segunda-feira, setembro 27, 2010
Saudade da ignorância
Um homem vai entrando a (mais) velho e a sabedoria cola-se a ele como chiclete na sola do sapato. É coisa suja, peganhenta e nem sempre desejada. Parece que faz parte do pacote, quer queiramos quer não ela está ali para nos acompanhar o resto dos nossos dias.
Pode parecer presunção da minha parte (provavelmente é isso mesmo) mas a verdade é que a sabedoria que a idade nos oferece sem que lha tenhamos pedido é daquelas coisas que incomodam mais do que confortam. Isto por ser oferecida, assim mesmo, sem pedido nem nada que justifique tanta simpatia da vida que vivemos e que vai cumulando a nossa existência de certas mordomias algo duvidosas.
Há quem diga que esta sabedoria grátis é coisa de puta velha, afirmação que me parece ofensiva para as putas, principalmente se forem velhas, pois imagino que a sabedoria por elas acumulada seja de natureza bem diversa e, de longe, mais custosa de acumular.
Mas de que é feita esta sabedoria? É feita de perceber quando devemos calar a boca mesmo que nos apeteça rebentar em gritaria. Tem a ver com a capacidade de ler o rosto dos outros como se fosse um livro infantil, feito de frases simples e tão curtas que as podemos ler de olhos quase fechados. É feita de voltarmos a encontrar uma situação que já vivemos mesmo que venha mascarada de coisa nova. Enfim, chamamos sabedoria à experiência, o que estaria correcto se a vida fosse uma ciência e o método científico se pudesse aplicar aos jogos do amor ou às guerrilhas constantes dos ódios de estimação.
Há dias em que sinto saudades da ignorância e me faz falta a imbecilidade própria da maravilhosa ingenuidade. Como disse Picasso "aprender não foi difícil, difícil foi desaprender [a desenhar]" (citação algo livre). Se Deus quisesse, gostava de desaprender a viver. Para voltar a sentir coisas boas que já esqueci como eram.
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sábado, setembro 25, 2010
Imaginar mais (ler após o post anterior)
Por muito sofisticados que sejamos, muito avant-la-lettre, cool ou vanguardistas que nos imaginemos, quando plantados no jardim suspenso de uma galeria de arte ou na estufa fria de um museu, perante um objecto em exposição, o que queremos é entrar nele e, para que tal aconteça, precisamos de comunicar.
O mesmo acontece com aqueles de entre nós que são botas-de-elástico, ou brutos, ou pouco letrados. O problema é semelhante, as formas de o equacionar ou de lhe dar resposta é que variam. Muito ligeiramente.
Esse problema que se nos coloca é: como comunicar com um objecto inanimado? Como estabelecer contacto com uma coisa que não respira como nós respiramos, que não tem sede nem fome como nós temos? Uma coisa que é pouco mais do que isso mesmo, uma coisa, mas à qual reconhecemos capacidade comunicativa, apesar da sua aparente inércia física?
Há objectos que contam uma história à boa velha maneira dos clássicos. Uma história conhecida de um grande número de seres humanos (a vida de Cristo, o Pinóquio...) numa sequência com princípio, meio e fim, que se lâ da esquerda para a direita, de cima para baixo, como quem lê um texto. A postura do observador é quase passiva.
Outros objectos surgem um pouco mais complicados. A sequência de leitura é a mesma mas a narrativa não é tão evidente, ficamos a matutar em que raio de história é aquela! Seguimos a ordem de leitura mas somos obrigados a voltar atrás, a tentar leituras diferentes, de baixo para cima e de trás para a frente. Acabamos a inventar um sentido para o bjecto, mais do que a descortinar o seu eventual significado oculto. O observador toma uma postura activa.
Finalmente há aqueles objectos que escapam por completo aos cânones de comunicação estabelecidos e nos deixam às voltas, como ratos de laboratório num labirinto complicado. Não percebemos mas podemos tentar explicar o que o objecto nos sugere. Não fazemos ideia do que passou pela cabeça ao criador da coisa mas somos capazes de imaginar mais do que a impossibilidade de compreender. Somos capazes de falsificar sinceramente e com verdade uma quase-mentira que se nos forma no espírito.
O observador completa o objecto, recriando o seu significado.
Nunca me canso de reflectir sobre esta categoria fenomenológica e sei que ando em círculos. Mas sinto que o raio do círculo é cada vez menor e me aproximo gradualmente do centro. Quando lá chegar (ao dito centro) pode não acontecer nada. O mais certo é vir a perceber que me encontro num outro círculo, ainda mais amplo e ver-me obrigado a recomeçar. É a vida.
sexta-feira, setembro 24, 2010
Imaginar
Zeuxis é considerado um dos maiores pintores de todos os tempos mas essa fama é baseada na leitura de textos escritos por quem teve oportunidade de ver trabalhos seus já que, desde há séculos e séculos, não existem obras deste artista grego que possam ser admiradas.
É notável que a palavra escrita tenha conseguido imortalizar as qualidades de um artista plástico, contradizendo o ditado que nos garante que "uma imagem vale mais que mil palavras". Se tivermos em linha de conta que este ditado é oriental (penso que de origem chinesa) encontramos aqui uma distância considerável entre o pensamento asiático e o europeu.
Isto vem a propósito da constatação de um facto: quanto mais abstracta é uma obra de arte, mais profíquo é o discurso gerado para a descrever e classificar. Perante a estranheza de uma pintura como "quadrado preto sobre fundo branco" do suprematista russo Malevitch, até os leigos têm um monte de palavras a dizer e são capazes de arquitectar discursos elaborados nos quais manifestam as suas opiniões. Os mesmíssimos leigos, perante, por exemplo, uma pintura de Van Eyck, esquivam-se a manifestar uma opinião, por mínima que seja.
Verifico este fenómeno quando dou aulas sobre pintura onde os leigos são os meus alunos. Quanto maior a ausência de narrativa na tela, maior a capacidade de gerar discurso entre a plateia. Como se a simplicidade uma imagem seja capaz de gerar palavras de uma enorme complexidade.
segunda-feira, setembro 20, 2010
Recuerdos

Banksy em Exit Trough The Gift Shop, o anonimato mantém-se
Um tipo muita porreiro fez-me chegar às mãos o filme de Banksy, "Exit Trough The Gift Shop". Trata-se de um objecto muuuuiiiito interessante sob diferentes aspectos. Várias coisas me impressionaram mas o que acabou por se sobrepor após a 1ª visualização (ainda não fiz a segunda) foi uma certa perspectiva sobre a forma como surge no espaço planetário um artista contemporâneo e os mecanismos de validação da sua obra.
O filme é um documento espectacular e não lhe faltam reviravoltas inesperadas, personagens carismáticas, traição, inveja e sucesso inesperado. Conta-nos a história de Thierry Guetta, ou Mister Brain Wash, uma autêntica Cinderela da street art, de quem Banksy acaba por ser, inadvertidamente, a fada madrinha, a fada boazinha, a fada capaz de transformar uma abóbora em coche de princesa com princesa lá dentro e tudo.
Mas o filme tem mais do que isso, muito mais. Quem quiser vê-lo terá de o procurar. Se for até ao Carapau Staline é bem possível que se safe graças ao tal Tipo Muita Porreiro.
sexta-feira, setembro 17, 2010
Matinal

Hoje, quando acordei, dei por mim a pensar que o meu maior receio é deixar de ter receio. Pareceu-me estranho e tentei vasculhar no sono que deixara na almofada a razão deste pensamento mas, nada.
Aquilo ficou-me suspenso na cabeça como o piar de um passarito e percebi que o Receio da minha manhã era como um filhinho dócil do Medo e da Esperança, aquele (ou aquilo) que impede o mundo de adormecer definitivamente no seu leito de morte. Isto não me confortou mas esteve longe de me inquietar. O dia decorre normalmente.
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domingo, setembro 12, 2010
A democracia enquanto barraca

Os recentes motins populares em Moçambique motivados pelos aumentos de preços de bens essenciais deixaram-me a pensar em coisas feias que, de vez em quando, me assaltam o espírito. Por aqui, alguns meios de comunicação social, referem-se a esses motins como "A Revolta do Pão".
A resposta das forças policiais foi violenta, resultando um número de mortos e feridos difícil de quantificar (10 mortos, 13 mortos, quantos mortos?). Foram disparadas balas reais e de borracha contra os manifestantes, entre os quais se contavam muitas crianças. Esta situação é uma imagem cruel de desespero.
Desespero dos que se manifestam e desespero dos que matam. É como se a sociedade estivesse ferida, rasgada por um golpe tremendo, uma chaga aberta, impossível de cicatrizar. A chaga que resulta do abismo entre pobres e ricos.
Quando a miséria ganha contornos de ser insuportável os pobres deitam-se à rua em protesto. Mas há uma normalidade social que não se compadece por aí além com a sua pobreza e que é necessário manter. Vai daí, lançam-se sobre os pobres as forças de segurança que varrem das ruas aquela miséria em forma humana. Mas que segurança defendem essas forças policiais? A segurança de quem ou de quê?
Também o tecido social português tem feridas sanguinolentas que não cicatrizam e não param de deitar pus e que cheiram mal. Mas os miseráveis vão sendo mantidos numa situação controlada. Enquanto não forem uma maioria terão dificuldades em provocar distúrbios como os que se verificaram em Moçambique.
Há em Portugal situações de desigualdade e de impunidade dos poderosos que são inaceitáveis num estado democrático mas, doa a quem doer, a Democracia parece ser assim mesmo. Há uma Democracia ideal, que nos ensinam na escola, e uma Democracia real que não se parece nada com a ideal, a caricatura de Democracia que vivemos no nosso quotidiano.
A resposta das forças policiais foi violenta, resultando um número de mortos e feridos difícil de quantificar (10 mortos, 13 mortos, quantos mortos?). Foram disparadas balas reais e de borracha contra os manifestantes, entre os quais se contavam muitas crianças. Esta situação é uma imagem cruel de desespero.
Desespero dos que se manifestam e desespero dos que matam. É como se a sociedade estivesse ferida, rasgada por um golpe tremendo, uma chaga aberta, impossível de cicatrizar. A chaga que resulta do abismo entre pobres e ricos.
Quando a miséria ganha contornos de ser insuportável os pobres deitam-se à rua em protesto. Mas há uma normalidade social que não se compadece por aí além com a sua pobreza e que é necessário manter. Vai daí, lançam-se sobre os pobres as forças de segurança que varrem das ruas aquela miséria em forma humana. Mas que segurança defendem essas forças policiais? A segurança de quem ou de quê?
Também o tecido social português tem feridas sanguinolentas que não cicatrizam e não param de deitar pus e que cheiram mal. Mas os miseráveis vão sendo mantidos numa situação controlada. Enquanto não forem uma maioria terão dificuldades em provocar distúrbios como os que se verificaram em Moçambique.
Há em Portugal situações de desigualdade e de impunidade dos poderosos que são inaceitáveis num estado democrático mas, doa a quem doer, a Democracia parece ser assim mesmo. Há uma Democracia ideal, que nos ensinam na escola, e uma Democracia real que não se parece nada com a ideal, a caricatura de Democracia que vivemos no nosso quotidiano.
O caso de Moçambique mostra como o poder central eleito democraticamente, quando é incapaz de promover a coesão social, se socorre das forças policiais para meter as coisas na ordem. É assim em Moçambique e é assim em qualquer parte do mundo. Vivemos naquilo que poderíamos chamar de Democracias Policiais, onde a polícia está sempre do lado dos socialmente mais fortes.
A injustiça social é um dos traços mais evidentes deste nosso modo de vida. Do lado de cá, do lado onde vivo, não faltam bens de consumo nem capacidade deles usufruir. Enquanto andarmos direitinhos sabemos que a Força nos protege. E do lado de lá?
Fico a pensar: quanto tempo vai durar este equilíbrio precário? Enquanto continuarmos a gerar hordas de miseráveis e de excluídos estamos a pôr em risco a paz social. Cada vez mais. Poderá algum dia existir uma distribuição de riqueza tal que nos permita dizer que vivemos numa democracia como aquela que gostamos de imaginar? E, se esse tempo nunca chegar, irá explodir uma bomba atómica social que derrube este arranha-céus democrático com fundações de barraca precária?
sábado, setembro 11, 2010
The Man

Noite de 10 de Setembro de 2010, Leonard Cohen actuou ao vivo no Pavilhão Atlântico, em Lisboa.
É um homem com 76 anos que lidera a banda. Um homem com o dom da uma voz dourada, como diz a canção "The Tower of Song".
O som, o concerto, perfeito.
Ele ajoelha-se com frequência para cantar e agradece aos seus músicos e ao público com profundas e sentidas vénias, descobrindo os cabelos brancos. Há uma nova pele para uma cerimónia antiga.
A coisa funciona como uma espécie de banho perfumado em água tépida. É lindo. Foi lindo.
Há coisas que ultrapassam o óbvio.
segunda-feira, setembro 06, 2010
Mania das grandezas

Afinal de contas Portugal existe no universo artístico internacional. Se dúvidas houvesse, a apreensão de um número interessante de falsificações de obras (ler aqui) assinadas por grandes nomes da História da Arte mostra que não andamos a dormir e que a nossa condição de país periférico nao nos impede de figurar no panorama da grande vigarice. Tem o seu glamour...
"Até agora, a maioria dos casos de falsificação de pintura detectados em Portugal era de artistas portuguesas ou de alguma forma relacionados com Portugal", indicou o inspector da PJ João Oliveira.
Ouvi declarações do referido inspector num noticiário televisivo e notei-lhe uma certa tremura na voz, uma emoçãozinha lá em baixo, vinda do coração. Também eu partilho dessa emoção. Ter um Picasso falso a rondar as leiloeiras é muito mais emocionante do que ter por aí uma falsificação de Maria Helena Vieira da Silva.
Somos assim, ficamos deleitados com a grandeza das coisas que acontecem no nosso país. Seja para o bem ou seja para o mal, o que interessa é que sejam grandes. Note-se que a notícia referida conclui dizendo que "Do conjunto de quadros apreendidos, de várias dimensões, destacam-se seis obras com a assinatura de Picasso, alguns desenhos e outras pinturas sobre papel, todas elas presumivelmente falsas". Note-se que Miró ou Rubens são aqui diminuídos perante o brilho das falsificações do mestre cubista. É lindo.
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domingo, setembro 05, 2010
Ilusão

Fumar dá muito estilo! Uma pessoa recosta-se na cadeira reluzente sob o sol na esplanada. Segura o cigarrinho, apoiado num cotovelo em ângulo correcto e calculado conforme as regras da boa exportação de imagem individual. Os olhos semicerrados fixam um ponto indefinido no horizonte recortado pelos prédios altos, horizonte enfioscado nas janelinhas em filas ordeiras e sincopadas.
O movimento de trazer o cigarro de volta aos lábios é muito lento. O beijo para aspiração do fumo parece-me poético, coisa profunda. Continuo a olhar as duas pessoas que fumam lá fora, ao sol. São um homem e uma mulher, em mesas separadas. Comportam-se com majestade, parecem alheados das coisas do mundo. O fumo que expelem, fazendo gestos peculiares com os lábios, mistura-se no ar e desaparece, como um sonho que quase ganhou forma palpável mas não resistiu ao calor.
As poses dos dois fumadores têm muito estilo. Não aguento mais e saio para, também eu, fumar um cigarro. Acendo-o e experimento os gestos correctos. Mas não, não é uma questão de estilo. As coisas encaixam mas não ficam perfeitas. Por muito bela que seja a imagem projectada ou imaginada ou lá o que é, trata-se de puro vício. Nada mais, nada menos que vício. Como viver.
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quarta-feira, setembro 01, 2010
Camerons Diaz aos pontapés

Ir ao cinema é um acto social do mais banalzinho que pode haver. Trata-se, toda a gente está cansada de saber, de um espectáculo de massas, acessível e democrático. Não tem nada de especial. Não é elitista nem obriga o espectador a esforços desumanos para se sentar na sala escura e deixar-se ir, filme dentro, com o passar dos minutos. Se, porventura, o filme ultrapassa os limites do suportável ou fica aquém das expectativas, o espectador pode sempre abandonar a sala que ninguém lhe levará a mal por isso. Mas, fiquei a sabê-lo ontem, abandonar a sala exige tanta ou mais inteligência do que escolher o filme adequado às nossas aspirações ou capacidades.
Situemos a acção. Fui com a minha filha ver The Box, escrito e realizado por Richard Kelly que conhecíamos de Donnie Darko, um filme de 2001 que ocupa um lugar confortável na nossa prateleira dos DVD preferidos. Deslocámo-nos a uma das salas ZON do Almada Fórum como é frequente acontecer. Encontrámos os amigos do costume, uma coincidência que se arrasta há muitos anos e ocupámos os lugares na sala. O filme começou.
Como seria de esperar e apesar de ter Cameron Diaz como protagonista, The Box é um filme denso, estranho e, por vezes, desconcertante. Visualmente de uma correcção impoluta, Richard Kelly parece gostar de construir narrativas abstrusas, repletas de personagens bizarras. E é o que faz.
Atrás de nós havia algumas pessoas que, a partir de uma certa altura, começaram a falar alto. Eram vozes femininas ponteadas por outras, mais grossas, imagino que saídas de fundas gargantas masculinas. Como ouço um pouco mal, não era capaz de distinguir o que diziam, apenas sentia um constante martelar de vozes afectadas. Irritante, no mínimo. De tal forma que a minha filha se voltou para trás e pediu, com modos mais correctos do que a situação exigia, que se calassem ou, pelo menos, falassem mais baixo. Em resposta as personagens começaram a falar ainda mais alto, pelo menos foi o que me pareceu. Voltei-me para trás e, num relance, vi um par de Camerons Diaz com baldes de pipocas e telemóveis em punho, atarefadas com diversas actividades nas quais a projecção no écrã não parecia incluída. Senti uma irritação profunda e propus à minha filha que mudássemos de lugar (a sala estava para aí com um terço de ocupação).
Levantámo-nos e, perante a interrogação dos nossos amigos, ainda tive tempo de dizer uma frase deselegante que não sei se chegou aos destinatários, qualquer coisa como "estas gajas não se calam". Demasiado brando, reconheço.
Sentados nos novos lugares assistimos ao filme. Mas, atrás de nós, um jovem casal, também ele munido dos respectivos caixotes de pipocas, dava largas á sua estupefacção perante a estranheza do filme. Lá vimos a coisa até ao fim mas, não pude deixar de pensar que, tal como há escalões etários que classificam os filmes, também deveria haver avisos do género: "não aconselhável a pessoas estúpidas" ou "interdito a amantes de comédias românticas", só para dar dois exemplos.
O meu amigo, que ficou no lugar que eu abandonara, disse-me que, durante o intervalo, as Camerons Diaz comedoras-de-pipocas haviam comentado o facto de estarem à espera de um filme completamnete diferente, algo mais na linha de outro filme com Cameron Diaz e Tom Cruise, em exibição numa sala ao lado. Acção, comédia e aventura, era o que elas queriam e saíu-lhes negrume, complexidade e depressão profunda. Não admira que cacarejassem como galinhas tontas durante todo o tempo que o filme durou. Só me pergunto porque porque razão não abandonaram a sala e a única resposta que me parece plausível é que eram demasiado estúpidas para pensarem nisso.
Demasiado estúpidas para saírem e demasiado imbecis para compreenderem a sua profunda estupidez. Elas e os parolos que as acompanhavam.
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segunda-feira, agosto 30, 2010
Gordos

A notícia é estranha: Crianças obesas com risco para a saúde podem ser separadas de pais que não os ajudem a perder peso (ler aqui). Na verdade a coisa entra-nos pelos olhos dentro, cada vez há mais putos parecidos com o boneco dos pneus Michelin, a deitarem refegos de gordura para os lados das calças e mais redondinhos que uma bola de praia insuflável.
Os motivos de tal deformação generalizada não serão difíceis de equacionar: um modo de vida cada vez mais sedentário, horas a fio a jogar joguinhos de écrã e a ver desenhos animados e séries imbecis destinadas a criancinhas, tudo isto acompanhado com saborosos snacks repletos de sal e gorduras variadas, ponteado por uma publicidade fulminante e agressiva durante os intervalos fazem ganhar volume a qualquer um, por mais magrinho que seja quando se inicia nestes prazeres da vida contemporânea.
O tipo de alimentação, à base de junk food, é terrível mas dificilmente se lhe pode fugir. A publicidade dirigida aos miúdos, a doçura do açúcar, a facilidade com que todas aquelas iguarias se enfiam pela garganta abaixo a preços convidativos e acessíveis não poupam ninguém. O processo é semelhante ao que inferniza a existência de qualquer drogado viciado; de início não se nota o vício a entranhar-se e, quando um gajo lhe quer fugir, nada a fazer: já foi apanhado!
A sugestão de afastar as crianças obesas dos pais, caso estes sejam coniventes com o alargamento das criaturas e não consigam impedi-lo, não deixa de ser estranho. Tiram as crianças aos pais e levam-nas para onde? Já estou a imaginar internatos para putos gordos em casarões obscuros, onde lhes cortam com as bolachinhas de chocolate, os hamburgueres e as pizzas ao pequeno almoço. Um casarão com um ginásio semelhante a uma câmara de torturas onde os obrigam a fazer exercício físico correndo em passadeiras eléctricas, como ratos de laboratório durante 6 horas por dia. Nada de TV nem de computador. Ali só são admitidos passeios ao ar livre, a pé ou de bicicleta, para abater asmaléficas banhas.
A notícia termina chamando a atenção para que retirar as crianças aos pais é uma opção a tomar apenas em desespero de causa: Já houve casos no Reino Unido, em Espanha e nos Estados Unidos em que os tribunais entenderam que as crianças, com obesidade mórbida, deviam ser afastadas dos pais. Antes, porém, de se partir para opções mais drásticas, diz Armando Leandro, deve tentar-se que "os pais interiorizem e assumam as suas responsabilidades e adquiram as necessárias competências parentais nesta matéria". Tem que se "apostar decididamente" na prevenção primária e secundária, diz, sublinhando a importância da "intervenção precoce".
Talvez se deixassemos de considerar as crianças como consumidores e as olhassemos como aquilo que realmente são: pessoas facilmente influenciáveis e um tanto desprotegidas no universo consumista e mediático; talvez pudessemos evitar este tipo de raciocínio verdadeiramente fascistóide que nos levar a considerar a hipótese de que cabe ao estado decidir o que é melhor para os filhos dos seus cidadãos. O tipo de protecção que estas crianças necessitam está desajustado e desfocado. O problema não está dentro das famílias, está à volta delas!
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quinta-feira, agosto 26, 2010
Eco
Dizem que uma das coisas boas que as viagens têm é o regresso a casa. Esta ideia tem o seu fundo de verdade. Regressar ao meu espaço privado é sempre gratificante. Reencontrar os objectos, os ambientes familiares, refazer os trajectos habituais é, agora e durante alguns dias, uma espécie de banho frsco em água limpa que me deixa o espírito calmo e revigorado.
As primeiras impressões são revestidas por um olhar mais atento do que o habitual. Os defeitos e as virtudes das coisas parecem mais evidentes, há um distanciamento adocicado, uma benevolência meio sonâmbula, uma paz interior que se vai diluindo com a passagem do tempo. Há um eco de memória...
Comparar o que vi do Japão com aquilo que vejo em Portugal é como tentar perceber se um doce de amêndoa é melhor que uma bifana de porco. São coisas tão diferentes que qualquer comparação pecará sempre por defeito ou por excesso, nunca se chega a compreender.
Gosto de viver aqui.
segunda-feira, agosto 23, 2010
Voar e rolar

As férias podem ser cansativas. Imaginamos sempre um tempo de descanso quando chega o dia mágico em que o trabalho fica em lista de espera mas, como tenho feito desde esse dia, podemos optar por entrar numa corrida desenfreada. E o descanso é mais psicológico do que físico.
Uma viagem entre Lisboa e Tóquio leva bem um dia de vida ao viajante. É o (pequeno) preço a pagar pelo atrevimento de ir tão longe e, depois, regressar para tão perto. Quanto tempo teriam os viajantes de outras eras que oferecer aos deuses das estradas, dos mares e das montanhas, antes de os deuses dos ares e das nuvens terem garantido o quase monopólio do negócio?
Para nós, aeronautas contemporâneos, um dia a voar, com ligeiros poisos aqui e ali, em diferentes aeroportos que, no fundo, são quase iguais, parece uma coisa extrema, uma aventura descabelada que põe em risco os nossos níveis habituais de comodidade. Quando sentimos isso, Vasco da Gama deve dizer palavrões e chamar-nos uma coisa que não sei qual seja, a coisa que antigamente se chamava àqueles que hoje chamamos de "mariquinhas" (o políticamente correcto que vá dar uma volta :-).
Depois de 4 horas no ar e mais 3 em terra, outras onze a voar ininterruptamente entre Londres e Hong Kong, mais outra espera e, finalmente, saltar em direcção ao aeroporto de Narita para, finalmente, apanhar um autocarro que nos levasse até ao hotel, em Tóquio, faz com que as horas se tornem coisa estranha. Ora dilatam, ora diminuem, de acordo com as nossas sensações e estados de espírito.
Já cheguei a Portugal há alguns dias (viajei imediatamente mais umas centenas de quilómetros conduzindo o meu carro, para lá e para cá) mas o relógio continua a mentir-me e eu a ele. O Japão começa a tomar aquela forma que as recordações ganham passado algum tempo. Os pormenores perdem intensidade e apenas as fotos e as notas que registei me permitem recuperar alguns momentos agradáveis que, de outro modo, acabariam perdidos na imensidão das gavetinhas no meu cérebro.
Isso fica para um outro post que este já vai longo de tanto voar e rolar na memória das viagens.
quarta-feira, agosto 18, 2010
A lógica da rendinha

Aeroporto da Portela, London Heathrow, Hong Kong, aeroporto de Narita, Tóquio; 24 horas de viagem, mais coisa menos coisa, entre tempos de vôo e tempos de espera para ligações aéreas. Tudo a horas, à beira da perfeição possível em situações deste género.
Em Tóquio apanhámos um autocarro entre Narita e o hotel. Os apoios para a cabeça eram feitos de renda. Depois reparámos que os táxis tinham também este estranho adereço, uma rendinha branca, muito branquinha mesmo, para ser mais exacto.
Numa cidade gigantesca como Tóquio (30 milhões de habitantes), a limpeza surpreende. Ruas limpíssimas, zonas específicas para fumar com cinzeiros evitam cigarros fumados e espalmados nos passeios, nem um papelito esquecido... assombroso! Raríssimos grafittis, túneis subterrâneos brilhantemente iluminados e limpos, túneis que cheiram a limpeza.
Pede-se às pessoas que que aceitem cumprir as regras com gentileza; que evitem fumar em andamento; que evitem comer ou beber nas ruas fora dos locais a isso destinados. E as pessoas cumprem religiosamente as indicações. Fica a dúvida sobre o que acontecerá caso as regras sejam desrespeitadas mas estou convencido que não acontece nada de especial e, talvez por isso, as regras são cumpridas por quase 100 em cada 100 pessoas. Esta capacidade de organização é estonteante para um gajo como eu, vindo de um país onde ninguém parece interessado em cumprir indicação nenhuma, por mínima que seja.
O sistema de transportes ferroviários, metro e comboios de superficíe, tem as mesmas qualidades. Limpeza e pontualidade absoluta. Os comboios sucedem-se constantemente, cruzam-se em diferentes níveis, passam lado a lado, sobem, descem, aproximam-se e afastam-se, num bailado mecânico com o rigor de um relógio suíço. Um português não está habituado a ser tratado com tanto respeito!
A tão afamada simpatia dos japoneses é um facto. Chega a ser embaraçosa a forma como os habitantes da cidade se mostram disponíveis e simpáticos, sempre a fazer vénias e mostrando sorrisos abertos, aos quais tentamos corresponder com algum atabalhoamento (o tempo haveria de ir corrigindo a nossa forma de responder a tamanha cortesia).
Um dos maiores receios dos habitantes de Tóquio parece ser o de induzir em erro quem lhes pede auxílio ou indicações. O inglês deles é esforçado mas resulta pavoroso, o que dificulta a comunicação. No entanto, a disponibilidade e vontade de colaborar acabam por compensar a barreira da língua e só se perde em Tóquio quem não for capaz de sorrir.
Li algures que a máxima aspiração de um japonês é fazer um trabalho bem feito. Após os primeiros contactos com os habitantes de Tóquio fiquei plenamente convencido de que isso corresponde à verdade.
Organização, asseio, polidez respeito pelo próximo... foi amor à primeira vista. Tóquio parecia uma cidade quase perfeita. As minhas dúvidas escondiam-se precisamente na sombra desse "quase". Não é possível que tudo seja assim tão "clean", tão certinho. Numa metrópole como aquela tem de haver esqueletos no armário e monstros no fundo da sanita. O facto de serem tão difíceis de encontrar agradou-me bastante mas gostaria de os vislumbrar, talvez mesmo dar-lhes uma valente olhadela.
A primeira impressão de Tóquio foi a de estar perante uma imensa rendinha branca.
terça-feira, agosto 03, 2010
Estação parva, pensamento a condizer...
O nosso pequeno mundo está assim, numa espécie de banho-maria. As elevadas temperaturas do Verão português fazem com que os cérebros cozam um bocadinho e algumas pessoas pareçam ainda mais estranhecas do que já pareciam quando tinham a massa cinzenta conservada em temperatura de arca frigorífica. Com o calor as ideias parece que derretem e, em vez de saírem firmes e hirtas, como convinha, antes escorrem, liquídas e peganhentas, moles, repulsivas.
No Verão convém tomar cuidados extra com a conservação das coisas que estão sujeitas à acção do calor. A comida não pode ficar fora do frio, correndo o risco de se degradar a olhos vistos, nem os pensamentos devem ser deixados em exposição directa aos raios solares, pois sujeitam-se a perder por completo o sentido, caso o calor seja demasiado.
Chama-se a esta época a "estação parva" (silly season em língua anglófona) e ninguém está livre de se transformar numa verdadeira alimária armada em ser racional, convencida de estar a produzir pensamentos profundos e estruturados quando, na verdade, está a fazer a mais completa figura de urso. E todos sabemos os problemas que o pêlo dos ursos lhes traz na época encalorada que atravessamos.
Os tugas migram em direcção à água do mar, procurando um conforto que ali nunca encontram por serem demasiados em tão curto areal. Amontoam-se, felizes ou infelizes e muito suados, convencidos de que é assim que se encontra a essência das coisas nos dias de Verão. Coitados deles (coitados de nós).
As notícias veiculadas pelos meios de informação mostram como estamos mais parvos do que habitualmente (o que poderá parecer difícil mas, na verdade, é bem fácil). Vou saír do país durante uns dias, para muito longe daqui.
Espero encontrar o país intacto, quando regressar. Quero dizer, espero voltar e poder sentir esta invencível imbecilidade geral que tão heroicamente preservamos e nos torna únicos neste mundo maravilhoso. Espero que Portugal se mantenha firme e hirto e não derreta com o calor que abrasa o território. Espero regressar e continuar merecedor da minha profunda portugalidade.
Até breve.
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segunda-feira, agosto 02, 2010
Grande cinema!

Não se deixem enganar, caros leitores, Toy Story 3 não é um filme infantil. Ou melhor, é um filme infantil mas não é isso que o leitor está a pensar. Quero dizer, se o leitor não viu os dois filmes anteriores desta série terá maiores dificuldades em compreender aquilo que a seguir vai ficar registado. Caramba, é complicado dizer o que me passa pela cabeça depois de assistir à projecção deste extraordinário filme.
Para quem está familiarizado com o trabalho absolutamente fora-de-série dos estúdios da Pixar, cada nova produção é uma promessa maravilhosa sempre cumprida com um brilhantismo que parece impossível de alcançar. Técnicamente são filmes irrepreensíveis e em termos de argumento inovam sempre.
O melhor é ficar por aqui. Concluo dizendo que Toy Story 3 é grande cinema em qualquer parte do mundo. Tem personagens comoventes, cenas de acção escaldantes, um argumento surpreendente, planos e sequências que nos fazem ficar de boca aberta. Como é possível fazer tudo isto com bonecos animados? Só vendo.
sábado, julho 31, 2010
Férias

As férias estão aí. Quem ainda não se apercebeu que o relógio está mais preguiçoso e que hoje é quase a mesma coisa que foi ontem e que a cidade, de repente, ficou menos cheia que uma lata de sardinhas em conserva, quem ainda se não apercebeu de tais evidências, é porque continua a trabalhar. Lamento.
Os outros, os que não só compreendem as patacoadas que escrevi no parágrafo anterior como ainda seriam capazes de lhe acrescentar umas parvoíces no género, parabéns, estão assim como eu, algures entre ontem e depois de amanhã. O dia de hoje e o que lhe está colado não têm grandes coisas a prometer. É nos dias seguintes que se escondem os acontecimentos mais marcantes das férias que, apesar de já terem começado, ainda não se parecem com grande coisa.
Viagens, aviões, automóveis, comboios, barcos, metros debaixo das entranhas da cidade. Ainda estou para perceber se as férias são descanso ou cansaço. Estou quase ansioso por percebê-lo! Um gajo está sempre à espera de uma aventura qualquer. Venha ela que já estou um pouco saturado de continuar à espera.
sexta-feira, julho 30, 2010
O prazer de ver ou de pintar ou... sei lá eu!
Uma exposição de pintura que é uma exposição de pintura é coisa que não é tão comum quanto possa parecer. Esta exposição de trabalhos de António Olaio, patente no Museu de Grão Vasco, em Viseu, fez-me perceber a importância de um artista contemporâneo ter um projector de imagens no ateliê onde trabalha.
Não era nada que não me tivesse já chamado a atenção. Para executar trabalhos de uma certa dimensão, o dito projector é um instrumento de primordial importância. Já ninguém faz ampliações recorrendo ao método das quadrículas e poucos arriscarão um desenho monumental sem recorrer à ajuda de processos mecânicos de ampliação. É uma questão de sanidade mental e desenvoltura no trabalho de pincelar uma tela (ou outro tipo de superficíe).
Olhando a sequência das cadeiras, cadeirinhas e cadeirões de Olaio, senti aquele pequeno je ne sais quoi que nos assalta quando percebemos como poderíamos resolver com elegância e rapidez certas questões que ainda não havíamos compreendido lá muito bem.
Bom, sendo completamente honesto deveria dizer, "aquelas questões que já tínhamos compreendido como resolver mas que ainda não resolvemos", talvez por preguiça ou falta de pachorra ou de dinheiro ou de interesse, as razões poderão alinhar-se como soldadinhos na parada à espera que o oficial de dia faça a inspecção das suas qualidades soldadescas. Não interessa muito. Não interessa nada.
A arte parece-me uma questão de oportunidade ou interesse particular, fruto de circunstâncias específicas. Parece-me qualquer coisa que poderia não ser o que é por falta de possibilidades para compreender o que quer que seja. Esta conversa é, sem dúvida nenhuma, fruto de uma certa indolência intelectual, enxertada em calor e falta de assunto, fruto nascido podre na árvore da minha ignorância, árvore essa bem capaz de produzir toneladas de fruta podre assim, num abrir e fechar de olhos.
Resumindo e concluindo, a exposição em questão, "Na Cátedra de São Pedro", pinturas e desenhos (mais um vídeo arte) de António Olaio, patente no Museu de Grão Vasco em Viseu, não me aqueceu nem me arrefeceu, antes pelo contrário. Não percebi se a indiferença era problema meu ou dos trabalhos expostos. Talvez o leitor ocasional deste texto possa deslocar-se à dita exposição e ajudar-me a perceber que raio de coisa quero eu dizer com esta conversa toda!
terça-feira, julho 27, 2010
Condicionado

Férias são férias, caramba, hoje fui outra vez ao cinema!
Está um calor de rachar e não há local mais apropriado para um ser humano que um espaço fechado alimentado a ar condicionado. Quando entrei no centro comercial onde se acomodam as salinhas de cinema senti logo aquela lambidela fresca e seca do ar condicionado. O espaço imenso do Palácio do Gelo (nome redentor, nos dias que passam), em Viseu, não tem uma atmosfera verdadeira, nem pode. É em lugares como este que penso no esforço de produção e desperdício de energia necessários para manter a nossa sociedade a funcionar nos parâmetros que consideramos minimamente aceitáveis. Conforto, é a palavra de ordem. O calor lá fora não parece real, quando estamos cá dentro. A verdade e a realidade à cabeçada, como de costume.
Visto que o ar condicionado é um factor importante na decisão de ir até uma sala de cinema, resta dizer que o filme que fui ver foi a nova versão de Robin Hood, realizada por Ridley Scott. Não havia muito por onde escolher. É certo e sabido que escolha tem a ver com a oferta. É a essência do nosso modo de vida. E a ZON Lusomundo abafa por completo a oferta cinematográfica por este país fora. Os mesmos filmes em todo o lado, como se fosse uma empresa de fast food. Podemos estar em locais afastados geográficamente mas aquilo que temos à nossa disposição é igualzinho. A qualidade é uma miragem, nestes dias de calor abrasador. Nos restantes dias do ano é a mesma coisa.
Este novo Robin do Capuz faz uma releitura radical da história clássica do herói e das suas relações com Lady Marion, o Rei Ricardo Coração de Leão, o Princípe/Rei João, o Xerife de Nottingham, João Pequeno, Will Scarlett, etc. e tal. É um filme algo maçador, pesadão, chato mesmo, em algumas passagens. Mas acaba por prender o espectador mais familiarizado com as personagens. Sempre se quer ver até onde vai a inovação desta versão.
E vai longe. Talvez até vá longe de mais. Comprido e chato, como a espada do Rei Ricardo. Se não vires isto, caro leitor, não saberás o que perdes. Se vires, talvez não chegues a saber o que ganhas. É uma questão de ar condiconado.
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