terça-feira, dezembro 27, 2011

Olhos em bico

Há uma expressão que se utiliza no nosso país que é "ficar com os olhos em bico". Utiliza-se quando alguma coisa nos impressiona ao ponto de nos deixar "com os olhos em bico". Ficamos estupefactos, estupidificados, assombrados, zonzos, surpreendidos, desorientados, em suma, corta-se-nos a respiração ao ficarmos "com os olhos em bico".

Com a venda de uma fatia considerável da EDP à Three Gorges Corporation a expressão pode vir a ganhar um novo significado.

Sem tecer considerações sobre este estranho processo de privatização que consiste na venda de capital a uma empresa pública chinesa, fica a notícia de que a coisa caíu bem entre os nossos novos amiguinhos. "O processo foi muito justo, objetivo e transparente (...). A decisão do governo português criou um bom exemplo e estabeleceu um bom precedente", disse à agência Lusa em Pequim o presidente da China Three Gorges Corporation (CTG), Cao Guangjing (lê aqui se estiveres para isso). O senhor Cao Guangjing rematou, dizendo que "A Three Gorges é uma empresa muito conhecida na China (...), Os bancos e outras empresas chinesas irão seguir-nos".

Ao que tudo indica, depois dos restaurantes e das lojas dos chineses, chegam agora as grandes empresas e os bancos do Império do Meio. "Mais negócios poderão seguir-se, à medida que as enfraquecidas economias europeias procuram clientes para ajudar a resolver as suas dívidas", disse o "China Daily" ao anunciar o resultado do concurso internacional para a privatização da EDP.


Já aqui escrevi mais do que uma vez sobre a troca do "sonho americano" pelo "pesadelo chinês". Todos os portugueses estão perante a crua e dura realidade que é "trabalhar mais, receber menos e perder direitos". Ao que parece esta é a receita para um novo modo de vida que se anuncia já para o próximo ano que está aí a rebentar, não tarda. O futuro promete deixar-nos com os olhos, cada vez mais, em bico.



6 comentários:

Olaio disse...

É pena não teres tecido “considerações sobre este estranho processo de privatização que consiste na venda de capital a uma empresa pública chinesa”, porque sempre gostaria de saber onde está a tua estranheza.

Já não considerarias estranho, um processo de privatização para uma outra empresa privada?

Ou o problema é mesmo o ser chinesa e ai já não importava que fosse uma empresa de capitais privados alemães, mas na verdade dominada pelo estado alemão, ou idem para uma empresa brasileira?

Ou será, que sendo tu vitima, como todos nós, da mentira constantemente propalada por PS/PSD/CDS, de que as empresas públicas não são competitivas no mercado, achas “estranho” que, afinal, uma empresa pública o consiga ser?

Falas ainda da troca do “sonho americano” pelo “pesadelo chinês”. O que são esses clichés com que se cimenta essa coisa a que se chama “pensamento único”?

Será o “sonho americano”, o sonho das crianças afegãs, iraquianas, paquistanesas ou líbias, e paremos por aqui, pois o poder americano não para de “bombar” o seu “sonho” por tudo quanto é povo a quem eles queiram roubas riquezas.

Mas o que eu acho mesmo estranho no teu post é esta passagem: «Todos os portugueses estão perante a crua e dura realidade que é trabalhar mais, receber menos e PERDER DIREITOS”».

Achas mesmo que isso é uma realidade, ou será antes uma vontade de alguns, ditos neoliberais e que curiosamente parecem compartilhar desse tal “sonho americano”?

Ou será que a REALIDADE há-de ser o resultado do CONFRONTO entre aqueles que nos querem roubar direitos (democracia!) e aqueles que deles não prescindem, assumindo uma postura cívica na sua defesa activa?

É que não entendo que haja quem fale em “pesadelos chineses” e se preocupe (?) com o que se passa na China, e depois aceitem com as maiores das facilidades que se lhe tire DIREITOS aqui, na sua “casa”, aceitando plácitamente o “nosso pesadelo”?

Ah e já agora, a minha opinião sobre a privatização da EDP, como já escrevi muito e como a opinião do PCP “curiosamente” é semelhante à minha, aqui fica a transposição do 1º parágrafo do seu comunicado sobre o assunto:

“O anúncio da entrega dos 21,35% que o Estado detinha no capital social da EDP à empresa chinesa Three Gorges constitui um acto de GESTÃO DANOSA, por parte do Governo, CONTRÁRIO AOS INTERESSES NACIONAIS, que dá um passo significativo no CRIMINOSO processo de privatização da EDP iniciado na década de 90 pelo Governo PSD de Cavaco Silva, E QUE TERÁ DE SER REVERTIDO TÃO CEDO QUANTO POSSÍVEL.”, as maiúsculas são minhas.

Silvares disse...

Se é uma privatização... pensei que significava passar para as mãos de privados. Poderemos nós falar em nacionalização? Ok, a EDP foi nacionalizada... na China, país reconhecido pelo seu sistema democrático (direitos dos trabalhadores à cabeça).

Folgo muito em notar que segues o impulso de colocar maiúsculas em textos canónicos, arriscando desse modo a excomunhão. Estás cada vez mais livre, camarada.
:-)

O "sonho americano", para quem não sabe, consistia em ter uma casita, um carrito e alguns electrodomésticozitos, tal como tu tens, eu tenho e muitos de nós aspiravam vir a ter. Já o "pesadelo chinês" é invenção minha (acho eu) e não lhe retiro uma vírgula.

Atiras com os americanos a "bombar" os seus sonhos mas, sabemos bem, qual a tua posição em relação ao Tibete. Não entres por aí Olaio, quem tem telhados de vidro não devia andar à pedrada. Já o Cunhal o dizia, embora não tivesse jeito nenhum a praticá-lo.

expressodalinha disse...

É isso ou a 3ª Guerra Mundial.

Olaio disse...

Fico elucidado que em relação à EDP, o teu problema não é o crime que constitui a perda do controle da empresa e de uma fonte de receitas, por parte do estado português, mas sim uma questão de semântica. Provavelmente se fosse uma empresa controlada pelo estado alemão já não te fazia tanta confusão, tudo depende da maquilhagem que se traz não é?

A mim parece-me que o problema é mais do campo da xenofobia (xinofobia) ou simplesmente, como vejo muito por ai, de racismo.

Não tenho problema nenhum em entrar pelo Tibete, não ando é atrás de “democratas” do calibre dos "Dalai Lama" deste mundo e conheço o suficiente da história desse povo para não desejar, aos tibetanos, tais personagens no poder.

Já quanto à questão da tua suposta adesão à nova religião das “inevitabilidades” e dos “impotentes” deste mundo, que nos anunciam o novo “pesadelo lusitano” vejo que não tens muito a adiantar.

Silvares disse...

Jorge, dizia-se que se houvesse uma 3ª guerra a 4ª seria à pedrada. Estou em crer que a 3ª é feita com arremesso de dívidas públicas e especulações económicas.

Olaio, sabes bem que o racismo não é o meu forte. Neste campo, o do capitalismo selvagem, não há racismo que se aguente pois o capital não tem pátria. O capital, seja chinês, alemão ou português, trata-nos a todos da mesma maneira: como lixo. Pensei que sabias disso. Mas, se calhar, quando o capital tem uma leve coloração vermelha (mesmo que seja apenas uma memória vaga de outros tempos) é um capital mais humano. Pois sim, espera por essa. Os chineses são uns gajos porreiros e estão apenas interessados em ajudar os portugas.

Quanto a democratas do calibre do Dalai Lama ou do calibre de Wen Jiabao ou do calibre da Angela Merkel... achas que vale a pena discutir quem é o mais democrata dos 3?

Quanto às inevitabilidades dramáticas que nos aguardam, estou disponível para pensar em formas de mordiscar as pernetas ao monstro. Vamos nessa. Mas sem directivas superiores, isso não, por favor. A repressão só se luta em liberdade.
:-)
Abraço, camarada.

Olaio disse...

Quanto ao que penso do "capital mais humano", parece-me que aquela "curiosa" coicidencia entre o meu pensamento e o PCP dá a resposta: É um crime, QUE TERÁ DE SER REVERTIDO TÃO CEDO QUANTO POSSÍVEL.

Abraço para ti tb, camarada :))