sábado, novembro 05, 2011

Carneiros, ovelhas e outros seres

É curiosa (mais) esta polémica com a igreja católica a propósito do mais recente livro de José Rodrigues dos Santos. No P2 deste sábado, no artigo assinado por Natália Faria, tenta-se enquadrar a polémica apresentando argumentos de vários dos polemistas. Chamou-me a atenção a passagem que diz que «ao padre Anselmo Borges não custa admitir que a Igreja “deve formar melhor os seus fiéis e promover um maior esclarecimento sobre a figura de Jesus Cristo”.»

Parece-me que o problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a igreja católica encara os seus fiéis sob a figura, não tão metafórica quanto isso, de um rebanho. O padre é um pastor e todos sabemos que o pastor não explica às suas ovelhas as qualidades nutricionais das ervas que elas pastam pacientemente e em silêncio, com mais prazer do que volúpia. O problema (se é que isto pode ser considerado um problema) é que a educação católica ensina a não questionar as “verdades” porque questioná-las é um pecado e indicia ausência de Fé. A Fé dos católicos é sinónimo de crença total e entrega absoluta.

A Fé não se explica, ela é alimento para a alma dos católicos tal como a tenra erva é alimento para as dóceis ovelhinhas e é esta Fé que permite a existência pacífica de Deus. Sem Fé a existência de Deus pode transformar-se num problema de contornos monstruosos. Bastará olhar com um mínimo de atenção para o Homem, que se diz criado à Sua imagem e semelhança. Qualquer postura que questione a Fé põe em causa os fundamentos básicos da religião católica cujos pilares assentam na infalibilidade dos dogmas tão ferozmente defendidos ao longo dos séculos, nomeadamente desde a cisão protestante.

Coisas tão prosaicas quanto este livro de José Rodrigues dos Santos fazem vacilar os pilares dogmáticos do catolicismo, humanizam as ovelhas e os seres humanos contemporâneos não simpatizam muito com a ideia de que fazem parte de um rebanho, pelo menos em teoria. A igreja católica lida muito melhor com balidos de ovelhas que com vozearia humana. Parece-me que à igreja custa admitir que são os seus fiéis que a constroem e que não é ela a construir a identidade individual desses fiéis. A ignorância sempre foi o combustível principal da chama que anima a Fé católica. Substituí-la pelo conhecimento poderá equivaler a deitar água na fogueira.

Talvez por isso, de cada vez que há um livro, um filme ou uma figura pública que ponham em causa os seus dogmas, a igreja católica sai a terreiro com quatro pedras em cada mão, disfarçada de David perante pobres Golias que de gigantes têm muito pouco e desata a apedrejá-los até estes ficarem de joelhos, pedindo perdão por um crime que não cometeram. Sim, porque questionar dogmas tão estapafúrdios quanto a virgindade de Maria ou o carácter divino de um homem simples não pode ser considerado crime digno de lapidação pública como a que se está a tentar fazer a José Rodrigues dos Santos. Deixem lá o homem escrever o que muito bem entende. Se é mentira porque ficam tão excitados? Deus haverá de o castigar, não acham?

(carta enviada à directora do jornal Público)

Nota final: Não li este nem nenhum outro livro do autor citado e, muito sinceramente, não tenciono vir a fazê-lo.

5 comentários:

the dear Zé disse...

se a fé se questionasse, deixava de ser fé, crença, acreditar absolutamente.
se as ovelhas pensassem, deixavam de ser ovelhas.
se o J.R. dos Santos escrevesse bem. deixava de ser o J.R. dos Santos.
se eu fosse ler este livro, é porque estava maluco. porquê? por falta de fé nas qualidades de escritor.
cá está, é uma questão de fé...
se o J.R. dos Santos deveria ser apedrejado? inquestionavelmente, mas pela forma como escreve.

Silvares disse...

Ahahahahah, rio-me com vontade após a leitura deste comentário (e ri-me durante).

expressodalinha disse...

Inteiramente de acordo com o comentário. O homem escreve mal. Qt ao fundo da questão colocada no post,faz-me imensa confusão que as religiões considerem que depois de morto é que se está bem... E se te portares bem vais para o céu, tipo podes comer a sobremesa. Uma sociedade que acenta nisto, ainda não cresceu. É natural que sendo uma coisa sem pés nem cabeça, as religiões amuem com quem lhes quer estragar o negócio.

Zé Marreta disse...

Sinceramente nunca li nenhum livro do Tal dos Santos. Aliás, nem sequer me lembro do último que li. No entanto não me importava de ler se alguém me oferecesse algum. A minha pensão de reforma mal dá para o chope-chope, quanto mais para livros.
Quem sabe se na paróquia cá do burgo, não existirá uma biblioteca...

Saudações do Zé Marreta.

Silvares disse...

Jorge, muito sinceramente, acho que mereço ir para o céu. Dizem que o azul me fica bem.

Amigo Marreta, nos tempos que correm rara é a paróquia que não tenha biblioteca. Valha-nos isso (já que pouco mais nos vale).