domingo, junho 21, 2020

Escassez de sorrisos

Andamos todos mascarados. Imagino que para uma criança com imaginação unicórnica isto seja um manancial infinito de situações maravilhosas. Para mim, que já vou sentindo alguns músculos a chiar, isto da mascarada contribui fortemente para me deixar acabrunhado.

Ainda por cima, cá em casa, temos umas máscaras de plástico transparente que nos deixam o sorriso à mostra. Quando vou a um local onde todos somos obrigados a usar a máscara, continuo a sorrir com a cara toda mas os que me respondem sorriem-me apenas com os olhos. Ou então nem sequer respondem ao meu sorriso de igual modo, nem sempre dá para perceber.

Se a imposição da máscara se mantiver por muito mais tempo decerto se vulgarizarão modelos mais arrojados que a vulgar máscara cirúrgica. As grandes marcas irão colocar no mercado máscaras distintivas, símbolos de poder económico, não obrigatoriamente de bom gosto. As marcas desportivas desenvolverão máscaras que melhorem a filtragem do ar, empreendedores imaginativos lançarão modelos extravagantes.

Nos tempos que correm faltam sorrisos, vão sobrando olhares. Os sorrisos fazem-me falta.

domingo, junho 14, 2020

Sonho de Verão

A praia estava vazia. Não se via ninguém no extenso areal.Talvez houvesse gente para lá das dunas mas, para já, não fosse o mar era um deserto. Saltaram do bote, pés em terra, um consolo! Um deles deu uma corridinha, braços ao ar, gritando como uma criança: iupi, iupi, iupi! O mais alto - barba comprida, olhar fechado, braços como troncos de árvore - fez um gesto elevando a mão em concha na direcção do céu cinzento e disse "esta praia é minha". Sem entoação particular nem emoção sensível. Apenas aquilo, aquela praia, agora, era dele. Os outros homens pareceram contentes com a declaração do chefe.

Palavras não eram ditas quando viram surgir na linha em que a duna tocava o céu um grupo de outros homens. O caldo estava entornado.

quinta-feira, junho 11, 2020

O tempo dos monstros

O clima é de conflito latente. Talvez seja exagero chamar-lhe clima de guerra mas que é propício à bordoada, disso não tenho grandes dúvidas. 

Habituámo-nos a pensar que a Democracia se constrói com base no diálogo, na confrontação de ideias que estão na base de perspectivas diferentes para a organização da sociedade. Imaginámos que seria possível perpetuar esses sistema de funcionamento, delegando os nossos interesses em representantes eleitos que procurariam consensos nos Parlamentos, buscando soluções adequadas e tendo como finalidade o bem comum. 

Tudo isto só poderia correr bem pois um desses objectivos seria a educação das populações, a elevação da sua capacidade de reflexão e discernimento. Com uma sociedade cada vez mais informada o Nirvana começava a desenhar-se no horizonte próximo. Só faltavam os unicórnios e os passarinhos.

Esquecemos a tendência natural do ser humano para a boçalidade, a agressão e a necessidade típica do macho em ser o bicho dominante, o líder da manada. A Democracia revela-se demasiado frágil precisamente num dos seus aspectos mais importantes: a tolerância.

Nos tempos que correm o diálogo não ultrapassa o nível da conversa de surdos. E, como qualquer conversa de surdos, degenera em gritaria. As ideias transformam-se em verdades absolutas, o consenso é uma impossibilidade. Erguem-se barreiras de incompreensão que se transformam em barricadas. Estamos prontos para o que der e vier.

Precisamos de estar alerta, precisamos de elevar a nossa capacidade de conter a raiva e continuar a procurar o diálogo. Alguns antagonistas recentes poderão ser os nossos aliados do futuro próximo. Para mantermos a possibilidade de uma sociedade democrática devemos identificar com clareza os verdadeiros inimigos mortais, para os derrotarmos alianças estranhas terão de ser estabelecidas. A sobrevivência daquilo em que acreditamos exige atitudes extraordinárias.

Vem aí o tempo dos monstros.

segunda-feira, junho 08, 2020

Uma questão de sorte

Longos diálogos, ideias curtas e um sol abrasador a bater-lhe na testa faziam com que a situação fosse mais penosa do que estranha. Não havia trânsito a atrapalhar, nem havia cães vadios, nem vizinhos à janela, não havia quase nada a não ser aqueles dois vultos inconstantes que não paravam de dialogar. Mantinham uma conversa capaz de fazer adormecer um muro de granito.

Pousou a mão pelo bolso traseiro das calças. O livrinho continuava lá, aconchegado, provocando um calor do caraças, à espera de ser lido. Mas, por educação, seria necessário aguardar uma pausa na conversa dos fantasmas antes que pudesse ler as últimas páginas que haviam de revelar o desfecho do romance. O sol, a conversa, a curiosidade, tudo concorria num ponto único dentro da cabeça dele, como setas voando em direcção ao alvo.

O espectro da esquerda pareceu tremelicar e o da direita perdeu definição, começando a assemelhar-se a uma nuvem de fumo de cigarro muito espessa. Ainda assim continuavam, incansáveis, dissertando sobre um mundo que ele desconhecia em absoluto. Impossível reconhecer o que quer que fosse daquela conversação. Paisagens inimagináveis, situações abstrusas, coisas do Além.

Foi então que se lembrou de soprar.

E fez como o Lobo Mau; encheu o peito de ar até ficar com os ouvidos a zumbir e soprou, soprou, soprou, sentindo as têmporas a latejar, o peito a esvaziar-se de forma violenta. De imediato os fantasmas se enrolaram um no outro e se dissolveram na atmosfera brilhante e dura daquela tarde de Verão. Aquilo foi pior que má educação mas a leitura vale tudo!

Pegou no livro, leu as últimas páginas e ficou desiludido com o que aconteceu ao protagonista da história. Já não havia nada que pudesse fazer para trazer os fantasmas de volta. Resignado, dirigiu-se ao quiosque para comprar outro livrinho. Talvez com este tivesse mais sorte.

quinta-feira, junho 04, 2020

Ocupar o corpo

Dom Quixote (volume2), Pais e Filhos de Turgueniev, Memórias Póstumas de Brás Cubas e Dom Casmurro de Machado de Assis, assim tenho vogado na canoa das minhas leituras neste charco pestilento da pandemia. Devagar,lentamente, remando umas vezes, outras deixando-me ir na correnteza; umas quantas páginas por dia.

A literatura é um prazer.

Ontem comecei um livrinho de Simenon editado na Colecção Vampiro, o primeiro que leio com o Comissário Maigret como protagonista. Tenho ali mais uns quatro ou cinco que trouxe da casa de São Miguel que ainda contém, em repouso, os livros do meu avô. Dezenas de "vampiros" me aguardam.

Talvez devesse dedicar mais tempo à literatura mas o jornal, o computador e, sobretudo, a pintura e o desenho, ocupam-me boa parte do dia. Por vezes sinto a tentação da escrita mas acabo a distraí-la aqui, no 100 Cabeças, e fico satisfeito por não me dispersar ainda mais.

Tudo isto me cheira a matança do tempo mas algo me diz tratar-se de ocupação do corpo. Ficamos assim.

domingo, maio 31, 2020

O regresso dos fantasmas

Fazer regressar fantasmas do passado, ainda que fantasmas simpáticos tipo Gasparzinho, pode não ser a melhor das terapias em tempo de desorientação e ansiedade. Ainda assim, que se lixe, venham eles! E eles lá vêm, regressam informes ou com aspectos diferentes daqueles que recordávamos.

Um paira dois palmos acima do chão, é um amontoado de carne, pêlos, músculos expostos, tudo amalgamado sem tino nem propósito; outro arrasta uma perna de frango ensanguentada no lugar que deveria ostentar um belo pé esculpido à maneira de Fídias e tem uma cabeçorra de meter medo ao susto. Um terceiro é apenas sombra, apenas ausência, este é, de todos, o mais angustiante.

Vão passando como num desfile de moda tenebroso. Alguns vão ficando por ali, encostados aos cantos, colados ao tecto, olhares vazios, bocas fechadas, outros não mostram vontade de ficar e dirigem-se para lá dos limites da realidade. Este mundo não é para eles.

quinta-feira, maio 28, 2020

Um momento

Havia ali uns gajos, uns músicos sentados na penumbra do palco, a imitarem a morte na forma como retorciam os seus instrumentos sonolentos.

Não consta que alguém tivesse falecido ao observar a função. Diz-se que alguns estiveram lá perto mas, naquela noite, só morreram doentes no hospital que ficava num outro quarteirão.

Cromo

Pode parecer snobismo meu. Decerto que é. No fundo sou um snob de merda. Não suporto a indiferença alheia e armo-me em campeão. Imagino-me vencedor eterno do campeonato da inteligência. Não tenho rival à altura. Venço sempre.

Leio o que outros escrevem: (bocejo) é que é só banalidade! Que frouxidão argumentativa, que tédio lexical, que incongruência absoluta naquela vírgula, naquele ponto que não poderia ser final. De forma alguma. Escrevo muito melhor.

Vejo o que outros desenham. San-to-de-us! Gatafunhos, tremideiras, hesitações, cromatismo primário (não no conjunto das cores aplicadas mas na forma como são conjugadas). Enfim, cambada de amadores ineptos. Imbecis que se imaginam algo que nunca virão a ser. Nem sonham.

Poderia continuar. A lista das maravilhas de que sou capaz é imensa (não sou tão vaidoso que a considere infinita) e não há quem se me compare. Mas fico-me por aqui. Já dei um cheirinho do perfume requintado que é o meu ser, o resto imaginá-lo-ias se fosses capaz de compreender a sombra com que cubro a tua existência miserável.

Um dia erguer-me-ão uma estátua.

domingo, maio 24, 2020

Desenho e pintura

Muita reflexão também não faz bem a ninguém. Ainda menos bem fará se for espicaçada por uma situação de confinamento. Uma gajo metido entre paredes contra vontade deveria evitar muita meditação sobre as questões habituais: "quem sou eu" (ou "o que sou eu"), "o que faço aqui" (pois, lá está, esta pergunta refere-se ao mundo, eventualmente ao universo, não à sala de estar ou ao quarto de banho) e, last but not least, "para onde vou" (vou para o quarto, vou para a cozinha)? Como facilmente se percebe estas questões, nos dias que ainda correm, estão todas armadilhadas, trazem coletes explosivos a envolvê-las e podem rebentar inadvertidamente.

Vivemos tempos propícios ao reforço da saúde dos macaquinhos que normalmente nos habitam o sótão. Da parte que me toca tenho evitado o espelho. Não é que seja pessoa assídua na contemplação da minha própria fachada, não é meu costume mirar a paisagem do corpo que habito, mas tenho tido um receio acrescido de olhar para os meus olhos. Dias há que os sinto mortiços, caídos para dentro e, verdade seja dita, prefiro poupar-me a semelhante espectáculo.

Estranhamente a leitura também não me tem puxado muita atenção. No início desta coisa pensei que iria ler e ler e ler, mas não. Tenho lido pouco.

Resumindo, a vida vai-se arrastando. A única coisa que me vai valendo, para lá da proximidade da família mais chegada (ah, como amo a minha família!) é o desenho e a pintura.  "Desenho e pintura?" dizes tu, "Isso são duas coisas!" Não são. Desenho e pintura, quando vêm juntos,são uma e a mesma coisa. E é essa coisa que me tem valido e ajudado a manter distraídos os macaquinhos e o sótão razoavelmente limpo.

sexta-feira, maio 22, 2020

Lição leonina

E é assim. Anuncia-se uma nova normalidade para os tempos futuros. Que faremos desta (futura) velha anormalidade? Iremos nós apagar o isolamento voluntário, transformá-lo em isolamento forçado ou iremos simplesmente aguardar que tudo se dissolva nas voltas do tempo? O tempo tem peso? O tempo ocupa espaço?

Já se nota o desafogo. As pessoas andam com fome de rua, estão capazes de comer pedras da calçada. Já começamos a cagar para o confinamento, o confinamento que se foda! Ansiosos por fazer do presente um qualquer passado longínquo fingimos nunca termos acreditado na nossa própria morte às mãos do novo coronavírus (até porque mãos são coisa que ele não tem).

E é assim, começamos a sentir aquela coragem que nos nasce no peito quando o medo passa e ganhamos uma certa sobranceria, quando o perigo passou somos todos uns valentes. Torço o nariz a tudo isto. Sinto-me como os porquinhos da história quando o lobo aparece vindo do nada depois de termos imaginado que regressara em definitivo à profundeza perdida da floresta (estou a inventar à pressão a história dos 3 porquinhos).

Bem vistas as coisas havemos todos de esticar o pernil, a nossa civilização baterá a bota, tal como outras bateram a sandália ou lá o que calçavam os que as ergueram das cinzas da civilização anterior. É o ciclo da vida. Aprende-se no Rei Leão.

domingo, maio 17, 2020

Normalidade suicida

Veio o calor, veio o sol, regressou uma certa descontracção. As notícias sobre os números da pandemia começam a enfraquecer o temor da populaça. O primeiro ministro dá o exemplo e passeia com a sua mais-que-tudo pelas lojas de Lisboa fazendo compras, que é preciso espevitar a economia. Tudo isto com máscara e distância social conveniente.

Os que sempre rejeitaram o confinamento olham para tudo isto com um esgar de desdém, os que viveram convictamente o isolamento vão espreitando, receosos, a ver no que isto dá. Acontece em Portugal e um pouco por toda a Europa. O mundo inteiro vai aquecendo os motores. A Natureza, se tiver consciência, há-de estar a lamentar o fim anunciado deste tempo de descanso que ainda vive e vai-se preparando para o regresso em força de todas as formas de agressão habituais.

É o lento regresso à normalidade suicida.

quinta-feira, maio 14, 2020

Paradisíaca pasmaceira

Reflectindo um pouco sobre a imagem canónica do Paraíso, o Jardim de Éden ou das Delícias Terrenas, verificamos que é um lugar pouco apetecível para os potenciais novos crentes, habitantes do século XXI.

A Árvore da Vida, a nascente dos 4 rios, o sossego total (uma inesperada muralha de fogo em toda a volta) não são grandes cartões de visita. Já a espectacular polícia angelical, constituída por querubins armados com espadas flamejantes e uma divindade que topa tudo e não deixa escapar um pintelho (como foi possível o Pecado Original com este Big Brother divino?) não incomodará por aí além quem está habituado a publicar notícia constante de cada peidinho que dá nas redes sociais.

O paraíso do futuro terá, obrigatoriamente, acesso livre e ilimitado a uma qualquer rede que ligue os bem-aventurados. Caso contrário, a promessa de eterna pasmaceira que tanto fascinou gerações antepassadas, não será o suficiente para encaminhar renovados rebanhos em direcção à porta da igreja, redil das almas.

Pasmaceira? Sim. Mas pasmaceira em rede. Para isolamento bem basta o confinamento pandémico.

Noite sem estrelas

Enxertar rebentos da realidade numa planta inexistente: é essa a actividade do artista, jardineiro dos sonhos no magnífico jardim do Marajá.
Nuvens que parecem impossíveis são recortadas no céu cinzento escuro. Um gajo não sente medo até começar a pensar.
Uma trela é terrível símbolo de domesticação. Também o são o chicote, a jaula e a gaiolinha dourada onde morrem pássaros cantores.
O verme nocturno rasteja até junto dos meus pés mas não chega a tocar-me.
Agora durmo.
Mais logo sonharei.

terça-feira, maio 12, 2020

Coração assassino

Uma família enfiada numa salinha esconsa reúne-se para celebrar o aniversário de um dos seus mas, desafortunadamente, esse dia coincide com a morte de um dos familiares (aquele que nunca mais chegava). A data passa a marcar um dia em que sempre surgem sentimentos contraditórios. Princípio e fim, nascimento e morte, traçados a ponto de cruz pela megera do destino.

A euforia do encontro entre pessoas que já se não viam vai para quase um ano é incomodada por uma bruta tristeza que, por mais que tentem, não conseguem disfarçar. Os gestos destas pessoas são como  gestos de árvores de uma floresta plantada por um deus louco que se tenha esquecido de ensinar ao vento o modo correcto como devia soprar.

A euforia plasma-se na mais profunda prostração, sorrisos transmutados em lentos esgares de tristeza e desconforto. Chorar - chorar a rir e chorar de dor. O coração dispara em todos os sentidos. Coração assassino.

segunda-feira, maio 11, 2020

Cara laroca


A carreira política de Nuno Melo sempre foi, para mim, motivo de algum espanto. Tendo-se tornado ainda jovem uma cara conhecida do CDS, eleito para a Assembleia da República por várias vezes e, agora, representante desse partido no Parlamento Europeu, não me recordo, no entanto, de qualquer contributo relevante para a coisa pública vinda da parte do deputado. 

Fazendo um esforço de memória lembro a sua participação em debates televisivos e sou apenas capaz de evocar um discurso errático, por vezes brejeiro, uma postura repleta de trejeitos e olhares marotos, sorrisos trocistas, como que a camuflar um imenso vazio interior e uma ausência confrangedora de eloquência e sageza. 

A recente polémica provocada pelas suas observações, comprovadamente falsas, sobre Rui Tavares vem confirmar as minhas impressões relativas a lacunas de substância, política e humana, deste eterno “servidor” do Estado, espécie de encarnação do Calisto Elói de Camilo Castelo Branco. E, lá está, que misteriosas razões terão contribuído para tão longa e persistente carreira tribunícia?

Aqui há uns anos Jerónimo de Sousa pretendeu apoucar as listas de candidatos do Bloco de Esquerda a uma qualquer eleição insinuando que as escolhas teriam como critério principal as “carinhas larocas” de certas candidatas. Penso que Jerónimo errou o alvo.

carta enviada ao Director do Público

domingo, maio 10, 2020

Matrioska

Fechou tudo dentro da cabeça, depois fechou a própria cabeça dentro de um saco e meteu o saco numa gaveta. Aguardou. Aguardou durante muito tempo, fechada na gaveta, a cabeça dentro do saco, o mundo era agora uma escuridão absoluta. Os sons reduzidos a rumores, os perfumes ausentes, nem amigos nem família, nada! Apenas a cabeça dentro do saco, o saco dentro da gaveta, a gaveta e a escuridão absoluta dentro dela. As coisas que fechara dentro da cabeça começaram a fechar-se, também elas, umas dentro das outras, tudo cada vez mais isolado, mais longínquo, menos tudo. Aguardou e continuou a aguardar até que esqueceu a cabeça, esqueceu a gaveta e as coisas que guardara dentro.
Esqueceu tudo e lá continuou a ser a coisa nova que agora era.

sábado, maio 09, 2020

Vazio

A pandemia parece tolher-me o espírito. É como se tivesse a obrigação de reflectir acerca daquilo que ela significa mas não me apetece fazer isso. Aparentemente é um tema do caraças mas, na verdade, é uma merda de tema. A pandemia suga tudo à sua volta, infecta todas as coisas, retira-lhes a vitalidade até só restar uma coisa seca e engelhada.

Sinto... não sou capaz de reflectir sobre o que sinto. Penso? Acho que sim, não tenho bem a certeza.


sexta-feira, maio 08, 2020

Rima

Um cão dificilmente aprenderá a miar. E, mesmo que mie, a sua vontade será sempre ladrar.

domingo, maio 03, 2020

Bestas

É curioso que o principal argumento que vem sendo agitado por aqueles que criticam a bizarra manifestação do 1º de Maio de 2020 seja a comparação com o dia 13 do mesmo mês e a manifestação de fé na Virgem Maria. 

Muitas vezes se compara o fervor comunista com a atitude dogmática exigida a um católico para poder pertencer à congregação. Afinal de contas não haverá distinção muito vincada entre o Homem Novo e os declarados filhos de Adão, todos acreditam na supremacia excepcional do seu ponto de vista no caminho para a Salvação. 


Os padres e os dirigentes sindicais esgrimem argumentos. De facto, seja para erguer o punho ou bater com ele no peito, as regras deveriam ser universais. Só assim se poderiam combater os mais perigosos inimigos com que nos confrontamos desde o início dos tempos: a ignorância e a estupidez. Estou em crer que o coronavírus é apenas uma besta ocasional, já o fanatismo é uma besta intemporal.


carta enviada ao Director do Público

quinta-feira, abril 30, 2020

Paraíso algures

 A Invenção do Amor (pintura em progresso)


Ando a ler um livro que tinha para aqui esquecido na prateleira, "Uma História do Paraíso" de Jean Delumeau, editado em 1992. Esta redescoberta não será estranha ao facto de estar a pintar uma tela cuja acção decorre, precisamente, no Paraíso dos cristãos, o tal Jardim de Éden.

É estranho imaginar o que passaria na cabeça dos tipos que descreveram, por vezes com uma minúcia delirante, aquele lugar que muitos acreditavam ser um espaço real, localizado algures para Oriente. O conhecimento limitado da geografia terrestre explica tal crendice o que já não se engole com facilidade é que, nos dias de hoje, haja quem faça ainda interpretações literais do Livro do Génesis. Como entender o que passa pela cabeça dos terraplanistas do século XXI?

O fechamento do universo intelectual é milho para os pardais da estupidez e para os pombos da imbecilidade. Ser capaz de cortar todos os laços com o conhecimento é obra que, ao que parece, não exige um esforço impossível.

Hoje vou pintar pés.