quarta-feira, setembro 01, 2010

Camerons Diaz aos pontapés



Ir ao cinema é um acto social do mais banalzinho que pode haver. Trata-se, toda a gente está cansada de saber, de um espectáculo de massas, acessível e democrático. Não tem nada de especial. Não é elitista nem obriga o espectador a esforços desumanos para se sentar na sala escura e deixar-se ir, filme dentro, com o passar dos minutos. Se, porventura, o filme ultrapassa os limites do suportável ou fica aquém das expectativas, o espectador pode sempre abandonar a sala que ninguém lhe levará a mal por isso. Mas, fiquei a sabê-lo ontem, abandonar a sala exige tanta ou mais inteligência do que escolher o filme adequado às nossas aspirações ou capacidades.

Situemos a acção. Fui com a minha filha ver The Box, escrito e realizado por Richard Kelly que conhecíamos de Donnie Darko, um filme de 2001 que ocupa um lugar confortável na nossa prateleira dos DVD preferidos. Deslocámo-nos a uma das salas ZON do Almada Fórum como é frequente acontecer. Encontrámos os amigos do costume, uma coincidência que se arrasta há muitos anos e ocupámos os lugares na sala. O filme começou.

Como seria de esperar e apesar de ter Cameron Diaz como protagonista, The Box é um filme denso, estranho e, por vezes, desconcertante. Visualmente de uma correcção impoluta, Richard Kelly parece gostar de construir narrativas abstrusas, repletas de personagens bizarras. E é o que faz.

Atrás de nós havia algumas pessoas que, a partir de uma certa altura, começaram a falar alto. Eram vozes femininas ponteadas por outras, mais grossas, imagino que saídas de fundas gargantas masculinas. Como ouço um pouco mal, não era capaz de distinguir o que diziam, apenas sentia um constante martelar de vozes afectadas. Irritante, no mínimo. De tal forma que a minha filha se voltou para trás e pediu, com modos mais correctos do que a situação exigia, que se calassem ou, pelo menos, falassem mais baixo. Em resposta as personagens começaram a falar ainda mais alto, pelo menos foi o que me pareceu. Voltei-me para trás e, num relance, vi um par de Camerons Diaz com baldes de pipocas e telemóveis em punho, atarefadas com diversas actividades nas quais a projecção no écrã não parecia incluída. Senti uma irritação profunda e propus à minha filha que mudássemos de lugar (a sala estava para aí com um terço de ocupação).
Levantámo-nos e, perante a interrogação dos nossos amigos, ainda tive tempo de dizer uma frase deselegante que não sei se chegou aos destinatários, qualquer coisa como "estas gajas não se calam". Demasiado brando, reconheço.

Sentados nos novos lugares assistimos ao filme. Mas, atrás de nós, um jovem casal, também ele munido dos respectivos caixotes de pipocas, dava largas á sua estupefacção perante a estranheza do filme. Lá vimos a coisa até ao fim mas, não pude deixar de pensar que, tal como há escalões etários que classificam os filmes, também deveria haver avisos do género: "não aconselhável a pessoas estúpidas" ou "interdito a amantes de comédias românticas", só para dar dois exemplos.

O meu amigo, que ficou no lugar que eu abandonara, disse-me que, durante o intervalo, as Camerons Diaz comedoras-de-pipocas haviam comentado o facto de estarem à espera de um filme completamnete diferente, algo mais na linha de outro filme com Cameron Diaz e Tom Cruise, em exibição numa sala ao lado. Acção, comédia e aventura, era o que elas queriam e saíu-lhes negrume, complexidade e depressão profunda. Não admira que cacarejassem como galinhas tontas durante todo o tempo que o filme durou. Só me pergunto porque porque razão não abandonaram a sala e a única resposta que me parece plausível é que eram demasiado estúpidas para pensarem nisso.

Demasiado estúpidas para saírem e demasiado imbecis para compreenderem a sua profunda estupidez. Elas e os parolos que as acompanhavam.

9 comentários:

Eduardo P.L disse...

Foram muito elegantes, meu amigo! Minha timides também, nessas ocasiões, não me permite virar e mandarem parar de falar, caso contrário reclamarei à gerência! Isso dito em volume audível, e certamente outros incomodados me dariam apoio, pelo menos moral... Mas sou como vocês : me retiro, pois diz o ditado, "os incomodados que se retirem..." infelizmente!
Mas no caso os incomodados com o filme, eram essas estúpidas pessoas, e elas é que deveriam exercer esse direito, caírem fora e deixarem os outros assistirem ao que pagaram! Boa crônica!

Anónimo disse...

eu fico possessa também com camerons, e baldes de pipoca, celular, falação nas salas de cinema. O lugar comum disso acontecer são nos gdes shoppings, com megas salas,etc. Eu evito de ver filmes nesses shoppings. Evito, porque. É gente que acha que os cines são a extensão de suas salas de casa, com controle remoto, comida. Cadê o ritual minha gente de ir pra uma sessão de cinema?
bjs
madoka

Silvares disse...

Eduardo, elegância um pouco desajeitada.
:-)

Madoka, cadê as salas de cinema? Na cidade onde vivo havia várias antes de abrir o Grande Shopping. Fecharam todas. Ficou o shopping.

Beto Canales disse...

Estamos cada vez menores e semelhantes.isso é ruim

Anónimo disse...

pois é.
Em São Paulo várias salas de cinema viraram sabe o quê? Igrejas evangélicas!!
Mas SP é SP, é um respiro de cidade apesar de tudo. E lá, há vários circuitos de cines com mostras de cinema variados, sem contar os cineclubes universitários.
bjk
madoka

Silvares disse...

Beto, prefiro pensar que as coisas mudam nem para melhor, nem para pior. Simplesmente ficam diferentes.

Madoka, uma das salas aqui da minha cidade (pequenina, não sei quantos habitantes tem mas não chegará aos 100 mil, não faço ideia) também se tornou igreja. É porque devia fazer falta.
:-)

Zé Caçador disse...

parece que agora também se pode levar pipocas para as igrejas, se for assim eu topo e vou lá ver o espectáculo, só espero é que não apareçam por lá uns turistas acidentais que fiquem indignados com o meu sorver a cocacola e os meus comentários à batina do padre ou à acção trepidante da cena

Silvares disse...

Não me faças rir. Aquelas gajas estavam a chatear a sério.

Ana disse...

Esse tipo de pessoas não sai da sala simplesmente porque o único objectivo é irritar os outros. Gostam e sabem o que têm de fazer para incomodar os outros! Em última análise, como imagino serem mais um grupo de chungas, ainda poderão pensar: "já que paguei o bilhete, agora fico até ao fim. Até é cool estar aqui numa sala escura com as damas e os damos... e já agora que tal chateá-los um pouco? Deixa ver se dizem alguma coisa... Para além disso até já posso actualizar o meu estado no facebook!"

É por esta e por outras que gosto de ver filmes em casa...