29, 2007

Brutalidade

Recebi este relato dos acontecimentos por e-mail. Foi na tarde de 25 de Abril, em plena baixa lisboeta. Uma amarga ironia durante a celebração do Dia da Liberdade. Ora leiam:

Como é que ninguém viu a polícia de choque hoje na Rua do Carmo?

Incrível como ninguém viu a polícia de choque, hoje, dia 25 de Abril de 2007, na Rua do Carmo, em Lisboa, cerca das 19h, carregar em força e indiscriminadamente sobre grupo de manifestantes "Contra o fascismo e o capitalismo.
Eu estava à porta da Fnac e vi com os meus olhos os manifestantes desfilarem à minha frente. Eram talvez uns cem, a gritar palavras de ordem contra o fascismo, mas sem qualquer violência, para além da que resultava das indumentárias negras e das caras tapadas por lenços pretos, sabe-se lá porquê... Que palermas, estes miúdos!
Passados poucos segundos, ia o grupo uns 30 metros mais abaixo, num ponto da Rua do Carmo de onde não era possível fugir, positivamente encurralados, ouvi gritos e pareceu-me ver alguns clarões. Logo a polícia de choque a correr, saíam da Rua Nova do Almada e do Chiado, e lançaram-se sobre os manifestantes, poucos metros abaixo do sítio onde eu e outros tentávamos ver o que se passava. Ouvimos gritos e o som dos bastões a bater, em pessoas, suponho. Confusão, muita. Ninguém entendia o que estava a acontecer e a polícia continuava a vir de todos os lados e a entupir a rua. A impressão que tive era de que havia mais polícias do que manifestantes. Depois foram três ou quatro carrinhas da polícia a entrar pela Rua do Carmo abaixo. Para além do condutor, iam vazias. Eu já nem percebia bem como cabia tanta coisa na Rua do Carmo. O alarido continuava lá em baixo e algumas pessoas subiam agora a correr na direcção da Rua Nova do Almada e diziam que a polícia de choque ia começar a carregar pela rua acima e que era melhor fugir. A minha filha de dez anos puxava-me para eu me ir embora. Estava, naturalmente, assustada. Há menos de meia hora tinha estado a brincar com outros amigos, no meio dos manifestantes que agora estavam a ser espancados, na relva com que a Câmara Municipal e o CEM tinham atapetado o Largo Camões para que os lisboetas pudessem gozar os dias da festa da liberdade.
Descemos pela Rua Nova do Almada e depois para a Rua do Ouro. Quando chegámos ao Rossio a confusão continuava. Fui-me embora.
Ao chegar a casa descobri que a minha filha de 21 anos tinha sido apanhada em plena confusão a meio da Rua do Carmo, depois de sair da Fnac. Por sorte, quando a polícia começou a bater em toda a gente, uma senhora de uma livraria puxou-a a ela e a mais três pessoas para dentro da livraria, mas uma das raparigas não escapou a tempo e levou uma bastonada na cara e o sangue jorrava-lhe da boca. A minha filha estava desnorteada, não acreditava no que estava viver, perguntava-se pelo país em que estava, enquanto via através da janela a polícia a bater em novos, velhos, rapazes ou raparigas. Chamaram o 112 para acudir à miúda ferida. Veio um polícia e perguntou o que lhe tinha acontecido, se tinha sido algum dos manifestantes que lhe tinha batido, responderam-lhe que não, que quem lhe tinha batido tinha sido um bastão de um polícia. Foi-se embora!

Em casa, ligo a televisão, procuro nos noticiários a notícia dos acontecimentos. Nada. Venho à internet e dou com o mesmo silêncio. Será que só nós é que vimos?

O que vos contei não é ficção, aconteceu mesmo hoje. Ou será que não?
Abraços,
Mafalda


A Foto que ilustra este post saíu na edição do Público de 27 de Abril e a notícia expõe os pontos de vista de pessoas que foram apanhadas na onda de violência bem como de fontes policiais. Como seria de esperar as perspectivas são radicalmente diferentes. No final resta uma certeza: houve violência gratuita e desmesurada para aquela situação concreta. Feridos, detidos e demasiada facilidade na forma como os bastões ainda descem e sobem e voltam a descer e voltam a subir, etc., etc., etc...

1 comentário:

Celia disse...

Que liberdade é esta, que democracia é esta, onde para se "defender" seja o que for, se agitam os bastões no ar, até que se encontre algo de sólido onde bater?

No 25 de Abril trouxe um ramo de cravos para oferecer aos meus colegas de trabalho, um deles recusou o meu cravo e arrogantemente atirou-o para cima da minha mesa dizendo: "Uma revolução sem sangue é uma revolução de maricas".
Talvez seja ingenuidade minha, mas esta é uma das razões que torna o 25 de abril ainda mais lindo e poético, a capacidade de fazer a revolução sem se usar de violência....