segunda-feira, maio 05, 2008

A grande ilusão


Afinal a Democracia não puxa tanto pelos cidadãos quanto devia. Pelo menos a nossa. Parece até que nos empurra para o sofá, que nos quer ali, de boca aberta, a olhar para a televisão, a ver programas meio imbecis. Telejornais infindáveis com intervalo e publicidade que se batem com as telenovelas em termos de audiências. Estranho? Não, nem por isso. Os telejornais têm alinhamentos que fazem deles uma espécie de super-novelas, com o picantezinho da realidade a excitar o pessoal. É a velhinha que foi mordida por um cão perigoso, logo após as últimas das eleições para a liderança do PSD. Segue-se a crise alimentar. E o pessoalzinho vai jantando enquanto assiste. O “caso Maddie”. Pão e circo. Depois as novelas, propriamente ditas, as líderes de audiências só vêem o seu reinado abalado de cada vez que há um jogo de futebol com o Benfica ou com a selecção nacional. Coisas grandes e deveras importantes.
A Democracia precisa de cidadãos intervenientes e interessados na gestão da coisa pública. Se a Democracia proporcionar aos cidadãos instrumentos adequados a essa participação talvez eles avancem. Talvez, não é certo. Porque se a Democracia não puxa por estes cidadãos que nós somos, também nós não puxamos lá grande coisa por ela. Somos mais de ficar sentados no sofá, boca aberta, telejornal, Benfica, novela, do que de sair para assistirmos à Assembleia Municipal. Chiça, vade retro!!!
A Democracia é coisa para os políticos. A esses pagam-lhes para fazerem funcionar a coisa. A nós não nos dão nada. Olhemos para Santana Lopes. Esse sim, é um animal político, que conhece os atalhos todos à selva e não tem medo de por lá se perder. Agora nós, simples cidadãos anónimos, se metemos um pezinho numa Distrital em tempo de campanha, zás, somos logo papados até à cabeça! Mais vale ficar pelo sofá, Benfica, novela, telejornal… coisas que se compreendem e são para nós. A política não, que ninguém nos paga para isso.
Agora começamos a olhar para a nossa querida alternância democrática com a sensação de que ela pode vir a ficar coxa do PSD. Os socialistas de Sócrates esfregam as mãos de contentes. É a Democracia a falhar? Não me parece. É mais a Democracia a definhar. É como quando abriram os canais privados de TV. Prometiam variedade e competição na diversidade da oferta. Novos horizontes se abriam para a nossa eternamente jovem Democracia. E o que aconteceu? RTP, SIC, TVI: telejornais, futebol e novelas. Afinal a promessa não foi cumprida. Por razões óbvias todos os canais oferecem os mesmíssimos produtos. Tal como os diferentes partidos do chamado “arco do poder” oferecem os mesmíssimos tipos de candidatos para os lugares de governação.
Querem lá ver que andamos a ser enganados! Ou preferimos assim? O melhor é ir sentar-me ali no sofá e pegar no comando da televisão. Vou ligar-me ao mundo, olhar para a grande ilusão. Telejornal, futebol e novela. Democracia, enfim.

4 comentários:

Eduardo P.L. disse...

Bom. Muito bem colocado. Foi para o Drops!
Obrigado!

Forte abraço

Silvares disse...

Obrigado eu, Eduardo. Vai ficando a sensação de que somos mais ou menos como a bicharada. Alimentam-nos para se alimentarem de nós...

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Senti falta de um bom texto, saudade mesmo. Vim aqui correndo.
Grande abraço

Silvares disse...

A saudade tem dois extremos. Onde estão os textos do meu Lord?