quarta-feira, outubro 03, 2007

A falha

O sistema democrático é o nosso sonho mas toma cada vez mais a aparência de um tremendo pesadelo. Um dos problemas mais complicados e que parece impossível de resolver prende-se com a escolha dos dirigentes para cuidarem com o desvelo necessário da coisa pública.

Os regimes monárquicos tinham o problema resolvido. Os dirigentes nasciam assim mesmo, com selo de garantia carimbado pelo próprio Deus, eram os seus representantes na Terra e faziam o Seu trabalho por estas bandas. Assim, para o bem e para o mal, os reis e rainhas eram parte do impenetrável Plano Divino e caso algo corresse às avessas era porque Deus assim queria e nada havia a fazer quanto isso. Ele escreve direito por linhas tortas e o Tempo se encarregaria de demonstrar a bondade e a infalibilidade do sistema. Como o Grande Arquitecto estava a orientar a cena os comuns dos mortais tinham apenas de confiar e seguir as suas vidas com confiança e, acima de tudo, animados por inabalável Fé.

Depois deram-se as Revoluções Americana e Francesa, acabou-se com o Antigo Regime e os reis, fossem sóis ou outra estrela qualquer, passaram a personagens secundárias sendo, nos dias de hoje, pouco mais que objectos decorativos dos regimes a que chamamos democráticos. A Deus passou a dar-se o que é de Deus e a César o que é de todos nós.
200 anos a construir sistemas democráticos ainda não chegaram para encontrar a pedra de toque que transforme os governantes escolhidos pelo povo em pessoas de bem e com cabeça para controlar a contento os negócios do Estado. Uma Democracia precisa de ser capaz de gerar elites dirigentes que sejam isso mesmo: elites e não meros sabujos disfarçados de gente séria. Acreditamos que num sistema social justo despontarão pessoas capazes de perpetuar a justiça de forma equilibrada mas não parece que estejamos a ser particularmente felizes na concretização desse objectivo. O que tem faltado? Porque ficamos com a sensação de que, uma vez sentados na cadeira do poder, aqueles que elegemos com renovada esperança se transformam em gajos falsos como nem Judas terá alguma vez sonhado vir a ser? O que está a falhar no nosso sistema político e social?
Bom, esta pergunta é de tal modo desmesurada que o melhor é ficar por aqui e regressar mais tarde ao assunto.

7 comentários:

Lord Broken Pottery disse...

Silvares,
Sei que é lugar comum, mas tenho cada vez mais certeza de que o poder corrompe. Não adianta, infelizmente. É só tomar posse que o homem se pensa Deus, e governa como o diabo.
Grande abraço

Silvares disse...

Lord, mas nós devíamos ser capazes de encontrar pessoas honestas para governar os nossos países. Afinal somos milhões de pessoas... deve haver por aí quem faça o trabalho com limpeza. Ou não?

Eduardo P.L. disse...

Silvares, vou levar este seu texto para o Drops, pois representa exatamente meu pensamento, e como você, ando muito preocupado com esses problemas, tanto assim que criei o Drops, para tratar desses assuntos políticos!

Forte abraço.

fonte disse...

carissimo
talvez não saibas, mas legalmente o reino unido é uma monarquia absoluta,i.e. a rainha, tem sengundo a lei britanica poder absoluto. talvez tambem não saibas que segundo a lei do mesmo reino, a pena para e princesa diana por não ter sido fiel ao seu contrato de casamento com o principe herdeiro era a morte ( talvez por decapitação) de facto ela acabou por receber uma choruda indemnização pelo seu divorcio e o reino unido é uma das mais velhas e estaveis democracias do planeta.
quero com isto dizer que a vaca da democracia só funciona como lei se for acompanhada e vigiada por uma forte particip+ação politica por parte dos cidadãos que governa. mais ainda, acreditando eu nos principios da dialectica marxista, acredito que qualquer forma de governo, seja ele qual for, é sempre o reflexo da sociedade que dirige.Logo se um pais tem governantes merdosos quer isto dizer que o pais tem uma granda percentagem de população merdosa...
no caso tuga, infelizmente os teus colegas do secundário tem grandes responsabilidades, sobretudo os que ensinam o tuguês, porque manifestam uma grande incapacidade de criar ou exigir um verdadeiro programa de ensino que nos ensine devidamente a falar o tuguês. e sem saber falar ninguem se entende.
grande abraço

Silvares disse...

Desconhecia essa particularidade britânica mas a forma como o Parlamento regula os actos dos monarcas vem de muito longe. Ainda nós andávamos a levar com os mandos e desmandos dos reis absolutos e já na Great Old Britain o Parliament fazia história havia muito, muito tempo. Quanto ao reflexo do povo nos governantes estamos em pleno acordo. E é esse o lamento algo romântico que solto no texto deste post. Não seremos nós capazes de nos tornarmos um povo melhor ao ponto de elegermos melhores governantes?
Abraço e até breve.

MUMIA disse...

Ao fim e ao cabo a corrupção e os corruptos instalaram-se no sistema. E agora quem é aue os tira de lá? As pessoas gostam dos populares(palhaços), vejamos o caso extremo do Sr.Alberto Jardim e outros que tais, ainda piores.
MARAVILHA!

Olaio disse...

Apesar de tudo e porque a roda não para... VIVA A RÉPUBLICA!