domingo, setembro 17, 2006

A ofensa



A polémica em redor do discurso do Papa é mais um episódio algo repugnante no filme da auto vitimização daquilo a que se convencionou chamar a "rua islâmica".
A insistência de alguns líderes islâmicos em representarem o papel de virgens ofendidas é nítido sintoma de má-fé e a cobertura mediática que lhes é dada nos meios de comunicação ocidentais também não cheira lá muito bem.

A susceptibilidade desses homens ao mínimo gesto que considerem ofensivo mantém em fogo lento o suposto choque de civilizações que, ao que parece, interessa propagandear aos sete ventos. A quem aproveita este confronto latente?

Por um lado mantém activos os líderes religiosos islâmicos mais radicais. Por outro lado vai justificando a desconfiança com que nós, os "cristãos", olhamos um mundo árabe que apenas conhecemos em abstracto e que nos habituamos a encarar como sendo um perigo para o nosso modo de vida democrático e para a livre expressão que o caracteriza.

Sempre que surgem imagens de homens árabes irritados, aos gritos, queimando efígies de líderes ocidentais ou bandeiras pelas ruas, a sensação de que há do outro lado uma enorme animosidade em relação a "nós" justifica que nos mantenhamos em guarda e aproveita a estratégia da guerra ao terrorismo, vital para a sobrevivência de Bush e outros como ele.

Para o Islão é fundamental manter em laboração a sua fábrica de mártires e heróis da jhiad que produz constantemente novos ícones de uma suposta anti-cruzada que vendem às suas populações. Para o lado de cá é fundamental manter uma imagem de bárbaros fanáticos que nos odeiam e que é preciso combater à bomba uma vez que, como episódios deste género provam, não há a mínima possibilidade de manter um diálogo civilizado com estes bandidos.

Ratzinger é uma personagem muito pouco simpática. É vaidoso e tem estampado no rosto o pecado mortal da soberba. É olhado com desconfiança por muitos católicos que se tinham habituado a Wojtyla, um papa com uma imagem bem mais bonacheirona e caridosa apesar de ser tão ou mais carismático que este.

Sobre a polémica actual é de salientar a posição da Comunidade Islâmica de Lisboa que, através de um comunicado, apesar de mostrar desagrado pelas palavras do discurso papal, reconhece que ele não pretenderia ofender ninguém tendo apenas sido infeliz no modo como expressou uma determinada opinião. Isto mostra como é possível a sã convivência religiosa num mundo democrático. Basta utilizar o bom senso, ou a graça de Deus, o que lhe quisermos chamar.

2 comentários:

Sofia Loureiro dos Santos disse...

Concordo plenamente.

alice disse...

Já chega um Bush, o mundo não precisa de um segundo... e o papa não representa toda a civilização ocidental.