segunda-feira, julho 23, 2007

Estranhas sensações - parte 2


Esta manhã fui a um daqueles super mercados a que alguns, com uma ligeira tendência para a mania das grandezas, insistem em chamar hiper.
Na minha qualidade de homem tecnológico alimento-me do que encontro nas prateleiras dessas tremendas superfícies comerciais. Tal como os meus antepassados se deslocavam na floresta, à espreita de alimento, também eu me encho de coragem e lá vou. Suporto a luz branca e intensa, controlo os impulsos consumistas o melhor que posso, tento ignorar o barulho ensurdecedor e concentro-me ao máximo no trabalho recolector.
Cestinho de plático vermelho com rodas e pega extensível (o design de equipamento é maravilhoso!) atrás de mim e lá fui.
Uma das coisas que mais me costumam impressionar nos supermercados é a secção de frutas e legumes. Desde que me apercebi de uma estranha sensação nunca mais pude evitá-la.
Refiro-me à estranha sensação causada pela proximidade de centenas de pêssegos (talvez mesmo milhares) sem lhes sentir o odor. Um dia reparei nisso. Como podia nunca ter reparado! Uma coisa que me seduz nesse fruto, além do toque suave da pele, é o intenso e "saboroso" odor que exala. Pegar num pêssego e encostá-lo suavemente ao nariz é um momento de grande felicidade animal. Mas, naquele dia fatídico, reparei que não havia um cheiro particular. Nem dos pêssegos, nem das maçãs, nem de nehuma outra qualidade de frutos ali expostos em quantidades industriais. Horror dos horrores! Apesar do bom aspecto em tamanho e côr, os frutos não tinham cheiro!!!
Desde esse dia que me comporto como um cão, farejando tudo com pouca esperança de encontrar algo que me apeteça levar para o remanso do lar e aí devorar com volúpia.
Mas hoje de manhã tudo mudou. Perante embalagens de 6 pêssegos todos semelhantes como peças industriais, cobertos com película aderente transparente senti a indiferença habitual. Maquinalmente peguei numa embalagem, encostei-a ao nariz e... oh, alegria imensa, estranha sensação, um forte odor chegou até mim, mesmo através do plástico.
As regras comunitárias que tudo tendem a normalizar, liofilizar e empacotar com aparência saudável estão a tornar a nossa existência ainda mais indiferente e anódina. O pêssego que acabei de comer devolveu-me alguma esperança na possibilidade de virmos ainda a recuperar certos prazeres meio selvagens que vamos perdendo na paranóia quotidiana de olharmos pela nossa saúde em todos os pormenores possíveis e imaginários.
Fumar mata, comer faz mal, o álcool destrói e a droga enlouquece. Tudo nos atemoriza e nós evitamos, como se pudessemos contrariar a natureza humana. Afinal de contas desde o momento em que nascemos começamos a morrer! A vida é uma caminhada para a morte que pode ser mais rápida ou mais lenta, mas o desfecho é inevitável. Não temos que nos sentir deprimidos por isso... que conversa mais mórbida!
Vou comer outro pêssego daqueles. É preciso aproveitar as coisas boas que a vida nos oferece!
Pensamento positivo.

6 comentários:

LopesCa disse...

Excelentes ideias... pêssego bom e pensamento positivo :)

C Valente disse...

Hoje quando vamos ao supermercado, temos galinhas de aviário, frutas de arvorario (creio que esta palavra não existe e não diz nada,
é como o sabor destes pessegos, apanhados antes de tempo, colocados nas camaras frigorificas e aqui está o consumidor, aspecto tentador, mas falha o sabor de outros tempos
Um abraço

Eduardo P.L. disse...

Ri muito ao ler seu texto odorífico (existe?) . Eu sou rato de super-mercado.Vou toda semana! Aqui em Imbituba não tem hiper, pelo contrário, três ou quatro, pequenos mercados. E por serem pequenos tem fornecedores pequenos, de frutas e verduras. E elas ainda tem o cheiro característico.

Gosto sempre da forma com que abordas os detalhes do dia a dia!

Abçs

Silvares disse...

Lopesca, nostalgia do tempo em subia às árvores e puxava o fruto para mim...

Valente, estamos a tornar-nos predadores de prateleiras. A fruta vem do Chile, da Argentina, da África do Sul, de Espanha... se não for à custa de frigoríficos não há frutinha pra ninguém. O preço a pagar (além do monetário) é esta falta de certas qualidades.

Pois é Eduardo, os "hiper" mercados transaccionam milhares de quilos de tudo o que é produto alimentar. Os produtores locais não conseguem competir neste mercado. Acabam por desistir da produção. Um dia ainda vamos comprar fruta em caixinha de comprimido!

Eduardo P.L. disse...

Silvares, e esses comprimidos tem cheiro das frutas?

Cristina Loureiro dos Santos disse...

Adorei o texto!!
Está um espanto ;)

Também adoro pêssegos, desses com cheiro delicioso ;)

Um abraço :))