segunda-feira, outubro 27, 2008

O futuro nunca morre


Alan Greenspan era a imagem do desalento. Durante a audição no Congresso Norte Americano, onde reconheceu o logro da sua crença nas virtudes do chamado "livre mercado" (ler aqui) para se auto regular, Greenspan parecia ainda mais triste e mais envelhecido do que seria de esperar de um rato de biblioteca económica.
Assistimos à morte de uma crença de contornos quase religiosos da qual Greenspan era o sumo-sacerdote. A Santa Economia de Mercado começa a ser olhada com desconfiança por milhões de fiéis que, ainda há um mês atrás, lhe dedicavam fervorosas preces sempre que investiam capital na esperança de receberem milhões de lucro no retorno.

Mais desemprego, menos consumo, estas duas vertiginosas previsões do ex-sacerdote Greenspan, surgem cinzentas, sobre o horizonte do futuro. Teremos de rever o nosso modo de vida, diz-se, consumir menos, o que fará a economia estagnar. Deixaremos de pagar ao cabeleireiro dos cãezinhos e passaremos a lavar nós próprios os nossos carros, deixando em maus lençóis os empresários que haviam apostado na exploração dessas e outras vertentes do mercado menos imprescindíveis para a existência do ser humano.

Isto vai ser duro. Imaginemos que, de súbito, passamos a consumir apenas e unicamente aquilo de que realmente necessitamos. Meu Deus! Será o descalabro do sistema económico tal como o conhecemos e tem vindo a ser organizado no mundo ocidental, baseado no desperdício e no consumo desorganizado de bens e serviços que, lá no fundo, não são vitais embora possam parecê-lo.

Ontem vi imagens de Cabul na televisão. Uma cidade deprimente. No entanto uma cidade com futuro, seja ele qual for. O futuro não morre. Nem para os afegãos nem para nós. Não morre para ninguém.

8 comentários:

Beto Canales disse...

Sabe Silvares, sou um pouquinho otimista quanto a esta crise. Não por que penso que teremos pessoas honestas e desinteressadas a tratá-la, mas por um simples detalhe: quando os donos do dinheiro perceberem o risco que estarão correndo, deixarão (pelo menos alguns) de especular e tvz comecem a investir em produção. Já imaginou se 10% do capital aplicado em jogatina servisse a produção? Certamente a economia daria um salto.
O senhor da foto aí acima merece cada ruga que tem, e mais algumas.

Alice Salles disse...

Texto simplesmente magistral... e sim, o sumo sacerdote do livro mercado agora pagara cada centavo pelo o que fez com a humanidade, ele e os seus coleguinhas...

Eduardo P.L disse...

A qualidade desse futuro é que é completamente incerta!
Bom texto! Na mesma linha já havia escrito a postagem de 29/10, do Varal.

expressodalinha disse...

É curioso que as pessoas que se dizem "negras", nestes momentos de crise se assumem como optimistas.
Grande texto, para variar!

disse...

Acho que o que mais me assusta e só confirma o que já sabia...é a fragilidade do "momento"...tudo de um segundo para o outro "muda"sem aviso...ou quase pois a bem dizer todos os sinais do que aí está já estavam patentes...Mas...quem é que quer ver sinais.Quanto a Greenspan,mais do que qualquer ruga ou plissado...os olhos estes dizem tudo. A nós só nos resta sermos criativos... sem dúvida tempos cabeludos cá já estão!
Como sempre...100.

Silvares disse...

Beto, a questão que me dança na cabeça é: "Até que ponto esta história da "economia" é real?" como pode ser tão frágil e tão poderosa em simultâneo?

Alice, mmmmh, quer-me parecer que quem vai pagar são os do costume!
:-(

Eduardo, afinal, como diz o pvão, "o futuro a Deus pertence". O que o povão não descrimina é QUAL o Deus que domina o futuro. Greenspan, pelos vistos, já era.

Jorge, o futuro é certo, o seu aspecto, como nota o Eduardo, é que é incerto. Pessoalmente tenho muita fé nas pessoas. Acho que, se estiverem conscientes das dificuldades, serão capazes de melhorar a paisagem.

Ví, de acordo! Se não formos nós a tomarmos a responsabilidade de trabalhar para melhorar as nossas vidas e as dos que nos são próximos ninguém irá fazê-lo por nós. Os momentos de crise são oportunidades para a mudança!

peri s.c. disse...

Dizem que evaporaram-se 25 trilhôes de dólares.
Deve ter sido a abdução do que nunca existiu.
Não perderam, deixaram de " realizar" tudo aquilo que foi ganho de maneira abstrata. Voltaremos ao dinheiro que efetivamente existe.
Mas os grandes operadores do capitalismo são muito criativos em suas sanhas predatórias, acharão saídas, sabe lá quanto tempo levará, mas acharão.

Silvares disse...

Peri, é isso mesmo (mais uma vez) a palavra certa parece ser essa: "realizar", de tornar real algo que é mera ficção - o capital.
Ou seja, a crise é a dor causada pela queda na realidade. Dói que se farta que a queda é de grande altura.