segunda-feira, janeiro 16, 2012

A Zumbisfera

Há palavras que valem um mundo inteiro. Assim, de repente, não estou a lembrar-me de nenhuma, quero dizer, sei apenas uma. É uma palavra que foi inventada pela Dona Sra. Urtigão a propósito de um post que deixei aqui e o Eduardo levou para o eterno Varal de Ideias.

Falava-se sobre o fim da blogosfera e da forma como ela vem sendo canibalizada (ou parasitada) pelo facebook e outras plataformas do género. Foi então que a Dona Sra. Urtigão inventou essa palavra genial que é "zumbisfera", este espaço onde vogamos como seres em semi-vida virtual, arrastando os nossos textos em passo de caracol embriagado. Este espaço outrora designado por blogosfera, no tempo em fervilhava de vida e alegria, com gente feliz e vivaça, aos pulinhos entre blogues, deixando comentários e links em todas as direcções.

A coisa esmoreceu e, nos dias que agora não correm, antes se arrastam, a zumbisfera vai andando lentamente, como que ao som de uma triste guitarra portuguesa, a choramingar notas que soam tal qual pingos de uma chuva ácida, a caír lá do alto de um céu muito cinzento, batendo na vidraça da janela, sempre fechada.

Em Portugal dizemos "zombie", no Brasil dizemos "zumbi"; a palavra é zumbisfera, porque foi assim que foi inventada e vale para as duas margens do lago Atlântico. Aqui não entra o Acordo Ortográfico pois estamos em pleno espaço virtual, de criação absoluta e liberdade perfeita.

Declaro oficialmente o nascimento da ZUMBISFERA, este lugar onde estamos e de onde ninguém nos haverá de tirar.


domingo, janeiro 15, 2012

Carnificina cultural

 John C. Reilly, Jodie Foster, Christoph Waltz e Kate Winslet

O mais recente filme de Roman Polanski adapta para o écrã a peça de teatro de Yasmina Reza, "O Deus da Carnificina". Ir ao cinema assistir a este filme na companhia da minha família era mais que uma obrigação, tratava-se de fechar um ciclo. Assistimos a duas representações diferentes da peça (ver aqui) daí que não perder o filme nos parecia absolutamente elementar. E foi, elementar, de facto.


O filme de Polanski vive da extraordinária capacidade de representação do seu elenco. O facto de a maior parte da acção se desenrolar no espaço apertado de uma sala, num apartamento, leva o realizador a optar por planos fechados sobre os corpos e as expressões faciais dos actores. Todos eles excelentes mas Jodie Foster, na minha mais que modesta opinião, destaca-se.

Dos palcos de teatro para o écrã é nessa concentração espacial que reside a maior diferença (o texto foi adaptado pela autora com a colaboração de Polanski). A boca de cena de um palco, aberta sobre o espaço da sala, confere ao espectador outras possibilidades de "respiração" visual. No filme, apesar de rápidas mudanças de décor, as quase-saídas de cena no patamar da entrada do apartamento, as idas à casa-de-banho ou à cozinha, o grande plano leva-nos para dentro do espaço que, se já era apertado para as 4 personagens, mais claustrofóbico se torna com a nossa presença.

Polanski introduz outra personagem: um espelho, que confere profundidade espacial e dialoga com as personagens. Afinal de contas, esta peça, desculpa leitor, este filme, é como um espelho no qual reflectimos e por ele somos reflectidos. A ver.


sábado, janeiro 14, 2012

Cidadão Exemplar

  
1ª exposição n’ a parede


vai ser já na próxima terça-feira dia 17, n' a parede do café-bar do Fórum Romeu Correia, em Almada, que vai estar patente uma brilhante exposição de artes plásticas e fotografia levada diligentemente a cabo pelos exemplares, cidadão Paulo, cidadão Luís, cidadão Rui e cidadão José.

poderão apreciá-la devidamente em toda a sua plenitude - e tomar um cafezito ou um vinho quinado, comer uma deliciosa tosta ou uma espantosa torrada - até meados do próximo mês de fevereiro (exceto às segundas-feiras).

por isso, vejam lá se são bons cidadãos e aparecem.


Viva a arte, viva a cultura e a cidadania exemplar! Viva!!!

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Recordar e viver

Hoje acordei a pensar que nem eu sou tão bom como me dizia a minha mãe quando era pequenininho, nem os outros são tão maus como me fazia crer a minha professora da catequese, quando falava dos meninos que não eram baptizados.

Talvez tenha sonhado com esses tempos recuados e perdidos na desarrumação de memórias que é um cérebro humano. Precisava de contratar uma especialista em limpezas para me arrumar as ideias e limpar-lhes o pó. Por vezes penso como seria bom poder regressar ao passado com as imagens tão claras como num filme em Full HD e som surround da melhor qualidade.

Reviver o passado visto de fora, a comer pipocas e a beber coca-cola, sentado confortavelmente... pensando melhor, talvez não fosse assim tão bom. Sendo eu actor no filme da minha vida não me parece que pudesse manter a calma perante uma série de acontecimentos que talvez estejam melhor esquecidos atrás de algum aparador com um espelho partido.

Estou em crer que será algo traumático representar e assistir em simultâneo ao filme das nossas vidas. Até porque a professora da catequese tinha um penteado assustador e a sala onde nos ensinava as terríveis histórias da Bíblia estava sempre mergulhada numa penumbra adocicada, com mobília sem idade. Disso lembro-me. E chega.


quarta-feira, janeiro 11, 2012

Cidadão Exemplar


É um novo Blogue (há novos blogues no espaço virtual!!!???) que acompanha um projecto de exposições de artes plásticas a desenvolver no café-bar do Fórum Romeu Correia em Almada. A coisa está para breve e, por enquanto, o dito Blogue ensaia os primeiros passos. A dinamização dos espaços (do Blogue e das exposições) está a cargo de um grupo de 4 cidadãos exemplares que são o Paulo Nunes, o Luís Miranda, O Zé Julião (mais conhecido por estas bandas como Dear Hunter) e eu próprio. Viva a arte, viva a cultura e a cidadania exemplar! Viva!!!

Clica aqui para saltares até ao Cidadão Exemplar.

segunda-feira, janeiro 09, 2012

Blogue, blogue, blogue...

Uma notícia lida no Público online deixou-me a pensar na diferença entre verdade e realidade (tema que lembro de já ter aqui abordado, talvez mais do que uma vez). Nessa notícia fiquei a saber que um entendido nestas coisas dos blogues anunciou, vai já para 4 anos, mais coisa menos coisa, o fim da blogosfera (ler aqui).

Foi assunto de comunicação no IV encontro de blogues. Confesso que nunca me tinha apercebido que houvesse um encontro desta natureza e, mesmo que soubesse da sua existência, a minha preguiça motora decerto me teria impedido de lá ter ido encostar o esqueleto.

Talvez por isso (por ser preguiçoso e pouco participativo) não me apercebi do fim desta coisa. Nem eu nem, pelos vistos, muitos milhares (milhões!) de pessoas por esse mundo fora que, apesar das novas plataformas de convívio virtual, continuaram a "blogar" a despeito do fim da blogosfera. É que, apesar de ter o fim anunciado e o funeral organizado, o cadáver continua a bulir.

Poderemos então concluir que a bologosfera é um zombie? Estou em crer que assim é. A blogosfera é um zombie virtual cujo estranhíssimo corpo é constituído por ti, por mim, e por todos os outros que aqui vêm e aí vão e por aí andam, a arrastar os teclados pelos confins do espaço virtual.

Longa morte à blogosfera!

domingo, janeiro 08, 2012

Que se há-de fazer?

 Alimentar o bife, desenho, 2010

Cada vez mais se percebe que o Estado não se encontra ao serviço do bem comum. É uma associação de malfeitores engravatados com mais lábia que uma puta embriagada a convencer o potencial cliente da magnificência dos seus atributos, quando se percebe imediatamente que, por baixo do bâton, do rimel e do penteado, pouco mais há que coisas falsas e postiças.

Somos roubados (não há outra expressão) diariamente e aguentamos. Nós, os portugueses, somos como antílopes na savana: sabemos que há leões à espreita de uma oportunidade para nos saltarem à espinha e nos  ferrarem a dentuça, fundo no lombo, mas continuamos a pastar, plácidos e de olhar ausente noutros sonhos. Que se há-de fazer?

Fazemos parte de uma cadeia ecológica da qual somos a base. Depois há uma escala de comilões que nos papam à fartazana, sejam pequeninos e com dentes afiados como agulhas, ou grandalhões, com bocas de quilómetro e meio, capazes de engolir famílias inteiras com um simples suspiro. Comem-nos, mastigam-nos, desprezam-nos. Mas que se há-de fazer?

Somos um povo que, na verdade, aguenta tudo com muito pouca revolta. Temos uma capacidade de aguentar a desonestidade e a gula desvairada daqueles que nos exploram que dá vontade de gritar aos nossos próprios ouvidos. Somos um povo que é a manada ideal, o sonho húmido do capitalista selvagem, somos o pasto perfeito do vampiro mais preguiçoso. Qualquer um nos ferra o dente e vai chupando, chupando, chupando, até não restar pingo de sangue e não sermos mais que um invólucro vazio.

Que se há-de fazer?

quinta-feira, janeiro 05, 2012

Carta de escárnio (que maldizer não posso)

Li algures (ou terei sonhado?) que os portugueses, quando se atiraram mar adentro e mundo fora, nunca foram capazes de se estabelecer mediante um plano de expansão particularmente visionário. O mais que foram fazendo terá sido o estabelecimento de um sem número de tascas junto à costa africana, onde vendiam aos indígenas as maravilhas da nossa produção nacional, nomeadamente a bela pinga, o tal vinho tinto que, alguns séculos mais tarde, viria ser certificado por um assombroso estadista como dando de comer a um milhão de portugueses, cálculo que pecava, evidentemente, por defeito, já que seriam muitos mais o que se alimentavam exclusivamente desta dádiva de Baco à nossa pátria incomparável.

Vem isto a propósito da notícia publicada nas páginas do jornal Público no dia 5 de Janeiro sobre a orientação de Paulo Portas às nossas missões diplomáticas no sentido de “venderem” Portugal aos estrangeiros, sejam eles europeus, africanos, asiáticos ou extraterrestres.

As nossas embaixadas deverão passar a funcionar como entrepostos comerciais, enterrando definitivamente a modesta “diplomacia do croquete”, transmutada numa coisa mais agressiva e pós-moderna, à base de “road-shows” e outras coisas tão assombrosas quanto irresistíveis.

Paulo Portas, que andava tão silencioso e escondidinho, surge de súbito, qual Dom Sebastião cuspido pelo nevoeiro, para revelar o verdadeiro plano redentor da nossa economia. Este engenhoso plano de venda da pátria em atraentes pacotes de coisinhas boas só poderia sair da mente de um estadista que foi capaz de investir uma fortuna na aquisição de dois submarinos quando o país se encontrava numa situação de evidente crescimento e desafogo económico e tinha as contas equilibradas, isto antes dos tempos desgraçados em que os governos de Sócrates arruinaram a nossa balança de pagamentos. As visões são para quem as tem e quem as não tem fica a roer-se de inveja.

Com este novo paradigma da nossa diplomacia, Paulo Portas demonstra o seu conhecimento da história pátria, recuperando a nossa atávica veia de tasqueiros bebedolas quando se trata de estabelecer relações internacionais. É claro que, no século XXI, temos mais coisas para oferecer além do incontornável tintol, as oportunidades de negócio, agora, são outras e mais variadas.

Já não estamos a entrar na China, agora abrimo-nos ao Império do Meio. Já não negociamos escravos nas costas africanas com chefes de tribos tão escrupulosas quanto a nossa. Agora deitamo-nos no chão a implorar aos novos chefes africanos que nos cobrem pelos pecados dos nossos antepassados.

Se alguma coisa aprendi nos tempos do Portugal salazarista foi que o pobre pedinte não tem orgulho, embora possa andar limpinho, compostinho e desconfiar da generosidade de certas esmolas. Paulo Portas também terá aprendido isto mas, como nunca na vida foi pobrezinho (em termos materiais), não tem vergonha nenhuma e pensa que ser esperto é quanto basta para passar entre os pingos da chuva sem se molhar. Coitado.

Nota: enviei esta carta para o Público. No lugar da directora do jornal não a publicava por ser tão provocatória e, nalguns passos, tão pouco decente. mas não podia deixar de enviar esta coisa. O impulso de o fazer foi muito mais forte do que as forças em sentido contrário.

terça-feira, janeiro 03, 2012

Pensamento profundo

"Quando estou a pintar não tenho consciência do que faço. Só depois de uma espécie de período de familiarização é que vejo o que estive a fazer"

Jackson Pollock

segunda-feira, janeiro 02, 2012

Bom 2012

Os dias de Inverno, assim como o de hoje, são os mais bonitos, os mais perfeitos de todos. Trazem o sol lá do fundo da paisagem e deixam-no ir subindo devagarinho, para lhes não estragar o frio, que sempre são dias de Inverno. E é isso que os faz tão bonitos e perfeitos: o sol a iluminar o frio pousado sobre as coisas.

O calor amansado pelo ar que nos rodeia a cabeça, a lutar de mansinho com a friagem, como se fossem dois gatos pequenos a rolar doçuras no tapete da sala onde Deus adormeceu e ressona levemente, como um músico de orquestra a experimentar o trombone com um sopro levezinho.

Nestes dias de Inverno, dias gelados de sol, o mundo quer dizer-nos que tudo pode acontecer, que uma coisa não é assim tão diferente do que for o seu contrário.

Bom 2012 companheiros.

domingo, janeiro 01, 2012

sexta-feira, dezembro 30, 2011

Falência democrática



A notícia era discreta, ocupando apenas um cantinho da página 9 da edição do jornal Público no dia 22 de Dezembro: Portugal tem uma “democracia com falhas”, dizia o título. 

Lendo a noticiazinha ficamos a saber que, em 2011, o declínio da democracia se concentrou na Europa (Finlândia, Irlanda, Alemanha, Portugal, Itália e Grécia). Todos os países da lista perderam pontos principalmente devido à erosão da soberania associada aos efeitos da crise, a União Europeia a encontrar no declínio da democracia um ponto forte das suas políticas. 

De há uns tempos a esta parte que se fala por aí, à boca pequena, do conceito de Pós-democracia, um conceito que seria interessante debater de forma mais alargada mas que, estranhamente, tem sido muito pouco (ou mesmo nada) divulgado nos meios de comunicação social. 

Podemos caracterizar a Pós-democracia como um regime em que somos governados por grupos económicos que não se sujeitam ao escrutínio popular e se representam exclusivamente a si próprios fazendo prevalecer os seus interesses particulares em detrimento dos interesses colectivos. 

Bastaria olhar para a forma como os actuais primeiros-ministros da Itália e da Grécia chegaram aos cadeirões que agora aquecem e, mais curioso ainda, observar os respectivos currículos em instituições financeiras com muitas culpas no cartório do afundamento geral das economias europeias.

Estes homens não foram eleitos, o que nos leva a um patamar superior da Pós-democracia: os responsáveis políticos são cooptados entre ex-dirigentes de grupos económicos, não se sujeitando ao escrutínio popular e representando exclusivamente os interesses particulares desses grupos em detrimento dos interesses colectivos.

É complicado viver a História antes de ela ser escrita e vertida devidamente em manuais escolares nas páginas correspondentes, para que possa ser estudada com a distância que se impõe à formação de ideias claras e conclusões avisadas. Talvez, dentro de algumas décadas, os tempos que agora vivemos venham a ser considerados como a época da falência da democracia, a génese de uma nova ordem mundial, saída daquilo que designamos por “globalização”. 

Talvez os tempos que agora vivemos venham a ser considerados como a época em que o “sonho americano” foi substituído pelo “pesadelo chinês”, os tempos em que os cidadãos das ex-democracias foram confrontados com um novo paradigma social: trabalhar cada vez mais, receber cada vez menos e ir perdendo todos os direitos que caracterizavam os “estados sociais” que evoluíram ao longo de décadas após a 2ª Guerra Mundial. Talvez as coisas venham a ser assim ou, quem sabe, talvez nada disto venha a acontecer.

Olho para o nosso primeiro-ministro, para a forma como o actual governo português tenta governar a crise e não me sinto particularmente optimista. Sinto-me até muito pessimista. Apetece-me virar as páginas do jornal rapidamente até chegar à secção de desporto ou, então, ler o jornal de trás para a frente. É preferível observar as tabelas classificativas dos vários campeonatos de futebol por essa Europa fora a concentrar a atenção nas oscilações da Bolsa.

Este texto foi enviado para a Directora do Público.

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Imprecação ao Ano Velho

Agora que estás a apagar-te posso dizê-lo: foste um desastre! E, como te restam apenas uns diazitos de vida, não tens hipótese de remissão. Meteste nojo, fizeste merda, não prestas para nada a não ser para acinzentares ainda mais o tempo que aí vem. És uma promessa estragada.
Tiveste os teus dias bons, concordo. Nem sempre foste a coisa má que agora pareces ser, admito, mas, tudo somado, só soubeste defraudar aqueles que em ti acreditaram e em ti imaginaram um futuro melhor que agora se revela um passado para esquecer.
Só uma coisa te pode salvar; que o Novo Ano seja ainda pior do que tu foste. Só isso poderá fazer com que alguém ainda venha a ter de ti uma leve aragem de saudade.
Cheiras mal mas pode ser que o que aí vem cheire pior e pronto! Lá te safas de um enterro sem ninguém que te chore ou te deixe um malmequer a enfeitar a campa.
Adeus, ó vai-te embora!

quarta-feira, dezembro 28, 2011

Dívidas são para pagar

"A Dívida" é um filme sem qualquer tipo de efeito especial (talvez uma coisinha ou outra, a fazer o espectador dar um salto na cadeira, mas é coisa pouca). É um filme que vale pelo argumento, pela narrativa, em elegantes flash-backs, e, sobretudo, pela presença magnética de Helen Mirren, uma actriz fora-de-série.

As variações de ritmo abanam o coração de quem assiste e as reviravoltas e surpresas são uma constante. As personagens são convincentes e os maus são muito piores que os bons (que são dificeis de descortinar). Vi o filme sem saber nada, mesmo nadinha, sobre o argumento. Talvez por isso tenha saído da sala com a sensação de plenitude que ainda guardo na cabeça.

Um filme denso e interessante do primeiro ao último minuto.

terça-feira, dezembro 27, 2011

Olhos em bico

Há uma expressão que se utiliza no nosso país que é "ficar com os olhos em bico". Utiliza-se quando alguma coisa nos impressiona ao ponto de nos deixar "com os olhos em bico". Ficamos estupefactos, estupidificados, assombrados, zonzos, surpreendidos, desorientados, em suma, corta-se-nos a respiração ao ficarmos "com os olhos em bico".

Com a venda de uma fatia considerável da EDP à Three Gorges Corporation a expressão pode vir a ganhar um novo significado.

Sem tecer considerações sobre este estranho processo de privatização que consiste na venda de capital a uma empresa pública chinesa, fica a notícia de que a coisa caíu bem entre os nossos novos amiguinhos. "O processo foi muito justo, objetivo e transparente (...). A decisão do governo português criou um bom exemplo e estabeleceu um bom precedente", disse à agência Lusa em Pequim o presidente da China Three Gorges Corporation (CTG), Cao Guangjing (lê aqui se estiveres para isso). O senhor Cao Guangjing rematou, dizendo que "A Three Gorges é uma empresa muito conhecida na China (...), Os bancos e outras empresas chinesas irão seguir-nos".

Ao que tudo indica, depois dos restaurantes e das lojas dos chineses, chegam agora as grandes empresas e os bancos do Império do Meio. "Mais negócios poderão seguir-se, à medida que as enfraquecidas economias europeias procuram clientes para ajudar a resolver as suas dívidas", disse o "China Daily" ao anunciar o resultado do concurso internacional para a privatização da EDP.


Já aqui escrevi mais do que uma vez sobre a troca do "sonho americano" pelo "pesadelo chinês". Todos os portugueses estão perante a crua e dura realidade que é "trabalhar mais, receber menos e perder direitos". Ao que parece esta é a receita para um novo modo de vida que se anuncia já para o próximo ano que está aí a rebentar, não tarda. O futuro promete deixar-nos com os olhos, cada vez mais, em bico.



sexta-feira, dezembro 23, 2011

A casa


O dia de Natal aproxima-se, é tempo de viajar até casa.
Há 30 anos que saí da minha cidade natal e tenho sempre vivido por estes lados. Há muitos anos que moro no apartamento onde escrevo estas palavras (penso que há 18 anos). É um bom lugar, já repleto de memórias, mas quando regresso às origens digo que vou para casa.

Não há nada a fazer. Mesmo que só lá vá duas ou três vezes por ano, mesmo que tenha uma família e este lugar, onde vivo a maior parte do tempo, a minha casa será sempre ali.

Boas Festas e até breve.

quarta-feira, dezembro 21, 2011

Kim III

Eu sei que não sei grande coisa sobre o que se passa na Coreia do Norte. Eu sei que, para um gajo que vive neste lado do planeta, é complicado compreender o que vai nas cabeças dos norte-coreanos quando choram assim, como madalenas arrependidas, baba e ranho, perante as imagens dos seus queridos líderes feitos múmias ou, mais simplesmente, transformados em memórias. Eu sei.

Além do que acima fica escrito também me faz confusão que os comunistas que conheço fiquem todos eriçados quando se fala mal da Coreia do Norte. Agora que o mundo contemporâneo se torceu todo de fora para dentro e de dentro para fora, resta-lhes este cadáver político e social como âncora ideológica, o que não deixa de ser paradigmático da fome doutrinária que passam.

Como pode ser comunista um país onde o poder é hereditário, passando de pai tirano para filho? Qual  a sustentação ideológica para esta situação aberrante? Como designar o regime norte-coreano? Monarquia?

Deixem-me finalizar este post meio macaco dizendo que a morte de Kim II me tocou tanto como a do Kim que o antecedeu na cadeira de rei da Coreia do Norte. Dois gordos que governaram com pata de ferro um país de pobres escanzelados e  que agora têm em Kim III um herdeiro gordo e seboso como eles.


terça-feira, dezembro 20, 2011

Drive


Primeiro dia de férias (primeira tarde, na verdade ) e uma ida ao cinema com a família para assistir a "Drive", um filme do qual não tinha a mínima pista. Gosto de ver filmes sem saber nada sobre eles. A surpresa agradável ou enfado absoluto estão no horizonte próximo do écrã, gosto disso.

Uma plateia com pouco mais que uns dez/quinze espectadores, quase todos adolescentes carregados de pipocas e baldes de cola, um ou outro boné daqueles tipo "gangsta", telemóveis incansáveis, uma vontade enorme de não-sei-quê. O costume. Falatório, risinhos, namoricos, a esmagadora maioria dos espectadores estavam ali para qualquer coisa que não era ver o filme, mas outra coisa, uma coisa que me escapa apesar de tão banal e repetida.

O filme começou com uma cena muito bem montada, grande suspense, a personagem principal, interpretada pelo novo actor do momento, Ryan Gosling, apresenta-se: denso, tenso, algo misterioso. O ritmo é variado. Ora rola sonolento, ora irrompe em acção frenética e, mais lá para a frente, explode em cenas de hiper-violência. Um objecto cinematográfico com estilo e algumas soluções visuais de grande intensidade e beleza. Outras simplesmente horrendas, a ponto de me fazerem virar a cabeça e trocar olhares (esgares) com as minhas companheiras de plateia.

Quando o filme acabou não restou grande coisa. A profundidade do argumento não é o forte de "Drive". É mais o exercício de estilo.


sábado, dezembro 17, 2011

Parabéns a esta coisa

Ando tão ali que nem reparei no aniversário do 100 Cabeças, uns dias antes do dia de hoje (foi a 28 de Novembro, aqui o 1º de todos os posts). Aniversário de Blogue é coisa sem bolo nem velas nem amigos nem presentes, é coisa vazia, como um copo partido.

Tem seis anos, o 100 Cabeças, mas é como se tivesse pouco mais que uma semana. Escrever é, por vezes, uma tarefa puxada. Noutras ocasiões os dedos martelam as teclas tão depressa que até me convenço que sei escrever à máquina.

É estranho, andar aqui, escrever isto e deixar o escrito assim, como que pregado na parede, à porta da mercearia. Qualquer um pode ler. Conhecidos, desconhecidos, assim-assim e mais ou menos. Basta ter olhos e não estar com demasiada pressa.

Os Blogues já tiveram maior impacto e menos concorrência. Mas, tal como os jornais impressos vão perdendo leitores, também estas coisas virtuais se vão esvaziando e perdem clientela para as redes sociais tipo Facebook (há outras não há?).

Quer-me cá parecer que quem escreve estes jornais de parede, porque sim e não porque não, não esmorece. E continua. Parabéns a esta coisa (atrasados, mas não faz mal).

terça-feira, dezembro 13, 2011

Pensamento (quase) idiota

Um espectro assombra o sossego da velha Europa. É o fantasma horroroso do desentendimento, a sombra imensa da Torre de Babel que se projecta ameaçadora sobre os centros comerciais, os stands de automóveis de luxo e os resorts algarvios. O povo treme com receio de vir a ficar com os olhos em bico e os ricos das nações europeias agitam-se por perceberem que não são tão glamourosos como imaginavam. O mundo reposiciona-se e, neste movimento com que se ajeitam os rabos mais gordalhufos, muitos dos que até agora cagavam sentenças percebem que estão a ficar de rabo ao léu, perdendo o poder de defecar onde muito bem lhes apeteça. Não sei se fique triste ou se fique contente. Os pobres e os desprotegidos são as primeiras vítimas (é de ficar triste) mas, a seguir, vão caír muitos dos ricos e poderosos (é de ficar contente?). As paredes tremem, os tijolos desmoronam-se... a sombra do fantasma alonga-se, como a sombra de um pinheiro alto no fim de uma tarde de verão muito comprida.

quinta-feira, dezembro 08, 2011

Idade adulta

Muito se fala sobre ser adulto, ser infantil, ser adolescente, ser cão, ser avião ou, mais simplesmente, não ser nada de nada ou uma outra coisa qualquer. É tudo uma questão de identidade, uma forma de procurar a definição exacta de uma pessoa. Como se isto de ser ou não ser fosse questão com resposta objectiva, mensurável, catalogável e, finalmente, passível de arrumar na prateleira correcta, no lugar absoluto e inquestionável que cada um de nós ocupará, infalivelmente, no universo das coisas tangíveis.

Pois eu não estou nada de acordo. Nem com isso (com o quê, exactamente?) nem com o seu oposto, que é a mesma coisa vista ao contrário. Apesar de já levar umas quantas décadas a andar por aí, não posso afirmar com segurança que sou um adulto. Se o fizesse estaria a mentir-te, caríssimo e impagável leitor, e a enganar-me a mim próprio, autor meio desvairado destas linhas que, aparecendo aos nossos olhos na horizontal, são, na verdade, oblíquas, sinuosas e, acima de tudo, muito, mas mesmo muito, maldosas, benza-as Deus Nosso Senhor.

De cada vez que estou perto dos meus pais, mais da minha mãe, estou em crer, há qualquer coisa dentro de mim, penso que seja uma peça, que me faz sentir infantil. Na verdade é a sensação de ser filho, o que equivale a uma sólida sensação de infantilidade. Posso ter quase 50 anos, mas a proximidade dos meus progenitores devolve-me a doçura da infância. Garanto-te, leitor amigo, se não fosse o espelho implacável, poderia imaginar-me de novo com o cabelo todo no lugar e os pulmões mais limpos que o chão da cozinha após a passagem da esfregona com desinfectante, a cheirar a flores selvagens.

O dia virá em que os meus pais se irão. Talvez nesse dia eu me transforme, finalmente, nessa coisa que é ser um adulto. Até lá, juro a pés juntos, continuo a ser uma criança. Com barba e pouco cabelo, com barriga e demasiados vícios, mas criança. Uma criançola apenas. O que já não é pouco, diga-se de passagem.

quarta-feira, dezembro 07, 2011

Estranha beleza

Nesta vida tudo se paga, nada nos é oferecido. Os americanos dizem que "não há almoços grátis", os  portugueses afirmam que "quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga", cada povo reza as suas sentenças o que mostra muito da forma como vê o mundo que o rodeia.

A notícia de que Pequim está encerrada numa colossal nuvem de poluição não deverá surpreender ninguém (ver aqui). A degradação das condições de vida é o preço a pagar pelo extraordinário crescimento económico. A China não pode tornar-se a maior economia do mundo sem pagar bem paga tal façanha. É este o modelo civilizacional a que aspiram as grandes nações do nosso mundo?

Vejamos a coisa pelo lado das oportunidades; um empresário com visão de futuro e olho para o negócio poderá investir na criação, produção e comercialização de uma linha de máscaras de oxigénio. É um produto com muito futuro nos mercados asiáticos hoje e, amanhã, no resto do mundo! A economia é uma ciência autónoma e tem a sua estranha beleza.

sábado, dezembro 03, 2011

Faces

Não deve haver nada pior que a obrigação de simpatia, a necessidade profissional de afivelar um sorriso quando a vontade é estar com a cara que temos e não aquela que outros nos querem ver trazer agarrada ao cimo do pescoço.

Vem isto a propósito daqueles programas que passam na TV nestes inícios de tarde de fim-de-semana, onde os canais televisivos promovem os seus produtos comerciais (telenovelas, programas de "famosos" e outras coisas do género) com "entrevistas" às personagens que fazem as caras dos seus écrãs.

Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente é absolutamente bonita e especial e toda a gente tem coisas fôfas a dizer de toda a gente, desde que faça parte da respectiva "família" que é a do tal canal de TV, seja público ou privado.

A coisa é tão forçada que apenas encontro paralelo nas caras que fazemos quando, sentados na sanita, nos vemos e desejamos para descarregar a tripa. Corados, meio desfigurados, ao sentir aquele desprendimento magnífico, estamos capazes de assegurar ao mundo como o amamos por nos sentirmos tão mais leves.

Nesses curtos momentos a felicidade é visível e não é necessário fingir um sorriso tão rígido que, vendo bem, é apenas um esgar desesperado, nem dizer aquelas banalidades estupidificantes que os tais programas nos impingem com imagens de carinhas sorridentes, de um "kisch" assustador, que nos ilustram o écrã.

Nauseante.

terça-feira, novembro 29, 2011

Um português no Brasil

valter hugo mãe na Flip, Festa Literária Internacional de Parity (para ver melhor clicar aqui), no Brasil. este post é dedicado aos meus amigos brasileiros que me visitam aqui, no mundo virtual.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Tudo isto é triste, tudo isto é fado!


"Decisão aprovada: O fado já é património mundial." e pronto, está feito. Muita emoção e comoção e lágrimas e violas a trinar pelas vielas, o fado é património imaterial da humanidade. 

Cá pra mim, que não sou tido nem achado nestas coisas de grandiosidade à escala planetária, o fado não precisava deste carimbo na testa nem de credencial assinada para fazer parte do património imaterial mundial, pela simples razão que já dele fazia parte, fosse ou não reconhecido pela UNESCO. A coisa deu-se em Bali, na Indonésia (ler aqui). 

Também da Indonésia nos chega a notícia de que, no espaço de uma ano e meio, foram mortos cerca de 750 orangotangos na ilha de Bornéu (ler aqui). Consta que as motivações dos assassinos destes grandes primatas são a protecção de culturas mas também o consumo de carne. Em situações como esta penso se não me daria melhor com o mundo que me rodeia se fosse vegetariano. Comer um orangotango é quase canibalismo...

Por um lado podemos aliviar um pouco da tristeza que nos tem assaltado: o fado é património mundial com atestado carimbado e assinado por quem decide estas coisas, num sempre apetecível reconhecimento burocrático que só faz falta a quem não acredita em si próprio.

Por outro lado as nuvens carregam-se de cinzento, pois ao orangotango, que é um ser material, não bastam nem servem para nada todos os carimbos que têm sido postos em decretos e planos que visam a sua protecção, numa prova de que a burocracia global só é eficaz em questões de imaterialidades.

Como diz a canção: "Tudo isto é triste, tudo isto é fado!" vertamos umas lágrimas grossas e quentes, é caso disso.




domingo, novembro 27, 2011

Não há acordo numa coisa destas!


Já há uns dias que acabei a leitura de "o remorso de baltazar serapião" livro escrito pelo pulso poderoso de valter hugo mãe (é tudo assim, com letras minúsculas por vontade expressa do autor embora em "O filho de mil homens", a mais recente obra do dito cujo, as maiúsculas, ao que parece, tomem os lugares que lhes são devidos, graças a Deus Nosso Senhor).

Trata-se de um livro que dispensa em absoluto as discussões bizantinas que se vão mantendo a propósito do tão esgadanhado Acordo Ortográfico que por aí vai tentando deitar a cabeça fora das águas turvas onde ainda chafurda em aparente aflição.

Em o "remorso de baltazar serapião" a língua portuguesa é uma outra coisa que, sendo o que é, mais parece o que não pode ser, ou não fosse assim sonhada e melhor registada pelo autor de tão extrordinário relato. Ler este livro é um exercício de puro prazer.

Este livro mostra como a liberdade, na escrita tal qual no resto das coisas que compõem o mundo, é uma  maluca que nos faz ir para lá das fronteiras do óbvio e nos abre horizontes maravilhosos, assim sejamos capazes de a aceitar e com ela ir passear, onde quer que nos leve.

Disse o velho Saramago que este livro de valter hugo mãe era um tsunami na lígua portuguesa. Completamente de acordo. Leia-se um livro assim e esqueça-se a polémica absurda do Acordo Ortográfico. Escrever é muito mais do que aquilo que os xerifes da língua portuguesa são capazes de imaginar. Ah grande valter!

sexta-feira, novembro 25, 2011

O mundo há-de acabar!

Bem vistas as coisas, todos sabemos que o mundo há-de acabar um dia. Ninguém gosta de falar nisso mas é um dado científico que, se não arruinarmos o planeta pela nossa acção, o Sol tem um tempo de vida limitado e, lá para um futuro difícil de racionalizar, morrerá. Com a morte do Sol, catrapunfas, adeus planeta Terra e demais vizinhos.

Em termos cósmicos isto não é mais que uma banalidade entediante mas, observado à escala humana, é uma tragédia de que Shakespeare nem sequer se lembrou ou teria sobre isso escrito um daqueles textos que nos deixaria a arfar só de lhe dar ouvidos.

Se a humanidade não é mais que um espaço de tempo na eternidade universal porque haveremos de nos alarmar com a morte de um modo de vida que, bem vistas as coisas, pouco mais foi do que um sonho difícil de sonhar?

Não valerá a pena alongar muito mais a mórbida reflexão que já estás a adivinhar onde irá parar, caríssimo leitor. Quando penso na Vénus de Willendorf ou no tecto da Capela Sistina ou na Fonte de Marcel Duchamp sinto pouco mais que uma leve brisa a refrescar-me o negrume das ideias. Afinal a imortalidade é uma pequena anedota e a humanidade nada mais que uma palhaçada divina.

Enfim, comamos um belo frango assado bem regado por um vinho que nos amorteça o mau génio. É para isso que existimos. Tudo o mais... são sonhos.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Greve geral

Hoje estou em greve. Protesto contra o desmoronamento do estado social e a morte violenta do sistema democrático um pouco por toda a Europa. Os governantes eleitos em sufrágios universais são substituídos por homens de mão dos "mercados" ou, como no caso do nosso país, não passam de fantoches sem qualquer tipo de poder ou capacidade de decisão.

Protesto contra a escravatura política e social a que estamos sujeitos e protesto contra a ausência de alternativas. Não nos deixam outra forma de manifestar a nossa opinião que não seja esta: fazer greve.

Podem vir com a cantilena do costume: que haverá eleições e, nessa ocasião, sim, será tempo de fazermos valer as nossas opiniões através do voto. Que, fazendo greve, apenas estamos a gravar a situação já de si grave, do nosso país. A esses respondo: vão à merda!

Ninguém nos disse que iríamos ver os nossos ordenados cortados em 40% ou que o investimento económico seria ditado por aqueles que nos estão a roubar. Fomos enganados. Os capitalistas e respectivos sabujos não fazem greve, pudera...

Não me considero obrigado a aguardar pacientemente pela próxima oportunidade de participar num acto eleitoral que é, cada vez mais, uma fraude declarada. Faço greve porque é urgente dizer, alto e bom som: VÃO À MERDA!!!

Hoje li (e ainda vou ler) mais uns quantos capítulos de O Engenhoso Fidalgo Dom Quixote de La Mancha que, por mero acaso, é a minha leitura do momento. Assim a arte de Cervantes me ajuda a ultrapassar as dúvidas e as desgraças que me são anunciadas em escritos de verdade duvidosa com que me tentam afogar o entendimento.

Viva a Greve Geral!!!
Abaixo o fascismo encapotado e abaixo os mercados, suas bestas de estimação!!!

quarta-feira, novembro 23, 2011

O dedo e a lua

Diz o ditado que "ao tonto aponta-se-lhe a lua e ele fixa o dedo" (é qualquer coisa assim, interessa-me a ideia). Nos últimos tempos só se pensa na crise da dívida, na greve geral de amanhã em Portugal, nas falcatruas dos poderosos, enfim, andamos a olhar tantos dedos apontados em todas as direcções que a lua lá continua, pregada no céu e já poucos são capazes de a olhar com olhos de contemplação.

Quando as coisas correm mal tendemos a esquecer a beleza, quando a miséria nos entra pela casa dentro aos trambolhões a arte é a primeira coisa que esquecemos. Como se deixasse de existir. E se tentássemos contrariar esta fatalidade?

E se tentássemos combater a raiva com a beleza, a dor com o sublime, enfim, se ao focinho da estupidez atirássemos a arte? Serei tonto, acredito, mas talvez a resposta adequada não seja bem aquela que estamos a tentar. Talvez haja outras formas de viver e ultrapassar o desespero das coisas fatais.


sábado, novembro 19, 2011

Negra recordação

Lembro-me bem de ver putos meio nus, sujos e desgrenhados, com ranho eterno a brilhar abaixo do nariz e um pouco sobre o lábio. Putos assim, a correr pela rua, pequeninos, com as vergonhitas aos saltos. As avós eternamente vestidas de negro, as cabeças amarradas debaixo dos lenços com gestos de esconder os cabelos, sentadas, apáticas, num luto infinito que iria durar até mesmo depois da morte.

As mães dos putos andavam nas terras, a cavar, mãos como solas de sapatos que só calçavam ao Domingo, quando os tivessem. Domingo, dia de ir ver a Deus pedir ajuda e protecção que nunca vinha. Os homens tinham ido para o Luxemburgo ou para África fazer a guerra que lhes diziam ser deles mas, penso agora, havia dúvidas quanto a isso.

Na aldeia havia dois ou três automóveis, duas ou três televisões e muita fome Havia uma miséria que doía e não se podia esconder. Os animais viviam mais próximos das pessoas, tão próximos que eram a benção dos dias mais frios naqueles Invernos gelados. A escola não era para todos e mesmo os que lá andavam acabavam cedo que eram precisos para a terra e para a guerra.

Um doce era uma festa, uma laranjada um luxo quase impensável (havia muita água a jorrar, incessante, da fonte). As roupas passavam dos mais velhos para os mais novos. Não imaginava o que fosse uma loja de pronto-a-vestir. As mulheres sabiam coser e usavam-se cotoveleiras nas camisolas e joelheiras nas calças.

Lembro-me bem deste país pré-consumista, onde uma sardinha era alimento para três: cabeça, lombo e rabo e as crianças bebiam bagaço pela manhã, para aquecer o corpo e abrutalhar o espírito. O granito era a nossa natureza e as matas um mundo encantado onde nos perdíamos dias inteiros à procura do mundo.

Lembro-me bem deste país triste, analfabeto e miserável que parecia ter o futuro no fundo de um poço de águas pestilentas. Lembro-me bem e não sou tão velho quanto isso.

sexta-feira, novembro 18, 2011

Camisa vermelha

Já se sabe que neste mundo a criatividade começa a tirar a cabeça de fora. Os criativos desenroscam a corneta na busca de ideias que possam transformar um intelecto adormecido num intelecto frenético, um zombie apático num consumista desenfreado.

Quando a coisa toca a sexo, então: força camaradas! É tudo a espicaçar o orgulho macho (ou fêmea) tentando fazer-lhe cócegas no sítio certo. O que interessa é colocar determinado produto no mercado, vendendo-o ao público alvo pré-definido com largas margens de lucro. É o espírito do tempo, e não me estou a referir ao Natal, que é como se fosse já amanhã, refiro-me ao Mercado, assim mesmo, com um "M" daqueles granjolas, que é onde vogam as barcaças do sucesso e os navios da boa vida económica.

Vem esta conversa a propósito de uma campanha de marketing lançada pelo Benfica para vender preservativos a quem deles precisar, benfiquistas em particular (ver aqui). Não estou a ver um portista apaixonado a enfiar uma coisa daquelas onde é devido sem que isso lhe venha atrapalhar a função ou um adepto do Sporting (como é o meu caso) a comprar preservativos destes com outra intenção que não seja apoucar algum benfiquista menos protegido pela sorte.

Convenhamos que querer fazer humor benfiquista com o acto sexual pode ter efeitos perversos e imprevistos. Imagine-se que a equipa vermelhusca começa a perder jogos que não deveria, com equipas de menor gabarito. Como irá o adepto munido de um poderoso preservativo com a frase "Esta vai ser à Benfica" convencer a paceira de que a coisa vale a pena?

Cá para mim, nestas coisas do contacto amoroso e clímax sexual, o melhor é deixar o clube de fora. Pode não funcionar. O amor será sempre a melhor estratégia. Seja a atacar ou a defender.
:-)

sábado, novembro 12, 2011

A importância de ter um inimigo

Hoje, mal abri os olhos, dei por mim a pensar como é importante termos um inimigo. Não sei o que sonhei para acordar a pensar nisto mas deve ter sido um filme interessante.

De facto, um inimigo declarado e claramente identificado ajuda-nos a apontar as nossas armas numa direcção determinada, ajuda-nos a ter um objectivo. A ausência de um inimigo pode deixar-nos desamparados de ódio, o que não é coisa boa para a nossa saúde.

Necessitamos de ter ódio que nos equilibre a destilação de amor. Uma coisa ampara a outra, é o Yin e o Yang, o equilibrio universal a repousar na mesinha de cabeceira como se fosse um bibelot.

Após o pequeno-almoço e uma olhadela ao jornal dei por mim a pensar que a derrota do comunismo foi o que nos lixou. Quando o Muro de Berlim caíu estávamos longe de imaginar a merda toda que estava para nos entrar porta dentro.

Sem a Cortina de Ferro ficámos à mercê dos nossos próprios demónios. Enterrada a utopia comunista sob toneladas de realidades abjectas, agora confirmadas (a vida do lado de lá era ainda pior e mais desumana do que nós imaginavamos), pensámos que a Social Democracia havia triunfado!

Ao som de trombetas triunfais sonhámos com uma Europa democrática e justa. Abafado o papão comunista teríamos apenas de esperar o tempo necessário para a estabilização social e política do nosso amado Velho Continente. O Paraíso anunciava-se pintado em tons rosa e azul bebé.

Hoje, ao acordar, percebi que sem comunistas estamos entregues ao monstro capitalista sem ninguém que nos proteja. A miséria dos povos subjugados sob as desprezíeveis bandeiras vermelhas estancava a voracidade do mostrengo que agora nos devora a todos, ex-comunistas incluídos, com uma gula insaciável. A bocarra aberta do capitalismo é a porta do inferno na Terra.

Sem inimigos que nos valham estamos entregues à bicharada. É triste. Pior que triste, é um logro miserável.

quinta-feira, novembro 10, 2011

Portugalzinho

Não sei o que quer isto dizer. O mais certo é não querer dizer nada mas mostra bem até onde pode descer uma mãe que não faz a mínima ideia do que é educar uma criança. A coisa conta-se num esboço: um puto de dez anos de idade está a fazer um teste na escola e a professora apanha-o a enviar as questões para a mãe, via telemóvel, que lhe envia de volta as respostas (ler aqui esta extraordinária notícia, ou será simplesmente ordinária?).

A coisa passou-se em Chaves. Toda a gente sabe onde fica Chaves mas poucas pessoas lá vão. Eu passei por lá uma vez, de regresso da Galiza e já não me lembro do aspecto da cidade. De Vigo ainda guardo umas memórias e de Santiago de Compostela recordo umas quantas coisas. Mas de Chaves, sinceramente, népias!

Recordar esta falta de recordação não tem absolutamente nada a ver com o caso do petiz copião e da sua mãe pouco honesta em questões de conhecimento de facto. A não ser que a citada senhora estivesse a agir por vingança contra o esquecimento. Se assim foi pode hoje estar de consciência tranquila pois atingiu com brilho o seu objectivo.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Uma dúvida

Quando se derruba um tirano? Será quando se lhe atiram as estátuas por terra ou quando os últimos mercenários desaparecem de cena? Talvez o tirano permaneça muito para lá da destruição das suas imagens. Só o tempo pode dizê-lo mas, no caso que melhor conheço, o tirano fica impregnado no quotidiano do povo por muitos anos. Um tirano nunca desaparece por completo. Um tirano é prova absoluta da extraordinária validade da Lei de Lavoisier se partirmos do princípio que é coisa digna de ser considerada como parte da natureza.

domingo, novembro 06, 2011

Ele há coisas

Há momentos em que o tempo se baralha todo na paisagem e os sentimentos irrompem como lava cuspida da garganta de um vulcão envelhecido. As lágrimas assomam à beirinha de serem choradas e um soluço, uma convulsão, uma coisa quente arrepela-nos o peito, a puxar para os olhos o sentimento de pertença a uma coisa tão próxima da humanidade que até dói só de ser imaginada.

Há momentos dolorosos que nos fazem perceber que não percebemos nada, que os nossos problemas são merdices, minudências existenciais, que há coisas muito mais importantes do que nós estarmos vivos.

Ele há coisas...

sábado, novembro 05, 2011

Carneiros, ovelhas e outros seres

É curiosa (mais) esta polémica com a igreja católica a propósito do mais recente livro de José Rodrigues dos Santos. No P2 deste sábado, no artigo assinado por Natália Faria, tenta-se enquadrar a polémica apresentando argumentos de vários dos polemistas. Chamou-me a atenção a passagem que diz que «ao padre Anselmo Borges não custa admitir que a Igreja “deve formar melhor os seus fiéis e promover um maior esclarecimento sobre a figura de Jesus Cristo”.»

Parece-me que o problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a igreja católica encara os seus fiéis sob a figura, não tão metafórica quanto isso, de um rebanho. O padre é um pastor e todos sabemos que o pastor não explica às suas ovelhas as qualidades nutricionais das ervas que elas pastam pacientemente e em silêncio, com mais prazer do que volúpia. O problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a educação católica ensina a não questionar as “verdades” porque questioná-las é um pecado e indicia ausência de Fé. A Fé dos católicos é sinónimo de crença total e entrega absoluta.

A Fé não se explica, ela é alimento para a alma dos católicos tal como a tenra erva é alimento para as dóceis ovelhinhas e é esta Fé que permite a existência pacífica de Deus. Sem Fé a existência de Deus pode transformar-se num problema de contornos monstruosos. Bastará olhar com um mínimo de atenção para o Homem, que se diz criado à Sua imagem e semelhança. Qualquer postura que questione a Fé põe em causa os fundamentos básicos da religião católica cujos pilares assentam na infalibilidade dos dogmas tão ferozmente defendidos ao longo dos séculos, nomeadamente desde a cisão protestante.

Coisas tão prosaicas quanto este livro de José Rodrigues dos Santos fazem vacilar os pilares dogmáticos do catolicismo, humanizam as ovelhas e os seres humanos contemporâneos não simpatizam muito com a ideia de que fazem parte de um rebanho, pelo menos em teoria. A igreja católica lida muito melhor com balidos de ovelhas que com vozearia humana. Parece-me que à igreja custa admitir que são os seus fiéis que a constroem e que não é ela a construir a identidade individual desses fiéis. A ignorância sempre foi o combustível principal da chama que anima a Fé católica. Substituí-la pelo conhecimento poderá equivaler a deitar água na fogueira.

Talvez por isso, de cada vez que há um livro, um filme ou uma figura pública que ponham em causa os seus dogmas, a igreja católica sai a terreiro com quatro pedras em cada mão, disfarçada de David perante pobres Golias que de gigantes têm muito pouco e desata a apedrejá-los até estes ficarem de joelhos, pedindo perdão por um crime que não cometeram. Sim, porque questionar dogmas tão estapafúrdios quanto a virgindade de Maria ou o carácter divino de um homem simples não pode ser considerado crime digno de lapidação pública como a que se está a tentar fazer a José Rodrigues dos Santos. Deixem lá o homem escrever o que muito bem entende. Se é mentira porque ficam tão excitados? Deus haverá de o castigar, não acham?

(carta enviada à directora do jornal Público)

Nota final: Não li este nem nenhum outro livro do autor citado e, muito sinceramente, não tenciono vir a fazê-lo.

quinta-feira, novembro 03, 2011

A Zaragata

 
A Europa precisa de uma narrativa comum que contribua para o despertar de uma consciência colectiva dos diferentes povos que a compõem. Uma narrativa épica que faça sentido e nos permita voltar a sonhar. Precisamos de qualquer coisa de utópico, uma narrativa plena de ideais humanistas que nos permita recuperar o orgulho de ser europeus. Precisamos de uma narrativa à maneira das narrativas religiosas, que elegem uma personagem central e a elevam à categoria de divindade, rodeada de uma série de proféticas personagens secundárias. Precisamos de uma narrativa como as dos inventores dos nacionalismos oitocentistas que foram remexer os baús de memórias populares; lendas, mitos e personagens maravilhosas, ressuscitando velhos heróis, maquilhando-os de modernidade para fundarem os nacionalismos que hoje enxameiam o espaço europeu e impedem o nascimento de uma consciência comum aos habitantes deste continente.

Cada povo adora os respectivos santinhos e crê na sua teia particular de acontecimentos milagrosos que lhes permite ter orgulho naquilo que putativamente são. Os impérios sempre assentaram tanto na força quanto na fé, na sua capacidade de oferecer uma ilusão aos que neles vivem. O que tem a União Europeia para nos oferecer? Qual o sonho comum a todos os europeus? Actualmente a União Europeia é pouco mais que uma teia de burocratas sustentados por uma comandita de usurários a que se dá o nome, um tanto enigmático, de “mercados”. Nos últimos tempos a União comunica com os cidadãos através de uma linguagem exclusivamente económica. A heroína desta narrativa confusa é a Economia, uma espécie de divindade volúvel, vingativa e insaciável, mais apropriada para assustar as criancinhas que não querem comer a sopa do que para inspirar sonhos de grandeza humanista. E nós, europeus, portamo-nos como crianças obedientes e um tanto imbecis. Para aqui andamos, feitos baratas tontas, a esquecer o significado da palavra solidariedade e os fundamentos básicos da Democracia, a trocar direitos por deveres que aqui há uns anos atrás nem sequer nos passava pela cabeça aceitar. 

Precisamos de um herói que nos inspire e faça renascer os nossos sonhos de grandeza. Precisamos de uma narrativa suficientemente global, que seja compreendida por todos os cidadãos, capaz de fazer que com ela nos identifiquemos. Mas, problema supremo: onde vamos nós desencantar essa personagem extraordinária? Que narrativa maravilhosa poderá unir os europeus em redor de um projecto civilizacional comum que tenha como base a Democracia e o Humanismo por fundamento? Após longa e aturada reflexão proponho que o herói seja Astérix. Tem a vantagem de ser uma personagem universal, apesar da sua origem gaulesa, compreensível para todos os escalões etários e há uma aventura desta personagem que poderá levar-nos a pensar sobre o que andamos para aqui a fazer, a tal narrativa luminosa e potencialmente unificadora. Falo de A Zaragata. Este livro genial dos geniais profetas Goscinny e Uderzo, deveria passar a ser leitura obrigatória para todas as crianças (e adultos) habitantes do território europeu. Impõe-se a vulgarização de uma hermenêutica de A Zaragata. Com urgência.

terça-feira, novembro 01, 2011

Europa, o que és tu?

A Europa está em maus lençóis. Tem-se deitado com quem não devia e, ao acordar, tenta perceber onde está e a merda que fez. Um clássico da leviandade. Acorda-se com a boca seca e uma grande dor de cabeça, sem saber onde se deixaram as calças nem as cuecas que hão-de estar algures. Longe ou perto? Vá-se lá saber.

Talvez que a culpa tenha sido de Zeus, essa divindade viciada em sexo com tudo o que tivesse um sopro vida. Desde que raptou Europa naquela sua célebre golpada do touro branco que a dita cuja nunca mais atinou com as companhias. Anda por aí, perdida ou envergonhada, não se percebe bem. A única certeza é que Europa tem graves problemas de identidade.

A Europa dá-se com gente pouco recomendável e anda a vender-se a pataco. Tornou-se uma puta de berma de estrada, sem grandes cuidados na sua higiene íntima e lambe qualquer bota que lhe pise os calos. Se não mudar de vida ainda vai pegar doenças infecciosas a quem com ela se deitar.