Contas feitas, diz quem as fez, estiveram hoje entre 80 mil (contas da polícia) e 100 mil (contas dos organizadores) a descer as avenidas lisboetas até ao Terreiro do Paço. Poderemos então ficar pelas 90 mil cabeças, tentando não exagerar por excesso nem defeito.Seja como for, assistiu-se a uma manifestação como não há memória em Portugal. Se, a fazer fé nos números oficiais, há 136 mil professores no activo, então, esta tarde, estiveram aproximadamente 2/3 do total a marchar avenida abaixo. Viemos de todo o lado. Do Minho ao Algarve, de autocarro, de automóvel, de barco, a pé, de comboio, todos os meios de transporte foram bons para nos levar até ao local de concentração.
A manifestação surpreendeu pela dimensão, ultrapassando os números mais arrojados que os organizadores pudessem ter sonhado. Foi uma prova de que a ministra não tem razão em insistir que os professores descontentes não devem compreender a bondade das medidas que ela vai impondo sem diálogo nem sombra de tino. Eram demasiados professores. Ou as propostas são muito complicadas de perceber (quase impossíveis de perceber) ou então, na verdade, não têm qualidade para ganhar a simpatia da classe docente.
Na minha perspectiva, as medidas impostas pela actual equipa ministerial têm um único objectivo que é o de conter gastos com a Educação ao nível dos ordenados dos professores. Nada mais interessa a esta corja de nabos que nem sequer é capaz de organizar de forma coerente um conjunto de acções que sirva de maquilhagem aos seus propósitos. São maus a governar, péssimos a comunicar e verdadeiros palhaços na hora do debate.
Hoje estiveram por ali perto de 100 mil cabeças destapadas, sem receio nem ódio. Foi a marcha da indignação.
Temo apenas que as personagens no poder não compreendam nada daquilo a que assistiram. Elas já provaram que é muito limitada a sua capacidade de compreensão. Mais do que seria aceitável.



















É aqui que entra o pequeno (ou grande?) equívoco do gótico, já de si um erro de classificação desde a primeira hora.
Seja como for, a Obra dos Franceses caracterizava-se por um conjunto de conquistas técnicas que permitiam uma arquitectura completamente diferente daquela que tinha vingado ao longo da extensa Idade das Trevas que nós associamos ao estilo Românico, pesado e escuro. O Gótico introduzia os enormes janelões com vitrais que permitiram que a ligação entre Deus e a Luz fizesse parte do programa conceptual das catedrais da época.
Resumindo, aquilo que o renascentistas designaram como gótico pretendendo significar algo desajeitado e não-belo, é afinal um estilo gracioso, luminoso e de um requinte assinalável tanto em termos técnicos quanto formais. Gótico era um termo depreciativo, criado para menosprezar a arte dos povos não-italianos mas acabava por ser apenas tão injusto quanto xenófobo.
Na verdade o conceito de gótico que hoje é popularmente aceite, está relacionado com a visão Romântica de uma Idade Média idealizada e valorizada em pleno século XIX. Por outro lado, os românticos criam um universo criativo onde a obscuridade interior dos indivíduos encontra a possibilidade de se expressar. Os artistas românticos, pálidos, vestidos de negro e incompreendidos pelo mundo com demasiada frequência, geniais mas tão fora que não se parecem com nada nem ninguém, acabam por se transformar no arquétipo do artista durante o século XX. "Os artistas são todos malucos" é uma expressão comum entre nós e que terá nos escanzelados e alucinados românticos a sua raíz mais profunda.