sábado, abril 01, 2006

Crítica rotineira

Escrever a crítica de arte para um suplemento semanal deve ser trabalho lixado. Digo eu. Um gajo tem de ir a umas inaugurações, arrastar a carcaça até galerias e, mais raramente, museus. Olhar, ver, pensar e, fatalmente, escrever, construir uma opinião. O crítico não pode passar, avisar que não sai nada, que fica uma semana "de molho" por falta de qualquer coisa minimamente interessante para dizer. O crítico tem de criticar e mais nada. Ponto final.

Quando acontece não haver opinião que se leia, quando o relógio apressa a escrita e o teclado parece roer as pontinhas dos dedos ao crítico, o caso será angustiante mas não há-de ser nada! A crítica tem de estar pronta a tempo e horas. É preciso aprontar o suplemento, paginar a revista, retocar pormenores. O paginador vê apenas manchas de texto, o designer gráfico trabalha com formas e não com conteúdos. Esses são da responsabilidade do pobre escravo do dever que terá de assinar por baixo e assumir a paternidade da coisa.

Nem sempre me dou ao trabalho de ler as recensões críticas nas páginas dedicadas às artes plásticas mas, quando me entrego à tarefa, fico quase sempre com a sensação de que é mais interessante ler o resumo de um jogo de futebol entre o Rio Ave e o Gil Vicente.

No entanto é nesses textos, tantas vezes sem substância, que se vai fazendo a historinha da arte contemporânea. Criam-se reputações, ignoram-se outras, fala-se do trabalho de alguns amigos e já não é coisa pouca.

Vem isto a propósito do texto publicado hoje no Mil Folhas do Público, por Óscar Faria, com o título Rebentar com a pintura. É uma coisa amorfa, repleta de lugares comuns e ideias estafadas, um texto que me faz ter pena do escriba. Coitado.
Acredito que o trabalho de Bruno Pacheco, "analisado" neste texto, seja interessante. Não posso deixar de ter a impressão que, quem leia o dito cujo, não vai dar-se ao trabalho de arrastar os sapatos até à galeria Quadrado Azul, no Porto, para uma visitinha.
A menos que seja crítico de arte e tenha urgência em escrever qualquer coisa para justificar o cheque do ordenado, lá mais para o final do mês.

1 comentário:

alice disse...

o exercício da escrita e da crítica acoplada ao quadrado, é ouro sobre azul,....
;o-