domingo, outubro 28, 2012
Visitação
O Dear Zé está hospitalizado. Uma hérnia discal daquelas de deitar um gajo abaixo vai levá-lo até à mesa de operações. Ontem fui visitá-lo e encontrei-o com uma boa disposição animadora. Isto de ser aberto pelo bisturi de um médico parece ser coisa trivial.
Como nunca me abriram o corpo com objectos destilados (pelo contrário, tiveram de fechá-lo algumas vezes à força de agulhas e linhas) não sei o que seja esperar deitado pelo dia da operação.
O quarto onde está o nosso caçador de imagens tem mais duas camas. Ontem, à boa maneira portuguesa, o espaço acanhado transbordava visitas que excediam largamente o limite virtualmente admitido pelas regras do hospital. Como seria de esperar era um palratório matraqueante que muito parecia animar os doentes.
Isto ainda antes da hora marcada para o início das visitas. Umas empadinhas, uns bolinhos, um cházinho, a espera é feita destas coisas. O aligeirar das regras decerto contribui para a tal boa disposição que me pareceu descortinar no rosto do Zé, o Dear Hunter. Por sorte, os companheiros de quarto também tinham visitas fora de horas e não aparentavam sinais de enfado por terem o espaço apinhado de gente.
Entretanto chegou a hora das visitas e pareceu-me oportuno sair. "Vá lá, Zé, vê se te pões mas é daqui para fora; a deixares crescer assim a barba quando fores para o bloco operatório o médico ainda vai pensar que está a abrir o Karl Marx!"
E pronto, quando saí do quarto e atravessei a porta que dá para o corredor havia uma verdadeira multidão a aproximar-se. Parecia a batalha de Aljubarrota! Afinal de contas estava na hora da visita.
(Força Zé).
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quinta-feira, outubro 18, 2012
Premonição inquietante
Não sei se é coisa normal ou sequer coisa esperada. Estou em crer que quem não anda junto aos mais jovens não faz ideia do que, na realidade, se passa.
É do domínio do senso comum falar-se da falta de conhecimentos e falta de preparação cultural das gerações que vêm atrás da nossa. Faz parte da evolução da espécie. Nunca consideramos os mais jovens como iguais e, nos raros casos em que tal acontece, é motivo de espanto profundo e sincera admiração.
As mais das vezes, essa desconsideração, quase sobranceria, dos mais velhos em relação à cultura dos mais jovens, é vista pelas mentes mais abertas e tolerantes, como sendo descabida, motivada por despeito, quase inveja, coisa provocada pela implacável proliferação das rugas bem como de alguma confusão capilar no cucuruto.
Mas, para quem, como eu, convive com jovens genuínos, daqueles que existem de facto no mundo real, jovens simpáticos, razoavelmente educados, capazes de aceitar a autoridade do professor e chegar a horas à sala de aula, para esses, a percepção do estado cultural destes cidadãos potenciais é algo de extraordinário. Ultrapassa largamente as mais baixas expectativas que possamos ter.
A cada ano que passa os alunos que sentam defronte a mim, eternamente jovens, sempre outros, mostram novos e sempre maiores graus de desconhecimento a todos os níveis. É uma coisa espantosa! Não sabem quem foi Cristo da mesma forma que ignoram por completo a localização geográfica do Egipto, ainda que já andem neste mundo há 17 ou 18 anos.
Não me conformo e ataco com fúria quase evangélica cada nova aula. Os objectivos são difusos. O tema da aula pode ser a arte grega mas acabamos a falar de Camões ou a tentar perceber o que é um preconceito. É tudo novo, é tudo motivo de espanto, por vezes quase deslumbramento. Perdemo-nos nas planícies do conhecimento. Eu à frente, eles atrás de mim, como patinhos recém-nascidos que seguem o primeiro ser vivo que lhes aparece à frente.
A verdade é que o grau de ignorância ultrapassa todas as expectativas. O que funciona mal? Porque estão os meus alunos tão alheados do mundo que os rodeia? Será o ambiente familiar? Será uma tendência quase patológica para se fecharem em mundos virtuais que podem limitar-se a um qualquer jogo de consola ou de computador que os leva a repetir maquinalmente gestos e acções em direcção a lugar nenhum? Será um mundo mediático dirigido aos adolescentes que os trata como imbecis e analfabetos funcionais desde que isso garanta retorno económico aos promotores desses canais de "informação"?
Talvez seja um pouco de tudo isto e mais umas quantas coisas que não me lembrei agora, um caldo de falta de cultura que cria cidadãos incapazes de funcionar como tal. Haverá algum plano por detrás disto? A quem interessa tanta apatia e indigência cultural?
Olho para os governantes actuais, olho para os miúdos sentados na minha sala de aula. Vejo um futuro muito pouco brilhante... ainda assim é um prazer ser professor. Dá-me alguma esperança de não cair nunca no mar da inutilidade. Quem sabe ao fim do dia contribuí para acender algum pequeno fósforo que ilumine um bocadinho uma noite muito escura?
É do domínio do senso comum falar-se da falta de conhecimentos e falta de preparação cultural das gerações que vêm atrás da nossa. Faz parte da evolução da espécie. Nunca consideramos os mais jovens como iguais e, nos raros casos em que tal acontece, é motivo de espanto profundo e sincera admiração.
As mais das vezes, essa desconsideração, quase sobranceria, dos mais velhos em relação à cultura dos mais jovens, é vista pelas mentes mais abertas e tolerantes, como sendo descabida, motivada por despeito, quase inveja, coisa provocada pela implacável proliferação das rugas bem como de alguma confusão capilar no cucuruto.
Mas, para quem, como eu, convive com jovens genuínos, daqueles que existem de facto no mundo real, jovens simpáticos, razoavelmente educados, capazes de aceitar a autoridade do professor e chegar a horas à sala de aula, para esses, a percepção do estado cultural destes cidadãos potenciais é algo de extraordinário. Ultrapassa largamente as mais baixas expectativas que possamos ter.
A cada ano que passa os alunos que sentam defronte a mim, eternamente jovens, sempre outros, mostram novos e sempre maiores graus de desconhecimento a todos os níveis. É uma coisa espantosa! Não sabem quem foi Cristo da mesma forma que ignoram por completo a localização geográfica do Egipto, ainda que já andem neste mundo há 17 ou 18 anos.
Não me conformo e ataco com fúria quase evangélica cada nova aula. Os objectivos são difusos. O tema da aula pode ser a arte grega mas acabamos a falar de Camões ou a tentar perceber o que é um preconceito. É tudo novo, é tudo motivo de espanto, por vezes quase deslumbramento. Perdemo-nos nas planícies do conhecimento. Eu à frente, eles atrás de mim, como patinhos recém-nascidos que seguem o primeiro ser vivo que lhes aparece à frente.
A verdade é que o grau de ignorância ultrapassa todas as expectativas. O que funciona mal? Porque estão os meus alunos tão alheados do mundo que os rodeia? Será o ambiente familiar? Será uma tendência quase patológica para se fecharem em mundos virtuais que podem limitar-se a um qualquer jogo de consola ou de computador que os leva a repetir maquinalmente gestos e acções em direcção a lugar nenhum? Será um mundo mediático dirigido aos adolescentes que os trata como imbecis e analfabetos funcionais desde que isso garanta retorno económico aos promotores desses canais de "informação"?
Talvez seja um pouco de tudo isto e mais umas quantas coisas que não me lembrei agora, um caldo de falta de cultura que cria cidadãos incapazes de funcionar como tal. Haverá algum plano por detrás disto? A quem interessa tanta apatia e indigência cultural?
Olho para os governantes actuais, olho para os miúdos sentados na minha sala de aula. Vejo um futuro muito pouco brilhante... ainda assim é um prazer ser professor. Dá-me alguma esperança de não cair nunca no mar da inutilidade. Quem sabe ao fim do dia contribuí para acender algum pequeno fósforo que ilumine um bocadinho uma noite muito escura?
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quarta-feira, outubro 17, 2012
Negócio lucrativo
Picasso, Monet, Freud, Gauguin, Meyer de Haan (?), Monet e Matisse
Quem serão os ladrões que surrupiam tão naturalmente obras de arte, como se roubassem pacotes de bolacha Maria nas prateleiras do supermercado? Serão empresários empreendedores que fazem o seu assalto e depois colocam o produto do roubo no mercado? Serão empregados de algum megamilionário apaixonado pelas belas-artes que lhes indica os objectos a colectar e lhes financia a acção? Serão apenas uns malucos quaisquer a quem a coisa até correu bem mas que podiam ter sido apanhados com a boca na botija?
Desta vez foi no Kunsthal Museum de Roterdão que estes anónimos artistas do gamanso fizeram a sua mais recente performance. Quando os alarmes soaram e os atarantados agentes da ordem chegaram ao local, (apenas 5 minutos depois, segundo rezam as crónicas) já os larápios haviam entrado e saído sem que ninguém desse por eles, deixando sete espaços em branco nas respeitáveis paredes do museu. Uma limpeza digna das obras levadas!
A lista de obras desaparecidas tem assinaturas de Picasso, Monet, Freud, Gauguin, Matisse e Meyer de Haan (quem é Meyer de Haan?), um conjunto de nomes capaz de fazer sonhar o mais pintado dos coleccionadores de arte.
Ao que parece o roubo de obras de arte é uma actividade extraordinariamente lucrativa, apenas batida no ranking da vigarice pelo tráfico de armas e de droga. Pode parecer estranho (ou talvez não) mas apenas 15% das obras roubadas são recuperadas e, em alguns casos, só reaparecem à luz do dia décadas depois de terem desaparecido.
Clicando aqui temos acesso a uma interessante lista de grandes roubos de obras de arte com informações sumárias sobre o que lhes aconteceu. Pessoalmente, estava convencido que a coisa não seria grande negócio. Percebo agora que estava muito bem enganado!
quinta-feira, outubro 11, 2012
Os inocentes
Os artigos que têm vindo a ser publicados no jornal Público sobre
os negócios da Tecnoforma com protagonismo mais ou menos relevante de dois
figurões do actual governo, nada mais nada menos que o 1º ministro e o seu
principal sequaz, são paradigmáticos.
O que incomoda mais, ainda mais do que as
toscas manobras à boa maneira do tradicional chico-esperto aproveitador de
oportunidades obscuras para deitar a mão a uns trocos que lhe componham o
estrato bancário, é a evidente inépcia dos promotores da marosca.
Miguel Relvas,
Passos Coelho e respectivos comparsas de ocasião podem argumentar que agiram
dentro da legalidade, mas, tanta falta de visão, tanta incapacidade para prever
o desajustamento dos programas que propuseram para aplicar verbas europeias,
prefiguram, na melhor das hipóteses, uma inocência que não é admissível em
políticos e gestores da coisa pública.
Poderão até argumentar que estavam a
aprender, que é com os erros que se aprende, que agora estão mais aptos a
evitar escorregadelas ridículas e mais atentos a desvios perigosos. Pois sim,
para aprender há escolas e sapateiros a tocar rabecão ainda vá que não vá, já
analfabetos espertalhões a passar por doutores é caso de polícia, é crime que
põe em risco a vida de pessoas ou a saúde de uma sociedade inteira, a merecer
castigo severo.
Como podemos dormir descansados quando são estes seres vivos
responsáveis pelos destinos de Portugal numa hora como a que atravessamos? Como
podemos dormir descansados quando alguém que foi capaz de levantar a “problemática
geral dos aeródromos e heliportos municipais” nos termos relatados nos artigos
de António Cerejo seja agora responsável pelo negócio de privatização da RTP,
só para dar um exemplo inquietante?
Mais à frente leio outro artigo, “A
alternativa responsável”, assinado por António José Seguro e o desânimo é
absoluto. É isto que 40 anos de estado democrático tem para nos oferecer? Políticos
de pacotilha que aprenderam tudo o que sabem nas reuniões das juventudes
partidárias e nos recantos menos iluminados dos corredores da Assembleia da
República?
As historietas da Tecnoforma mais não são que a ponta do rabo do
gato escondido. Houvesse mais jornalismo de investigação na decadente imprensa
deste país adiado e o espelho a que nos olhamos reflectiria visões simplesmente
insuportáveis.
Já que não há justiça que julgue esta comandita que seja o povo
a fazê-lo nos locais onde ainda vai tendo uma palavra a dizer: primeiro na rua,
depois nas urnas. Talvez ainda haja tempo para, pelo menos, lavarmos a cara e
olhar para o espelho com uma réstia de esperança.
sexta-feira, setembro 28, 2012
Indignações
Muito se fala dos muçulmanos que cospem fogo dos olhos e da boca de cada vez que alguém se lembra de lhes mostrar uma imagem considerada ofensiva para os seus princípios sagrados. Que não sabem o que é a liberdade expressão, que não são capazes de conviver pacificamente num mundo livre de preconceitos e o diabo a quatro.
De imediato há vozes que se levantam dentro das fronteiras do chamado mundo livre a avisar os muçulmanos que por cá vivem da necessidade de mostrar respeito pelos princípios sagrados das democracias ocidentais. A liberdade de expressão é um desses princípios e, como tal, respeitinho ou então que se ponham a milhas de distância.
Quando a coisa queima os olhos e a fé das seitas cristãs, sejam a católica, as evangélicas ou outras que agora me não acorrem à memória, como podemos lidar com a fúria dos fiéis? É que Cristo é o herói cá deste lado (Maomé é o herói dos "outros") e, na terra dos livres, à partida, não há limites para a expressão de ideias e convicções.
Pessoalmente já não tenho pachorra para aturar as virgens ofendidas, sejam cristãs ou muçulmanas. Um símbolo é um símbolo e não passa disso. Se não gostam das imagens que vão por aí surgindo não olhem ou então tapem a boca com a mão para que ninguém ouça o palavrão que estas lhes sugerem. E peçam perdão a Deus por terem dito uma coisa tão suja. O assunto fica resolvido.
De imediato há vozes que se levantam dentro das fronteiras do chamado mundo livre a avisar os muçulmanos que por cá vivem da necessidade de mostrar respeito pelos princípios sagrados das democracias ocidentais. A liberdade de expressão é um desses princípios e, como tal, respeitinho ou então que se ponham a milhas de distância.
Quando a coisa queima os olhos e a fé das seitas cristãs, sejam a católica, as evangélicas ou outras que agora me não acorrem à memória, como podemos lidar com a fúria dos fiéis? É que Cristo é o herói cá deste lado (Maomé é o herói dos "outros") e, na terra dos livres, à partida, não há limites para a expressão de ideias e convicções.
Pessoalmente já não tenho pachorra para aturar as virgens ofendidas, sejam cristãs ou muçulmanas. Um símbolo é um símbolo e não passa disso. Se não gostam das imagens que vão por aí surgindo não olhem ou então tapem a boca com a mão para que ninguém ouça o palavrão que estas lhes sugerem. E peçam perdão a Deus por terem dito uma coisa tão suja. O assunto fica resolvido.
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terça-feira, setembro 25, 2012
A lição da amêijoa
Vejo a publicidade de uma cadeia de supermercados que anuncia, óptimo negócio a preço convidativo, a oferta de um produto exótico: a amêijoa vietnamita. Dá que pensar, a mera existência de semelhante possibilidade de negócio, ao alcance de qualquer cidadão, mesmo daquele que tenha o pé quase descalço.
Trata-se de um produto surpreendentemente barato e vem de tão longe... a amêijoa da Ria Formosa, que vem já dali, que tem de percorrer uns míseros quilómetros em território luso, é tão mais cara! Como pode isto acontecer?
Fenómenos da globalização que qualquer economista de pacotilha ou merceeiro que comercialize bivalves decerto me explicaria com rapidez e eficácia graças a um especialíssimo olho de falcão negociante.
Eu, mero consumidor, ignorante destas maravilhas planetárias, espanto-me, simplesmente, e olho o fenómeno como se observasse uma aparição milagrosa da Virgem Maria no tabuleiro da ponte em hora de ponta.
Ainda há pouquinhas décadas atrás, as amêijoas vietnamitas eram tostadas a fogo de napalm, cuspido dos céus pelos nossos aliados americanos. Naquele tempo os comunistas combatiam os meus irmãos capitalistas com uma ferocidade digna do mais tremendo dos dragões numa das guerras mais sangrentas que a memória do século XX registou a contragosto.
Eram dois mundos de tal forma antagónicos, pareciam tão irremediavelmente apartados e, agora, isto. O Vietname é hoje um dócil destino turístico, o professor Henrique Calisto foi, durante alguns anos, treinador da sua selecção nacional de futebol e andamos a comer amêijoas à Bulhão Pato nadas e criadas em pleno território vietnamita!
Tanta morte, tanto ódio, tanta angústia, tanto desvario animalesco para agora termos na travessa de alumínio a apetitosa amêijoa vietnamita. Os antigos camaradas vietcong também têm o direito a sonhar com um écrã LCD e um carrito que queime gasolina. O capitalismo triunfou, de facto?
Ainda não acabei de escrever a frase anterior e já me sinto tentado a concluir que as guerras só se ganham (ou perdem) depois de muito bem assente a poeira levantada pela última bomba.
Trata-se de um produto surpreendentemente barato e vem de tão longe... a amêijoa da Ria Formosa, que vem já dali, que tem de percorrer uns míseros quilómetros em território luso, é tão mais cara! Como pode isto acontecer?
Fenómenos da globalização que qualquer economista de pacotilha ou merceeiro que comercialize bivalves decerto me explicaria com rapidez e eficácia graças a um especialíssimo olho de falcão negociante.
Eu, mero consumidor, ignorante destas maravilhas planetárias, espanto-me, simplesmente, e olho o fenómeno como se observasse uma aparição milagrosa da Virgem Maria no tabuleiro da ponte em hora de ponta.
Ainda há pouquinhas décadas atrás, as amêijoas vietnamitas eram tostadas a fogo de napalm, cuspido dos céus pelos nossos aliados americanos. Naquele tempo os comunistas combatiam os meus irmãos capitalistas com uma ferocidade digna do mais tremendo dos dragões numa das guerras mais sangrentas que a memória do século XX registou a contragosto.
Eram dois mundos de tal forma antagónicos, pareciam tão irremediavelmente apartados e, agora, isto. O Vietname é hoje um dócil destino turístico, o professor Henrique Calisto foi, durante alguns anos, treinador da sua selecção nacional de futebol e andamos a comer amêijoas à Bulhão Pato nadas e criadas em pleno território vietnamita!
Tanta morte, tanto ódio, tanta angústia, tanto desvario animalesco para agora termos na travessa de alumínio a apetitosa amêijoa vietnamita. Os antigos camaradas vietcong também têm o direito a sonhar com um écrã LCD e um carrito que queime gasolina. O capitalismo triunfou, de facto?
Ainda não acabei de escrever a frase anterior e já me sinto tentado a concluir que as guerras só se ganham (ou perdem) depois de muito bem assente a poeira levantada pela última bomba.
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terça-feira, setembro 18, 2012
Imagens
Ninguém sabe ao certo quantos eram. Eram um rio, fizeram um mar de gente. Milhares e milhares de cidadãos manifestando-se de forma pacífica, uma forma de expressão muito portuguesa. Havia mamãs com bebés em carrinhos, pais que levavam os filhos às cavalitas, crianças que batiam com pandeiretas na cabeça dos pais, velhinhos muito velhinhos e raparigas e rapazes jovens. Punks de crista colorida e tias da linha com os seus óculos enormes e roupas de marca. Havia gente de todas as cores, de todos os tamanhos, formas e feitios.
Bandeiras... quase todas portuguesas (vi uma bandeira islandesa). Palavras de ordem... ou eram complicadas e ninguém conseguia repetir o que alguém gritava através do megafone ou eram simples e, de vez em quando, elevavam-se coros de vozes "FMI, fora daqui".
Mas, a palavra de ordem que todos sabiam, os que costumam participar em manifestações de rua e os que nunca haviam antes experimentado esta liberdade, os que já eram crescidos quando rebentou a Revolução e os que ainda nem sequer tinham nascido, a palavra de ordem que me trouxe lágrimas aos olhos por tudo o que significa, pelo seu maravilhoso fundo quixotesco, pela esperança quase infantil que transporta, a palavra de ordem que entoei com os outros, que me fez sentir eles e compreender que eles se sentiam eu, a maravilhosa palavra de ordem foi a imortal "o povo, unido, jamais será vencido, o povo, unido, jamais será vencido, o povo, unido, jamais será vencido".
O mundo pode acabar tal como o compreendemos, podem matar-nos a todos de todas as formas possíveis e inimagináveis, mas o povo, quando sai à rua, é a coisa mais bela do mundo!
Que se lixe a troika, no sábado tivemos a nossa vida de volta!
Bandeiras... quase todas portuguesas (vi uma bandeira islandesa). Palavras de ordem... ou eram complicadas e ninguém conseguia repetir o que alguém gritava através do megafone ou eram simples e, de vez em quando, elevavam-se coros de vozes "FMI, fora daqui".
Mas, a palavra de ordem que todos sabiam, os que costumam participar em manifestações de rua e os que nunca haviam antes experimentado esta liberdade, os que já eram crescidos quando rebentou a Revolução e os que ainda nem sequer tinham nascido, a palavra de ordem que me trouxe lágrimas aos olhos por tudo o que significa, pelo seu maravilhoso fundo quixotesco, pela esperança quase infantil que transporta, a palavra de ordem que entoei com os outros, que me fez sentir eles e compreender que eles se sentiam eu, a maravilhosa palavra de ordem foi a imortal "o povo, unido, jamais será vencido, o povo, unido, jamais será vencido, o povo, unido, jamais será vencido".
O mundo pode acabar tal como o compreendemos, podem matar-nos a todos de todas as formas possíveis e inimagináveis, mas o povo, quando sai à rua, é a coisa mais bela do mundo!
Que se lixe a troika, no sábado tivemos a nossa vida de volta!
domingo, setembro 16, 2012
quinta-feira, setembro 06, 2012
Regresso a casa
Começo a recuperar o sentido do tempo tal como ele é marcado nos relógios de minha casa. Os primeiros dias, após uma viagem intercontinental, são sempre um tanto hipnóticos. É meia-noite e é como se fossem horas de jantar. Tudo indica que devia estar a dormir mas só acordado as coisas fazem uma réstea de sentido.
Entretanto o corpo vai cedendo ao cansaço, os sonos reorganizam-se de acordo com os movimentos indolentes do sol e da lua e percebemos que podemos declarar estarmos de regresso. Casa só volta a ser casa quando conseguimos dormir outra vez no tempo certo da noite.
Isto pode fazer com que coisas muito simples sejam complicadas e muito, muito irritantes. O quotidiano parece um donut cor-de-rosa derretido a um canto da sala ou um ramo de flores que ficou quinze dias na jarra com água e agora a água cheira a podre e as flores estão secas mas também molhadas. Vamos regressando mas nunca regressamos de uma assentada. É um processo parcelar e muito pouco metódico.
No primeiro dia sente-se um deslumbramento estranho. A televisão parece quase um teatro renascentista e a vizinha velhota do rés-do-chão é como se tivesse saído de uma super produção óliudesca de um filme de zombies tristonhos que, no entanto e apesar de serem zombies, falam com uma voz fininha que até parece que estão a atirar agulhas com uma pistola de vácuo.
Após uns quantos dias a estranhar as coisas mais banais sinto que, finalmente, regressei ao meu corpo. Sim, estou outra vez dentro de mim próprio. Estou mais gordo.
Entretanto o corpo vai cedendo ao cansaço, os sonos reorganizam-se de acordo com os movimentos indolentes do sol e da lua e percebemos que podemos declarar estarmos de regresso. Casa só volta a ser casa quando conseguimos dormir outra vez no tempo certo da noite.
Isto pode fazer com que coisas muito simples sejam complicadas e muito, muito irritantes. O quotidiano parece um donut cor-de-rosa derretido a um canto da sala ou um ramo de flores que ficou quinze dias na jarra com água e agora a água cheira a podre e as flores estão secas mas também molhadas. Vamos regressando mas nunca regressamos de uma assentada. É um processo parcelar e muito pouco metódico.
No primeiro dia sente-se um deslumbramento estranho. A televisão parece quase um teatro renascentista e a vizinha velhota do rés-do-chão é como se tivesse saído de uma super produção óliudesca de um filme de zombies tristonhos que, no entanto e apesar de serem zombies, falam com uma voz fininha que até parece que estão a atirar agulhas com uma pistola de vácuo.
Após uns quantos dias a estranhar as coisas mais banais sinto que, finalmente, regressei ao meu corpo. Sim, estou outra vez dentro de mim próprio. Estou mais gordo.
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segunda-feira, setembro 03, 2012
Regresso ao Metropolitan
O Metropolitan Museum é uma perdição. Assim, ao calhas e de repente: Van Eyck, Goya, Bruegel (o Velho), David, Ernst, Beckman, Picasso e, acima de tudo, a galeria de peças escultóricas coleccionadas na ilhas do Pacífico. Penetrar aquela massa arquitectónica sem objectivos bem definidos pode deixar o visitante em pânico.
Uma vez que já entrara em pânico numa visita anterior, desta feita concentrei-me mas galerias de pintura europeia e, ainda assim, em peças muito específicas. Absorvi a pincelada tresloucada de Goya , deixei-me ficar a observar com minúcia as tabuinhas de Van Eyck (no Louvre e na National Gallery já me deslumbrara com as suas pinturas mas estas, meu Deus!!!), babei-me com a perícia extraordinária de David em A Morte de Sócrates e no retrato de Lavoisier e sua dama, sentei-me em frente aos ceifeiros de Bruegel a descansar o espírito. Fiz ainda uma visitinha aos Vermeer antes de descer para o piso térreo.
Atravessei em passo de bêbado a galeria de arte da Oceania dirigindo-me às salas de arte moderna e contemporânea. Desinteressei-me de Dali, admirei com mais vagar um ou outro Picasso até me focar nos Bárbaros de Max Ernst. Como pode um objecto tão diminuto possuir uma força e uma energia tão devastadoras? Rondei os painéis de Beckman como uma hiena, deixei-me envolver por uma cena nocturna de Delvaux e depois disparei de novo para a galeria das peças da Oceania.
Andei por ali como uma criança perdida na floresta e, não sei bem porquê, saí do museu e fui para casa.
quinta-feira, agosto 30, 2012
NYC
Nos últimos dias tenho tido esta imagem na janela do quarto. Nova Iorque, rua 46 com a nona avenida. Nova Iorque, a cidade das ruas perpendiculares às avenidas (o contrário também é válido), pejadas de gente em movimento e táxis amarelos. Gente que resume o mundo todo dentro desta cidade, gente de todas as cores, formas e feitios, gente com todos os aspectos e imagens. Nova Iorque.
Amanhã é dia de viajar no regresso a Portugal. Viagem longa e demorada que me vai pôr a cabeça um tanto retorcida. Quando se voa de um continente para outro o tempo fica confuso e quem paga é a nossa cabeça.
As férias aproximam-se do seu fim, voando sobre as nuvens.
Amanhã é dia de viajar no regresso a Portugal. Viagem longa e demorada que me vai pôr a cabeça um tanto retorcida. Quando se voa de um continente para outro o tempo fica confuso e quem paga é a nossa cabeça.
As férias aproximam-se do seu fim, voando sobre as nuvens.
segunda-feira, agosto 20, 2012
Ratatatatata... BUM!!!
Vejo imagens dos confrontos na Síria entre uma tropa maltrapilha, os revoltosos, e o exército ao serviço de Assad filho. As armas dos revoltosos chamam a minha atenção. Não percebo nada de armas mas aquelas parecem-me bastante modernas.
De onde vêm as armas? Quem as coloca nas mãos daqueles homens? Não estou a ver onde iriam eles arranjar dinheiro para pagar as armas e as munições. É como um ver um tipo qualquer a pedir esmola na rua exibindo um i-pad. Faz-me confusão.
Talvez tenham adquirido o armamento a crédito, em sistema de leasing, não sei. Haverá um hipermercado de armas para revolucionários com futuro? "Jovem revolucionário, visita as nossas instalações e vê as oportunidades que te oferecemos. Rebenta com os teus inimigos hoje e começa a pagar só no próximo Ramadão!"
Se todas as empresas deste mundo fossem tão generosas como as que produzem e comercializam armamento decerto a crise actual seria rapidamente ultrapassada.
De onde vêm as armas? Quem as coloca nas mãos daqueles homens? Não estou a ver onde iriam eles arranjar dinheiro para pagar as armas e as munições. É como um ver um tipo qualquer a pedir esmola na rua exibindo um i-pad. Faz-me confusão.
Talvez tenham adquirido o armamento a crédito, em sistema de leasing, não sei. Haverá um hipermercado de armas para revolucionários com futuro? "Jovem revolucionário, visita as nossas instalações e vê as oportunidades que te oferecemos. Rebenta com os teus inimigos hoje e começa a pagar só no próximo Ramadão!"
Se todas as empresas deste mundo fossem tão generosas como as que produzem e comercializam armamento decerto a crise actual seria rapidamente ultrapassada.
sexta-feira, agosto 17, 2012
Uma prova?
Um gajo anda sempre na dúvida. Quer queira quer não queira, por muito ateu que me possa imaginar (talvez seja apenas vagamente agnóstico), a dúvida sobre a existência de Deus está sempre presente nos confins da minha caverna craniana.
Distraído como sou posso muito bem deixar escapar sinais evidentes da Sua existência. Há quem diga que esses sinais estão por toda a parte e só um cego os não vê. Um cego ou um distraído, permita-se-me acrescentar.
Ontem, ao ler o jornal, dei de caras com um desses famosos sinais. Pelo menos penso que possa ser um sinal. Refiro-me à notícia algo patética do neonazi húngaro que veio a descobrir ser de ascendência judaica (ver aqui).
Há uma canção de Sérgio Godinho que pergunta "pode alguém ser quem não é?", esta historieta mostra que não. Um gajo é o que é e não pode contrariá-lo. Seja por acção do destino ou por intervenção divina, somos o que somos e não há nada a fazer contra isso.
Csanad Szegedi vai ter de deixar o Parlamento Europeu para o qual tinha sido eleito graças à sua doença ideológica. Os neonazis como ele não admitem um deputado com sangue impuro a correr-lhe nas veias. Se as raízes judaicas deste tipo não tivessem ficado à vista de toda a gente ninguém haveria de o incomodar por isso. É a tal velha questão do ser e do parecer.
Imagino que Szegedi esteja, neste momento, a esbofetear-se e a espetar um garfo nas costas da mão. Por um lado castiga um judeu desprezível, por outro penitencia-se por ser tão... nazi!?
Se Deus existe deve divertir-se com cenas deste calibre.
Distraído como sou posso muito bem deixar escapar sinais evidentes da Sua existência. Há quem diga que esses sinais estão por toda a parte e só um cego os não vê. Um cego ou um distraído, permita-se-me acrescentar.
Ontem, ao ler o jornal, dei de caras com um desses famosos sinais. Pelo menos penso que possa ser um sinal. Refiro-me à notícia algo patética do neonazi húngaro que veio a descobrir ser de ascendência judaica (ver aqui).
Há uma canção de Sérgio Godinho que pergunta "pode alguém ser quem não é?", esta historieta mostra que não. Um gajo é o que é e não pode contrariá-lo. Seja por acção do destino ou por intervenção divina, somos o que somos e não há nada a fazer contra isso.
Csanad Szegedi vai ter de deixar o Parlamento Europeu para o qual tinha sido eleito graças à sua doença ideológica. Os neonazis como ele não admitem um deputado com sangue impuro a correr-lhe nas veias. Se as raízes judaicas deste tipo não tivessem ficado à vista de toda a gente ninguém haveria de o incomodar por isso. É a tal velha questão do ser e do parecer.
Imagino que Szegedi esteja, neste momento, a esbofetear-se e a espetar um garfo nas costas da mão. Por um lado castiga um judeu desprezível, por outro penitencia-se por ser tão... nazi!?
Se Deus existe deve divertir-se com cenas deste calibre.
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estupidez pura e simples
quinta-feira, agosto 16, 2012
Merceeiros e bombistas
Dizem por aí que há menos crianças em Portugal logo é
natural que haja menos professores, menos escolas, menos investimento na
educação. Há quem queira reduzir o problema a uma questão de números. Regressa
o velho espírito merceeiro que caracterizou a política nacional durante o tempo
da Outra Senhora.
Quando Salazar governou não consta que houvesse falta de
crianças. Nesses tempos, que tantos de nós recordam com um suspiro saudosista,
havia muitas crianças. As aldeias do interior pululavam de vida, os portugueses
não necessitavam de incentivos governamentais para se reproduzirem.
Na época
dourada do fascismo saloio ter filhos era uma riqueza familiar. Mal pudessem
com a sachola, as crianças estavam aptas a entrar na idade adulta, cavando
terra, semeando miséria. Não faltavam crianças nem faltavam professores ou
escolas. O ditador sabia bem que a ignorância lhe facultava os cidadãos
necessários à implementação da sua visão socioeconómica. Vivemos 48 anos de
aposta contínua na pobreza, fosse pobreza material ou de espírito.
Depois da
Revolução acreditámos que o conhecimento e a educação seriam factores
determinantes para equilibrar uma sociedade que se pretendia democrática. A
Escola Pública passou a ser um direito e a qualidade do sistema educativo uma
paixão declarada por sucessivos ministros pouco dados a investir nas coisas do
amor. Com o passar dos anos começamos a compreender que nem a Escola Pública é
encarada como um direito por aqueles que nos governam, nem Portugal conseguiu
ultrapassar o estigma salazarista de gerações de crianças a quem sonegaram a
infância.
Ainda hoje a Educação é por muitos considerada mera ferramenta de
ascensão social. Não interessa o Saber ou o Conhecimento, interessa, isso sim,
o título de Doutor. Valoriza-se o “parecer”, dá-se muito pouca importância ao
“ser”. Os nossos governantes parecem inteligentes. Afinal de contas não são,
todos eles, doutores?
As medidas educativas que vão sendo largadas sobre a Escola
Pública têm o efeito de um bombardeamento da 2ª guerra mundial ordenado por um
general meio louco a quem faltasse também o mapa da zona a bombardear. Não se
vislumbra um plano, uma estratégia, um objectivo. Quando um dia as bombas se
esgotarem não vai haver pedra sobre pedra mas haverá sempre escolas privadas.
Podem estar descansados.
domingo, agosto 12, 2012
Subindo a linha
Vou no balanço meio aéreo do comboio. Subo a linha da Beira Alta, em direcção a casa. As férias continuam o seu caminho, encarreiradas nesta linha férrea.
À minha volta as pessoas parecem ter sido mordidas por uma mosca tsé-tsé. Vai tudo a dormir ou a dormitar. Ainda assim não vislumbro nenhum fio de baba a escorrer dos muitos cantos de bocas abertas, isso aborrece-me. Queria ver alguém a babar-se para dar mais colorido a este post.
A paisagem abre-se de vez em quando, para lá das árvores que ladeiam a linha. As árvores trazem o horizonte para cima das nossas cabeças, impedidndo que o olhar se alongue na liberdade do espaço. Lá fora corre o portugalzinho do costume; muitas casinhas, de vez em quando uma casona, como que a casa mãe das pequeninas ou o antro de algum animal predador de grande porte.
O sol e o calor, a estação de Santarém.O lugar ao lado do meu é o único vago em toda a carruagem. O mundo lá fora, ao largode Portugal, parece que corre também assim, monótono e habitual, em direcção a um fim que promete ser início de outra coisa qualquer.
Nos ouvidos trago enfiados uns auscultadores que agora me cantarolam uma cançãozinha dos Pop Dell'arte. à minha frente o computador onde vou distraindo a escrita nesta coisa que estás a ler. Estou meio recortado no espaço da carruagem, tento contruir (e dominar) um lugar só para mim, uma coisa exclusiva que vou partilhando contigo.
Sinto-me uma espécie de ciborgue imperfeito, cujas funcionalidades artificiais se encontram todas (ainda) fora do corpo. Agora o dispositivo auditivo vai debitando "The Passenger" na versão de Iggy Pop. Nada mais apropriado!
PS reparo agora na semelhança entre a foto que está na sidebar e a do cabeçalho deste blogue. Ele há coisas...
À minha volta as pessoas parecem ter sido mordidas por uma mosca tsé-tsé. Vai tudo a dormir ou a dormitar. Ainda assim não vislumbro nenhum fio de baba a escorrer dos muitos cantos de bocas abertas, isso aborrece-me. Queria ver alguém a babar-se para dar mais colorido a este post.
A paisagem abre-se de vez em quando, para lá das árvores que ladeiam a linha. As árvores trazem o horizonte para cima das nossas cabeças, impedidndo que o olhar se alongue na liberdade do espaço. Lá fora corre o portugalzinho do costume; muitas casinhas, de vez em quando uma casona, como que a casa mãe das pequeninas ou o antro de algum animal predador de grande porte.
O sol e o calor, a estação de Santarém.O lugar ao lado do meu é o único vago em toda a carruagem. O mundo lá fora, ao largode Portugal, parece que corre também assim, monótono e habitual, em direcção a um fim que promete ser início de outra coisa qualquer.
Nos ouvidos trago enfiados uns auscultadores que agora me cantarolam uma cançãozinha dos Pop Dell'arte. à minha frente o computador onde vou distraindo a escrita nesta coisa que estás a ler. Estou meio recortado no espaço da carruagem, tento contruir (e dominar) um lugar só para mim, uma coisa exclusiva que vou partilhando contigo.
Sinto-me uma espécie de ciborgue imperfeito, cujas funcionalidades artificiais se encontram todas (ainda) fora do corpo. Agora o dispositivo auditivo vai debitando "The Passenger" na versão de Iggy Pop. Nada mais apropriado!
PS reparo agora na semelhança entre a foto que está na sidebar e a do cabeçalho deste blogue. Ele há coisas...
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segunda-feira, agosto 06, 2012
Férias
Fugindo ao sol e à realidade sempre que a oportunidade se oferece, que o calor e os acontecimentos deste mundo não estão para brincadeiras.
sábado, julho 28, 2012
Texto emprestado
Somos estúpidos
Comemoração da queda da bastilha. Qual o principal evento na bela Paris? Desfile militar. Aniversário da independência de qualquer nação que seja. Desfile militar. Aniversário de ditador. Desfile. Qualquer data comemorativa. Desfile. Essa prática ocorre aqui, na Europa, África, Ásia, enfim, no mundo todo. E me chateia. Mais que isso, preocupa. Aqueles tanques todos, monstrengos de aço, servem para uma única coisa: matar. Os soldados que marcham cadenciadamente como robôs sem vida, são treinados a exaustão para um só objetivo. Matar, também. Aqueles aviões fantásticos e rápidos, que sobrevoam barulhentos arrancando exclamações de admiração das crianças. Verdadeiras máquinas de matar. E todo o resto, cada veterano, cada homem ou mulher, que desfilam como salvadores, que passam orgulhosos com seus apetrechos assassinos, olhando fixo para frente, estão simplesmente mostrando a capacidade para tirar vidas. Quanto mais, melhor. Isso é normal?
Devo ser marciano. Não seria mais sensato que um país, em uma data comemorativa, mostrasse seus cientistas? Ou pessoas abnegadas em fazer o bem, em buscar a cura, em ensinar? Que tal se em troca de canhões e metralhadoras, desfilassem professores, médicos, operários? Pessoas que constroem uma nação. Talvez alguns voluntários em serviços sociais, destes que dedicam a vida para o bem estar dos mais necessitados? Imaginem a seguinte cena. No meu aniversário, em troca de convidar os amigos e vizinhos para uns petiscos e bebidas, vou para frente de casa de revólver em punho, meu filho com um facão, e ficamos mostrando nosso poderio destrutivo a todos. Certamente eu seria internado e chamado de maluco. Pois não é isso que fazem? Claro que, infelizmente, os países têm que ter exércitos. Os motivos para isso são inúmeros, entre eles, nossa famosa insensatez. Mas entre ser obrigado a ter capacidade bélica e mostrar isso frente as crianças como fosse algo extraordinário, tem uma distância enorme. E lugar de milico é no quartel. Nem um metro longe dele. Nem um centímetro. Aí está um problema que não terá solução. Nós continuaremos fazendo paradas com máquinas assassinas e milicos desfilando como herois, frente a criançada. Resta lamentar ou ir embora para Marte. Acredito que fazer uma viagem interplanetária, seja mais fácil do que encontrar um pouco de juízo e bom senso em nossos governantes. Eu, marciano, no setembro que vem aí...
Beto Canales do blogue Cinema e Bobagens
Texto publicado com conhecimento e acordo do autor :-) apenas mudei a imagem pois encontrei esta foto com um desfile de camelos.
Comemoração da queda da bastilha. Qual o principal evento na bela Paris? Desfile militar. Aniversário da independência de qualquer nação que seja. Desfile militar. Aniversário de ditador. Desfile. Qualquer data comemorativa. Desfile. Essa prática ocorre aqui, na Europa, África, Ásia, enfim, no mundo todo. E me chateia. Mais que isso, preocupa. Aqueles tanques todos, monstrengos de aço, servem para uma única coisa: matar. Os soldados que marcham cadenciadamente como robôs sem vida, são treinados a exaustão para um só objetivo. Matar, também. Aqueles aviões fantásticos e rápidos, que sobrevoam barulhentos arrancando exclamações de admiração das crianças. Verdadeiras máquinas de matar. E todo o resto, cada veterano, cada homem ou mulher, que desfilam como salvadores, que passam orgulhosos com seus apetrechos assassinos, olhando fixo para frente, estão simplesmente mostrando a capacidade para tirar vidas. Quanto mais, melhor. Isso é normal?
Devo ser marciano. Não seria mais sensato que um país, em uma data comemorativa, mostrasse seus cientistas? Ou pessoas abnegadas em fazer o bem, em buscar a cura, em ensinar? Que tal se em troca de canhões e metralhadoras, desfilassem professores, médicos, operários? Pessoas que constroem uma nação. Talvez alguns voluntários em serviços sociais, destes que dedicam a vida para o bem estar dos mais necessitados? Imaginem a seguinte cena. No meu aniversário, em troca de convidar os amigos e vizinhos para uns petiscos e bebidas, vou para frente de casa de revólver em punho, meu filho com um facão, e ficamos mostrando nosso poderio destrutivo a todos. Certamente eu seria internado e chamado de maluco. Pois não é isso que fazem? Claro que, infelizmente, os países têm que ter exércitos. Os motivos para isso são inúmeros, entre eles, nossa famosa insensatez. Mas entre ser obrigado a ter capacidade bélica e mostrar isso frente as crianças como fosse algo extraordinário, tem uma distância enorme. E lugar de milico é no quartel. Nem um metro longe dele. Nem um centímetro. Aí está um problema que não terá solução. Nós continuaremos fazendo paradas com máquinas assassinas e milicos desfilando como herois, frente a criançada. Resta lamentar ou ir embora para Marte. Acredito que fazer uma viagem interplanetária, seja mais fácil do que encontrar um pouco de juízo e bom senso em nossos governantes. Eu, marciano, no setembro que vem aí...
Beto Canales do blogue Cinema e Bobagens
Texto publicado com conhecimento e acordo do autor :-) apenas mudei a imagem pois encontrei esta foto com um desfile de camelos.
quarta-feira, julho 25, 2012
Listas inúteis
Nesta época do ano é habitual aparecerem, publicadas um pouco por todo o lado, listas de livros recomendados para as leituras de Verão. Os jornais e as revistas não costumam perder a oportunidade de solicitar a diversas personalidades (umas mais públicas do que outras) que forneçam um rol de títulos que lhes pareçam interessantes.
E as figuras fazem-no, enviam os seus palpites, as suas listas, as mais das vezes inúteis, revelando os autores da sua preferência ou, pelo menos, da preferência de quem elabora a dita lista por elas.
É bom não esquecer que muitas destas figuras, precisamente porque são figuras públicas, não têm tempo para ler e limitam-se a olhar os bonecos, de preferência bonecos onde apareçam elas próprias, a sorrir um daqueles sorrisos que até hà pouco tempo pareciam impossíveis de tão brancos, tão limpos e certinhos.
Como não sou uma figura pública e decido olimpicamente sobre o que aparece e não aparece neste blogue, resolvi fazer uma lista da minha lavra. Entre livros que li recentemente, o que estou a ler agora e os que gostaria de ler a seguir, aqui fica a dita cuja.
De há uns meses a esta parte, desde que li algures um artigo sobre "A Máquina de Fazer Espanhóis" de Valter Hugo Mãe (outrora valter hugo mãe) decidi-me a ler todos os seus romances. Assim fiz, são apenas 5. 4 deles fazem parte da minha lista, o outro nem por isso. Qual deixaria de fora? Compete-te a ti decidir, caro leitor, decide tu...
Entusiasmado com a excelência da escrita do amigo Hugo Mãe procurei manter o foco naqueles que são designados como "novíssimos" romancistas portugueses e virei-me para Gonçalo M. Tavares. Li "Aprender a rezar na era da técnica" e "Uma Viagem à Índia". O primeiro deixou-me de queixo caído, o segundo desorbitou-me.´Li ainda "Matteo perdeu o emprego" mas uma lâmpada de 100 watts tem dificuldade em impor o seu brilho perante uma fogueira de tal intensidade que se aproxima do incêndio.
Pelo meio tive oportunidade de ler o romance "Pais e filhos" de Ivan Turgenev, um exemplar daquela inacreditável onda literária russa do século XIX que nos deixa a pensar que, ali, não havia ninguém que não soubesse escrever na perfeição. Reli, por engano, "A música do acaso" de Paul Auster, livro muito adequado para qualquer ocasião do ano. Como se relê um livro por engano? Prefiro não responder.
Regressei à literatura lusitana através de "Fados e Desgarrados", um alucinante relato do que foi, não foi ou poderia ter sido a cidade de Lisboa nos distantes anos 80. É um romance do meu amigo (José Xavier) Ezequiel que me ofereceu um exemplar com dedicatória e tudo! Logo após, mais uma vez influenciado por um artigo de jornal, procurei Afonso Cruz e li o excelente "Jesus Cristo bebia cerveja". De momento estou em plena leitura de "Breviário das más inclinações" de José Riço Direitinho, outro dos tais novíssimos. Mais uma vez estou a dar o meu tempo por bem empregue.
Tenho na prateleira, à espera, dois romances de João Tordo que, ao que leio por todo o lado, é outro autor prometedor, inteligente e um narrador de primeira água. Estou aqui para ver!
A lista está quase completa. Falta apenas acrescentar "Os detectives selvagens" de Roberto Bolaño que ainda não tenho por perto. Mas esse fica para mais tarde, para depois das férias, que o livro tem aspecto de ser pesado e volumoso, difícil de transportar para a praia, que é o melhor lugar para não ler nada. Vá lá, quando muito sou capaz de ler o jornal.
E as figuras fazem-no, enviam os seus palpites, as suas listas, as mais das vezes inúteis, revelando os autores da sua preferência ou, pelo menos, da preferência de quem elabora a dita lista por elas.
É bom não esquecer que muitas destas figuras, precisamente porque são figuras públicas, não têm tempo para ler e limitam-se a olhar os bonecos, de preferência bonecos onde apareçam elas próprias, a sorrir um daqueles sorrisos que até hà pouco tempo pareciam impossíveis de tão brancos, tão limpos e certinhos.
Como não sou uma figura pública e decido olimpicamente sobre o que aparece e não aparece neste blogue, resolvi fazer uma lista da minha lavra. Entre livros que li recentemente, o que estou a ler agora e os que gostaria de ler a seguir, aqui fica a dita cuja.
De há uns meses a esta parte, desde que li algures um artigo sobre "A Máquina de Fazer Espanhóis" de Valter Hugo Mãe (outrora valter hugo mãe) decidi-me a ler todos os seus romances. Assim fiz, são apenas 5. 4 deles fazem parte da minha lista, o outro nem por isso. Qual deixaria de fora? Compete-te a ti decidir, caro leitor, decide tu...
Entusiasmado com a excelência da escrita do amigo Hugo Mãe procurei manter o foco naqueles que são designados como "novíssimos" romancistas portugueses e virei-me para Gonçalo M. Tavares. Li "Aprender a rezar na era da técnica" e "Uma Viagem à Índia". O primeiro deixou-me de queixo caído, o segundo desorbitou-me.´Li ainda "Matteo perdeu o emprego" mas uma lâmpada de 100 watts tem dificuldade em impor o seu brilho perante uma fogueira de tal intensidade que se aproxima do incêndio.
Pelo meio tive oportunidade de ler o romance "Pais e filhos" de Ivan Turgenev, um exemplar daquela inacreditável onda literária russa do século XIX que nos deixa a pensar que, ali, não havia ninguém que não soubesse escrever na perfeição. Reli, por engano, "A música do acaso" de Paul Auster, livro muito adequado para qualquer ocasião do ano. Como se relê um livro por engano? Prefiro não responder.
Regressei à literatura lusitana através de "Fados e Desgarrados", um alucinante relato do que foi, não foi ou poderia ter sido a cidade de Lisboa nos distantes anos 80. É um romance do meu amigo (José Xavier) Ezequiel que me ofereceu um exemplar com dedicatória e tudo! Logo após, mais uma vez influenciado por um artigo de jornal, procurei Afonso Cruz e li o excelente "Jesus Cristo bebia cerveja". De momento estou em plena leitura de "Breviário das más inclinações" de José Riço Direitinho, outro dos tais novíssimos. Mais uma vez estou a dar o meu tempo por bem empregue.
Tenho na prateleira, à espera, dois romances de João Tordo que, ao que leio por todo o lado, é outro autor prometedor, inteligente e um narrador de primeira água. Estou aqui para ver!
A lista está quase completa. Falta apenas acrescentar "Os detectives selvagens" de Roberto Bolaño que ainda não tenho por perto. Mas esse fica para mais tarde, para depois das férias, que o livro tem aspecto de ser pesado e volumoso, difícil de transportar para a praia, que é o melhor lugar para não ler nada. Vá lá, quando muito sou capaz de ler o jornal.
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segunda-feira, julho 23, 2012
Tolinho
Passou um ano sobre o massacre da ilha de Utoya. Os noruegueses mostraram ao mundo uma comovente capacidade de resistência à desgraça.
Contrariamente ao pretendido por Breivik, o assassino, que afirma ter protegido o país da “invasão muçulmana” e de uma sociedade “multicultural”, "O povo norueguês respondeu abraçando os nossos valores. O assassino falhou, o povo venceu", nas palavras de Stoltenberg, primeiro ministro do país nórdico, em Oslo, durante a cerimónia de homenagem às vítimas dos ataques.
Breivik aguarda o veredicto do tribunal. Ele afirma-se inocente e quer que o seu acto seja considerado como tendo motivações políticas. Por outro lado a acusação defende que Breivik é um refinado tolinho (como pode afirmar-se inocente se não for completamente tótó?) e que deverá ser julgado como tal.
Se for considerado culpado dos crimes a pena máxima é de 21 anos. Caso seja considerado tolinho vai o resto da vida para uma gaveta num hospício.
Oxalá seja fechado num hospício. Por mim fechava-o num quarto vazio com paredes espelhadas para que se visse a si próprio sempre que tivesse os olhos abertos. Talvez assim percebesse que não passa de um refinado tolinho, um demente inútil a quem a única obra que resta é olhar-se nos olhos até ao dia em que se apague e vá ocupar o lugar que lhe compete nas profundezas dos esgotos do inferno.
A prisão é um lugar demasiado confortável para semelhante animal.
Clicar aqui para ver post sobre o mesmo animal publicado a quente em cima das primeiras notícias sobre o massacre.
Contrariamente ao pretendido por Breivik, o assassino, que afirma ter protegido o país da “invasão muçulmana” e de uma sociedade “multicultural”, "O povo norueguês respondeu abraçando os nossos valores. O assassino falhou, o povo venceu", nas palavras de Stoltenberg, primeiro ministro do país nórdico, em Oslo, durante a cerimónia de homenagem às vítimas dos ataques.
Breivik aguarda o veredicto do tribunal. Ele afirma-se inocente e quer que o seu acto seja considerado como tendo motivações políticas. Por outro lado a acusação defende que Breivik é um refinado tolinho (como pode afirmar-se inocente se não for completamente tótó?) e que deverá ser julgado como tal.
Se for considerado culpado dos crimes a pena máxima é de 21 anos. Caso seja considerado tolinho vai o resto da vida para uma gaveta num hospício.
Oxalá seja fechado num hospício. Por mim fechava-o num quarto vazio com paredes espelhadas para que se visse a si próprio sempre que tivesse os olhos abertos. Talvez assim percebesse que não passa de um refinado tolinho, um demente inútil a quem a única obra que resta é olhar-se nos olhos até ao dia em que se apague e vá ocupar o lugar que lhe compete nas profundezas dos esgotos do inferno.
A prisão é um lugar demasiado confortável para semelhante animal.
Clicar aqui para ver post sobre o mesmo animal publicado a quente em cima das primeiras notícias sobre o massacre.
terça-feira, julho 17, 2012
Ceder espaço
Quando se conduz dentro da cidade há umas quantas regras não escritas que convém guardar e observar a todo o momento. São questões de civilidade, quase cavalheirismo, na medida em que seja possível continuar a imaginar a figura difusa e recalcitrante do Cavalheiro.
Quando estamos a sair de um estacionamento directamente para a estrada e vem uma daquelas filas de carros que parecem materializar-se apenas para nos irritar e atrasar, carros que não estavam ali mas agora parecem brotar do alcatrão como que por magia negra, vamos metendo o nariz (ou o cú) do nosso veículo, ganhando uns centímetros, até que alguém abranda e nos dá passagem.
É de bom tom, quando entramos finalmente no fluxo de trânsito, agradecer com um gesto que tanto pode significar reconhecimento quanto serve para apaziguar a possível fúria do outro condutor por nos estarmos a atravessar à sua frente. O gesto deita água na fervura e não há buzinadelas nem gritos de filho-da-puta, como acontece com tanta frequência, apesar de tudo.
Da parte que me toca faço-o sempre e gosto que, quando sou eu a dar passagem, o outro condutor gesticule da mesma forma. Os homens, invariavelmente, fazem o gesto mas as mulheres... não.
É raro haver uma mulher, uma senhora, que agradeça a cedência de passagem mesmo quando as regras de trânsito não obrigam, como se fosse um direito que lhe assiste pelo simples facto de trazer agarrado ao corpo o sexo que a caracteriza.
Isto irrita-me com alguma profundidade. Prometo a mim próprio que da próxima vez não serei cavalheiro, que porra! Porque carga de água as senhoras não fazem o gesto? Não lhes ensinaram isso na escola de condução? Talvez não, mas estas coisas aprendem-se na vivência do quotidiano.
Ainda agora me aconteceu exactamente isso. Por três vezes seguidas. De todas elas cedi a passagem jurando a mim próprio não voltar a fazê-lo.
Quando estamos a sair de um estacionamento directamente para a estrada e vem uma daquelas filas de carros que parecem materializar-se apenas para nos irritar e atrasar, carros que não estavam ali mas agora parecem brotar do alcatrão como que por magia negra, vamos metendo o nariz (ou o cú) do nosso veículo, ganhando uns centímetros, até que alguém abranda e nos dá passagem.
É de bom tom, quando entramos finalmente no fluxo de trânsito, agradecer com um gesto que tanto pode significar reconhecimento quanto serve para apaziguar a possível fúria do outro condutor por nos estarmos a atravessar à sua frente. O gesto deita água na fervura e não há buzinadelas nem gritos de filho-da-puta, como acontece com tanta frequência, apesar de tudo.
Da parte que me toca faço-o sempre e gosto que, quando sou eu a dar passagem, o outro condutor gesticule da mesma forma. Os homens, invariavelmente, fazem o gesto mas as mulheres... não.
É raro haver uma mulher, uma senhora, que agradeça a cedência de passagem mesmo quando as regras de trânsito não obrigam, como se fosse um direito que lhe assiste pelo simples facto de trazer agarrado ao corpo o sexo que a caracteriza.
Isto irrita-me com alguma profundidade. Prometo a mim próprio que da próxima vez não serei cavalheiro, que porra! Porque carga de água as senhoras não fazem o gesto? Não lhes ensinaram isso na escola de condução? Talvez não, mas estas coisas aprendem-se na vivência do quotidiano.
Ainda agora me aconteceu exactamente isso. Por três vezes seguidas. De todas elas cedi a passagem jurando a mim próprio não voltar a fazê-lo.
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