domingo, fevereiro 26, 2006

67 cêntimos


Hoje de manhã fui até ao CCB. Ainda me resvala a língua quando desdobro a sigla e, sem querer, chamo-lhe Centro Comercial de Belém. Garanto que é sem maldade.

Como noutras ocasiões dispunha-me simplesmente a preencher um espaço de tempo, de outra forma vazio. Já que ali estava dirigi os meus passos para a entrada da exposição dedicada a Frida Khalo prevendo uma visita mais ou menos rápida, sem grandes expectativas quanto à qualidade do assombro que me pudesse aguardar.

A surpresa foi a fila que se estendia desde a bilheteira até à porta. Fila bem compacta, produzindo um ruído característico, uma espécie de zumbido aveludado ecoando de mansinho, a mostrar que aquelas pessoas eram, como eu, burgueses razoavelmente educados apreencherem um espaço de tempo, num Domingo de manhã, de outro modo vazio.

Nunca tinha visto semelhante burburinho naquele espaço. Quase parecia a Tate Modern ou o Prado em dia de inauguração. Como queria apenas preencher um espacinho vazio e não transformar um momento em alguns minutos demasiado longos. dei meia volta.

Saí de novo para o sol. Reparei que grande parte dos visitantes falavam espanhol (seriam mexicanos?) e vestiam roupas tipo catálogo da La Redoute o que dava um aspecto muito suave e cómodo ao ambiente geral.

Regressei para junto das minhas acompanhantes (mulher e filha). Enquanto elas se dirigiram à Bertrand para namorarem algum livro interessante, fui beber uma bica à cafetaria. Aí prolongava-se o ambiente geral do Centro. Mais burgueses, mais roupinhas jeitosas e aquele suave zumbido geral de quem fala num tom apropriado a qualquer espaço e situação.

A surpresa do dia foi o preço do café. 67 cêntimos! Não 60 nem 70, mas 67 cêntimos!!! Que raio de conta terá conduzido áquele preço? Aquilo deve dificultar os trocos, complicar as contas, baralhar os espíritos. Rebusquei os fundos da algibeira e lá descobri umas quantas moedinhas de 1 cêntimo que me permitiram entregar ao sizudo empregado, por detrás da máquina registadora, a quantia mágica que ali corresponde a uma chávena de café.

Enquanto aguardava civilizadamente a minha vez de ser atendido pensei um pouco no assunto. Conclui que 67 cêntimos devem correponder a um qualquer limite máximo, deduzido pelo cálculo exacto de um gestor ambicioso.

67 cêntimos!!!
Quanto orgulho não deverá proporcionar ao seu autor tão extravagante preço.
67 cêntimos!!!
Aquilo é quase uma expressão de Beleza!
Na verdade expressa bem a teoria mais portuguesa de Portugal inteiro que é ilustrada (como seria de esperar) no popularíssimo ditado que garante que "grão a grão, enche a galinha o papo". Neste caso, cêntimo a cêntimo e sem galinha na equação.

Aqueles dois cêntimozinhos distorcem a realidade e lançam o visitante estrangeiro na vertigem do espaço mental do português. É nas coisas pequenas que encontramos expressão para a nossa fé. Tal como " a mulher e a sardinha se querem da mais pequenina" (!!!???) e outras máximas do género, naqueles dois cêntimos a mais (ou serão 3 a menos?) confirmamos a dimensão genial do empresário português.

Seja lá como fôr, a verdade é que não cheguei a visitar a amiga Frida, mas ficou a promessa de lá voltar. Até porque desejo experimentar de novo a vertigem daqueles extraordinários 67 cêntimos!

1 comentário:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Também eu fui ontem ao CCB com o mesmo propósito. Também eu me espantei com a enorme fila nas bilheteiras. Também eu me deliciei com o grupo heterogéneo de pessoas, as conversas, o céu cinzento, os sapatos a chapinharem na chuva. Também eu deambulei pela Bertrand, pela Valentim de Carvalho. Também eu bebi um café na cafetaria Quadrante. Também eu adiei o meu encontro com Frida Kahlo.