domingo, fevereiro 05, 2006

Lamentável

"Não farás para ti qualquer imagem nem nada semelhante ao que existe nos céus, na terra ou nas águas que ficam debaixo dela; não te curvarás diante delas, nem as servirás: porque eu, o Senhor teu Deus, sou um deus ciumento, que castiga a maldade dos pais nos filhos, até à 3ª e 4ª geração daqueles que me aborrecem; e faço misericórdia aos milhares que me amam e guardam os meus mandamentos."

Êxodo (20, 4-6)

A liberdade de expressão não é uma imagem de marca das religões. A natureza dogmática das crenças religiosas impede vozes discordantes e ameaça com terríveis castigos toda a blasfémia. A criação de imagens, como se pode constatar pela transcrição de uma passagem do Antigo Testamento, foi expressamente proibida por Deus.

Esta questão levou a violentas disputas na história do cristianismo. O triunfo dos que defendiam o papel pedagógico das imagens, como via de conhecimento para as hordas de iletrados que enxameavam (e continuam a enxamear) os templos, foi devastador no Ocidente católico e todos nós estamos bem familiarizados com as obras de arte sacra que marcam a nossa cultura e a nossa civilização.

A produção de obras de arte sacra foi um factor determinante para a difusão da fé católica apesar das reservas de algumas igrejas. Entre os ortodoxos cristãos cristalizou na representação dos ícones, com regras rígidas e supervisão apertada dos doutores da igreja. Para os protestantes o papel das imagens é muito menos importante e olhado de soslaio.

O medo da idolatria está na base de todas as reservas relativamente à produção de imagens naturalistas. A escultura, em particular, foi durante muito tempo demonizada por estar relacionada com os cultos pagãos.

Não é de admirar que a questão ressuscite, de tempos a tempos, voltando a incendiar os peitos mais fundamentalistas com o ardor da pureza da fé.

Num mundo globalizado onde a imagem é mãe de todas as coisas não há espaço para discussões serôdias como a que está a ser gerada pela questão dos cartoons dinamarqueses. Se não houvesse um fundamentalismo cego e retrógrado tão enraízado no mundo muçulmano, esta patetice só nos faria sorrir.

O problema é que esse fundamentalismo existe e toda esta historieta lamentável é aproveitada para abanar a nossa liberdade de expressão.

Os fanáticos religiosos no mundo árabe passaram à acção violenta. Multiplicam-se as agressões a embaixadas da Dinamarca e a boçalidade furiosa está à solta.

Lamentável.

sexta-feira, fevereiro 03, 2006

Cartoon

Liberdade com limites é a do pássaro na gaiola. Pode voar mas não faz mais do que saltitar do fundo da gaiola para o poleiro, dali para as grades, de novo para o fundo da prisão. Quase sempre até à morte.

Quem não compreende que a liberdade não pode ser limitada não é um ser livre. E quem não é livre tende sempre a limitar a liberdade, que é coisa alheia.

Não conheço a palavra do profeta Muhammad (paz esteja com ele). Conheço a palavra de Cristo (paz na Terra aos homens de boa vontade).

Sei que em nome de Cristo se cometeram algumas das maiores atrocidades que a mente humana foi capaz de engendrar. Mas não O confundo com aqueles que usurparam (e ainda usurpam) o Seu nome.

Vejo como também o nome de Muhammad (paz esteja com ele) serve de véu a contínuas humilhações da integridade humana e, apesar de não conhecer os fundamentos da sua pregação, estou convicto de não lhe ser feita justiça sempre que se mata e assassina invocando o seu nome.

Quando os homens se escudam com o nome de Deus ou dos seus profetas para darem largas à torpeza e à maldade que lhes vai na alma e corre nas veias, estão a emporcalhar inapelavelmente a palavra que dizem respeitar. Acabam por transformar Deus na gaiola e os homens em canários sem pio.

Só não compreende isto quem não percebe a própria incapacidade de ser livre.

quarta-feira, fevereiro 01, 2006

Escuteiros do Amor

Parece que há quem nos ofereça o coração a troco de nada. Há quem nos queira tanto bem que somos inacapazes de perceber o alcance de tão inexplicável paixão. Os problemas começam a surgir quando insistimos em recusar a oferta. Mesmo que o façamos educadamente, como nos ensinaram as nossas avós.

O ofertante insiste com o sorriso benemérito a descair ligeiramente para o amarelo. Que não, não queremos, que dispensamos, basta-nos bem o coração que temos e os outros que já conquistámos, mesmo os que entretanto fomos perdendo pelo caminho. Tá-se bem assim, muito obrigado e tal... mas o outro começa a dar sinais de impaciência. Espeta-nos um coração sangrento defronte do nariz e faz aquele gesto que os nossos antepassados navegadores faziam quando estendiam uma mão cheia de contas coloridas em direcção aos aborígenes que iam encontrando por aí. Eu não estava lá mas vejo o gesto. Um empurrãozinho do pulso com o cotovelo cúmplice, entre o hesitante e o esperançoso.

Fica lá com essa merda, ó matreco, é o que me passa pela cabeça, mas a sombra da minha avó não me permite tal indelicadeza. Começo então a pensar na possibilidade de aceitar aquela coisa, embora não esteja muito bem a ver o que possa fazer com ela. Só para dar uma alegria ao escuteiro mais à puta que o pariu, que de santo nem a paciência tenho. Meço um gesto de hesitação e ponho-o em prática. Noto uma esperança imediata a bater no peito límpido do meu interlocutor. Estou quase a receber na mão o palpitante pedaço de asno que me é tão insistentemente ofertado.
No último momento retiro a manápula, viro costas e afasto-me.
Que porra, sou alguma instituição de solidariedade social? Se o gajo quer fazer caridade que vá para um movimento cívico ou outra merda qualquer que esteja a dar.

Sinceramente, ó meus caros compinskas, não há pachorra para os escuteiros do amor nem para as suas mensagens de esperança num mundo melhor, repleto de poesia encadernada em capa dura com lombada forrada a pele de camelo.

Vão chatear o Camões!

terça-feira, janeiro 31, 2006

Fundamentalites



Aqui há dias foi notícia a pretensão da Opus Dei em pressionar quem de direito no sentido de classificar para maiores de 16 anos a versão cinematográfica do Código da Vinci.

Na sua qualidade de guardiões da pureza da fé católica, estes fundamentalistas religiosos argumentam que a obra de Dan Brown (que não li ainda nem sei se algum dia vou ler) distorce a verdade dos evangelhos criando confusão nas mentes mais imberbes. Acham eles que as crianças não estão preparadas para distinguir a verdade da mentira, a realidade da ficção. Partem do princípio que os evangelhos adoptados pela igreja católica são intocáveis e inquestionáveis.

Num regime de liberdade religiosa estão no seu pleno direito ao emitirem uma opinião. O que transparece desta pretensão é a sanha fundamentalista que anima estas personagens ao ponto de proporem a censura de opiniões contrárias à fé que os anima. O rótulo de "maiores de 16" parece-lhes, decerto, castigo pouco severo, mas a sociedade democrática não lhes permite mais do que isto.

Uma outra notícia sobre as reacções descabeladas de alguns países islâmicos em relação à publicação de alguns cartoons num jornal dinamarquês e, posteriormente, num outro, norueguês, merece também alguma reflexão.

Os cartoons em questão (dois deles na imagem) representam Maomé em cenas consideradas mais do que sacrílegas. A coisa bateu mesmo mal nas cabeças mais afundadas nos turbantes bafientos do fundamentalismo.

A Arábia Saudita foi ao extremo de retirar o seu embaixador de Copenhaga e a Líbia encerrou a sua missão diplomática naquela cidade. O Egipto poderá tomar atitude do género.
Na Faixa de Gaza houve mesmo quem se desse ao trabalho de cercar a representação local da União Europeia, exigindo desculpas da Dinamarca e da Noruega, como se os governos tivessem alguma responsabilidade editorial num país democrático. Queimaram bandeiras na rua e tudo, como de costume.

Este episódio mostra como estamos longe uns dos outros e somos incapazes de nos entendermos em aspectos básicos. No islão as imagens são olhadas com uma desconfiança doentia e a religião é mais que o ópio do povo, é autêntica poluição intoxicante. No ocidente temos direito a máscaras anti-gás mas não estamos livres de algumas tentativas de impor a crendice à razão.

O poder das imagens ultrapassa o valor banal que lhes atribuimos. Estamos de tal modo familiarizados com elas que nos esquecemos da sua função primordial: a magia.

Quando riscamos uns cornitos na fotografia de uma pessoa de quem não gostamos ou lhe pintamos uma barba comprida, estamos a praticar uma pequena magia, à maneira do que, julgamos, os caçadores paleolíticos faziam aos bisontes representados nos tectos das cavernas.

Vivemos numa civilização de imagens. Esquecemos que há quem as proíba ou impeça a sua livre produção. Isso é, simplesmente, inconcebível nos dias que correm a ocidente.

O mistério da arte persiste.

domingo, janeiro 29, 2006

Uma questão diabólica!

Um ex-seminarista italiano pôs um padre em tribunal alegando que este tem andado a abusar da confiança do povo por afirmar que Jesus Cristo é uma personagem histórica.

Segundo o antigo seminarista, ateu convicto nos tempos que correm, não há provas que sustentem a tese do padre. O juíz encarregue de ditar sentença neste caso, na cidade de Viterbo, a norte de Roma, pede tempo para matutar na questão.

A lei italiana condena os que explorem a credulidade alheia usando subterfúgios fraudolentos. Estaremos perante uma situação desse género?

Quem pode, com toda a certeza, garantir a veracidade dos textos evangélicos adoptados pela Igreja Católica? A verdade, verdadinha, é que nenhum dos evangelistas pôs sequer as vistas em cima de Jesus, tendo os textos sido escritos, supostamente, por inspiração divina muitos anos após a morte daquele que muitos consideram o Filho de Deus.

Essa crença é sustentada pela Fé e pela tradição religiosa. Além do mais, os Evangelhos, tal como os conhecemos nos tempos que correm, estão completamente adulterados por séculos de traduções manhosas, sujeitas a todo o tipo de erros e interpretações abusivas, como é do domínio público.

Aguardemos serenamente a sentença do Doutor Juíz. Talvez declare a inexistência de Deus e aplique multa ao Papa por andar a abusar da confiança e credulidade de milhões de católicos por esse mundo fora.

sábado, janeiro 28, 2006

Portugal Pós-Moderno

No Editorial de O Público de 31 de Maio de 2005, Corpos Especiais, assinado por Eduardo Dâmaso podemos ler, a abrir, que “é essencial a modernização do aparelho produtivo”.
Fico a pensar que “o” Modernismo não chegou a passar por aqui. As utopias modernistas, que estiveram na base da Europa da União, foram fundadas na crença da possibilidade da melhoria das condições de vida das populações, cada vez mais urbanas, através do desenvolvimento do tecido produtivo apoiado num racionalismo funcionalista. A organização da sociedade tendo por modelo os princípios estéticos do Modernismo (“ornamento é crime” de Adolf Loos, ou “a forma segue a função” de Louis Sullivan, para dar dois exemplos paradigmáticos) transformados em princípios éticos das instituições democráticas, nunca foram, sequer, ponderados entre nós. O Estado Novo e Salazar encarregaram-se de fazer do nosso país um imenso pardieiro, habitado por saloios mais ou menos ricos com uma maioria decididamente miserável. A democracia foi adiada até a um ponto insuportável que viria a rebentar em Abril de 1974. Ou seja, Portugal falhou o Modernismo, reentrando na história da Europa após o período revolucionário que este jornal nos tem recordado diariamente na coluna “Memória, 30 anos de PREC”.
Dâmaso continua, mais à frente, “o mundo é reformado todos os dias pela acção avassaladora do capitalismo e não das velhas categorias ideológicas(...)”. As velhas categorias ideológicas que serviram de motor ao modernismo, as utopias socialistas, nunca conseguiram vingar na realidade, e começam a dar nítidos sinais de falência, inevitáveis nas promessas sempre adiadas. Vivemos uma era Pós-Moderna e Portugal veio cair, direitinho, dentro dela. De país atrasado, analfabeto, de matriz rural dominante, Portugal passou a uma sociedade consumista, sem fase de adaptação nem aprendizagem criando alegremente “(...) uma sociedade de mercado rendida ao valor implacável do dinheiro onde tudo se compra e vende, destituída de valores sociais e de uma solidariedade básica entre gerações” parafraseando o citado editorial.
Temo que seja esse o retrato apropriado, não só do nosso país, mas da actual União Europeia. A vitória do “Não” no referendo Francês vem pôr a descoberto a ausência de ideais, a impossibilidade de uma Internacional dos Cidadãos à maneira das vanguardas do século XX. A História não tem retorno. Assistimos estupefactos a uma transformação implacável dos princípios básicos da nossa sociedade. Não há Cristianismo que nos valha nem utopias sociais que resistam à voragem consumista em que nos deixámos enredar. Não há tradição cultural Greco-Latina que nos una num mundo globalizado, onde predominam confrontos ditados pelos mais atávicos dos ódios.
Penso que seja isto o Pós-Modernismo de que “(...) o possibilismo reformista de Blair(...)” será mais um sintoma de maleita que medida profilática.
Sem uma verdadeira tradição democrática, diariamente traída por uma classe política e dirigente que aprendeu a ler, a escrever e a contar nos bancos da mais cinzenta das escolas salazaristas, Portugal afoga-se num mar de incongruências formais e éticas, completamente desnorteado e sôfrego, sem nada que possa satisfazer esta ânsia de justiça e bem-estar que todos sentimos. E, no entanto, a classe dirigente não é mais que um reflexo de nós próprios, os eleitores.
Será isto o Pós-Modernismo? O triunfo da imagem sobre o conteúdo, a lei da selva embrulhada em papel de veludo? Cordeiros que ladram e lobos que miam? O Modernismo agoniza lentamente e, das suas cinzas, emergirá algo novo. Mas o Novo não será, necessariamente, mais brilhante, justo ou agradável. Será apenas outra coisa. Talvez seja já isto!

Texto escrito em Junho de 2005

quinta-feira, janeiro 26, 2006

Mistério de peso

Andam a gamar esculturas enormes em Londres e arredores.
Sejam elas em bronze e não há tonelada que lhes valha.
Há quem as leve como se fossem bibelots na estante da vizinha.

Os jardins e parques da capital inglesa têm sido aliviados das peças com alguma regularidade.
Segundo a bófia lá do sítio, as esculturas são levadas para desmantelamento e fundição com a finalidade de retirar do bronze o cobre usado na produção das obras de arte.

O preço do cobre disparou nos mercados internacionais já que a indústria chinesa de componentes electrónicos está a absorver grandes quantidades deste material.

Prefiro imaginar que há um mostronço qualquer a plantar esculturas no quintal como se fossem beterrabas. É mais poético.

Na verdade, a redução de esculturas aos seus componentes essenciais não é uma novidade. Ao longo da História, em épocas de crise e grande necessidade, a coisa foi praticada em obras interessantíssimas (pensa-se).
Um bom canhão e respectivas munições sempre deram mais jeito que um deus grego em pose complicada.

Não há-de ser nada!

terça-feira, janeiro 24, 2006

O dia depois


Democracia é isto mesmo.
O povo vota e depois vai à sua vidinha, tratar da fome e do descanso, enquanto os poderosos se entretêm a governar os destinos.

A partir de agora temos, em Portugal, novos tratadores de destinos. Cavaco na cadeira dos leões será uma experiência bizarra. Lado a lado com o ministro que de filósofo só tem o nome, formará uma estranha parelha para puxar a carroça da nação.

Se fizerem ambos força na mesma direcção talvez a carroça se mova. Resta saber qual o sentido do movimento da parelha. Pelas provas anteriormente dadas não sou capaz de me entusiasmar nem um bocadinho.
Problema meu?
Decerto e sem dúvida. Mas problema de tantos outros e, nem todos, como eu.

Há quem pense que estes dois são faces distintas de uma mesma moeda. A "boa moeda" da política, na singular terminologia cavaquista. Quanto à "má moeda" estará esquecida lá no fundo da algibeira, à espera de melhores dias para voltar à circulação.

É nisto que o meu povo crê.
É disto que desconfio com quantos dentes tenho ainda na boca.

Afinal, a eleição do presidente não me tirou o sono. Antes pelo contrário. Fico satisfeito.
Ao que parece dormirei descansado até ao fim dos dias que me restam.
Até ao derradeiro sono.

Baril.

domingo, janeiro 22, 2006

O ano do Burro


Não há espaço para o burro no calendário chinês. Ao que tudo indica este será um exclusivo do povo português.

As projecções para resultados das eleições presidenciais que começam a chegar apontam a forte probabilidade de termos Cavaco como supremo magistrado da nação.

Fica provado que um povo se vê reflectido no espelho eleitoral de forma implacável. Perguntava a Bruxa Má se haveria alguém mais bela do que ela. O povo português perguntará se há algum povo mais burro do que ele. Vale-nos o espelho ser mudo.

Cavaco será eleito, ao que tudo indica, por ser capaz de não ter uma ideia que seja ou, admitindo que há mais do que um Tico e um Teco entre a sua população de neurónios, ser capaz de evitar mostrá-las a quem tenha a infinita paciência de o ouvir.

A repetição até à náusea de lugares-comuns e frases balofas deu frutos. Cavaco é incapaz de articular um discurso coerente de forma livre e espontânea. O povo adora-o. Cavaco não lê um livro, não vê um filme, não vai ao teatro, o povo está ao lado dele. O povo revê-se nele!

É triste fazer parte deste povo e, em dias como este, é mesmo embaraçoso. Como poderei amanhã olhar para o espelho sem pensar na tal pergunta? Espelho, fica calado e evitas-me 7 anos de azar (bem bastam os próximos 5).

Ao que tudo indica começa hoje o Ano do Burro.

sexta-feira, janeiro 20, 2006

Limpeza

"Empresa de limpeza que destruiu escultura chegou a acordo com artista"!!!
Este título, de uma notícia do Público de 5ª feira, 19 de Novembro, não passava despercebido.
A coisa acontecera em Dezembro de 2004 durante uma exposição de arte contemporânea no Centro de Artes e Espectáculos da Figueira da Foz.

Uma peça da autoria de um tal Jimmie Durham intitulada As Frases foi então terrívelmente mutilada por uma... empregada de limpeza! A dita peça consistia num lavatório artísticamente partido com os fragmentos do estilhaço cuidadosamente espalhados pelo chão. A senhora da vassoura cumpriu a sua função e levou os pedaços quebrados para o lugar que lhe pareceu mais apropriado. Caixote do lixo com eles!

Nada de mais, bem vistas as coisas! O caso foi notícia em vários media já que se tratava de uma boa anedota, colocando a arte contemporânea no devido lugar. O senso comum triunfava sobre o dragão da "intelectualite". Sorriso largo na cara da populaça.

A coisa ficaria assim mesmo se não houvesse um seguro, como é normal nestas situações. O mais curioso é que a empresa de seguros (a notícia não diz qual) considerou que a responsabilidade não poderia ser atribuída à sua cliente, a FigueiraLimpe, apesar desta assumir que tinha sido culpada.

Aqui reside o principal motivo de reflexão nesta historieta.
Quem será então o culpado, no entender da seguradora? Talvez o artista, por se atrever a apresentar tão estapafúrdia obra de arte! Não é espantoso?

Valeu à Estética a administração da FigueiraLimpe que, a despeito da atitude da seguradora, resolveu proporcionar a Jimmie Durham a possibilidade de reconstruir As Frases financiando o artista nessa acção.

Já estou a ver um lavatório novo a chegar a casa do artista, prontinho a ser martelado.

Quanto à seguradora, só espero que não seja a minha.

terça-feira, janeiro 17, 2006

Tolera...



... se fores capaz.
Tolera o monga que está a fazer-te perder a paciência.
Tolera a chuva.
Tolera a comichão enquanto aquela tal pessoa fala contigo. Coçar as partes nesta ocasião não seria o gesto mais elegante.
Tolera a fome, tolera a gula, tolera os chapéus foleiros e os elefante fedorentos.
Tolera a jaula onde se escondem os grilos e a gritaria dos vizinhos.
Tolera o roxo e as mãos encarquilhadas pelo banho.
Tolera tudo o que fores capaz de tolerar já que, não tarda nada, vais rebentar como uma bomba e, o mais incómodo, é que a coisa vai saber-te bem!

O mais complicado de tudo é saberes que não poderás nunca perceber o mundo como o monga (o gajo está mesmo a fazer-te perder a puta da paciência!) porque não estás dentro dele. Os olhos dele verão o mesmo que os teus vêem? O roxo que te irrita será assim tão roxo para ele? E a gritaria? Talvez a ouça com tonalidades musicais ou nem sequer se aperceba já que está entretido a foder-te o juízo.

Tolera o que fores capaz de tolerar mas não te deixes enganar.
Talvez seja a única coisa que não valha a pena... tolerar.

Thomas Hirschhorn

Tem um nome impossível, com dois "HH" consecutivos.
É um artista de ascendência suiça com trabalho à vista no Museu de Serralves.

Aquilo é uma coisa difícil de tragar. Trata-se de uma exposição antológica.
Salas e salas repletas de lixo e frases escritas à mão em folhas de papel ou tarjas de pano, tudo com muita fita cola castanha, com um aspecto miserando.

Não é nada bonito, não senhora, é horrível!
No entanto...

O espectador é colocado perante o grande dilema de ver ou olhar. É ele (somos nós) quem tem de decidir sobre a validade da coisa. Não há escapatória possível.

É uma arte... punk?
Talvez, talvez.

A ver.

Suspeita

Portugal tem um grave problema de desenvolvimento.

Fala-se por aí que devíamos pôr os olhos na Finlândia, aprender com a Irlanda ou copiar o modelo Chinamarquês mas, qual quê! Nada parece valer-nos, nem a Virgem Maria, outrora uma poderosa aliada que parece andar arredia de tal modo nos temos visto privados de milagres.

Onde estará a raíz do problema?

Estou em crer que, lá no fundo, o nosso maior problema são os portugueses.

Oxalá esteja enganado.
Dia 22 de Janeiro vou poder confirmar (ou não) esta dolorosa suspeita.

terça-feira, janeiro 10, 2006

Elites

Andamos a abusar da palavra.
Elite significa o que há de melhor numa sociedade ou num grupo.

Quando falamos nas elites que nos governam das duas uma: ou são os gajos mais capazes que estão à frente dos destinos da nação ou, dos que estão dispostos a cumprir essa função, estes são a fina flor. Mauzito, não?

Se, por exemplo, o Jardim representa a elite governativa tamos conversados. Mais, se o Cavaco for eleito estaremos perante o vértice do ângulo mais agudo da pirâmide das elites portuguesas?

Convenhamos que o nosso país não fica grande coisa na fotografia.
Diz-me quem te governa, dir-te-ei que Democracia é a tua.

Ao leitor fica a responsabilidade da resposta.

terça-feira, dezembro 20, 2005

Veneno


Eles estão ali, no écran, e debatem, debatem, mas não me chegam a entusiasmar.
Esta pré-campanha promete uma longa seca de ideias e dispensava bem a campanha que se vai seguir.

Adivinha-se um massacre indecente às nossas inteligências nos tempos mais próximos. Se pudesse saltava já direitinho para o dia 22 de Janeiro e ia votar. Guardava apenas uns diazinhos que me vão encontrar longe daqui, sem as fronhas destes dois mais as dos outros a enfeitarem-me as manhãs, sem declarações bombásticas nem rasteiras no escuro.

Pelo que vejo o ogre Cavaco está poderoso no seu papel de cordeiro e o velho Soares mais fracote a fazer de lobo. Nem o velho morde nem o outro é suficientemente tenro para ser mordido.

Começo a acreditar piamente na hipótese de Sócrates ter ido buscar Soares ao remanso da reforma para o queimar no fogo lento desta secosa que agora começa a tomar contornos de coisa insuportável. O primeiro ministro prefere Cavaco como cara-metade e, não tendo cara-de-pau suficiente para o apoiar, desencantou à pressa este velhote com a chama a apagar-se nitidamente.

Sócrates encheu o copo de Soares com veneno. E o velho, convencido da sua superior inteligência, faz figura de palonço e vai bebendo, bebendo, até estoirar em desatino.

Tá mal!

domingo, dezembro 18, 2005

O deserto


Tenho andado a matutar nesta coisa da arte ser para todos ou nem por isso.

Se é preciso frequentar as belas-artes para não nos sentirmos como bovinos numa saleta em Serralves vou ali, já venho.

Afinal de contas de contas haverá algum fundo de verdade na percepção de Leonel Moura sobre a possibilidade uma arte sem artista, realizada pelos seus robôs pintores (na imagem uma observadora parece esmagada pela evidência do objecto de arte), ou aquilo é mais ou menos como a história das pulgas acrobatas?

O estucador é um artista? O marceneiro? O artista conceptual? Onde começa e onde acaba a fronteira desta coisa? Um retábulo na parede do museu é mais empolgante que um golo do Sporting no écran plano pendurado na parede da tasca da esquina? Ainda haverá quem se preocupe verdadeiramente com esta treta?

Desde que a arte deixou de se debruçar sobre narrativas comuns e se deixou cair no interior do artista, passando a "ilustrar" a sua interioridade, a sua interpretação particular, a sua percepção, a intuição, etc., começou a travessia do deserto. A arte perde-se demasiadas vezes no mais tenebroso deserto, o deserto das ideias e germina uma estranha floresta de poses mais ou menos fotogénicas.

Não sei se tudo começou no Romantismo, se no Simbolismo, não sei sequer se alguma vez começou ou se terá, até, acabado entretanto. O que sei é que, no deserto, a arte se transformou em algo menos claro, mais místico e críptico. No entanto as dúvidas permanecem.

Não foi sempre assim? Alguma vez a arte deixou de ser elitista? Alguma vez foi verdadeiramente popular? Quando? Em que época?
Alguma vez esteve fora do deserto?

segunda-feira, dezembro 12, 2005

Os debates entre os cãodidatos à presidência da república têm sido um sinal dos tempos. Na verdade não são debates, são outra coisa qualquer para a qual ainda não foi encontrada designação a preceito.

Os oponentes estão de ladecos um pró outro e só falam com os entrevistadores ou moderadores ou... enfim, com quem têm à frente, como é normal. Os contactos entre eles são em diferido e, caso pretendam olhar-se nos olhos, vêem-se obrigados a retorcer-se quais enguias na ponta do anzol.

Começa a chatear o pessoal que estejam sempre a dizer a mesma coisa, respondendo a questões circulares que rondam os mesmos temas com a única diferença de serem formuladas pelos pivots das várias estações que organizam os ditos debates.

Vão mudando as parelhas mas o discurso é mais ou menos o mesmo, como as rábulas dos palhaços nos circos de antigamente. O rico, branco, de lágrima pintada na bochecha e o pobre, de nariz vermelho e chapéuzito amarrotado. Mudavam os circos, mudavam os homens debaixo das figuras, mas as anedotas pouco variavam e pouca piada tinham. Ou então eram cómicas e era eu percebia mal o alcance da coisa!

A coisa resume-se ao embrulho. O conteúdo é dispensável. Anunciam-se os debates como se de combates de boxe se tratasse e aproveitam-se os intervalos para publicitar prendas de natal e sabonetes.

Cavaco é o paradigma da coisa. Fala sem dizer nada o que, convenhamos, é feito considerável. Caso venha a ser eleito será a imagem reflexo dos eleitores. Vazio, inculto e com um penteado que mete medo.

domingo, dezembro 04, 2005

Santidade


Não deixa de ser intrigante.
Como podem os milagres acontecer sem que saibamos ou tenhamos notícia?
Então não é que o defunto João Paulo II curou milagrosamente uma mulher (não sei onde, nem isso interessa) pelo que vai ser canonizado não tarda nada? Sinceramente nunca tinha ouvido qualquer referência a tão extraordinário acontecimento até ter lido uma discreta notícia no Público há um ou dois dias atrás.

Já suspeitava que a personagem tinha boas relações com o Além desde que garantiu ter visto a Virgem Maria a desviar a bala com que um palonço qualquer o tentou matar antes do tempo. Presunção e água benta, cada toma a que quer, diz-se por aí.

Depois veio a pífia revelação do 3º segredo de Fátima onde, supostamente, a Virgem já tinha mostrado à pobre Lúcia uma cena tipo Holywood, série B, que metia o Papa a levar no toutiço e um anjo a regar almas com um regador que mictava sangue e outras patranhas do género. O texto do segredo, ainda por cima, tem um estilo a beira da 4ª classe (antiga).

Catellan apanhou bem a soberba deste futuro santo na sua escultura/instalação.
Para a posteridade fica a imagem de um homem que acreditava estar num lugar especial entre os demais.

sábado, dezembro 03, 2005

Blogue, blogue, bloooogue.


Li algures que no século XIX, quando a imprensa surgiu em força e em forma houve um boom terrível e todos os que puderam ou tiveram o impulso, publicaram o seu jornalzinho, a sua página, o seu panfleto, foi uma festa!

Assim me quer parecer, acontece nos dias que correm com esta coisada dos blogues. É uma verdadeira pequena maravilha qualquer marmanjo poder verter no esquecimento do espaço virtual o que muito bem lhe passa pela santa cachimónia.

Da parte que me toca fui resistindo até mais não poder. Aqui vou deixando este palavreado sem qualquer feed back nem intenção especial que não seja isto mesmo. Tem o seu quê de adolescente e talvez seja esse o encanto irresistível.

Já quando apareceram as rádio piratas me envolvi numa das mais obscuras que emitia em Almada, talvez apenas para o prédio em que tinhamos montado o emissor. Era a Rádio Besouro e eu passava a semana a preparar um programa de uma hora que ninguém ouvia a não ser o locutor, mas isso era o que menos importava.

Este blogue tem o condão de me fazer escrever, uma actividade que muito prezo mas que me provoca ondas de preguiça que, normalmente, transformo em absolutamente nada.

Lembro-me de ter lido na introdução à colectânea de contos Cyberpunk, Mirroshades (Reflexos do Futuro na inqualificável tradução em português da colecção Argonauta, publicada em 1988) um entusiasmado Bruce Sterling considerar o poder incontrolável da fotocópia como uma arma potente da contra cultura Pop, uma forma de afirmação das culturas urbanas alternativas. Ganda Bruce, como estavas longe de imaginar esta cenaça que agora temos em mãos.

Será possível que estejamos perto de encontrar o Significado da Vida?
Será esse o nosso destino, verter tolices para o mundo virtual? Encher o planeta com palavras luminosas, cobrir o mundo de informação inútil?

Bah, quem se importa com isto? O que importa o que quer que

sexta-feira, dezembro 02, 2005

Realismo/Naturalismo














Uma imagem para reflectir.

O autor é Mark Tansey e o título da obra "The Innocent Eye Test", óleo sobre tela de 1981.

Pessoalmente, quando olho esta imagem, só me apetece dizer... múúúúúú.