sábado, julho 28, 2007

Eu posso não existir

Um elemento básico da mecânica quântica é que o homem cria a realidade ao observá-la. Antes dessa observação, o que verdadeiramente existe são todas as situações possíveis. Só um olhar atento concretiza a possibilidade, revelando-a ao observador que, assim, acaba tomando partido por uma hipótese entre muitas. As restantes ficam "lá", permanecem, aguardam nova observação, outra hipótese de virem a fazer parte do universo real, aquele que somos capazes de perceber ou tivemos a sorte de conseguir materializar.
A ser assim, o mundo é muito mais vasto e surpreendente do que aquilo que jamais seremos capazes de entrever com os nossos cérebros obstinados e tímidos.

A parte do texto a bold é uma transcrição adaptada de uma passagem de O Pintor de Batalhas de Arturo Pérez-Reverte, livro que me foi emprestado pela Margarida Lucena e que ando a ler com longuíssima paciência, como é meu hábito (coisa que à Margarida faz alguma confusão). Meia-dúzia de páginas por dia, ao deitar ou ao levantar, bem saboreadas e melhor digeridas que este livro tem um sabor forte e condimentado mas é absolutamente delicioso. Do melhor que tenho lido nos últimos tempos (e bem gostei de O Vendedor de Passados da autoria de José Eduardo Agualusa ou de A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón) . Ainda vou a meio do livro e já me interrogo sobre a possibilidade de ler outras obras deste espanhol inspirado.
Ver mais sobre o autor em http://www.capitanalatriste.com/

Voltando ao texto de entrada, lembrei-me de o ter lido quando confrontado com a sucessão de calamidades expostas nas páginas do meu jornal diário (o Público). Incêndios infernais na Grécia e cheias assustadoras em Inglaterra, no Sudão, Indonésia, Nepal, China e Índia. Combates mortíferos no Afeganistão, atentado bombista arrasador no Paquistão, falcatruas e vigarices em França e nos EUA, uma revista satírica apreendida em Espanha por ofender um casal de príncipes lá do sítio. Uma sucessão de notícias (possibilidades) à espera de contacto. Ao lê-las construo uma arquitectura particular do mundo em que vivo. As notícias que "passo" e os acontecimentos que não fazem parte do jornal não deixam de existir só porque não as contacto. E, no entanto, para mim é como se não existissem.

O mundo está uma desgraça, o caos reina em grande estilo, penso eu.
Mas... não terá sido sempre assim? A diferença reside no acesso que temos à informação. Em 1500, por exemplo, quantos incêndios devastadores e inundações horrorosas terá havido no planeta Terra? Bom, para os nossos antepassados, este mesmo planeta era algo muito diferente daquilo que é, hoje, para nós. Pronto, está bem, falemos, por exemplo, de... 1900! Quantas guerras genocidas foram ignoradas? Quantos crimes contra a humanidade foram perpetrados em nome da Ciência e do Conhecimento pelos exploradores europeus nos 4 cantos do mundo? Quem se ralou com isso?
Como propõe a mecânica quântica, o homem cria a realidade ao observá-la e isso prova, com toda a evidência, que a realidade não existe enquanto sistema absoluto. Não passa de uma hipótese abstracta que teve a sorte de ser nomeada, registada e exposta. Coisa pouca.

7 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Do Arturo Pérez-Reverte experimente "O mestre de esgrima", "A pele do tambor", "Clube Dumas" ou "O cemitério dos barcos sem nome". Vale a pena.

Silvares disse...

Estou a ver que sim. Parece-me um autor... poderoso!

Eduardo P.L. disse...

Anotarei todos esses títulos e vou querer conhecer melhor. Seu comentário despertou minha curiosidade.

Eduardo P.L. disse...

Silvares, completamente diverso do tema em questão, ontem na estrada (700 km) ouvi pelo rádio uma notícia ciêntifica da maior importância e não sei porque lembrei de te comentar: Nos USA pela primeira vez se conseguiu transmitir eletricidade sem fios. Foi acesa uma lâmpada de 60W a uma distância de 4 metros. Esse feiti prático, cuja teoria ha muitos anos é debatida e tentada, revolucionará as cidades, sem postes, sem fios, e todas as baterias de todos os equipamentos, telefones, e etc causando uma nova REVOLUÇÃO, só comparada ao telefone sem fio.
Esse será o mundo dentro de poucos anos! As industrias de cabos já devem estar com suas ações em baixa!

Silvares disse...

Se assim for, as cidades poderão tornar-se locais mais discretos na sua "decoração". Fazem-se verdadeiras obras de arte com os fios eléctricos pelas ruas das cidades!
Obrigado pela informação, ainda não ouvi nada sobre esse feito.

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Vou ver se encontro o livro. Como disse não faz muito, A Sombra do Vento é uma das boas leituras que fiz recentemente.
Grande abraço

Silvares disse...

Lord, entretanto já houve quem me dissesse que o Pérez-Reverte é insuportável, o que muito me surpreendeu. Ainda por cima foi uma pessoa cuja opinião prezo muito.