quinta-feira, julho 26, 2007

Vida

Banksy

Um computador, um belo sofá. Ar condicionado e frango assado. Lá fora carros e mais carros, como um rio. Água na torneira, chuveiro e flores na varanda. Prédios inteiros e altivos. Aviões comerciais piscam ao longe. Cerveja fresca para matar a sede. Aqui só se mata a sede e a fome e as baratas com um spray implacável. Luzes acesas apenas para espantar a escuridão. Roupas confortáveis. Barriga proeminente e lâminas de barbear. Um dentista impecável, ausência de dor e, ainda assim, o receio de sentir. Jornais, livros, filmes na TV a horas certas. Férias. Viagens, hotéis, praias repletas de banhistas. Mulheres bonitas, bem vestidas. Homens simpáticos com sorriso afivelado e penteados. Gravatas cor-de-rosa. Vento e sol. Clima ameno. Tudo isto e muito mais. Mesmo assim andamos insatisfeitos. Isto ainda não chega. 10 minutos de publicidade na TV mostram até que ponto estamos incompletos, revelam tudo aquilo que precisamos ter e consumir e ainda não sabíamos que precisamos ter e consumir. Tenhamos e consumamos. Um computador, um belo sofá e um puto assado. Lá fora carros e mais carros de combate. Água estagnada e bactérias malvadas. Um jacto passa a rasar os telhados ausentes dos prédios semi-destruídos. Ódio puro para matar a sede de vingança. Aqui mata-se tudo o que mexe. A tiro, à bomba, à facada, à paulada, à pedrada e até ao estalo. Não há luz nesta escuridão. Apenas dor. Na praia uma cama de ferro enferrujada espera melhores dias. Como um cão deitado junto à campa do dono. Há quem esteja satisfeito pela simples razão de continuar vivo.