quinta-feira, agosto 16, 2012

Merceeiros e bombistas


Dizem por aí que há menos crianças em Portugal logo é natural que haja menos professores, menos escolas, menos investimento na educação. Há quem queira reduzir o problema a uma questão de números. Regressa o velho espírito merceeiro que caracterizou a política nacional durante o tempo da Outra Senhora.

Quando Salazar governou não consta que houvesse falta de crianças. Nesses tempos, que tantos de nós recordam com um suspiro saudosista, havia muitas crianças. As aldeias do interior pululavam de vida, os portugueses não necessitavam de incentivos governamentais para se reproduzirem. 

Na época dourada do fascismo saloio ter filhos era uma riqueza familiar. Mal pudessem com a sachola, as crianças estavam aptas a entrar na idade adulta, cavando terra, semeando miséria. Não faltavam crianças nem faltavam professores ou escolas. O ditador sabia bem que a ignorância lhe facultava os cidadãos necessários à implementação da sua visão socioeconómica. Vivemos 48 anos de aposta contínua na pobreza, fosse pobreza material ou de espírito. 

Depois da Revolução acreditámos que o conhecimento e a educação seriam factores determinantes para equilibrar uma sociedade que se pretendia democrática. A Escola Pública passou a ser um direito e a qualidade do sistema educativo uma paixão declarada por sucessivos ministros pouco dados a investir nas coisas do amor. Com o passar dos anos começamos a compreender que nem a Escola Pública é encarada como um direito por aqueles que nos governam, nem Portugal conseguiu ultrapassar o estigma salazarista de gerações de crianças a quem sonegaram a infância. 

Ainda hoje a Educação é por muitos considerada mera ferramenta de ascensão social. Não interessa o Saber ou o Conhecimento, interessa, isso sim, o título de Doutor. Valoriza-se o “parecer”, dá-se muito pouca importância ao “ser”. Os nossos governantes parecem inteligentes. Afinal de contas não são, todos eles, doutores?

As medidas educativas que vão sendo largadas sobre a Escola Pública têm o efeito de um bombardeamento da 2ª guerra mundial ordenado por um general meio louco a quem faltasse também o mapa da zona a bombardear. Não se vislumbra um plano, uma estratégia, um objectivo. Quando um dia as bombas se esgotarem não vai haver pedra sobre pedra mas haverá sempre escolas privadas. Podem estar descansados.

6 comentários:

Eduardo P.L disse...

Lindo texto se não fosse a desgraça de que trata. Herdamos, mais uma vez, esse descaso com a Educação, e essa mania de se formar engenheiros e doutores médicos para serem caixa de bancos privados. Para acelerar o crescimento do país, sempre com medidas paliativas e emergenciais, vamos dar um "choque de capitalismo" na economia brasileira. Vamos privatizar portos, aeroportos, ferrovias e estradas. Ainda não chegamos na Educação. Esse "choque" deverá demandar centenas de novos postos de trabalho. Haverá emprego para muitos analfabetos funcionais, e universitários desempregados. E assim caminha a humanidade!

Silvares disse...

Eduardo, o Brasil merece muito mais e muito melhor. Olhem para os erros dos outros e evitem cometê-los. Eu pensava que era fácil mas, afinal, é mesmo complicado não errar!

Eduardo P.L disse...

Errar é fácil, complicado é não errar!!! srsr C:-)

Silvares disse...

Eduardo, estamos de acordo.
:-}

Rute disse...

Caramba! Brilhante, a sua análise e acima de tudo...é tão verdade!!!

João Esteves disse...

Olá, Silvares.
Educar é preciso, viver também é preciso.
Afinal, não é para a escola, mas para a vida que aprendemos. Chegou-se a este ponto então, aí.
Mal, muito mal.
Com os referidos merceeiros e bombistas, não parece haver muita esperança de solução a curto nem a médio prazo à vista.
Isto preocupa, até fora das fronteiras portuguesas, onde o caso não tem reflexos diretos.
Digo isto porque pessoalmente acho inadmissível haver descaso, negligência governamental para com a educação, não importa onde, em que país.
O preço é alto demais.
Abraço.