segunda-feira, abril 20, 2009

Santo Alvarez


Não percebo nada de processos de canonização. Estão para mim ao mesmo nível que o uso do preservativo está para o Cardeal Patriarca de Lisboa, ouço falar, explicam-me como se faz mas, na verdade, fica entre o mistério e o desejo de conhecer.

Vem isto a propósito do processo em curso para a canonização de Nuno Álvares Pereira, o muito nosso Santo Condestável que conheci nos livros da escola primária, quando era ainda um catraio de calções curtos e joelhos esmurrados.

A coisa está para se dar um dia destes. Para atingir o estuto de santo é necessário haver milagre comprovado que tenha sido praticado pelo candidato. No caso de Nuno Álvares, os altos chefões da igreja católica que atestam e carimbam estas coisas, dão como provada uma cura milagrosa de uma senhora, cozinheira reformada, Guilhermina de Jesus, de sua graça. A história é, como de costume nestas situações, pouco clara e mantida num certo e conveniente secretismo.

Não quero parecer demasiado cínico mas, ouvi dizer, que a Nuno Álvares Pereira foram atribuídas onze (11) ressurreições e outras maravilhas no tempo em que ele ainda falava e pisava solo pátrio. Mas esses feitos mirabolantes não valeram nada, zerinho, para o processo que agora se conclui. Acabou por ser uma mera cura de um olho queimado por óleo a ferver o que valeu ao nosso Condestável um lugarzinho no panteão dos santos da igreja. Parece-me mal, parece-me injusto e, sobretudo, parece-me que a canonização de Nuno Álvares peca por tardia.

Ainda assim é motivo de regozijo para todos os portugueses que a santidade do homem que malhou forte e feio nos espanhóis na célebérrima batalha de Aljubarrota seja, finalmente, reconhecida.

Mas um processo rocambolesco como este tinha de ter alguma anedota associada ou não fosse este santo português. Os convites enviados pelo Vaticano para a cerimónia de canonização do nosso homem têm uma gralha e o nome aparece em versão espanhola! "Alvarez" em vez de "Álvares", como seria de bom tom. Não é por isso que Dom Nuno fica menos santo, mas que é uma ironia tramada, isso ninguém pode negar.

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Nem os SANTOS escapam...

Tiago Alves disse...

Da igreja já estou habituado a atrasos.
Atrasos de mentalidade, atrasos nos pedidos de desculpa (Inquisição), porque não atrasos na canonização ?

Tanta burocracia para canonizar um gajo para no fim ser Santo por fazer o trabalho de um Oftalmologista ? É fraquinho, digo eu.
Faz lembrar o Processo Casa Pia, Maddie, etc. mas em muito muito mau.

E já que estamos numa de religião, aconselho o filme/documentário/comédia do Bill Maher, chamado Religulus. É um documentário feito partindo do ponto de vista de um Ateu, tentando refutar os argumentos que os crentes usam para justificar a sua fé. Muito bom.

Abraço,
Tiago

Beto Canales disse...

assunto escabroso.

Luisa Bettencourt disse...

Eu por acaso gosto muito do sabor so sémen...

Caçador disse...

E não devia ser só o Nuno Álvares, é injusto para com os outros militares. Então e o general Spínola, o almirante Américo Tomaz, o general Pinochet e tantos outros que foram santos em vida e por isso tanto merecem sê-lo na prosteridade.
Mas a santa sé vela e tenho esperança que estas... falhas venham a ser reparadas a seu tempo.

Abraço.

Silvares disse...

Eduardo, a santidade devia ser um estado de espírito. Por exemplo, um jogador de futebol quando marca um golo no último minuto e dá a vitória à sua equipa deixando em delírio os torcedores na bancada sente-se, decerto, em estado de graça. Santo, mesmo!

Tiago, é isso mesmo, os processos de canonização podiam ser orientados pelos magistrados portugueses. Ao menos assim iríamos equilibrar as contas para com os santos italianos que são às pázadas.
Quanto ao filme não vi (ainda) terei de vê-lo em vídeo. Já o Caçador (se não estou em erro) o tinha realçado algures. Já são opiniões mais do que suficientes para fazerem do filme um filme a ver.

Beto, eu diria mais, assunto mesquinho.
:-(

Luísa, só lhe fica bem. Que lhe faça bom proveito.

Caçador, se formos a analisar com cuidado as verdadeiras biografias dos santos da igreja tenho a ceeteza que encontramos lá pelo meio dezenas de Spínolas e de Cabeças de Abóbora. Isto de os santos serem só os que a burocracia do Vaticano certifica e reconhece dá para afogar muito gato vadio.