quinta-feira, junho 18, 2026

Dissolução

     Vi-o no corredor, em direcção ao cais de embarque, Cais do Sodré-Cacilhas, se faz favor. Pareceu-me muito velho, ia curvado, a nuca coberta de cabelos brancos a abrir clareiras aqui e ali, uma pele avermelhada, muitas rugas, os passos meio arrastados. Passei por ele e pela mulher que o acompanhava. Entrei no barco, subi ao andar de cima, como sempre faço e sentei-me num lugar que pudesse proteger-me do sol, cuja luz começava a fazer-se sentir sob a forma de um calor incomodativo.

    Escrevia qualquer coisa no meu caderno de capa dura quando levantei os olhos por sob as sobrancelhas e dei de caras com o homem que parecia dissolver-se no espaço em volta. Estava sentado duas filas para lá da minha, do lado esquerdo do meu nariz, cadeiras de plástico cor-de-laranja. Agora podia vê-lo de frente e nem precisava de dar muito nas vistas.

    Tinha a boca sempre aberta, como se lhe custasse respirar, ou fosse parvo, ou sentisse um espanto permanente por se aperceber estar ainda vivo. A expressão facial parecia revelar uma profunda tristeza, uma espécie de gentil desistência ou simples ausência de alegria.

    Dei por mim a pensar que a desistência nem sempre constitui um acto negativo, que desistir pode carregar muita poesia neste mundo obcecado por vencedores de merda, vencedores a todo o custo, gente incapaz de sentir empatia por aqueles que derrota. Percebi que o homem que se dissolve à minha frente, afinal, não desiste, apesar da tristeza que dele se desprende. O homem não desiste, lá se vai a poesia.

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