segunda-feira, janeiro 14, 2008

Filosofia de trazer por casa


A Realidade é uma coisa esquisita. Há quem pretenda encontrar-lhe um parentesco próximo com a Verdade (há mesmo quem diga que já foram casadas mas acabaram por se divorciar). No entanto, talvez por continuarem tão esquivas como o próprio Deus, Verdade e Realidade não são vistas com frequência. Quer dizer, toda a gente fala delas, mas ninguém parece tê-las avistado sequer, quanto mais conhecê-las. Verdade e Realidade são como o monstro de Loch Ness ou o Abominável Homem das Neves. São bruxas que voam montadas em vassouras que não servem para varrer o chão. Acredita-se que existam mas dificilmente se comprova essa existência. O problema, ao que parece, prende-se com os nossos sentidos e a maneira como as apreendemos. É comum e perfeitamente natural que, perante a mesma situação, o mesmo facto ou fenómeno, duas pessoas diferentes constatarem verdades que não coincidem nem na forma nem no conteúdo. Assim sendo a possibilidade de existência da Realidade sofre uma distorçãozita. A coisa estremece, os contornos do mundo esbatem-se. Mas só um bocadinho. Se não enchêssemos tanto as nossas bocas com Verdade e Realidade, se não tentássemos de forma tão atrevida pretendermos ser íntimos de tão esquivas personagens, talvez lhes déssemos oportunidade de existirem um pouco mais. Talvez conseguíssemos vê-las um pouco melhor. Enfim, se a Realidade é difícil de encontrar e a Verdade é uma espécie de puta esquizofrénica, a culpa é nossa, que as tratamos mal e violamos com demasiada frequência. Assim elas fogem constantemente e ninguém assume as culpas de as espantar com tanta facilidade.

É o mundo. O mundo somos nós. Ou pelo menos somos nós que o fazemos (não é nem foi Deus, esse eterno ausente).

11 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Fiquei cá a pensar. Se a Realidade e a Verdade são assim entidades tão próximas, o que poderíamos dizer de seus opostos. O contrário da Realidade, cada vez mais forte, chegando mesmo a ser fashion, seria a Virtualidade, e a Mentira, por quem tenho grande simpatia, sempre muito humana, seria o avesso corriqueiro da Verdade. Será que as duas, Virtualidade e Mentira, ainda são casadas? Me parece que sim.
Grande abraço

Olaio disse...

Pois é... o problema da verdade e da realidade é que ela é percepcionada por cada um de nós através dos sentidos, cozinhada com os sentimentos e servida com as emoções e nisto cada cozinheiro tem os seus pequenos truques.

Mas a verdade é que contrariamente à tua opinião no post, eu não julgo que isso seja impeditivo de se conhecer a realidade, antes pelo contrário. Como se costuma dizer, da discussão nasce a luz e é da síntese das diversas visões que o Homem se consegue aproximar cada vez mais da realidade e da verdade.

Acho que a realidade e a verdade, se ligam com a procura do belo, da justiça, do equilíbrio, de um sentido para a existência, são estes os grandes desígnios da humanidade, que nos têm afligido sempre e feito avançar cada vez mais sabe-se lá para onde. Aprofundando uma realidade que está em constante mutação, mas que nem por isso não deixa de ser verdade

LUIZ SANTILLI JR. disse...

Não vou seguir a linha poética de Olaio!
Prefiro a linha da Verdade de Einstein.
A Verdade sempre vai depender do ponto de vista do observador!
Se você jogar uma pedra pela janela de seu caro, você jura que ela se afasta na direção em você a lançou.
Esta é a sua Verdade.
Se o carro estiver passando por uma ponte e um garoto, sobre a ponte, estiver olhando para baixo, vê a pedra desclocar-se numa curva, oblíqua ao movimento do carro.
Esta é a Verdade do garoto!
Os dois estão certos quanto à suas Verdades.
E a Realidade, qual é?
Existem duas Verdades, mas só há um caminho para a pedra!
A pedra contém a única Realidade, mas não contém a Verdade!
É assim na vida, as verdades são relativas, mas a realidade uma só e nunca a vemos!
Durmam bem!

Eduardo P.L. disse...

Silvares,

vou concordar com o engenheiro e amigo Santilli!

Papo cabeça...hem???

Abçs

Só- Poesias e outros itens disse...

Eu prefiro a frase de Oscar Wilde, que resume esse conflito entre Verdade e Realidade.
"A ilusão é o primeiro de todos os prazeres". E, ao meu ver:- Uma construção sólida dos desejos, uma das primeiras geometrias mentais que dá ao espaço um ponto, longe dos nossos argumentos racionais.

adorei o seu texto.

bjs.

Ju gioli.

ops: obrigado por me incluir nos seus links ( um ponto no espaço).

mumia disse...

(?)Deus está sempre ausente quando precisamos dele.
E entretanto vivemos nesta democracia cada vez mais ditatorial. Tratam as pessoas abaixo de cão. Não há pachorra!

Albino disse...

Olá Rui, e parabéns pelo 100 cabeças, do qual sou frequentador há apenas dois meses, mas já deu para apreciar a qualidade.
Resolvi comentar os teus posts a que chamaste “Foge” e “Filosofia de trazer por casa” porque, para além de achar o tema interessante, também estou a seguir com agrado os comentários, e sobretudo a troca de ideias entre ti, o Olaio e o Luís Santilli Jr., e como me parece que estão 2-1, vou tentar empatar.
Não posso concordar totalmente com o Olaio, pois que a nível filosófico, não estou tão convencido quanto ele, de que a filosofia materialista é dona de toda a verdade. Nesse aspecto inclino-me mais para o agnosticismo.
Já no que diz respeito à política, parece-me que ele está com a razão e não duvido da justeza das suas afirmações. Concordo com os títulos que puseste aos posts, pois é de fugir, quando começamos com filosofia de trazer por casa. Não que não goste de uma boa “discussão filosófica”, mas normalmente é quando já estou mais desinibido (ai por volta das 2 da manhã).
Quanto à realidade da política e economia no nosso país e não só, que julgo terem sido o que motivou o teu estado de espírito ao escreveres, acho que sou tão materialista como o Olaio, daí a minha concordância com ele. A realidade nesse caso não é de modo nenhum virtual, nem são os nossos olhos e as nossas sensações a fabricá-la.
Será fabricada por nós, a hipocrisia dos que ganhando milhões pedem sacrifícios e sobrecarregam com impostos directos e indirectos, os que vivem com ínfimas porções do que eles embolsam? Serão fabricadas por nós, as imagens de miséria que vemos por este mundo? Será imaginação nossa o facto de a alta finança, os grandes vendedores de armas e de petróleo, e outros ladrões do género, terem o mundo subjugado?
É sobre esta escandalosa e material realidade, que todos os que gostam de debater a verdade se deviam debruçar com mais interesse e intervenção (não me estou a excluir).
No que diz respeito à busca filosófica dessas duas amigas fugidias, e como já afirmei, acho muito interessante o tema, e agrada-me a sua discussão, mas como agnóstico que sou, resta-me continuar a procurá-las com a humildade das minhas limitações.
PS.
Quanto à teoria versus prática do comunismo, penso que o Olaio tem razão nos comentários que fez. Não achas normal que uma prática que durou cerca de 70 anos, que tentava alcançar uma meta tão difícil, debatendo-se com adversários tão experientes (o mercantilismo é de 1300, e eram já eles que andavam lá), com o poder que daí lhes advém, fez, apesar de tudo, conquistas importantes? E as conquistas que os mais desfavorecidos conseguiram entretanto, não devem muito a essa experiência de 70 anos? Repara só como eles pulam desde que o contraponto desapareceu.
Um abraço.

Silvares disse...

Lord, essa observação deixou-me a pensar. Esta coisa de namoros, casamentos e relações entre "seres" deste calibre são complexas e melindrosas. Tenho ainda de consultar algumas velhotas que conheço mas também me parece que Virtualidade e Mentira têm saído juntas. Muitas vezes!

Olaio, não será o nosso anseio de beleza a tornar o que consideramos belo mais belo aos olhos de quem o vê feio. A síntese poderá aproximar-nos de uma maior possibilidade de encontrar Verdade e Beleza, mas não haverá marcos que nos garantam estar mais perto delas. O maluquinho da aldeia que todos rejeitam e desprezam pode estar certo e os grandes homens e demais filósofos completamente enganados. Ou não.

Luiz, obrigado por trazer a Teoria da Relatividade de volta. Dormi bem melhor após a leitura do seu comentário!
:-)

Eduardo, nunca tinha ouvido essa expressão, "papo cabeça", mas parece-me perfeita nesta situação! A coisa está meio densa...

Ju, esse Oscar Wilde foi um tipo bem estranho. Palavras sábias. Basta ver como procuramos diariamente a nossa dose de ilusão.

Compadre Albino! Essas visitas a altas horas são, ao que vejo, inspiradoras. A Realidade é uma paulada na testa. Mas quer-me parecer que quem tem o pau na mão e quem leva com ele terão visões bem distintas. A discussão deste tema é apaixonante mas leva-nos para terrenos próximos de Bizâncio... reflectir e filosofar um pouco permite-nos sempre desenferrujar os neurónios e fico satisfeito por proporcionar um pouco de exercício cerebral a mim próprio e aos que aqui me visitam.
Quanto ao Post Scriptum (PS soa mesmo mal!:-) julgo que o problema reside na facilidade com que as classes trabalhadoras se deixam seduzir pelos prazeres capitalistas. "O Estado sou eu!" terá dito o matreco do Luís XIV, monarca absoluto. "O Estado são "Eles"!" diremos nós, matrecos absolutamente!
Grande abraço.

Silvares disse...

Ah, cara Mumia, quase me escapavas!
Pois é, falece-nos o Deus da Democracia, seja lá ele quem for!!!
Abraço.

Olaio disse...

O exemplo que retenho acerca da teoria da relatividade é um pouco diferente daquele que o Luiz explanou, mas o resultado é semelhante:
Um indivíduo vai num comboio com paredes de vidro, deixa cair um objecto (imaginemos um peso de 5Kg). Para esse indivíduo o peso descreve uma trajectória vertical em direcção ao chão, para a criança que está fora a dizer adeus a quem vai no comboio, o peso descreve uma trajectória elíptica, no entanto para o micróbio que se encontra a passear nas faces do peso este não se move, mas já para o astronauta que chegou à lua, o movimento do peso é mais complexo e para quem está fora do sistema solar…

Todos estes seres tem uma visão diferente da trajectória do peso, mas a conclusão a que Einstein chegou, não foi a de que era impossível determinar o verdadeiro movimento do objecto, mas sim a de que esse movimento era RELATIVO ao referencial e “universo” que tivéssemos em conta e, era passível de ser conhecido.

Eu “estou vivo” e no momento em que digo isto é uma verdade absoluta, no entanto (cruzes canhoto) se tiver como referencial o espaço de tempo até que vocês leiam este comentário, esta afirmação pode transformar-se numa mentira. Ou seja quase todas as verdades são relativas, mas se definirmos um universo temporal e espacial concreto, elas podem ser absolutas.
Por exemplo se o indivíduo que vai no comboio, larga o peso na vertical dos seus pés, a verdade é que o resultado pode ser bem visível e corresponder a um pé partido. Isto é uma verdade absoluta.

Nesta questão aquilo que afirmo e defendo é que a única verdade absoluta é a existência da matéria, seja sobre que forma for e que a consciência é resultado dessa matéria. Sendo que a realidade é cognoscível.

Aliás se não fosse possível determinar verdades e realidades, teria algum sentido existir o ensino? A vida em sociedade?

Albino quanto à filosofia materialista, ou mais propriamente o materialismo dialéctico, não sei se é detentora de toda verdade, mas aquilo que me atrai nela é a confiança que tem no ser humano, nas suas capacidades de conhecer o mundo e a realidade, de interpretar os fenómenos embora tenham consciência, que por cada resposta que se dá são “n” perguntas que se levantam.

Silvares é claro que a hipótese do maluquinho pode ser uma verdade, não tivéssemos nós na história a figura do “manoelinho de Évora”, quanto à possibilidade de determinar marcos que nos permitam estar mais perto da verdade, retomo o exemplo do tipo do comboio que larga o peso sobre os pés, não acreditasse ele que era verdade que o peso lançado “na terra”, tem uma trajectória bem definida e estaria lixado.

Silvares disse...

Olaio, quando me refiro a Verdade e Realidade pretendo observar acontecimentos um pouco para lá da pedra no sapato. A Realidade de uma faca encostada na garganta não convém ser questionada. Já a Verdade de um discurso do 1º ministro merece outro tipo de reflexão. A possibilidade que eu coloco é que o 1º ministro acredite nas suas próprias palavras que, para mim, poderão ser mentira. Ainda por cima ambos poderemos argumentar e apresentar provas contraditórias sem conseguirmos provar a supremacia dos nossos pontos de vista individuais por vermos realidades diferentes. Faz algum sentido? Acho que sim e acho que não.