domingo, dezembro 21, 2008

Jornal de Domingo-Parte 2


O texto de António Barreto no Público de hoje, intitulado "Tudo como dantes, nada como dantes", vem lá das profundezas.

Não resisto a registar a passagem final: «(...) Há 30 ou 40 anos que as populações aspiram às delícias da vida moderna. Os que já lá chegaram querem mais e não renunciam. Os que ainda não chegaram consideram uma suprema injustiça serem agora travados. Foram condicionados pelos mais poderosos aparelhos de publicidade e informação que a humanidade jamais conheceu. A propaganda política deu uma ajuda poderosa. Há décadas que os governos, as televisões, a imprensa e os grandes grupos económicos comungam um punhado de ideais que presidiram à nossa vida colectiva. Para usar o lugar comum conhecido, o ter substituiu o ser. O critério da vida é vencer. Sempre, a qualquer preço. Vencer significa derrotar e liquidar os outros. Quem vence tem razão. E tem razão porque vence. É a democracia no seu pior. Maior. Mais alto. Mais depressa. Mais pesado. Mais forte. Mais rápido. Já não se trata de jogos olímpicos, eles próprios transformados em feira de animais. Trata-se da vida quotidiana. Para se chegar lá, ao "topo", para se ser "líder", tudo o que se pode fazer deve ser feito. Incluindo aldrabices, ilegalidades, golpes, mentira, publicidade enganosa e corrupção. Tudo o que justifique ganhar votos, vender mercadoria e eliminar os rivais, não só pode ser feito, como deve ser feito. Sob pena de ser designado na praça pública por perdedor, incapaz ou parvo. E ninguém quer ser parvo

É isso mesmo. Como disse no comentário ao comentário do Ogre no post anterior «Os portugueses ainda estão a aprender a ser pobres no mundo da abundância. Quando tiverem aprendido o suficiente para se tornarem ricos é possível que a abundância acabe. É o Fado do costume.» Isto não é pessimismo, garanto. Estou até bastante bem disposto, juro! Por enquanto ainda faço parte do grupo de previlegiados que podem vestir-se de Pai Natal (e usar só uma almofadinha para fazer a barriga) distribuindo uns presentes pelos familiares e alguns amigos. Tal como António Barreto. É o descanso de uma vida sem dificuldades de maior que permite esta leitura tão clara e objectiva. A fome distorce as perspectiva e tolda o olhar.

8 comentários:

Alice Salles disse...

Não é pessimismo, é estar com os olhos e a mente abertos, sempre.

expressodalinha disse...

Vem nesta altura a propósito recomendar um livro difícil de um autor difícil: "O Reino da Quantidade e os Sinais dos Tempos". de René Guénon. Tudo isto vem lá muito bem explicado. O livro é de 1940!

Ogre disse...

Eu acho que os portugueses,ou uma grande parte, não precisa de aprender a ser pobre porque nunca deixou de o ser. Isso em nós é inato. Só tivemos, alguns, um cheirinho de prosperidade neste passado recente. Se agora acabar, nem deixa rasto, como alguns sonhos ao acordar.

peri s.c. disse...

A humanidade numa vala comum.Argh!

disse...

Que vc continue mesmo por vezes pessimista, mas tão brilhante e verdadeiro...E que a fome que ( tão tristemente )distorce a perspectiva e tolda o olhar... possa melhorar... e que esperança seja sempre a última a morrer.Que estes dias te tragam momentos de alegria e paz...
Um grande abraço
Vi

luzdeluma disse...

Silvares, tudo isto acontece não somente com portugueses. O mundo se infesta de pessoas de má qualidade, justamente porque saem aos seus. O mundo está a piorar, sem os princípios da dignidade, lealdade e fé numa existência maior. Mas não digo que todos estão se nivelando por baixo, existem pessoas éticas, como tu!! Eu acho.
Vim te desejar um feliz natal!! Nem sei se é cristão ou se comemora entrando somente na roda dos presentes, não importa realmente! Importa que no seu coração exista o sentimento de fraternidade e que esteja se renovando sempre!! Beijus

Beto Canales disse...

É um perigo qdo muitos ou todos tem razão... é o que acontece aqui...
bem, feliz natal a todos...

Miguel Barroso disse...

Seremos pobres, mas de espírito.

Abraços d´ASSIMETRIA DO PERFEITO