segunda-feira, julho 02, 2007

Automático

Pela manhã desloca-se um autómato. Vai descobrindo tarefas que executa sucessivamente sem uma ordem definida. O autómato não exterioriza hesitação nem entusiasmo perante os diferentes pequenos trabalhos que o amanhecer lhe vai oferecendo. Executa-os, apenas, porque não há outra razão que o anime. Os gestos parecem acontecer longe do corpo mas tudo se encaixa na maior das perfeições. As coisas vão-se completando em cada gesto, ganhando sentido após a conclusão de cada tarefa. Os contornos do universo desenham-se com maior nitidez, está quase tudo no devido lugar.
O autómato dirige-se para o duche. Quando a água jorrar dar-se-à o momento mágico em que se transformará outra vez naquele ser de carne e osso que vai viver o dia no seu lugar. O autómato sorriria se compreendesse "sorriso" quando pensa em Pinóquio e na sua obsessão em ser um menino de verdade. Até adormecer o autómato vai parecer um homem normal. Com os sonhos mais profundos regressará. Até ao duche da manhã seguinte.

5 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Gostei da observação automática!

Silvares disse...

O duche altera tudo!

Célia disse...

É como uma "água benta" que transforma a máquina em homem, eu confesso que mesmo depois do duche ainda preciso de uma horita antes de abrir os olhos da alma...

Silvares disse...

Mais horita, menos horita, acabamos por dar que conta que estamos ali!
:-)

saenima disse...

por vezes..