quarta-feira, agosto 18, 2010

A lógica da rendinha


Aeroporto da Portela, London Heathrow, Hong Kong, aeroporto de Narita, Tóquio; 24 horas de viagem, mais coisa menos coisa, entre tempos de vôo e tempos de espera para ligações aéreas. Tudo a horas, à beira da perfeição possível em situações deste género.

Em Tóquio apanhámos um autocarro entre Narita e o hotel. Os apoios para a cabeça eram feitos de renda. Depois reparámos que os táxis tinham também este estranho adereço, uma rendinha branca, muito branquinha mesmo, para ser mais exacto.

Numa cidade gigantesca como Tóquio (30 milhões de habitantes), a limpeza surpreende. Ruas limpíssimas, zonas específicas para fumar com cinzeiros evitam cigarros fumados e espalmados nos passeios, nem um papelito esquecido... assombroso! Raríssimos grafittis, túneis subterrâneos brilhantemente iluminados e limpos, túneis que cheiram a limpeza.

Pede-se às pessoas que que aceitem cumprir as regras com gentileza; que evitem fumar em andamento; que evitem comer ou beber nas ruas fora dos locais a isso destinados. E as pessoas cumprem religiosamente as indicações. Fica a dúvida sobre o que acontecerá caso as regras sejam desrespeitadas mas estou convencido que não acontece nada de especial e, talvez por isso, as regras são cumpridas por quase 100 em cada 100 pessoas. Esta capacidade de organização é estonteante para um gajo como eu, vindo de um país onde ninguém parece interessado em cumprir indicação nenhuma, por mínima que seja.

O sistema de transportes ferroviários, metro e comboios de superficíe, tem as mesmas qualidades. Limpeza e pontualidade absoluta. Os comboios sucedem-se constantemente, cruzam-se em diferentes níveis, passam lado a lado, sobem, descem, aproximam-se e afastam-se, num bailado mecânico com o rigor de um relógio suíço. Um português não está habituado a ser tratado com tanto respeito!

A tão afamada simpatia dos japoneses é um facto. Chega a ser embaraçosa a forma como os habitantes da cidade se mostram disponíveis e simpáticos, sempre a fazer vénias e mostrando sorrisos abertos, aos quais tentamos corresponder com algum atabalhoamento (o tempo haveria de ir corrigindo a nossa forma de responder a tamanha cortesia).

Um dos maiores receios dos habitantes de Tóquio parece ser o de induzir em erro quem lhes pede auxílio ou indicações. O inglês deles é esforçado mas resulta pavoroso, o que dificulta a comunicação. No entanto, a disponibilidade e vontade de colaborar acabam por compensar a barreira da língua e só se perde em Tóquio quem não for capaz de sorrir.

Li algures que a máxima aspiração de um japonês é fazer um trabalho bem feito. Após os primeiros contactos com os habitantes de Tóquio fiquei plenamente convencido de que isso corresponde à verdade.

Organização, asseio, polidez respeito pelo próximo... foi amor à primeira vista. Tóquio parecia uma cidade quase perfeita. As minhas dúvidas escondiam-se precisamente na sombra desse "quase". Não é possível que tudo seja assim tão "clean", tão certinho. Numa metrópole como aquela tem de haver esqueletos no armário e monstros no fundo da sanita. O facto de serem tão difíceis de encontrar agradou-me bastante mas gostaria de os vislumbrar, talvez mesmo dar-lhes uma valente olhadela.

A primeira impressão de Tóquio foi a de estar perante uma imensa rendinha branca.

5 comentários:

Eduardo P.L disse...

Espero que tenha marcado um encontro com sua leitora e admiradora MADOKA.Enquanto fostes a Tokyo, fui a Porto Alegre! Só não sou capaz de um relato tão delicado!

Eduardo P.L disse...

Levei a imagem da Rendinha ( do Ladinho ) para o Mobilling!

Anónimo disse...

pois é Eduardo, eu soube de antemão que o 100cabeça viria, mas eu sou super tímida pra essas coisas e moro longe de Tóquio, rs... Tipo, moro há exatos 3 anos aqui, posteriormente com mais chão em solo japa, posso ciceroneá-lo por essas bandas.
A primeira impressão neste caso aqui, não é mero engano, vc é um observador inteligente e já sentiu em tão poucos dias os toquiotas. Eles são incríveis mesmo. Mas vc é turista. Ao contrário, eu sou brazuca, filha de japoneses então é difirente o tratamento.
bjk
madoka

Eduardo P.L disse...

Madoka,

uma pena!
Tenho conhecido ( pessoalmente ) gente muito interessante através dos blogs! Alguns mais do que os imaginava virtuamente, outros, nem tanto, mas faz parte!
Mas o fato de morar longe justifica!

Silvares disse...

Madoka é tímida e eu também... a viagem decorreu em bom ritmo e fiquei mesmo apaixonado por Tóquio. Por Quioto nem tanto...